Novo Testamento da Bíblia João Ferreira de Almeida (edição de 1848)

MATEUS

CAPITULO 1.

1 LIVRO da geração de Jesu-Christo, filho de David, filho de Abraham.
2 Abraham gerou a Isaac: e Isaac gerou a Jacob: e Jacob gerou a Judas, e a seus irmãos.
3 E Judas gerou de Thamar a Pharez e a Zara: e Pharez gerou a Esrom: e Esrom gerou a Aram.
4 E Aram gerou a Aminadab: e Aminadab gerou a Naason: e Naason gerou a Salmon.
5 E Salmon gerou de Rachab a Booz: e Booz gerou de Ruth a Obed: e Obed gerou a Jesse.
6 E Jesse gerou ao Rei David: e o Rei David gerou a Salamão da que fôra mulher de Urias.
7 E Salamão gerou a Roboam: e Roboam gerou a Abia: e Abia gerou a Asa.
8 E Asa gerou a Josaphat: e Josaphat gerou a Joram: e Joram gerou a Ozias.
9 E Ozias gerou a Joatham: e Joatham gerou a Achaz: e Achaz gerou a Ezechias.
10 E Ezechias gerou a Manasse: e Manasse gerou a Amon: e Amon gerou a Josias.
11 E Josias gerou a Jechonias, e a seus irmãos na transportação Babylonica.
12 E depois da transportação Babylonica Jechonias gerou a Salathiel: e Salathiel gerou a Zorobabel.
13 E Zorobabel gerou a Abiud: e Abiud gerou a Eliakim: e Eliakim gerou a Azor.
14 E Azor gerou a Sadok: e Sadok gerou a Achim: e Achim gerou a Eliud.
15 E Eliud gerou a Eleazar: e Eleazar gerou a Matthan: e Matthan gerou a Jacob.
16 E Jacob gerou a José, o marido de Maria, da qual nasceo Jesus chamado o Christo.
17 De maneira que todas as geraçoens desde Abraham até David são quatorze geraçoens; e desde David até a transportação Babylonica quatorze geraçoens; e desde a transportação Babylonica até Christo quatorze geraçoens.
18 E o nascimento de Jesu-Christo foi assim; que estando Maria sua mãi desposada com José, antes que se ajuntassem, foi achada prenhe do Espirito Santo.
19 Então José seu marido, como era justo, e a não quizesse infamar, quiz deixá-la secretamente.
20 E intentando elle isto, eis que o Anjo do Senhor lhe appareceo no sonho, dizendo: José, filho de David, não temas receber a Maria tua mulher, porque o que nella está concebido, do Espirito Santo he.
21 E parirá hum filho, e chamarás seu nome JESUS: porque elle salvará a seu povo de seus peccados.
22 Tudo isto aconteceo, para que se cumprisse o que foi dito do Senhor pelo propheta, que disse;
23 Eis que a virgem conceberá, e parirá um filho, e chamarão seu nome Emmanuel, que traduzido he, Deos comnosco.
24 E despertando José do sonho, fez como o Anjo do Senhor lhe mandára, e recebeo a sua mulher.
25 E não a conheceo até que pario a este seu filho o Primogenito, e póz-lhe por nome JESUS.

CAPITULO 2.

1 E SENDO Jesus já nascido em Bethlehem de Judea, em dias d’el-Rei Herodes, eis que vierão huns Sabios do Oriente a Jerusalem,
2 Dizendo: aonde está o nascido Rei dos Judeos? porque vimos sua estrella no Oriente, e viemos a adora-lo.
3 E ouvindo el-Rei Herodes isto turbou-se, e com elle toda Jerusalem.
4 E congregados todos os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas do povo, perguntou-lhes onde o Christo havia de nascer.
5 E elles lhe disserão: em Bethlehem de Judea, porque assim está escrito pelo Propheta:
6 E tu Bethlehem, terra de Juda, em maneira nenhuma es a menor entre os Principes de Juda, porque de ti sahirá o Guia, que a meu povo Israël ha de apascentar.
7 Herodes então, chamando secretamente aos Sabios, informou-se diligentemente delles acerca do tempo, que a estrella lhes apparecêra.
8 E enviando-os a Bethlehem, disse: Ide e perguntai diligentemente pelo menino, e como o achardes denunciai-mo, para que eu tambem venha, e o adore.
9 E havendo elles ouvido a el-Rei, se forão. E eis que a estrella, que tinhão visto no Oriente, ia diante delles, até que chegando, se pôz sobre aonde estava o menino.
10 E vendo elles a estrella, alegrárão-se muito com grande alegria.
11 E entrando na casa, achárão ao menino, com sua mãi Maria, e prostrando-se o adorarão. E abrindo seus thesouros, lhe offerecerão dons, ouro, e incenso, e mirra.
12 E sendo por divina revelação avisados no sonho, que não tornassem a Herodes, partirão para sua terra por outro caminho.
13 E partidos elles, eis que o Anjo do Senhor apparece a José no sonho, dizendo: levanta-te, e toma ao menino e a sua mãi, e foge para o Egypto, e fica-te lá até que eu to diga. Porque Herodes ha de buscar ao menino para o matar.
14 E despertando elle, tomou ao menino, e a sua mãi, de noite, e foi para o Egypto.
15 E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que do Senhor foi dito pelo Propheta, que disse: do Egypto chamei a meu Filho.
16 Vendo-se então Herodes escarnecido dos Sabios, indignou-se em grande maneira, e mandou e matou a todos os meninos em Bethlehem, e em todos seus termos, de idade de dous annos, e abaixo, conforme ao tempo, que dos Sabios diligentemente inquirira.
17 Então se cumprio o que foi dito pelo Propheta Jeremias, que disse:
18 Huma voz se ouvio em Rama, lamentação, choro, e grande pranto: chorava Rachel seus filhos, e não quiz ser consolada, porque já não são.
19 Porem morto Herodes, eis que o Anjo do Senhor apparece no Egypto a José no sonho,
20 Dizendo: levanta-te, e toma ao menino, e a sua mãi, e vai-te para a terra de Israël, que mortos já são os que procuravão a morte do menino.
21 Então se levantou elle, e tomou ao menino, e a sua mãi, e veio para a terra de Israël.
22 E ouvindo que Archelao reinava em Judea, em lugar de Herodes seu pai, receou ir para lá; mas admoestado por divina revelação no sonho, foi para as partes de Galilea.
23 E veio e habitou em huma cidade chamada Nazareth, para que se cumprisse o que pelos Prophetas foi dito; que Nazareno se chamará.

CAPITULO 3.

1 E NAQUELLES dias veio João Baptista, prégando no deserto de Judea.
2 E dizendo: Arrependei-vos, porque chegado he o Reino dos ceos.
3 Porque este he aquelle do qual foi dito pelo Propheta Isaias, que disse: Voz do que clama no deserto; aparelhai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.
4 E tinha este João seu vestido de peles de camelo, e um cinto de couro ao redor de seus lombos, e seu sustento era gafanhotos e mel do mato.
5 Então sahia a elle Jerusalem, e toda Judea, e toda a provincia do redor do Jordão.
6 E forão delle baptizados em o Jordão, confessando seus peccados.
7 E vendo elle a muitos dos Phariseos, e dos Sadduceos, que vinhão a seu baptismo, dizia-lhes: Raça de viboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
8 Dai pois frutos dignos de arrependimento.
9 E não presumais, dizendo em vósmesmos: a Abraham temos por pai. Porque eu vos digo, que até destas pedras Deos pode despertar filhos a Abraham.
10 E já agora está tambem o machado posto á raiz das arvores; assim que toda arvore que não dá bom fruto, corta-se, e lança-se no fogo.
11 Bem vos baptizo eu com agua para arrependimento; mas aquelle que após mim vem, mais poderoso he que eu, cujas alparcas não sou digno levar. Este vos baptizará com Espirito Santo, e com fogo.
12 Cuja pá tem já em sua mão, e alimpará sua eira, e no celleiro recolherá seu trigo, e a palha queimará com fogo que nunca se apague.
13 Então veio Jesus de Galilea a João ao Jordão, para delle ser baptizado.
14 Mas João lhe resistia muito, dizendo: Eu hei mister ser baptizado de ti, e vens tu a mim?
15 Porem respondendo Jesus, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convem cumprir toda justiça. Então elle o deixou.
16 E sendo Jesus baptizado, subio logo da agua: e eis que os ceos se lhe abrirão, e vio ao Espirito de Deos, que descia como pomba, e vinha sobre elle.
17 E eis huma voz dos ceos, que dizia: Este he meu Filho amado, em quem me agrado.

CAPITULO 4.

1 ENTÃO foi Jesus levado do Espirito ao deserto, para do Diabo ser tentado.
2 E havendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, por derradeiro teve fome.
3 E chegando-se a elle o Tentador, disse: Se tu es Filho de Deos, dize que estas pedras se fação pães.
4 Porem respondendo elle, disse: Escrito está; não só com pão viverá o homem, mas com toda palavra que sahe da boca de Deos.
5 Então o levou o Diabo comsigo á santa cidade, e o poz sobre o pinaculo do Templo.
6 E disse-lhe: Se tu es Filho de Deos, lança-te abaixo, porque está escrito, que a seus Anjos mandará ácerca de ti, e nas mãos te tomarão, para que nunca com teu pé tropéces em pedra alguma.
7 Disse-lhe Jesus: outra vez está escrito; não tentarás ao Senhor teu Deos.
8 Outra vez o levou o Diabo comsigo a hum monte mui alto, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e sua gloria delles.
9 E disse-lhe: Tudo isto te darei, se prostrado me adorares.
10 Então lhe disse Jesus; arreda-te Satanás, que está escrito: ao Senhor teu Deos adorarás, e a elle só servirás.
11 Então o deixou o Diabo; e eis que chegarão os Anjos, e o servião.
12 Mas ouvindo Jesus que João estava preso, tornou para Galilea.
13 E deixando a Nazareth, veio e habitou em Capernaum, cidade maritima, nos confins de Zabulon e Nephtali.
14 Para que se cumprisse o que foi dito pelo Propheta Isaias, que disse:
15 A terra de Zabulon, e a terra de Nephtali, junto ao caminho do mar, da outra banda do Jordão, a Galilea das gentes.
16 O povo assentado em trevas vio huma grande luz, e aos assentados em região e sombra da morte a luz lhes appareceo.
17 Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque chegado he o Reino dos ceos.
18 E andando Jesus junto ao mar de Galilea, vio a dous irmãos, a saber a Simão chamado Pedro, e a André seu irmão, que lançavão a rede ao mar; (porque erão pescadores).
19 E disse-lhes: Vinde após mim, e vos farei pescadores de homens.
20 Então elles deixando logo as redes, o seguirão.
21 E passando dali, vio a outros dous irmãos, a saber a Jacobo filho de Zebedeo, e a João seu irmão, em hum barco, com Zebedeo seu pai, que concertavão suas redes, e os chamou.
22 E elles logo deixando o barco, e a seu pai, o seguirão.
23 E rodeava Jesus toda Galilea, ensinando em suas Synagogas, e prégando o Evangelho do Reino, e curando toda enfermidade, e toda fraqueza entre o povo.
24 E corria sua fama por toda a Syria, e trazião-lhe todos os que se achavão mal, alcançados de diversas enfermidades e tormentos, e os endemoninhados, e aluados, e paralyticos, e os curava.
25 E o seguia huma grande multidão de gente de Galilea, e de Decapolis, e de Jerusalem, e de Judea, e d’alem do Jordão.

CAPITULO 5.

1 E VENDO Jesus a multidão subio a hum monte; e assentando-se, chegarão-se a elle seus discipulos.
2 E abrindo sua boca os ensinava, dizendo:
3 Bemaventurados os pobres de espirito, porque delles he o Reino dos ceos.
4 Bemaventurados os tristes, porque elles serão consolados.
5 Bemaventurados os mansos, porque elles herdarão a terra.
6 Bemaventurados os que hão fome e sêde da justiça, porque elles serão fartos.
7 Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia.
8 Bemaventurados os limpos de coração, porque elles verão a Deos.
9 Bemaventurados os pacificos, porque elles serão chamados filhos de Deos.
10 Bemaventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque delles he o Reino dos ceos.
11 Bemaventurados sois vósoutros, quando vos injuriarem, e perseguirem, e contra vós todo mal falarem por minha causa, mentindo.
12 Gozai-vos e alegrai-vos, que grande he vosso galardão em os ceos: porque assim perseguirão aos Prophetas, que forão antes de vósoutros.
13 Vós sois o sal da terra; pois se o sal se desbotar, com que se salgará? para nada mais presta, senão para se lançar fora, e se pisar dos homens.
14 Vós sois a luz do mundo: não se pode esconder a cidade fundada sobre o monte.
15 Nem se accende a candeia, e se pôem debaixo do alqueire, mas no candieiro, e alumia a todos quantos estão em casa.
16 Assim resplandeça vossa luz diante dos homens, para que vejão vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos ceos.
17 Não cuideis que vim a desatar a Lei, ou os Prophetas: não vim a os desatar, senão a os cumprir.
18 Porque em verdade vos digo, que até que não passem o ceo e a terra, nem hum jota, nem hum til se passará da Lei, que tudo não aconteça.
19 De maneira que qualquer que desatar hum destes mais pequenos mandamentos, e assim ensinar aos homens, o menor será chamado no Reino dos ceos: porem qualquer que os fizer e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos ceos.
20 Porque vos digo, que se vossa justiça não sobre-pujar a dos Escribas e Phariseos, em maneira nenhuma entrareis no reino dos ceos.
21 Ouvistes, que foi dito aos antigos: não matarás; mas qualquer que matar, será reo do juizo.
22 Porem eu vos digo, que qualquer que contra seu irmão sem razão se indignar, será reo de juizo: e qualquer que a seu irmão disser Raca, será reo do supremo conselho: e qualquer que lhe disser louco, será reo do fogo do inferno.
23 Por tanto se trouxeres teu presente ao altar, e ali te lembrares, que teu irmão tem alguma cousa contra ti:
24 Deixa ali teu presente diante do altar, e vai, reconcilia-te primeiro com teu irmão, e então vem, e offerece teu presente.
25 Concorda-te depressa com teu adversario, entre tanto que com elle estás no caminho, porque não aconteça que o adversario te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao ministro, e te lançem na prisão.
26 Em verdade te digo, que em maneira nenhuma sahirás dali, até não pagares o derradeiro ceitil.
27 Ouvistes que foi dito aos antigos: não adulterarás.
28 Porem eu vos digo, que qualquer que attentar para alguma mulher para a cobiçar, já com ella adulterou em seu coração.
29 Portanto se teu olho direito te escandalizar, arranca-o, e lança-o de ti; que melhor te he, que hum de teus membros se perca, do que todo teu corpo seja lançado no inferno.
30 E se tua mão direita te escandalizar, corta-a, e lança-a de ti; que melhor te he que hum de teus membros se perca, do que todo teu corpo seja lançado no inferno.
31 Tambem foi dito: qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite.
32 Porem eu vos digo, que qualquer que deixar sua mulher fora de causa de fornicação, faz que ella adultére; e qualquer que com a deixada se casar, adultéra.
33 Outrosim ouvistes que foi dito aos antigos: não perjurarás, mas pagarás ao Senhor teus juramentos.
34 Porem eu vos digo, que em maneira nenhuma jureis: nem pelo ceo, porque he o throno de Deos:
35 Nem pela terra, por que he o escabello de seus pés: nem por Jerusalem, porque he a cidade do grão Rei.
36 Nem por tua cabeça jurarás, pois nem hum cabello podes fazer branco, ou preto.
37 Mas seja vosso fallar, sim, sim, não, não; porque o que disto passa, procede do maligno.
38 Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente.
39 Mas eu vos digo, que não resistais ao mal; antes a qualquer que te der em tua face direita, vira-lhe tambem a outra.
40 E ao que quizer pleitear comtigo, e te tomar tua roupeta, larga-lhe tambem a capa.
41 E qualquer que te obrigar a caminhar huma legoa, vai com elle duas.
42 Dá a quem te pedir; e a quem de ti quizer tomar emprestado, não te desvies.
43 Ouvistes que foi dito: amarás a teu próximo, e aborrecerás a teu inimigo.
44 Porem eu vos digo: amai a vossos inimigos, bemdizei aos que vos maldizem, fazei bem aos que vos aborrecem, e rogai pelos que vos maltratão e vos perseguem.
45 Para que sejais filhos de vosso Pai que está nos ceos: porque faz que seu sol saia sobre máos e bons, e chova sobre justos e injustos.
46 Porque se amardes aos que vos amão, que galardão havereis? não fazem os publicanos tambem o mesmo?
47 E se somente saudardes a vossos irmãos, que fazeis de mais? não fazem os publicanos tambem assim?
48 Séde pois vósoutros perfeitos, como vosso Pai que está nos ceos he perfeito.

CAPITULO 6.

1 ATTENTAI que não façais vossa esmola perante os homens, para que delles sejais vistos: de outra maneira não havereis galardão ácerca de vosso Pai que está nos ceos.
2 Portanto quando fizeres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem nas Synagogas e nas ruas os hypocritas, para dos homens serem honrados: em verdade vos digo, que já tem seu galardão.
3 Mas quando tu fizeres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a tua direita.
4 Para que tua esmola seja em occulto, e teu Pai que vê em occulto, elle to renderá em publico.
5 E quando orares, não sejas como os hypocritas; porque folgão de orar em pé nas Synagogas, e nos cantos das ruas, para dos homens serem vistos. Em verdade vos digo, que já tem seu galardão.
6 Mas tu, quando orares, entra em tua camara, e cerrando tua porta, ora a teu Pai, que está em occulto, e teu Pai que vê em occulto, elle to renderá em publico.
7 E orando, não paroleis como os gentios, que cuidão que por seu muito fallar hão de ser ouvidos.
8 Não vos façais pois semelhantes a elles; que vosso Pai sabe o que vos he necessario, antes que vós lh’o peçais.
9 Vósoutros pois orareis assim: Pai nosso, que estás nos ceos, santificado seja o teu nome.
10 Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade assim na terra como no ceo.
11 O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
12 E perdoa-nos nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.
13 E não nos mettas em tentação, mas livra-nos do mal: porque teu he o Reino, e a potencia, e a gloria, para todo sempre. Amen.
14 Porque se aos homens perdoardes suas offensas, tambem vosso Pai celestial vos perdoará a vós.
15 Mas se aos homens não perdoardes suas offensas, tão pouco vos perdoará vosso Pai vossas offensas.
16 E quando jejuardes, não vos mostreis tristonhos, como os hypocritas: porque desfigurão seus rostos, para aos homens parecerem que jejuão. Em verdade vos digo, que já tem seu galardão.
17 Porem tu, quando jejuares, unge tua cabeça, e lava teu rosto.
18 Para aos homens não pareceres que jejuas, senão a teu Pai, que está em occulto: e teu Pai que vê em occulto, elle to renderá em publico.
19 Não ajunteis thesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo gasta, e onde os ladroens minão e roubão.
20 Mas ajuntai thesouros no ceo, onde nem a traça nem a ferrugem nada gasta, e onde os ladroens não minão nem roubão.
21 Porque onde vosso thesouro estiver, ali estará tambem vosso coração.
22 A candeia do corpo he o olho; assim que se teu olho for sincero, todo teu corpo será luminoso.
23 Porem se teu olho for maligno, todo teu corpo será tenebroso. Assim que se a luz que em ti ha trevas são, quantas as mesmas trevas serão.
24 Ninguem pode servir a dous senhores: pois ou ha de aborrecer a hum, e amar o outro; ou se ha de chegar a hum e desprezar o outro. Não podeis servir a Deos e a Mammon.
25 Portanto vos digo, não andeis sollicitos por vossa vida, que haveis de comer, ou que haveis de beber; nem por vosso corpo, com que vos haveis de vestir. Não he a vida mais que o mantimento, e o corpo mais que o vestido?
26 Olhai para as aves do ceo, que nem semeão, nem segão, nem ajuntão em celleiros; e com tudo vosso Pai celestial as alimenta. Não sois vós muito melhores que ellas?
27 Mas qual de vósoutros poderá com toda sua solicitude accrescentar hum covado a sua estatura?
28 E pelo vestido, porque andais sollicitos? attentai para os lirios do campo, como crescem: nem trabalhão, nem fião.
29 E vos digo, que nem ainda Salamão, em toda sua gloria, foi vestido como hum delles.
30 Pois, se Deos assim veste a herva do campo, que hoje he, e amanhãa se lança no forno; não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
31 Não andeis pois sollicitos, dizendo: que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
32 Porque todas estas cousas buscão os Gentios: que bem sabe vosso Pai celestial, que de todas estas cousas necessitais.
33 Mas buscai primeiro o Reino de Deos, e sua justiça; e todas estas cousas vos serão accrescentadas.
34 Não andeis pois sollicitos pelo da manhã; porque a manhã terá cuidado de si mesma. Basta a cada dia seu mal.

CAPITULO 7.

1 NÃO julgueis, para que não sejais julgados.
2 Porque com o juizo que julgardes, sereis julgados; e com a medida que medirdes, vos tornarão a medir.
3 E porque attentas tu para o argueiro que está no olho de teu irmão, e não enxergas a trave que em teu olho está.
4 Ou como dirás tu a teu irmão: deixa-me tirar de teu olho o argueiro; e eis aqui huma trave em teu olho?
5 Hypocrita, tira primeiro a trave de teu olho, e então attentarás em tirar o argueiro do olho de teu irmão.
6 Não deis as cousas santas aos cães, nem lançeis vossas perolas diante dos porcos, para que por ventura com seus pés as não pisem, e virando-se vos despedaçem.
7 Pedi, e dar-vos-hão; buscai, e achareis; batei, e abrir-vos-hão.
8 Porque qualquer que pede, recebe; e o que busca, acha; e ao que bate, se lhe abre.
9 E qual de vós he o homem que pedindo-lhe seu filho pão, lhe dará numa pedra?
10 E pedindo-lhe peixe lhe dará huma serpente?
11 Pois se vós, sendo máos, sabeis dar boas dadivas a vossos filhos; quanto mais dará vosso Pai, que está nos ceos, bens aos que lhos pedirem.
12 Por tanto tudo o que vós quizerdes que os homens vos fação, fazei-lhes vós tambem assim, porque esta he a lei e os prophetas.
13 Entrai pela porta estreita: porque larga he a porta, e espaçoso o caminho, que leva á perdição; e muitos são os que por elle entrão.
14 Porque estreita he a porta, e apertado o caminho, que leva á vida: e poucos ha que o achão.
15 Porem guardai-vos dos falsos Prophetas, que vem a vósoutros com vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.
16 Por seus frutos os conhecereis. Por ventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
17 Assim toda boa arvore dá bons frutos: mas a má arvore dá máos frutos.
18 Não pode a boa arvore dar máos frutos: nem a má arvore dar bons frutos.
19 Toda arvore que não dá bom fruto se corta, e se lança no fogo.
20 Assim que por seus frutos os conhecereis.
21 Não qualquer que me diz; Senhor, Senhor, entrará no Reino dos ceos: mas aquelle que faz a vontade de meu Pai que está nos céos.
22 Muitos me dirão naquelle dia: Senhor, Senhor, não prophetizamos nós em teu nome? e em teu nome lançamos fora os demonios? e em teu nome fizemos muitas maravilhas?
23 E então claramente lhes direi: nunca vos conheci: apartai-vos de mim obradores de maldade.
24 Por tanto qualquer que me ouve estas palavras, e as faz, compara-lo-hei ao varão prudente, que edificou sua casa sobre penha.
25 E desceo a chuva, e vierão rios, e assoprárão ventos, e combatérão aquella casa, e não cahio, porque estava fundada sobre penha.
26 Mas qualquer que me ouve estas palavras, e não as faz, compara-lo-hei ao varão parvo, que edificou sua casa sobre areia.
27 E desceo a chuva, e viérão rios, e assoprárão ventos, e combatérão aquella casa, e cahio, e foi grande sua queda.
28 E aconteceo, que acabando Jesus estas palavras, pasmou a multidão de sua doutrina.
29 Porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os Escribas.

CAPITULO 8.

1 E DESCENDO elle do monte, o seguio huma grande multidão.
2 E eis que veio hum leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quizeres, bem me podes alimpar.
3 E estendendo Jesus a mão, tocou-o, dizendo; quero, seja limpo: e logo de sua lepra ficou limpo.
4 Então lhe disse Jesus: Olha que a ninguem o digas, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e offerece o presente que Moyses mandou, para que lhes conste.
5 E entrando Jesus em Capernaum veio á elle o Centurião, rogando-lhe,
6 E dizendo; Senhor, o meu moço jaz em casa paralytico, gravemente atormentado.
7 E Jesus lhe disse: Eu virei, e o sararei.
8 E respondendo o Centurião, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo de meu telhado; mas dize somente huma palavra, e meu moço sarará.
9 Porque tambem eu sou homem debaixo de potestade, e tenho debaixo de mim soldados; e digo a este, vai, e vai; e a outro, vem, e vem; e a meu servo, faze isto, e fa-lo.
10 E ouvindo Jesus isto maravilhou-se, e disse aos que o seguião: em verdade vos digo, que nem ainda em Israël achei tanta fé.
11 Mas eu vos digo, que muitos virão do Oriente, e do Occidente, e assentar-se-hão a mesa com Abraham, e Isaac, e Jacob no Reino dos ceos.
12 E os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores: ali será o pranto, e o ranger de dentes.
13 Então disse Jesus ao Centurião: vai, e assim como creste, te seja feito. E naquella mesma hora sarou seu moço.
14 E vindo Jesus á casa de Pedro, vio a sua sogra deitada, e com febre.
15 E tocou-lhe a mão, e a febre a deixou: e levantou-se, e servia-os.
16 E como já foi tarde, trouxérão-lhe muitos endemoninhados, e lançou-lhes fóra os Espiritos malignos com a palavra, e curou a todos os que mal se achavão.
17 Para que se cumprisse o que estava dito pelo Propheta Isaias, que disse: Elle tomou sobre si nossas enfermidades, e levou nossas doenças.
18 E vendo Jesus huma grande multidão ao redor de si, mandou que passassem da outra banda.
19 E chegando-se hum Escriba a elle, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores te seguirei.
20 E Jesus lhe disse: As raposas tem covis, e as aves do ceo ninhos; mas o Filho do homem não tem aonde encoste a cabeça.
21 E outro de seus discipulos lhe disse: Senhor, permitte-me que va primeiro e enterre a meu pai.
22 Porem Jesus lhe disse: Segue-me tu, e deixa aos mortos enterrar seus mortos.
23 E entrando elle no barco, seus discipulos o seguirão.
24 E eis que se levantou huma tão grande tormenta no mar que o barco se cobria das ondas; porem elle dormia.
25 E chegando seus discipulos, o acordárão, dizendo: Senhor, salva-nos, que nós perecemos.
26 E elle lhes disse: Porque temeis homens de pouca fé? então levantando-se, reprehendeo aos ventos e ao mar, e houve grande bonança.
27 E aquelles homens se maravilharão, dizendo: quem he este? que até os ventos e o mar lhe obedecem.
28 E como passou da outra banda, á provincia dos Gergesenos, vierão-lhe ao encontro dous endemoninhados, que sahião dos sepulcros, tão ferozes que ninguem podia passar por aquelle caminho.
29 E eis que clamárão, dizendo: que temos comtigo, Jesus Filho de Deos? vieste aqui a nos atormentar antes do tempo?
30 E estava huma manada de muitos porcos longe delles pascendo.
31 E os diabos lhe rogárão, dizendo: se nos lançares fóra, permitte-nos que entremos naquella manada de porcos.
32 E disse-lhes: Ide. E sahindo elles, entrárão na manada dos porcos: e eis que toda aquella manada de porcos se precipitou no mar, e morrerão nas aguas.
33 E os porqueiros fugirão; e vindo á cidade, denunciárão todas estas cousas, e o que acontecera aos endemoninhados.
34 E eis que toda aquella cidade sahio ao encontro a Jesus, e vendo-o lhe rogárão que se retirasse de seus termos.

CAPITULO 9.

1 E ENTRANDO no barco, passou da outra banda, e veio á sua cidade. E eis que lhe trouxérão hum paralytico, deitado em huma cama.
2 E vendo Jesus sua fé delles, disse ao paralytico: Tem bom animo, filho, teus peccados te são perdoados.
3 E eis que alguns dos Escribas dizião entre si: este blasfema.
4 E vendo Jesus seus pensamentos, disse: porque pensais mal em vossos coraçoens?
5 Porque qual he mais facil dizer: teus peccados te são perdoados? ou dizer: levanta-te, e anda?
6 Ora para que saibais, que o Filho do homem tem authoridade na terra para perdoar os peccados, (disse então ao paralytico) levanta-te, toma tua cama, e vai-te para tua casa.
7 E levantando-se, foi para sua casa.
8 E vendo a multidão isto, maravilhou-se e glorificou a Deos, que tal authoridade tivesse dado aos homens.
9 E passando Jesus dali, vio a hum homem assentado na alfandega, chamado Mattheus; e disse-lhe: segue-me. E levantando-se elle, seguio-o.
10 E aconteceo, que estando elle assentado á mesa na casa, eis que vierão muitos publicanos e peccadores, e se assentarão juntamente á mesa com Jesus e seus discipulos.
11 E vendo isto os Phariseos, disserão a seus discipulos: porque come vosso Mestre com os publicanos e peccadores?
12 Porém ouvindo-o Jesus, disse-lhes: os que estão sãos, não necessitão de medico, senão os que estão doentes.
13 Mas ide, e aprendei que cousa he; misericordia quero, e não sacrificio. Porque eu não vim a chamar justos, senão peccadores á arrependimento.
14 Então vierão a elle os discipulos de João, dizendo: porque jejuamos nós e os Phariseos muitas vezes, e teus discipulos não jejuão?
15 E Jesus lhes disse: por ventura podem os que estão de vodas andar tristes em quanto o esposo com elles está? mas dias virão, quando o esposo lhes for tirado, e então jejuarão.
16 Tambem ninguem deita remendo de panno novo em vestido velho: porque o tal remendo rasga o vestido, e faz-se peior rotura.
17 Nem deitão o vinho novo em odres velhos; de outra maneira os odres se rompem, e o vinho se derrama, e os odres se damnão: mas deitão o vinho novo em odres novos, e ambos juntamente se conservão.
18 Dizendo-lhes elle estas cousas, eis que veio hum Principal e o adorou, dizendo: minha filha falleceo ainda agora; mas vem, e poem tua mão sobre ella, e viverá.
19 E levantando-se Jesus, seguia-o, elle e seus discipulos.
20 (E eis que huma mulher enferma de hum fluxo de sangue, doze annos havia, vindo a elle por de tras, tocou a borda de seu vestido.
21 Porque dizia comsigo: se eu tão somente tocar seu vestido, ficarei sã.
22 E virando-se Jesus, e vendo-a, disse: tem bom animo, filha, tua fé te salvou. E desde a mesma hora ficou a mulher sã.)
23 E vindo Jesus á casa daquelle Principal, e vendo os gaiteiros, e o povo que fazia alvoroço:
24 Disse-lhes: Retirai-vos, porque a menina não está morta; mas dorme. E rião-se delle.
25 E como o povo foi lançado fóra, entrou e pegou-lhe pela mão, e a menina se levantou.
26 E sahio esta fama por toda aquella terra.
27 E passando Jesus dali, o seguirão dous cegos clamando, e dizendo: tem compaixão de nós, filho de David.
28 E como veio á casa, vierão os cegos a elle. E disse-lhes Jesus: crêdes vós que posso fazer isto? disserão-lhe elles: sim Senhor.
29 Então lhes tocou os olhos, dizendo: conforme a vossa fé se vos faça.
30 E os olhos se lhes abrirão. E Jesus defendia-lhes rigorosamente, dizendo: olhai que ninguem o saiba.
31 Mas sahidos elles, divulgarão sua fama por toda aquella terra.
32 E sahindo elles, eis que lhe trouxerão hum homem mudo e endemoninhado.
33 E como o diabo foi lançado fóra, fallou o mudo: e a multidão se maravilhou, dizendo: nunca tal se vio em Israël.
34 Mas os Phariseos dizião: pelo Principe dos demonios lança fora aos demonios.
35 E Jesus rodeava por todas as cidades e aldêas, ensinando em suas Synagogas, e prégando o evangelho do Reino, e curando toda enfermidade, e todo mal entre o povo.
36 E vendo a multidão, moveo-se a intima compaixão delles, porque andavão desgarrados e derramados como ovelhas que não tem pastor.
37 Então disse a seus discipulos: grande he em verdade a séga, porém poucos os obreiros.
38 Portanto rogai ao Senhor da séga, que envie obreiros á sua séga.

CAPITULO 10.

1 E CHAMANDO a si a seus doze discipulos, deo-lhes poder sobre os espiritos immundos, para os lançarem fóra, e curarem toda enfermidade, e todo mal.
2 Ora os nomes dos doze Apostolos, são estes: o primeiro, Simão, chamado Pedro, e André seu irmão: Jacobo o filho de Zebedeo, e João seu irmão.
3 Philippe e Bartholomeo: Thomé, e Mattheus o publicano: Jacobo o filho de Alpheo: e Lebbeo, por sobrenome Thaddeo.
4 Simão Cananita, e Judas Iscariota, o mesmo que o entregou.
5 A estes doze enviou Jesus, e lhes mandou, dizendo: pelo caminho das Gentes não ireis, nem em cidade alguma de Samaritanos entrareis.
6 Mas ide antes ás ovelhas perdidas da casa de Israël.
7 E indo, prégai, dizendo: chegado he o Reino dos ceos.
8 Curai aos enfermos, alimpai aos leprosos, resuscitai aos mortos, lançai fóra aos demonios: de graça o recebestes, dai-o de graça.
9 Não possuais ouro, nem prata, nem cobre em vossas cintas.
10 Nem alforges para o caminho, nem duas tunicas, nem alparcas, nem bordão: porque digno he o obreiro de seu alimento.
11 E em qualquer cidade, ou aldêa, que entrardes, informai-vos de quem nella seja digno, e ficai ali até que saiais.
12 E quando entrardes em alguma casa, saudai-a.
13 E se a casa for digna, venha sobre ella vossa paz: porém se digna não for, torne-se vossa paz a vósoutros.
14 E qualquer que vos não receber, nem vossas palavras ouvir, sahindo daquella casa, ou cidade, sacudi o pó de vossos pés.
15 Em verdade vos digo, que mais toleravel será para os da terra de Sodoma e Gomorrha no dia do juizo, do que para aquella cidade.
16 Vêdes aqui, eu vos envio como a ovelhas no meio dos lobos: portanto sêde prudentes como serpentes, e simples como pombas.
17 Porém guardai-vos dos homens; porque vos entregarão em concilios, e vos açoutarão em suas Synagogas.
18 E até ante Governanadores e Reis sereis levados por causa de mim, para que a elles, e aos gentios lhes conste.
19 Mas quando vos entregarem, não estejais sollicitos de como, ou que haveis de falar: porque naquella mesma hora vos será dado o que haveis de falar.
20 Porque não sois vós os que falais, mas o Espirito de vosso Pai, que em vós fala.
21 E o irmão entregará á morte ao irmão, e o pai ao filho: e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão.
22 E de todos sereis aborrecidos por causa de meu nome: mas aquelle que perseverar até o fim, esse será salvo.
23 Assim que quando vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo, que não acabareis de correr pelas cidades de Israël, que não venha o Filho do homem.
24 O discipulo não he mais que o mestre, nem o servo mais que seu senhor.
25 Baste ao discipulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor: se ao pai de familia chamarão Beelzebú, quanto mais a seus domesticos?
26 Assim que não os temais: porque nada ha encuberto, que se não haja de descobrir; e nada occulto, que se não haja de saber.
27 O que vos digo em trevas, dizei-o em luz, e o que ouvirdes ao ouvido, pregai-o sobre os telhados.
28 E não temais aos que matão o corpo, e não podem matar a alma: temei antes áquelle, que assim a alma como o corpo pode destruir no inferno.
29 Não se vendem dous passarinhos por hum ceitil? e nem hum delles cahirá em terra sem vosso pai.
30 E até os cabellos de vossa cabeça todos contados estão.
31 Não temais pois: mais valeis vós que muitos passarinhos.
32 Portanto qualquer que me confessar diante dos homens, tambem eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos ceos.
33 Porém qualquer que me negar diante dos homens, tambem eu o negarei diante de meu Pai, que está nos ceos.
34 Não cuideis que vim a metter paz na terra; não vim a metter paz, senão cutélo.
35 Porque eu vim a pôr em dissensão ao homem contra seu pai, e á filha contra sua mãi, e á nora contra sua sogra.
36 E serão os inimigos do homem os que são seus domesticos.
37 Quem ama pai, ou mai, mais que a mim, não he digno de mim; e quem ama filho, ou filha, mais que a mim, não he digno de mim.
38 E quem não toma sua cruz, e segue após mim, não he digno de mim.
39 Quem achar sua vida perde-la-ha; e quem perder sua vida, por causa de mim, acha-la-ha.
40 Quem a vós recebe, a mim me recebe; e quem a mim me recebe, recebe áquelle que me enviou.
41 Quem recebe propheta em nome de propheta, galardão de propheta receberá; e quem recebe justo em nome de justo, galardão de justo receberá.
42 E qualquer que somente der hum pucaro de agua fria a hum destes pequenos em nome de discipulo, em verdade vos digo, que em maneira nenhuma perderá seu galardão.

CAPITULO 11.

1 E SUCCEDEO, que acabando Jesus de dar mandamentos a seus doze discipulos, foi dali a ensinar, e a prégar em suas cidades delles.
2 E ouvindo João na prisão as obras de Christo, mandou-lhe dous de seus discipulos.
3 Dizendo-lhe: Es tu aquelle que havia de vir, ou esperamos a outro?
4 E respondendo Jesus, disse-lhes: Ide, e tornai a denunciar a João as cousas que ouvis e vêdes:
5 Os cegos vêem, e os mancos andão: os leprosos são limpos, e os surdos ouvem: os mortos são resuscitados, e aos pobres he annunciado o Evangelho.
6 E bemaventurado he aquelle que em mim se não escandalizar.
7 E idos elles, começou Jesus a dizer de João á multidão: Que sahistes ao deserto a ver? huma cana que se abala com o vento?
8 Mas que sahistes a ver? hum homem vestido com vestidos brandos? vêdes aqui os que trazem vestidos brandos, nas casas dos Reis estão.
9 Mas que sahistes a ver? Propheta? tambem vos digo, e muito mais que Propheta.
10 Porque este he aquelle de quem está escrito: Eis que diante de tua face envio a meu Anjo, que aparelhará teu caminho diante de ti.
11 Em verdade vos digo, que d’entre os que de mulheres são nascidos, outro se não levantou maior que João o Baptista: mas aquelle que em o Reino dos ceos he o menor, maior he que elle.
12 E desde os dias de João o Baptista até agora, se faz força ao Reino dos ceos, e os violentos o arrebatão.
13 Porque todos os Prophetas, e a Lei, até João prophetizarão.
14 E se o quereis receber, este he o Elias que havia de vir.
15 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
16 Mas com quem compararei esta geração? Semelhante he aos meninos que se assentão nas praças, e chamão a seus companheiros.
17 E dizem: Tangemos-vos com gaita, e não bailastes: cantamos-vos lamentaçoens, e não pranteastes.
18 Porque veio João, nem comendo, nem bebendo, e dizem: Demonio tem.
19 Veio o Filho do homem, comendo, e bebendo, e dizem: Vêdes aqui hum homem comilão, e beberrão, amigo de publicanos e peccadores: mas a sabedoria foi justificada de seus filhos.
20 Então começou elle a deitar em rosto ás cidades em que as mais de suas maravilhas se fizerão, que não se tinhão arrependido; dizendo:
21 Ai de ti Chorazin, ai de ti Bethsaida: porque se em Tyro e em Sidon forão feitas as maravilhas, que em vós se fizerão, muito ha que se houverão arrependido com saco e com cinza.
22 Porém eu vos digo, que mais toleravel será para Tyro e Sidon, em o dia do juizo, que para vósoutros.
23 E tu Capernaum, que até os ceos estás levantada, até os infernos serás abatida: porque se em os de Sodoma forão feitas as maravilhas que em ti se fizerão, até o dia de hoje permanecerão.
24 Porém eu vos digo, que mais toleravel será para os de Sodoma, em o dia do juizo, que para ti.
25 Naquelle tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, Pai, Senhor do ceo e da terra, que escondeste estas cousas aos sabios e entendidos, e as revelaste aos meninos.
26 Assim he ó Pai, porque assim foi tua boa vontade diante de ti.
27 Todas as cousas me estão entregues de meu Pai; e ninguem conhece ao Filho, senão o Pai; nem ninguem conhece ao Pai senão o Filho, e a quem o Filho o quizer revelar.
28 Vinde a mim todos os que estais cançados, e carregados, e eu vos farei descançar.
29 Tomai sobre vós meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanço para vossas almas.
30 Porque o meu jugo he brando, e leve a minha carga.

CAPITULO 12.

1 NAQUELLE tempo ia Jesus por huns semeados em Sabbado: e seus discipulos havião fome, e começarão arrancar espigas, e a comer.
2 E vendo isto os Phariseos, disserão-lhe: vês ahi teus discipulos fazem o que não he licito fazer em Sabbado.
3 Porém elle lhes disse: Não tendes lido o que fez David, quando teve fome, elle e os que com elle estavão?
4 Como entrou na casa de Deos, e comeo os paens da proposição, que a elle lhe não era licito comer, nem aos que com elle estavão, senão só aos Sacerdotes?
5 Ou não tendes lido na Lei, que nos Sabbados em o Templo, os Sacerdotes profanão o Sabbado, e são inculpaveis?
6 Pois eu vos digo, que maior que o templo está aqui.
7 Mas se vós soubereis que cousa he, misericordia quero e não sacrificio, não condemnarieis aos innocentes.
8 Porque até do Sabbado he o Filho do homem Senhor.
9 E partindo dali, veio á sua Synagoga delles.
10 E eis que havia ali hum homem que tinha huma mão secca; e perguntarão-lhe, dizendo: he tambem licito curar em Sabbados? (para o accusarem.)
11 E elle lhes disse: Que homem de vósoutros haverá que tenha huma ovelha, e se a tal cahir em huma cova em Sabbados, não lance mão della, e a levante?
12 Pois quanto mais vale hum homem, que huma ovelha? Assim que licito he fazer bem em Sabbados.
13 Então disse áquelle homem: estende tua mão; e elle a estendeo, e foi-lhe restituida sã como a outra.
14 E sahidos os Phariseos, tiverão conselho contra elle, de como o matarião.
15 Mas sabendo-o Jesus, retirou-se dali: e o seguio huma grande multidão de gente, e a todos os curou.
16 E defendia-lhes rigorosamente, que o não manifestassem.
17 Para que se cumprisse o que estava dito pelo Propheta Isaias, que disse:
18 Vêdes aqui meu servo a quem escolhi, meu amado em quem minha alma se agrada: sobre elle porei meu Espirito, e ás Gentes annunciará juizo.
19 Não contenderá nem clamará: nem ninguem sua voz pelas ruas ouvirá.
20 A cana trilhada não quebrantará, e o pavio que fumega não apagará, até que tire o juizo em victoria.
21 E em seu Nome esperarão as Gentes.
22 Então lhe trouxerão hum endemoninhado cego e mudo: e de tal maneira o curou, que o cego e mudo falava e via.
23 E toda a multidão pasmava, e dizia: não he este o Filho de David?
24 Mas ouvindo os Phariseos isto, dizião: Este não lança fóra aos demonios, senão por Beelzebú, principe dos demonios.
25 Porém entendendo Jesus seus pensamentos, disse-lhes: Todo Reino contra si mesmo diviso, he assolado: e toda cidade, ou casa, divisa contra si mesma, não subsistirá.
26 E se Satanás lança fóra a Satanás, contra si mesmo está diviso: como subsistirá logo seu reino?
27 E se eu por Beelzebú lanço fóra os demonios, por quem os lanção logo vossos filhos? Portanto elles serão vossos juizes.
28 Mas se eu pelo Espirito de Deos lanço fóra aos demonios, chegado he logo a vósoutros o Reino de Deos.
29 Ou como pode alguem entrar em casa do valente, e saquear seu fato, se primeiro não amarrar ao valente; e então saqueará sua casa.
30 Quem comigo não he, he contra mim; e quem comigo não apanha, derrama.
31 Portanto eu vos digo: Todo peccado e blasfemia se perdoará aos homens; mas a blasfemia contra o Espirito não se perdoará aos homens.
32 E qualquer que falar palavra alguma contra o Filho do homem, lhe será perdoado: mas qualquer que falar contra o Espirito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século, nem no vindouro.
33 Ou fazei a arvore boa, e seu fruto bom; ou fazei a arvore má, e seu fruto máo: porque pelo fruto se conhece a arvore.
34 Raça de viboras, como podeis vós fallar boas cousas, sendo máos? porque da abundancia do coração fala a boca.
35 O bom homem tira boas cousas do bom thesouro de seu coração, e o máo homem do máo thesouro tira más cousas.
36 Mas eu vos digo, que de toda palavra ociosa que os homens falarem, della darão conta em o dia do juizo.
37 Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condemnado.
38 Então responderão huns dos Escribas e dos Phariseos, dizendo: Mestre, quizeramos ver de ti algum sinal.
39 Mas elle respondeo, e disse-lhes: a geração má e adulterina pede sinal: mas sinal se lhe não dará, senão o sinal de Jonas o Propheta.
40 Porque como Jonas esteve tres dias e tres noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem tres dias e tres noites no coração da terra.
41 Os de Ninive se levantarão em juizo com esta geração, e a condemnarão: porque com a pregação de Jonas se arrependerão. E eis que mais que Jonas está aqui.
42 A Rainha do Austro se levantará em juizo com esta geração, e a condemnará; porque veio dos fins da terra a ouvir a sabedoria de Salamão. E eis que mais que Salamão está aqui.
43 E quando o espirito immundo se tem sahido do homem, anda por lugares seccos buscando repouso e não o acha.
44 Então diz: Tornarme-hei á minha casa donde sahi. E vindo, acha-a desoccupada, varrida, e adornada.
45 Então vai, e toma comsigo outros sete espiritos peiores que elle; e entrados, morão ali: e são as cousas derradeiras do tal homem peiores que as primeiras. Assim acontecerá tambem a esta má geração.
46 E falando elle ainda á multidão, eis que estavão sua mãi e seus irmãos fóra, que lhe querião falar.
47 E disse-lhe hum: Vês ali estão fóra tua mãi e teus irmãos, que te querem falar.
48 Porém respondendo elle, disse ao que isto lhe dizia: Quem he minha mãi? e quem são meus irmãos?
49 E estendendo sua mão para seus discipulos, disse: Vêdes aqui minha mãi e meus irmãos.
50 Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai, que está nos ceos, esse he meu irmão, e irmã, e mãi.

CAPITULO 13.

1 E SAHINDO Jesus de casa aquelle dia, assentou-se junto ao mar.
2 E chegou-se a elle tanta gente, que entrando em hum barco, se assentou nelle; e toda a gente estava na praia.
3 E falou-lhes muitas cousas por parabolas, dizendo: Eis que o Semeador sahio a semear.
4 E semeando elle, cahio huma parte da semente junto ao caminho, e vierão as aves e a comêrão.
5 E outra parte cahio em pedregaes, onde não tinha muita terra, e logo nasceo, porque não tinha terra funda.
6 Mas sahindo o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, seccou-se.
7 E outra parte cahio em espinhos, e os espinhos crescêrão, e a afogarão.
8 E outra parte cahio em boa terra, e deo fruto; hum cento, outro sessenta, e outro trinta.
9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
10 E chegando-se a elle os discipulos disserão-lhe: porque lhes falas por parabolas?
11 E respondendo elle, disse-lhes: Porque a vós he dado saber os misterios do Reino dos ceos, mas a elles não lhes he dado.
12 Porque a quem tem, lhe será dado, e terá em abundancia: mas a quem não tem, até aquillo que tem lhe será tirado.
13 Por isso lhes falo por parabolas; porque vendo, não vêem; e ouvindo não ouvem, nem entendem.
14 E nelles se cumpre a prophecia de Isaias, que diz: De ouvido ouvireis, e não entendereis; e vendo, vereis e não enxergareis.
15 Porque o coração deste povo está engrossado, e pesadamente dos ouvidos ouvirão, e seus olhos fecharão: para que por ventura não vejão dos olhos, e oução dos ouvidos, e entendão do coração, e se arrependão, e eu os cure.
16 Mas bemaventurados vossos olhos, porque vêem; e vossos ouvidos, porque ouvem.
17 Porque em verdade vos digo, que muitos prophetas e justos desejarão ver o que vós vêdes, e não o virão; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouvirão.
18 Ouvi pois vósoutros a parabola do Semeador.
19 Ouvindo alguem a palavra do Reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que em seu coraçao foi semeado; este he o que foi semeado junto ao caminho.
20 Porem o que foi semeado em pedregaes, este he o que ouve a palavra, e logo a recebe com gozo.
21 Mas não tem raiz em si mesmo, antes he temporal: e vinda a afflicção, ou a perseguição pela palavra, logo se offende.
22 E o que foi semeado em espinhos, este he o que ouve a palavra, e o cuidado deste mundo, e o engano das riquezas afogão a palavra, e fica sem fruto.
23 Mas o que foi semeado em boa terra, este he o que ouve e entende a palavra, e o que dá e produz fruto, hum cento, e outro sessenta, e outro trinta.
24 Outra parabola lhes propôz, dizendo: O Reino dos ceos he semelhante ao homem, que semea boa semente em seu campo.
25 E dormindo os homens, veio seu inimigo, e semeou zizania entre o trigo, e se foi.
26 E como a herva cresceo, e produzio fruto, então appareceo tambem a zizania.
27 E chegando-se os servos do Pai de familia, disserão-lhe: Senhor, não semeaste tu boa semente em teu campo? donde lhe vem logo a zizania?
28 E elle lhes disse: O homem inimigo fez isto. E os servos lhe disserão: queres logo que vamos, e a colhamos?
29 Porém elle lhes disse: Não, porque colhendo a zizania, não arranqueis por ventura tambem com ella o trigo.
30 Deixai-os crescer ambos juntos até a séga; e ao tempo da séga direi aos segadores: colhei primeiro a zizania, e atai-a em molhos, para a queimar; mas ao trigo ajuntai no meu celleiro.
31 Outra parabola lhes propoz, dizendo: O Reino dos ceos he semelhante ao grão da mostarda, que tomando-o o homem, o semeou em seu campo.
32 O qual, em verdade, he a menor de todas as sementes: mas crescendo, he a maior de todas as hortaliças; e faz-se tamanha arvore, que vem as aves do ceo, e se aninhão em suas ramas.
33 Outra parabola lhes disse: Semelhante he o Reino dos ceos ao fermento, que tomando-o a mulher, o esconde em tres medidas de farinha, até que tudo esteja levedado.
34 Tudo isto falou Jesus por parabolas á multidão, e sem parabolas lhes não falava.
35 Para que se cumprisse o que foi dito pelo propheta, que disse: Em parabolas abrirei minha boca; cousas escondidas desde a fundação do mundo produzirei.
36 Então Jesus, despedida a multidão, foi para casa. E chegarão-se seus discipulos a elle, dizendo; Declara-nos a parabola da zizania do campo.
37 E respondendo elle, disse-lhes: O que semea a boa semente he o Filho do homem.
38 E o campo he o mundo: e a boa semente, estes são os filhos do Reino; e a zizania são os filhos do maligno;
39 E o inimigo, que a semeou, he o Diabo; e a séga he o fim do mundo; e os segadores são os Anjos.
40 De maneira que, como a zizania he colhida e queimada a fogo; assim será na consummação deste mundo.
41 Mandará o Filho do homem a seus Anjos, e colherão todos os escandalos de seu Reino, e aos que iniquidade fazem:
42 E lança-los-hão no forno do fogo: ali será o pranto e o ranger de dentes.
43 Então resplandecerão os justos como o sol, em o Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
44 Item: Semelhante he o Reino dos ceos ao thesouro escondido em hum campo, que achando-o o homem, o escondeo; e de gozo delle vai, e vende tudo quanto tem, e compra aquelle campo.
45 Item: Semelhante he o Reino dos ceos ao homem negociante, que busca boas perolas.
46 Que achando huma perola de grande valia, foi, e vendeo tudo quanto tinha, e comprou-a.
47 Item: Semelhante he o Reino dos ceos á rede lançada no mar, e que colhe de toda sorte de peixes.
48 Que estando cheia, os pescadores a puxão á praia; e assentando-se, colhem o bom em seus vasos; porém o ruim lanção fóra.
49 Assim será na consummação dos seculos; sahirão os Anjos, e separarão aos máos d’entre os justos:
50 E lança-los-hão no forno do fogo: ali será o choro e o ranger de dentes.
51 E disse-lhes Jesus: Entendestes todas estas cousas? disserão-lhe elles: Sim Senhor.
52 E elle lhes disse: Portanto todo Escriba douto em o Reino dos ceos he semelhante a hum Pai de familia, que de seu thesouro tira cousas novas e velhas.
53 E aconteceo, que acabando Jesus estas parabolas, se retirou dali.
54 E vindo á sua patria, ensinava-os em sua Synagoga delles; de tal maneira que pasmavão, e dizião: Donde lhe vem a este esta sabedoria, e estas maravilhas?
55 Não he este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãi Maria? e seus irmãos Jacobo, e José, e Simão, e Judas?
56 E não estão todas suas irmãas comnosco? donde lhe vem logo a este tudo isto?
57 E escandalizavão-se nelle. Mas Jesus lhes disse: Não ha propheta sem honra, senão em sua patria, e em sua casa.
58 E não fez ali muitas maravilhas por causa de sua incredulidade delles.

CAPITULO 14.

1 NAQUELLE tempo ouvio Herodes o Tetrarcha a fama de Jesus.
2 E disse a seus criados: Este he João Baptista, resuscitado he dos mortos, e por isso obrão estas maravilhas nelle.
3 Porque Herodes prendêra a João, e o havia liado, e posto na prisão, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Philippe.
4 Porque João lhe dizia: Não te he licito tê-la.
5 E querendo-o matar, temia-se do povo, porque o tinhão por propheta.
6 Porém celebrando-se o dia do nascimento de Herodes, dançou a filha de Herodias diante delles, e agradou a Herodes.
7 Pelo que com juramento lhe prometteo de dar tudo o que pedisse:
8 E ella, instruida primeiro de sua mãi disse: Dá-me aqui em hum prato a cabeça de João Baptista.
9 E el-Rei se entristeceo; mas pelo juramento, e pelos que com elle estavão á mesa, mandou que se lhe désse.
10 E mandou, e degolou a João na prisão.
11 E foi sua cabeça trazida em um prato, e dada á menina; e ella a levou a sua mãi.
12 E vierão seus discipulos, e tomarão o corpo, e o enterrarão; e forão, e o denunciarão a Jesus.
13 E ouvindo-o Jesus, retirou-se dali em hum barco a hum lugar deserto á parte; e ouvindo-o o povo o seguio das cidades a pé.
14 E sahindo Jesus, vio huma grande multidão, e moveo-se a intima compaixão della: e curou aos que delles havia enfermos.
15 E vinda já a tarde, chegarão-se a elle seus discipulos, dizendo: O lugar he deserto, e o tempo he já passado; despede a multidão, para que vão pelas aldêas, e comprem para si de comer.
16 Mas Jesus lhes disse: Não tem necessidade de irem; dai-lhes vósoutros de comer.
17 Porém elles lhe disserão: Não temos aqui senão cinco pães, e dous peixes.
18 E elle disse: trazeimos aqui.
19 E mandando á multidão que se assentasse sobre a herva, e tomando os cinco pães e os dous peixes, e levantando os olhos ao ceo, benzeo-os; e partindo os pães, deo-os aos discipulos, e os discipulos á multidão.
20 E comerão todos e fartarão-se. E levantarão do que sobejou dos pedaços, doze alcofas cheias.
21 E os que comerão forão quasi cinco mil varoens, fóra as mulheres e os meninos.
22 E logo Jesus fez entrar no barco a seus discipulos, e que fossem diante delle para a outra banda, entre tanto que despedia a multidão.
23 E despedida a multidão subio ao monte á parte a orar. E vinda já a tarde, estava ali só.
24 E já o barco estava no meio do mar atormentado das ondas: porque o vento era contrario.
25 Mas á quarta vela da noite desceo Jesus a elles, andando sobre o mar.
26 E vendo-o os discipulos andar sobre o mar, turbarão-se, dizendo: fantasma he, e derão gritos de medo.
27 Mas Jesus lhes falou logo, dizendo: Tende bom animo, sou eu, não hajais medo.
28 E respondeo-lhe Pedro, e disse: Senhor, se es tu, manda-me vir a ti sobre as aguas.
29 E elle disse: Vem. E descendo Pedro do barco, andou sobre as aguas, para vir a Jesus.
30 Mas vendo o vento forte, temeo; e começando-se a affundar, clamou, dizendo: Senhor, salva-me.
31 E estendendo Jesus logo a mão, pegou delle, e disse-lhe: homem de pouca fé, porque duvidaste?
32 E como subirão no barco, o vento se aquietou.
33 Então vierão os que estavão no barco, e o adorarão, dizendo: Verdadeiramente es Filho de Deos.
34 E passando á outra banda, vierão á terra de Genezareth.
35 E como os varoens daquelle lugar o conhecerão, mandarão por toda aquella terra ao redor, e trouxerão-lhe todos os que se achavão mal.
36 E rogavão-lhe, que somente tocassem a borda de seu vestido; e todos os que a tocavão ficavão sãos.

CAPITULO 15.

1 ENTÃO se chegarão a Jesus certos Escribas e Phariseos de Jerusalem, dizendo:
2 Porque traspassão teus discipulos a tradição dos anciãos? pois não lavão as mãos, quando comem pão.
3 Porém respondendo elle, disse-lhes: Porque traspassais vósoutros tambem o mandamento de Deos, por vossa tradição?
4 Porque Deos mandou dizendo: Honra a teu pai, e a tua mãi: e, quem mal-disser ao pai, ou á mãi, morra de morte.
5 Mas vós outros dizeis: Qualquer que ao pai, ou á mãi disser; offerta he tudo o que de mim podeis aproveitar; e em maneira nenhuma a seu pai, ou a sua mãi honrar, desobrigada fica.
6 E assim invalidastes o mandamento de Deos por vossa tradição.
7 Hypocritas, bem prophetizou Isaias de vósoutros, dizendo:
8 Este povo com sua boca se achega a mim, e com os beiços me honra: mas seu coração está longe de mim.
9 Mas em vão me honrão, ensinando por doutrinas os mandamentos dos homens.
10 E chamando a multidão a si, disse-lhes: Ouvi e entendei.
11 Não he o que na boca entra, o que ao homem contamina: mas o que da boca sahe, isso contamina ao homem.
12 Então chegando-se seus discipulos a elle, disserão-lhe: Sabes que os Phariseos, ouvindo esta palavra, se escandalizárão?
13 Mas respondendo elle, disse: Toda planta, que meu Pai celestial não plantou, será desarraigada.
14 Deixai-os, são cegas guias de cegos: e se o cego guiar ao cego, ambos cahirão na cova.
15 E respondendo Pedro, disse-lhe: Declara-nos esta parabola.
16 Porém Jesus disse: Até vósoutros estais ainda sem entendimento?
17 Não entendeis ainda, que tudo o que na boca entra, vai ao ventre, e se lança na privada?
18 Mas o que sahe da boca, procede do coração, e isto ao homem contamina.
19 Porque do coração procedem máos pensamentos, mortes, adulterios, fornicaçoens, furtos, falsos testemunhos, blasfemias.
20 Estas cousas são as que ao homem contaminão; mas comer sem lavar as mãos, não contamina ao homem.
21 E partindo Jesus dali, foi para as partes de Tyro, e de Sidon.
22 E eis que huma mulher Cananea, que tinha sahido daquelles termos, clamou-lhe, dizendo: Senhor, Filho de David, tem misericordia de mim; que minha filha está miseravelmente endemoninhada.
23 Mas elle não lhe respondeo palavra. E chegando-se seus discipulos a elle, rogarão-lhe dizendo: Deixa-a ir, que clama após nósoutros.
24 E respondendo elle, disse: Eu não sou enviado senão ás ovelhas perdidas da casa de Israël.
25 Então veio ella, e o adorou, dizendo: Senhor, ajuda-me.
26 Porém respondendo elle, disse: Não he razão tomar o pão dos filhos, e lança-lo aos cachorrinhos.
27 E ella disse: Sim Senhor: porém tambem os cachorrinhos comem das migalhas que cahem da mesa de seus Senhores.
28 Então respondeo Jesus, e disse-lhe: O’ mulher! grande he tua fé; faça-se comtigo como queres. E sarou sua filha desde aquella mesma hora.
29 E partindo Jesus dali, veio ao mar de Galilea, e subindo a hum monte, assentou-se ali.
30 E veio a elle muito povo que tinha comsigo mancos, cegos, mudos, aleijados, e outros muitos; e os lançarão aos pés de Jesus, e elle os sarou.
31 De tal maneira, que a multidão se maravilhou, vendo falar aos mudos, sãos aos aleijados, andar aos mancos, e ver aos cegos; e glorificava ao Deos de Israël.
32 E chamando Jesus a si seus discipulos, disse: Tenho intima compaixão da multidão, porque já tres dias ha que comigo persevera, e não tem que comer: e deixa-la ir em jejum não quero, paraque não desmaie no caminho.
33 E seus discipulos lhe disserão: Donde virião a nós tantos pães no deserto, para fartar tão grande multidão.
34 E Jesus lhes disse: Quantos pães tendes? e elles disserão; sete, e huns poucos de peixinhos.
35 E mandou á multidão que se assentasse pelo chão.
36 E tomando os sete paens e os peixes, e dando graças, partio-os, e deo-os a seus discipulos, e os discipulos á multidão.
37 E comerão todos, e fartarão-se; e levantarão do que sobejou dos pedaços, sete cestos cheios.
38 E erão os que tinhão comido, quatro mil varoens, fóra as mulheres, e os meninos.
39 E, despedida a multidão entrou em hum barco, e veio aos termos de Magdala.

CAPITULO 16.

1 E CHEGANDO-se os Phariseos e os Sadduceos a elle, tentando-o, pedirão-lhe que lhes mostrasse algum sinal do Ceo.
2 Mas respondendo elle, disse-lhes: Quando já a tarde he vinda, dizeis: Bom tempo; porque o ceo se envermelhece.
3 E pela manhã: Hoje haverá tempestade: porque o ceo se envermelhece triste. Hypocritas, bem sabeis vós fazer differença na face do ceo; e nos sinaes dos tempos não podeis?
4 A geração má e adulterina pede sinal; e sinal lhe não será dado, senão o sinal de Jonas o propheta. E deixando-os, se foi.
5 E vindo seus discipulos á outra banda, havião-se esquecido de tomar pão comsigo.
6 E Jesus lhes disse: Olhai bem, e guardai-vos do fermento dos Phariseos e Sadduceos.
7 E elles arrazoavão entre si, dizendo: Isto he porque comnosco não tomámos pão.
8 E entendendo-o Jesus, disse-lhes: Que arrazoais entre vós mesmos, homens de pouca fé, que não tomastes comvosco pão?
9 Não entendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães dos cinco mil homens, e quantas alcofas levantastes?
10 Nem dos sete pães dos quatro mil, e quantos cestos levantastes?
11 Como não entendeis, que não pelo pão vos disse, que vos guardasseis do fermento dos Phariseos e Sadduceos?
12 Então entenderão, que não disséra que se guardassem do fermento do pão, senão da doutrina dos Phariseos e Sadduceos.
13 E vindo Jesus ás partes de Cesarea de Philippo, perguntou a seus discipulos, dizendo: Quem dizem os homens que sou eu, o Filho do homem?
14 E elles disserão: Alguns Joao Baptista, e outros Elias, e outros Jeremias, ou algum dos Prophetas.
15 Disse-lhes elle: E vósoutros, quem dizeis que eu sou?
16 E respondendo Simão Pedro, disse: Tu es o Christo, o Filho do Deos vivente.
17 E respondendo Jesus, disse-lhes: Bemaventurado es tu, Simão Bar-Jonas, porque carne e sangue to não revelou, mas meu Pai, que está nos ceos.
18 E tambem eu te digo, que tu es Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ella.
19 E a ti te darei as chaves do reino dos ceos; e tudo o que liares na terra, será liado nos ceos; e tudo o que desliares na terra, será desliado nos ceos.
20 Então mandou a seus discipulos, que a ninguem dissessem que elle era Jesus o Christo.
21 Desde então começou Jesus a mostrar a seus discipulos, que lhe convinha ir a Jerusalem, e padecer muito dos anciãos, e dos principes dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e resuscitar ao terceiro dia.
22 E tomando-o Pedro comsigo, começou a reprehende-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; por nenhum modo te aconteça isto.
23 Porém virando-se elle, disse a Pedro: Arreda-te de diante de mim, Satanás, que escandalo me es: porque não comprehendes as cousas, que são de Deos, senão as que são dos homens.
24 Então disse Jesus a seus discipulos: Se alguem quizer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome sobre si sua cruz, e siga-me.
25 Porque qualquer que quizer salvar sua vida, perde-la-ha; porém qualquer que por amor de mim perder sua vida, acha-la-ha.
26 Porque, que aproveita ao homem, se grangear todo o mundo, e perder sua alma? ou que dará o homem em recompensa de sua alma?
27 Porque o Filho do homem virá na gloria de seu Pai com seus anjos; e então renderá a cada hum segundo suas obras.
28 Em verdade vos digo, que alguns ha dos que aqui estão, que não gostarão a morte, até que não vejão vir ao filho do homem em seu Reino.

CAPITULO 17.

1 E DEPOIS de seis dias tomou Jesus comsigo a Pedro, e a Jacobo, e a João seu irmão, e levou-os a hum monte alto á parte.
2 E transfigurou-se diante delles; e resplandeceo seu rosto como o sol, e seus vestidos se fizerão brancos como a luz.
3 E eis que lhes apparecerão Moyses e Elias, fallando com elle.
4 E respondendo Pedro, disse a Jesus: Senhor, bom he estarmos nós aqui; se queres, façamos aqui tres cabanas, para ti huma, e para Moyses huma, e huma para Elias.
5 Estando elle ainda falando, eis que huma nuvem resplandecente os cobrio com sua sombra. E eis huma voz da nuvem, que disse: Este he o meu amado filho, em quem me agrado: a elle ouvi.
6 E ouvindo os discipulos isto, cahirão sobre seus rostos, e temerão em grande maneira.
7 E chegando-se Jesus a elles, tocou-os, e disse: Levantai-vos, e não temais.
8 E levantando elles seus olhos, a ninguem virão, senão só a Jesus.
9 E como descerão do monte, mandou-lhes Jesus, dizendo: A ninguem digais a visão, até que o Filho do homem não seja resuscitado dos mortos.
10 E perguntarão-lhe seus discípulos, dizendo: Porque dizem logo os escribas, que he necessario, que Elias venha primeiro?
11 E respondendo Jesus, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as cousas.
12 Mas digo-vos, que já veio Elias, e não o conhecerão; antes fizerão delle tudo o que quizerão. Assim padecerá tambem delles o Filho do homem.
13 Então entenderão os discipulos, que lhes disséra isto de João Baptista.
14 E como chegarão á multidão, veio hum homem a elle, pondo-se de joelhos diante delle, e dizendo:
15 Senhor, tem misericordia de meu filho, que he aluado, e padece muito mal: porque muitas vezes cahe no fogo, e muitas vezes na agua.
16 E trouxe-o a teus discipulos, e não o poderão curar.
17 E respondendo Jesus, disse: O’ geração incredula, e perversa! até quando hei de estar comvosco? até quando vos hei de soffrer? Trazei-mo aqui.
18 E o reprehendeo Jesus, e sahio o demonio delle, e sarou o menino desde aquella hora.
19 Chegando-se então os discipulos a Jesus á parte, disserão: Porque o não podémos nós lançar fóra?
20 E Jesus lhes disse: Por vossa incredulidade: porque em verdade vos digo, que se tivesseis fé como hum grão de mostarda, a este monte dirieis: Passa-te daqui para acolá, e passar-se-hia; e nada vos seria impossivel.
21 Mas este genero não sahe senão por oração e jejum.
22 E andando elles em Galilea, disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue em mãos dos homens.
23 E mata-lo-hão, e ao terceiro dia resuscitará. E elles se entristecêrão em grande maneira.
24 E como entrarão em Capemaum, viérão a Pedro os que cobravão as didragmas, e disserão: não paga vosso mestre as didragmas?
25 Disse elle: Sim. E entrando em casa, Jesus se-lhes anticipou, dizendo: Que te parece, Simão? de quem cobrão os reis da terra os tributos ou o censo? de seus filhos; ou dos alheios?
26 Pedro lhe disse: dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo livres são os filhos?
27 Mas para que os não escandalizemos, vai ao mar, e lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, toma-o, e abrindo-lhe a boca, acharás hum estatero; toma-o, e dá-lho por mim e por ti.

CAPITULO 18.

1 NAQUELLA mesma hora se chegarão os discipulos a Jesus, dizendo: Ora quem he o maior em o reino dos ceos?
2 E chamando Jesus a si hum menino, pó-lo no meio delles.
3 E disse: Em verdade vos digo, que se vos não converterdes, e fordes como meninos em maneira nenhuma entrareis no reino dos ceos.
4 Assim que qualquer que se abaixar como este menino, este he o maior no reino dos ceos.
5 E qualquer que a hum tal menino receber em meu nome, a mim me recebe.
6 Mas qualquer que escandalizar a hum destes pequenos, que em mim crêm, melhor lhe fóra que huma mó de atafona se lhe pendurára ao pescoço, e se submergira no profundo do mar.
7 Ai do mundo por causa dos escandalos: porque necessario he que venhão escandalos: mas ai daquelle homem por quem o escandalo vem.
8 Portanto se tua mão, ou teu pé te escandalizar, corta-os, e lança-os de ti: melhor te he entrar manco ou aleijado na vida, do que tendo duas mãos, ou dous pés, ser lançado no fogo eterno.
9 E se teu olho te escandalizar, arranca-o, e lança-o de ti. Melhor te he entrar com hum olho na vida, do que tendo dous olhos, ser lançado no fogo do inferno.
10 Olhai que não desprezeis a algum destes pequenos; porque eu vos digo, que sempre seus Anjos nos ceos vêem a face de meu Pai, que está nos ceos.
11 Porque o Filho do homem he vindo a salvar o que se tinha perdido.
12 Que vos parece? se algum homem tivesse cem ovelhas, e huma dellas se desgarrasse, não iria pelos montes, deixando as noventa e nove, em busca da desgarrada?
13 E se acontecesse acha-la, em verdade vos digo, que mais se goza daquella, que das noventa e nove, que se não desgarrarão.
14 Assim não he a vontade de vosso Pai, que está nos ceos, que hum destes pequenos se perca.
15 Porém se teu irmão peccar contra ti, vai, e reprehende-o entre ti e elle só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão.
16 Porem se te não ouvir, toma ainda comtigo hum ou dous, para que em boca de duas ou tres testemunhas, se confirma toda palavra.
17 E se lhes não der ouvidos, dize-o á Igreja; e se tambem não der ouvidos á igreja, tem-o por hum gentio e publicano.
18 Em verdade vos digo, que tudo o que liardes na terra, será liado no ceo; e tudo o que desliardes na terra, será desliado no ceo.
19 E digo-vos, que se dous de vósoutros se concordarem na terra, sobre qualquer cousa que pedirem, lhes será feito por meu Pai, que está nos ceos.
20 Porque aonde dous ou tres estiverem congregados em meu nome, ali estou eu no meio delles.
21 Então Pedro chegando-se a elle, disse: Senhor, até quantas vezes peccará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? até sete?
22 Jesus lhe disse: Não te digo eu até sete, mas até setenta vezes sete.
23 Pelo que o reino dos ceos se compara a hum certo rei, que quiz fazer contas com seus servos.
24 E começando a fazer contas, foi-lhe apresentado hum que lhe devia dez mil talentos.
25 E não tendo elle com que pagar, mandou o seu Senhor vender a elle, e a sua mulher, e filhos, com tudo quanto tinha, e que a divida se pagasse.
26 Então aquelle servo, prostrando-se, o adorava, dizendo: Senhor, sê longanimo para comigo, e tudo te pagarei.
27 E movido o Senhor daquelle servo a intima compaixão, o soltou, e quitou-lhe a divida.
28 Sahindo porém aquelle servo, achou hum de seus conservos, que lhe devia cem dinheiros; e lançando mão delle, o afogava, dizendo: Paga-me o que me deves.
29 Então seu conservo, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê longanimo para comigo, e tudo te pagarei.
30 Mas elle não quiz; senão foi, e o lançou na prisão, até que pagasse a divida.
31 Vendo pois seus conservos o que passava, entristecêrão-se muito; e vindo, declararão a seu Senhor tudo o que passara.
32 Então chamando-o seu Senhor a si, disse-lhe: Servo malvado; toda aquella divida te quitei, porque me rogaste:
33 Não te convinha a ti tambem ter misericordia de teu conservo, como eu tambem tive misericordia de ti?
34 E indignado seu Senhor, o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que lhe devia.
35 Assim vos fará tambem meu Pai celestial, se de coração não perdoardes cada hum a seu irmão suas offensas.

CAPITULO 19.

1 E ACONTECEO, que acabando Jesus estas palavras, passou de Galilea, e veio aos termos de Judea d’além do Jordão.
2 E o seguio huma grande multidão de gente, e curou-os ali.
3 Então chegarão-se a elle os Phariseos, tentando-o, e dizendo-lhe: He licito ao homem despedir a sua mulher, por qualquer causa?
4 Porém respondendo elle, disse-lhes: Não tendes lido, que o que os fez ao principio, macho e femea os fez?
5 E disse: Portanto deixará o homem pai e mãi, e achegar-se-ha á sua mulher, e serão dous em huma carne.
6 Assim que não são mais dous, senão huma carne: portanto o que Deos ajuntou, não o aparte o homem.
7 Disserão-lhe elles: Porque mandou logo Moyses dar-lhe carta de desquite, e deixá-la?
8 Disse-lhes elle: Pela dureza de vossos coraçoens vos permittio Moyses deixar a vossas mulheres: mas ao principio não foi assim.
9 Porem eu vos digo, que qualquer que deixar a sua mulher, salvo por causa de fornicação, e com outra se casar, adultéra: o que com a deixada se casar, tambem adultéra.
10 Disserão-lhe seus discipulos: se assim he o negocio do homem com a mulher, não convem casar.
11 Porém elle lhes disse: Não todos comprehendem estas palavras, senão aquelles a quem he dado.
12 Porque ha castrados, que do ventre da mãi assim nascerão; e ha castrados, que pelos homens forão castrados; e ha castrados, que se castrarão a si mesmos por causa do reino dos ceos. Quem isto pode comprehender, comprehenda-o.
13 Então lhe trouxerão alguns meninos, paraque puzesse as mãos sobre elles, e orasse; e os discipulos os reprehendião.
14 Mas Jesus disse: Deixai os meninos, e não os impedi de vir a mim; porque dos taes he o reino dos ceos.
15 E havendo posto sobre elles as mãos, partio dali.
16 E eis que chegando-se a elle hum, disse-lhe: Mestre bom, que bem farei para haver a vida eterna?
17 E elle lhe disse: Porque me chamas bom? ninguem ha bom, senão hum, convem a saber Deos. Porém se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.
18 Disse-lhe elle: Quaes? e Jesus disse, estes: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho.
19 Honra a teu pai, e a tua mãi; e amarás a teu proximo como a ti mesmo.
20 Disse-lhe o mancebo: Tudo isto guardei desde minha mocidade; que me falta ainda?
21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás hum thesouro no ceo; e vem, segue-me.
22 E ouvindo o mancebo esta palavra, se foi triste; porque tinha muitas possessoens.
23 E disse Jesus a seus discipulos: Em verdade vos digo, que difficilmente entrará o rico no reino dos ceos.
24 E outra vez vos digo, que mais facil he passar hum camelo pelo fundo de huma agulha, do que entrar o rico no reino de Deos.
25 O que ouvindo seus discipulos, espantarão-se muito, dizendo: Quem se póde logo salvar?
26 E olhando Jesus para elles, disse-lhes: Aos homens impossivel he isto; mas a Deos tudo he possivel.
27 Então respondendo Pedro, disse-lhe: Vês aqui tudo deixámos, e te seguimos; que haveremos logo?
28 E Jesus lhes disse: Em verdade vos digo, que vós que me seguistes na regeneração, quando o Filho do homem se assentar em o throno de sua gloria, tambem vósoutros vos assentareis sobre doze thronos, para julgar as doze tribus de Israël.
29 E qualquer que houver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãi, ou mulher, ou filhos, ou terras por amor de meu nome, cem vezes tanto receberá, e a vida eterna herdará.
30 Porém muitos primeiros serão derradeiros; e muitos derradeiros, primeiros.

CAPITULO 20.

1 PORQUE semelhante he o reino dos ceos a hum homem pai de familia, que sahio de madrugada a alugar trabalhadores para sua vinha.
2 E concertando-se com os trabalhadores por hum dinheiro ao dia, mandou-os á sua vinha.
3 E sahindo perto da hora terceira, vio outros, que estavão na praça ociosos.
4 E disse-lhes: Ide vósoutros tambem á vinha, e dar-vos-hei o que for justo. E forão.
5 Sahindo outra vez perto da hora sexta e nona, fez o mesmo.
6 E sahindo perto da hora undecima, achou outros que estavão ociosos, e disse-lhes: Porque estais aqui todo o dia ociosos?
7 Disserão-lhe elles: Porque ninguem nos alugou. Disse-lhes elle: Ide vósoutros tambem á vinha, e recebereis o que for justo.
8 E vinda já a tarde, disse o Senhor da vinha a seu mordomo: chama aos trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando dos derradeiros até os primeiros.
9 E vindo os de perto da hora undecima, recebêrão cada hum hum dinheiro.
10 E vindo os primeiros, cuidarão que havião de receber mais; e tambem elles recebêrão cada hum hum dinheiro.
11 E tomando-o murmuravão contra o pai de familia.
12 Dizendo: Estes derradeiros trabalhárão huma so hora, e os igualaste comnosco, que levamos a carga e a calma do dia.
13 Porém respondendo elle, disse a hum delles: Amigo, não te faço aggravo; não te concertaste tu comigo por hum dinheiro?
14 Toma o que he teu, e vai-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.
15 Ou não me he a mim licito fazer do meu o que quizer? ou he teu olho máo, porque eu sou bom?
16 Assim serão os derradeiros primeiros; e os primeiros derradeiros: porque muitos são chamados, porém poucos escolhidos.
17 E subindo Jesus a Jerusalem, tomou comsigo aos doze discipulos á parte no caminho, e disse-lhes:
18 Vêdes aqui subimos a Jerusalem, e o Filho do homem será entregue aos principes dos sacerdotes, e aos escribas, e condemna-lo-hão á morte.
19 E o entregarão ás Gentes, para que delle escarneção, e o açoutem, e crucifiquem: e ao terceiro dia resurgirá.
20 Então se chegou a elle a mãi dos filhos de Zebedeo, com seus filhos, adorando-o, e pedindo-lhe alguma cousa.
21 E elle lhe disse: Que queres? disse-lhe ella: Dize que estes meus dous filhos se assentem, hum á tua mão direita, e outro á tua esquerda em teu reino.
22 Porém respondendo Jesus, disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o copo que eu hei de beber; e ser baptizados com o baptismo com que eu sou baptizado? dissérão-lhe elles: Podemos.
23 E disse-lhes elle: Em verdade que meu copo bebereis, e com o baptismo com que eu sou baptizado, sereis baptizados; mas assentar-se á minha mão direita, e á minha esquerda, não he meu da-lo, senão aos que de meu pai está aparelhado.
24 E como os dez ouvirão isto, indignárão-se contra os dous irmãos.
25 Então, chamando-os Jesus a si, disse: Bem sabeis, que os principes das gentes se ensenhoreão sobre ellas, e os grandes usão sobre ellas de potestade.
26 Mas entre vósoutros não será assim; mas qualquer que entre vósoutros sê quizer fazer grande, seja vosso ministro.
27 E qualquer que entre vósoutros quizer ser o primeiro, seja vosso servo.
28 Como o Filho do homem não veio a ser servido, senão a servir, e a dar sua vida em resgate por muitos.
29 E sahindo elles de Jericho, seguio-o grande multidão.
30 E eis que dous cegos assentados junto ao caminho, ouvindo que Jesus passava, clamarão, dizendo: Senhor, filho de David, tem misericordia de nós.
31 E a multidão os reprehendia, para que se calassem: mas elles clamavão tanto mais, dizendo: Senhor, filho de David, tem misericordia de nós.
32 E parando Jesus, chamou-os, e disse: Que quereis que vos faça?
33 Disserão-lhe elles: Senhor, que nossos olhos sejão abertos.
34 E movendo-se Jesus á intima compaixão delles, tocou-lhes os olhos: e logo seus olhos virão, e o seguirão.

CAPITULO 21.

1 E COMO chegarão perto de Jerusalem, e viérão a Bethphage, ao monte das Oliveiras; então mandou Jesus dous discipulos, dizendo-lhes:
2 Ide á aldêa que de fronte de vós está, e logo achareis huma burra liada, e hum poldro com ella; desliai-a, e trazei-mos.
3 E se alguem vos disser alguma cousa, direis: Que o Senhor os ha mister, e logo os enviará.
4 Ora tudo isto aconteceo, para que se cumprisse o que foi dito pelo Propheta, que disse:
5 Dizei á filha de Sião: Vês aqui teu rei te vem manso, e assentado sobre huma burra, e hum poldro, filho de burra de jugo.
6 E indo os discipulos, e fazendo como Jesus lhes mandára;
7 Trouxerão a burra e o poldro, e pozerão sobre elles seus vestidos, e o fizerão assentar sobre elles.
8 E muitissima gente estendia seus vestidos pelo caminho, e outros cortatavão ramos das arvores, e os espalhavão pelo caminho.
9 E a multidão que ia diante, e a que seguia, clamavão, dizendo: Hosanna ao filho de David; bemdito o que vem em o nome do Senhor; Hosanna em as alturas.
10 E entrando elle em Jerusalem, toda a cidade se alvoroçou, dizendo: Quem he este?
11 E a multidão dizia: Este he Jesus, o Propheta de Nazareth de Galilea.
12 E entrou Jesus no Templo de Deos, e lançou fora a todos os que vendião e compravão no Templo, e transtornou as mesas dos cambiadores, e as cadeiras dos que vendião pombas.
13 E disse-lhes: Escrito está; Minha casa, casa de oração será chamada; mas vósoutros a tendes feito cova de salteadores.
14 E viérão a elle cegos e coxos ao Templo, e curou-os.
15 Vendo então os principes dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no Templo, e dizendo: Hosanna ao filho de David; indignárão-se.
16 E disserão-lhe: Ouves o que estes dizem? e Jesus lhes disse: Sim; nunca lêstes: Da boca dos meninos, e dos que mamão, te aperfeiçoaste o louvor?
17 E deixando-os, sahio fóra da cidade para Bethania, e passou ali a noite.
18 E pela manhã tornando para a cidade, teve fome.
19 E vendo huma figueira perto do caminho, veio a ella, e não achou nella senão folhas somente. E disse-lhe: Nunca de ti mais nasça fruto para sempre. E logo a figueira seccou.
20 E vendo os discipulos isto, maravilhárão-se, dizendo: Como seccou logo a figueira?
21 Porém respondendo Jesus, disse-lhes: Em verdade vos digo, que se tiverdes fé e não duvidares, não só isto fareis á figueira, mas se até a este monte disserdes:Alça-te,e lançate no mar; far-se-ha.
22 E tudo o que na oração pedirdes, crendo, o recebereis.
23 E como veio ao Templo, chegarão a elle, estando já ensinando, os principes dos sacerdotes, e os anciãos do povo, dizendo: Com que autoridade fazes isto? e quem te deo esta autoridade?
24 E respondendo Jesus, disse-lhes: tambem eu vos perguntarei huma palavra; a qual se ma disserdes, tambem eu vos direi, com que autoridade isto faço.
25 O baptismo de João donde era? do ceo, ou dos homens? e pensavão em si mesmos, dizendo: Se dissermos, Do ceo, dir-nos-ha: Porque pois o não crestes?
26 E se dissermos, Dos homens, tememos ao povo: Porque todos tem a João por propheta.
27 E respondendo a Jesus, disserão: Não sabemos. E elle lhes disse: Nem eu tão pouco vos direi com que autoridade faço isto.
28 Mas que vos parece? Hum homem tinha dous filhos; e chegando ao primeiro, disse: Filho, vai hoje a trabalhar á minha vinha.
29 Porém respondendo elle, disse: Não quero; e depois, arrependido, se foi.
30 E chegando ao segundo, disse-lhe da mesma maneira: e respondendo elle, disse: Eu, senhor, vou, e não se foi.
31 Qual dos dous fez a vontade do pai? dizem-lhe elles; O primeiro. Diz-lhes Jesus: Em verdade vos digo, que os publicanos e as rameiras se vos vão diante ao reino de Deos.
32 Porque veio a vósoutros João, por via de justiça, e não o crestes; mas os publicanos, e as rameiras o crerão; porém vósoutros, vendo isto, nem depois vos arrependestes, para o crer.
33 Ouvi outra parabola. Houve hum homem pai de familia, o qual plantou huma vinha, e cercou-a com valado, e fundou nella hum lagar, e edificou huma torre, e arrendou-a a huns lavradores, e partio para fóra da terra.
34 E chegando o tempo dos frutos, mandou seus servos aos lavradores para receberem seus frutos.
35 E os lavradores tomando a seus servos, a hum ferirão, e a outro matarão, e a outro apedrejárão.
36 Outra vez mandou outros servos, mais que os primeiros, e fizerão-lhes o mesmo.
37 E por derradeiro lhes mandou seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho.
38 Mas os lavradores vendo ao filho, disserão entre si: este he o herdeiro, vinde, mate-mo-lo, e tomemos sua herança.
39 E tomando, o lançárão fóra da vinha, e o matarão.
40 Pois, quando vier o Senhor da vinha, que fará áquelles lavradores?
41 Dizem-lhe elles: Aos máos má morte dará, e a vinha arrendará a outros lavradores, que lhe dêm os frutos a seus tempos.
42 Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitárão, esta foi feita por cabeça da esquina? pelo Senhor foi feito isto, e he maravilhoso em nossos olhos.
43 Portanto vos digo, que o reino de Deos se vos tirará a vósoutros, e se dará á gente que renda seus frutos.
44 E quem cahir sobre esta pedra, será quebrantado: e sobre quem ella cahir, esmaga-lo-ha.
45 E ouvindo os principes dos sacerdotes, e os Phariseos estas suas parabolas, entendêrão que falava delles.
46 E procurando prende-lo, temerão ao povo; porquanto o tinhão por Propheta.

CAPITULO 22.

1 E RESPONDENDO Jesus, tornou-lhes a falar por parabolas, dizendo:
2 Semelhante he o reino dos ceos a hum certo rei, que fez vodas a seu filho.
3 E mandou a seus servos, que chamassem aos convidados ás vodas, e não quizerão vir.
4 Outra vez pois mandou outros servos dizendo: Dizei aos convidados: Vêdes aqui meu jantar tenho aparelhado, meus bois e cevados já estão mortos, e tudo está já preparado, vinde ás vodas.
5 Porém elles não fazendo caso, se forão, hum a seu campo, e outro a sua mercancia.
6 E outros tomando a seus, afrontárão-os, e matárão-os.
7 E ouvindo o rei isto, indignou-se; e mandando seus exercitos, destruio aquelles homicidas, e pôz a fogo sua cidade.
8 Então disse a seus servos: Em verdade aparelhadas estão as vodas, porém não erão dignos os convidados.
9 Ide pois ás sahidas dos caminhos, e chamai ás vodas a tantos quantos achardes.
10 E sahindo os servos pelos caminhos, ajuntárão a todos quantos achárão, assim máos como bons; e as vodas se enchêrão de convidados.
11 E entrando o rei, a ver os convidados, vio ali hum homem que não estava vestido com vestido de vodas.
12 E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido de vodas? e emmudeceo.
13 Então disse o rei aos servidores: Amarrai-o de pés e de mãos, e tomai-o, e lançai-o nas trevas exteriores: ali será o pranto e o ranger de dentes.
14 Porque muitos são chamados, porém poucos escolhidos.
15 Então, idos os Phariseos, tiverão conselho como o apanharião em alguma palavra.
16 E enviarão-lhe seus discipulos, juntamente com os Herodianos, dizendo: Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e com verdade ensinas o caminho de Deos, e de ninguem se te dá, porque não attentas para a apparencia de homens.
17 Dize-nos pois, que te parece? he licito dar tributo a Cesar, ou não?
18 Mas Jesus entendendo sua malicia, disse: Porque me tentais hypocritas?
19 Mostrai-me a moeda do tributo. E elles lhe trouxerão hum dinheiro.
20 E elle lhes disse: Cuja he esta imagem, e esta inscripção?
21 Dizem-lhe elles; De Cesar. Então lhes disse elle: Dai pois a Cesar o que he de Cesar, e a Deos o que he de Deos.
22 E ouvindo elles isto, maravilhárão-se, e deixando-o, se forão.
23 Aquelle mesmo dia chegárão a elle os Sadduceos, que dizem não haver resurreição; e perguntárão-lhe,
24 Dizendo: Mestre, Moyses disse: se algum morrer, não tendo filhos, casar-se-ha seu irmão com sua mulher, e levantará semente a seu irmão.
25 Houve pois entre nósoutros sete irmãos, e casando-se o primeiro, morreo; e não tendo semente, deixou sua mulher a seu irmão.
26 Da mesma maneira tambem o segundo, e o terceiro, até os sete.
27 Por derradeiro depois de todos morreo tambem a mulher.
28 Na resurreição pois, cuja dos sete será a mulher? porque todos a tiverão.
29 Porém respondendo Jesus, disse-lhes: Errais, não sabendo as escrituras, nem a potencia de Deos.
30 Porque na resurreição, nem se casão, nem se dão em casamento; mas são como os anjos de Deos no ceo.
31 E ácerca da resurreição dos mortos, não tendes lido o que Deos vos tem falado, que diz:
32 Eu sou o Deos de Abraham, e o Deos de Isaac, e o Deos de Jacob? Deos não he Deos dos mortos, mas dos viventes.
33 E ouvindo isto as turbas, pasmavão de sua doutrina.
34 E ouvindo os Phariseos, que havia tapado a boca aos Sadduceos, ajuntárão-se á huma.
35 E perguntou hum delles, doutor da lei, tentando-o, e dizendo:
36 Mestre, qual he o mandamento grande na Lei?
37 E Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deos com todo teu coração, e com toda tua alma, e com todo teu entendimento.
38 Este he o primeiro e grande mandamento.
39 E o segundo, he semelhante a este: Amarás a teu proximo como a ti mesmo.
40 Destes dous mandamentos depende toda a Lei, e os Prophetas.
41 E congregados os Phariseos, Jesus lhes perguntou,
42 Dizendo: Que vos parece do Christo? cujo filho he? elles lhe disserão: De David.
43 Disse-lhes elle: Pois como David em espirito o chama Senhor, dizendo:
44 Disse o Senhor a meu Senhor: Assenta-te á minha mão direita, até que ponha a teus inimigos por escabello de teus pés.
45 Pois se David o chama Senhor, como he seu filho?
46 E ninguem lhe podia responder palavra; nem ousou ninguem desde aquelle dia a mais lhe perguntar.

CAPITULO 23.

1 ENTÃO Jesus falou á multidão, e a seus discipulos,
2 Dizendo: Sobre a cadeira de Moyses se assentão os Escribas e Phariseos.
3 Assim que tudo o que vos disserem que guardeis, guardai-o, e fazei-o: mas não façais segundo suas obras; porque dizem e não fazem.
4 Porque lião cargas pezadas, e difíceis de levar, e as pôem sobre os hombros dos homens; porém elles nem ainda com seu dedo as querem mover
5 E todas suas obras fazem, para serem vistos dos homens; porque alargão suas phylacterias, e estendem as bordas de seus vestidos.
6 E amão os primeiros assentos nas ceas, e as primeiras cadeiras nas sinagogas.
7 E as saudaçoes nas praças, e serem chamados dos homens, Rabbi, Rabbi.
8 Mas vósoutros não vos chameis Rabbi; porque hum he vosso Mestre, a saber o Christo: e todos vósoutros sois irmãos.
9 E não chameis a ninguem na terra vosso Pai; porque hum he vosso Pai, a saber o que está nos ceos.
10 Nem vos chameis Mestres; porque hum he vosso Mestre, a saber o Christo.
11 Porém o maior de vósoutros seja vosso servidor.
12 E o que a si mesmo se levantar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será levantado.
13 Mas ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas; porque cerrais o reino dos ceos diante dos homens; por quanto nem vósoutros entrais, nem aos que entrão deixais entrar.
14 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas; porque comeis as casas das viuvas, e isso com pretexto de larga oração; por isso recebereis mais grave juizo.
15 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas; porque rodeais o mar, e a terra, por fazerdes hum proselyto; e quando já he feito, o fazeis filho do inferno, em dobro mais que a vósoutros.
16 Ai de vósoutros guias cegas, que dizeis: Qualquer que jurar pelo Templo, não he nada; mas qualquer que jurar pelo ouro do Templo, he devedor.
17 Loucos e cegos; porque qual he maior, o ouro, ou o Templo, que santifica ao ouro?
18 Item: Qualquer que jurar pelo Altar, não he nada; mas qualquer que jurar pelo presente que está sobre elle, he devedor.
19 Loucos e cegos; porque qual he maior, o presente, ou o Altar, que santifica ao presente?
20 Por tanto o que jurar pelo Altar, jura por elle, e por tudo o que sobre elle está.
21 E o que jurar pelo Templo, jura por elle, e pelo que nelle habita.
22 E o que jurar pelo Ceo, jura pelo Throno de Deos, e pelo que sobre elle está assentado.
23 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas: porque dizimais a ortelã, e o endro, e o cominho, e deixais o mais grave da Lei, a saber o juizo, e a misericordia, e a fé: isto era necessario fazer, e não deixar o outro.
24 Guias cegas, que coais o mosquito e engolis o camelo.
25 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas: porque alimpais o exterior do copo, ou do prato; mas de dentro estão cheios de roubo e intemperança.
26 Phariseo cego, alimpa primeiro o que está de dentro do copo, e do prato, para que tambem o exterior delles fique limpo.
27 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas; porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que de fóra em verdade parecem formosos, mas de dentro estão cheios de ossos de mortos, e de toda immundicia.
28 Assim tambem vósoutros, de fóra em verdade pareceis justos aos homens, porém de dentro estais cheios de hypocrisia e iniquidade.
29 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos, hypocritas; porque edificais os sepulcros dos Prophetas, e adornais os monumentos dos justos:
30 E dizeis: se fôramos em os dias de nossos pais, nunca com elles houveramos communicado no sangue dos Prophetas.
31 Assim contra vós mesmos testificais, que sois filhos daquelles que matarão aos Prophetas.
32 Enchei pois vós tambem a medida de vossos pais.
33 Serpentes, raça de viboras, como escapareis da condemnação do inferno?
34 Portanto vêdes aqui vos mando Prophetas, e Sabios, e Escribas; e delles a huns matareis, e crucificareis, e delles a outros açoutareis em vossas Synagogas, e perseguireis de cidade em cidade.
35 Para que venha sobre vósoutros todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra; desde o sangue de Abel o justo, até o sangue de Zacharias, filho de Barachias, ao qual matastes entre o Templo e o Altar.
36 Em verdade vos digo, que tudo isto virá sobre esta geração.
37 Jerusalem, Jerusalem, que matas aos Prophetas, e apedrejas aos que te são enviados; quantas vezes quiz eu ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus pintos debaixo de suas azas; e não quizestes.
38 Vêdes aqui vossa casa se vos deixa deserta.
39 Porque eu vos digo, que desde agora mais me não vereis, até que digais: bemdito aquelle que vem em o nome do Senhor.

CAPITULO 24.

1 E SAHINDO Jesus do Templo, se foi: e chegarão-se a elle seus discipulos, para lhe mostrarem os edificios do Templo.
2 E disse-lhes Jesus: Não vêdes tudo isto? em verdade vos digo, que não será deixada aqui pedra sobre pedra, que não seja derribada.
3 E assentando-se no monte das Oliveiras, chegarão-se a elle os discipulos á parte, dizendo: Dize-nos, quando serão estas cousas, e que sinal haverá de tua vinda, e da consummação do mundo?
4 E respondendo Jesus, disse-lhes: Olhai que ninguem vos engane.
5 Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Christo, e a muitos enganarão.
6 E ouvireis de guerras, e de rumores de guerras: olhai que não vos espanteis; porque he necessario, que tudo isto aconteça: mas ainda não he o fim.
7 Porque se levantará gente contra gente, e reino contra reino; e haverá fomes, e pestilencias, e terremotos em diversos lugares.
8 Mas todas estas cousas são somente principio de dores.
9 Então vos entregarão, para serdes afligidos, e matar-vos-hão; e sereis aborrecidos de todas as gentes, por causa de meu nome.
10 E muitos então serão escandalizados; e entregar-se-hão huns aos outros, e huns aos outros se aborrecerão.
11 E muitos falsos prophetas se levantarão, e a muitos enganarão:
12 E por se multiplicar a iniquidade, a caridade de muitos se esfriará.
13 Mas o que perseverar até o fim, esse será salvo.
14 E prégar-se-ha este Evangelho do Reino em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim.
15 Portanto quando virdes a abominação do assolamento, de que foi dito por Daniel o Propheta, que está no lugar santo, (quem lê, advirta.)
16 Então os que estiverem em Judea, fujão para os montes.
17 O que estiver sobre o telhado, não desça a tomar alguma cousa de sua casa.
18 E o que estiver no campo, não torne atras a tomar seus vestidos.
19 Mas ai das prenhes, e das que criarem naquelles dias.
20 Orai porém, que vossa fugida não aconteça em inverno, nem em Sabbado.
21 Porque haverá então grande afflicção, qual nunca houve desde o principio do mundo até agora, nem tão pouco haverá.
22 E se aquelles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria: mas por causa dos escolhidos, serão abreviados aquelles dias.
23 Então se alguem vos disser: Eis aqui está o Christo, ou ali, não o creais.
24 Porque se levantarão falsos Christos, e falsos Prophetas; e tão grandes sinaes e prodigios farão, que se possivel fôra, até aos escolhidos enganarião.
25 Vêdes aqui vo-lo tenho dito d’antes.
26 Assim que se vos disserem: eilo aqui está no deserto, não saiais; eilo aqui em as camaras, não o creais.
27 Porque como o relampago, que sahe do Oriente, e apparece até o Occidente, assim será tambem a vinda do Filho do homem.
28 Porque aonde quer que estiver o corpo morto, ali se ajuntarão as aguias.
29 E logo depois da afflicção daquelles dias, o sol se escurecerá, e a lua não dará seu resplandor, e as estrellas cahirão do ceo, e as forças dos ceos se commoverão.
30 Então apparecerá no ceo o sinal do Filho do homem; e então todas as tribus da terra lamentarão, e verão ao Filho do homem, que vem sobre as nuvens do ceo, com grande potencia e gloria.
31 E mandará a seus anjos com grande voz de trombeta, e ajuntarão a seus escolhidos desde os quatro ventos, desde hum cabo dos ceos até o outro.
32 E da figueira aprendei a comparação; quando já seus ramos se enverdecem, e as folhas brotão, sabeis que já o verão está perto.
33 Assim tambem vósoutros, quando virdes todas estas cousas, sabei que já está perto ás portas.
34 Em verdade vos digo, que não passará esta geração, até que todas estas cousas não aconteção.
35 O ceo e a terra passarão, mas minhas palavras em maneira nenhuma passarão.
36 Porém daquelle dia e hora, ninguem o sabe, nem os anjos do ceo, senão só meu Pai.
37 E como forão os dias de Noé, assim será tambem a vinda do Filho do homem.
38 Porque como em os dias antes do diluvio andavão comendo, e bebendo; casando, e dando em casamento, até o dia que Noé entrou na arca;
39 E não o conhecêrão, até que veio o diluvio, e os levou a todos; assim será tambem a vinda do Filho do homem.
40 Então estarão dous no campo, hum será tomado, e outro será deixado.
41 Duas estarão moendo a hum moinho, huma será tomada, e outra será deixada.
42 Vigiai pois, porque não sabeis a que hora ha de vir vosso Senhor.
43 Porém isto sabei, que se o pai de familia soubesse, a que vela da noite o ladrão havia de vir, vigiaria, e não deixaria minar sua casa.
44 Portanto tambem vósoutros estai apercebidos, porque o Filho do homem ha de vir á hora que não cuidais.
45 Quem pois he o servo fiel e prudente, ao qual seu Senhor pôz sobre seus servidores, para lhes dar sustento a seu tempo?
46 Bemaventurado aquelle servo, ao qual, quando seu Senhor vier, o achar fazendo assim.
47 Em verdade vos digo, que sobre todos seus bens o porá.
48 Porém se aquelle máo servo disser em seu coração: meu Senhor tarda em vir;
49 E começar a espancar seus conservos, e a comer, e a beber com os borrachos:
50 Virá o Senhor daquelle servo, ao dia que não espera, e á hora que não sabe.
51 E separa-lo-ha, e porá sua parte com os hypocritas: ali será o pranto, e o ranger de dentes.

CAPITULO 25.

1 ENTÃO o reino dos ceos será semelhante a dez virgens, que tomando suas lampadas, sahirão ao encontro ao esposo.
2 E cinco dellas erão prudentes, e cinco parvas.
3 As que erão parvas, tomando suas lampadas, não tomarão azeite comsigo.
4 Mas as prudentes tomarão azeite em seus vasos, com suas lampadas.
5 E tardando o Esposo, toscanejarão todas, e adormecêrão.
6 E á meia noite se fez hum clamor, que dizia: Eis aqui vem o esposo, sahi-lhe ao encontro.
7 Então todas aquellas virgens se levantarão, e aparelharão suas lampadas.
8 E as parvas disserão ás prudentes: dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lampadas se apagão.
9 Mas as prudentes responderão, dizendo: em maneira nenhuma, para que por ventura não nos falte a nós nem a vós; ide antes aos que o vendem, e comprai para vósoutras.
10 E idas ellas a comprar, veio o Esposo; e as que estavão aparelhadas, entrárão com elle ás vodas, e fechou-se a porta.
11 E depois viérão tambem as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.
12 E respondendo elle, disse: Em verdade vos digo, que não vos conheço.
13 Vigiai pois porque não sabeis o dia, nem a hora, em que o Filho do homem ha de vir.
14 Porque he como hum homem, que partindo para fóra da terra, chamou a seus servos, entregou-lhes seus bens.
15 E a hum deo cinco talentos, e a outro dous, e ao terceiro hum, a cada hum conforme a sua faculdade, e partio logo para longe.
16 E partido elle, o que tinha recebido cinco talentos, negociou com elles, e grangeou outros cinco talentos.
17 Semelhantemente tambem, o que tinha recebido dous, grangeou tambem outros dous.
18 Mas o que tinha recebido hum, foi, e enterrou-o no chão, e escondeo o dinheiro de seu Senhor.
19 E depois de muito tempo veio o Senhor daquelles servos, e fez contas com elles.
20 E chegando o que tinha recebido cinco talentos, trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, cinco talentos me entregaste, eisaqui outros cinco talentos tenho grangeado com elles.
21 E seu Senhor lhe disse: Bem está, bom servo e fiel: sobre pouco foste fiel, sobre muito te porei; entra em o gozo de teu Senhor.
22 E chegando tambem o que tinha recebido dous talentos, disse: Senhor; dous talentos me entregaste, eisaqui outros dous talentos tenho grangeado com elles.
23 Seu Senhor lhe disse: Bem está, bom servo e fiel: sobre pouco foste fiel, sobre muito te porei; entra em o gozo de teu Senhor.
24 Porém chegando tambem o que tinha recebido hum talento, disse: Senhor, eu te conhecia, que es homem duro, que ségas aonde não semeaste, e apanhas aonde não derramaste:
25 E atemorizado, fui, e escondi teu talento na terra; ves aqui tens o teu.
26 Porém respondendo seu Senhor, disse-lhe: Servo maligno e negligente, sabias que ségo aonde não semeei, e apanho onde não derramei.
27 Portanto te convinha dar meu dinheiro aos cambiadores, e vindo eu, receberia o meu com usura.
28 Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos.
29 Porque a qualquer que tiver, ser-lhe-ha dado, e terá em abundancia; porém ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado.
30 E ao servo inutil, lançai-o nas trevas exteriores: ali será o pranto, e o ranger de dentes.
31 E quando o Filho do homem vier em sua gloria, e todos os santos anjos com elle, então se assentará sobre o throno de sua gloria.
32 E serão ajuntadas diante delle todas as gentes, e aparta-los-ha huns dos outros, como aparta o pastor as ovelhas dos cabroens.
33 E porá as ovelhas á sua mão direita, porém os cabroens á sua esquerda.
34 Então dirá o rei aos que estiverem á sua mão direita: vinde bemditos de meu Pai, possui por herança o reino, que vos está aparelhado desde a fundação do mundo.
35 Porque tive fome, e déstes-me de comer; tive sêde, e déstes-me de beber; fui estrangeiro, e recolhestes-me;
36 Nu, e vestistes-me; enfermei, e visitastes-me; estive na prisão, e viestes a mim.
37 Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos faminto, e te sustentámos; ou sedento, e te dêmos de beber?
38 E quando te vimos estrangeiro, e te recolhemos; ou nu, e te vestimos?
39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e viémos a ti?
40 E respondendo o rei, dir-lhes-ha: em verdade vos digo, que em quanto o fizestes a hum destes de meus meninos irmãos, a mim o fizestes.
41 Então dirá tambem aos que estiverem á mão esquerda; apartai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno, aparelhado para o Diabo e seus Anjos.
42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sêde, e não me déstes de beber.
43 Fui estrangeiro, e não me recolhestes; nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes.
44 Então tambem elles lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos faminto, ou sedento, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo, que em quanto a hum destes meninos o não fizestes, nem a mim o fizestes.
46 E irão estes ao tormento eterno, porém os justos á vida eterna.

CAPITULO 26.

1 E ACONTECEO, que como Jesus tinha acabado todas estas palavras, disse a seus discipulos:
2 Bem sabeis, que daqui a dous dias he a Pascoa, e o Filho do homem será entregue, para ser crucificado.
3 Então os principes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo se ajuntárão na sala do summo pontifice, o qual se chamava Caiphas.
4 E consultarão juntamente, para prenderem a Jesus por engano, e o matarem.
5 Porém dizião: não na Festa, porque se não faça alvoroço entre o povo.
6 E estando Jesus em Bethania, em casa de Simão o Leproso:
7 Veio a elle huma mulher com hum vaso de alabastro, de unguento de grande preço, e derramou-lho sobre a cabeça, estando elle assentado á mesa.
8 E vendo-o seus discipulos, indignarão-se, dizendo: De que serve este desperdicio?
9 Porque este unguento se podia vender por muito, e dar-se o dinheiro aos pobres.
10 Porém entendendo-o Jesus, disse-lhes: Porque molestais a esta mulher? pois me fez huma boa obra.
11 Porque aos pobres, sempre comvosco os tendes; porém a mim me não tendes sempre.
12 Porque derramando ella este unguento sobre meu corpo, para preparação de meu enterramento o fez.
13 Em verdade vos digo, que aonde quer que este Evangelho em todo o mundo for prégado, tambem o que esta fez será dito para sua memoria.
14 Então hum dos doze, chamado Judas Iscariota, se foi aos principes dos sacerdotes;
15 E disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? e elles lhe assinalárão trinta moedas de prata.
16 E desde então buscava opportunidade, para o entregar.
17 E ao primeiro dia da festa dos pães asmos, vierão os discipulos a Jesus, dizendo-lhe: Aonde queres que te aparelhemos para comer a Pascoa?
18 E elle disse: Ide á cidade a hum tal, e dizei-lhe: o Mestre diz: meu tempo está perto; comtigo farei a Pascoa juntamente com meus discipulos.
19 E os discipulos fizerão como Jesus lhes mandára, e aparelhárão a Pascoa.
20 E vinda a tarde, assentou-se á mesa com os doze.
21 E comendo elles, disse: Em verdade vos digo, que hum de vósoutros me ha de trahir.
22 E entristecendo-se elles em grande maneira, começou cada hum delles a dizer-lhe: Por ventura sou eu, Senhor?
23 E respondendo elle, disse: O que comigo mete a mão no prato, esse me ha de trahir.
24 Em verdade o Filho do homem vai, como delle está escrito: mas ai daquelle homem, por quem o Filho do homem he trahido; bom lhe fôra ao tal homem, se não houvera nascido.
25 E respondendo Judas, o que o trahia, disse: Por ventura sou eu, Rabbi? elle lhe disse: Tu o disseste.
26 E comendo elles, tomou Jesus o pão, e bemdizendo o partio, e o deo aos discipulos, e disse: Tomai, comei, isto he o meu corpo.
27 E tomando o copo, e dando graças, deo-lho, dizendo: Bebei delle todos.
28 Porque isto he o meu sangue, o sangue do novo Testamento, o qual por muitos he derramado, para remissão dos peccados.
29 E digo-vos, que desde agora não beberei mais deste fruto de vide, até aquelle dia, quando comvosco o beber novo em o reino de meu Pai.
30 E havendo cantado o hymno, sahirão ao monte das Oliveiras.
31 Então Jesus lhes disse: Todos vósoutros vos escandalizareis em mim esta noite; porque está escrito: ferirei ao pastor, e as ovelhas do rebanho serão derramadas.
32 Mas depois de eu haver resuscitado, irei diante de vósoutros a Galilea.
33 Porém respondendo Pedro, disse-lhe: Ainda que todos em ti se escandalizem, eu nunca me escandalizarei.
34 Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo, que nesta mesma noite, antes que o gallo cante, me negarás tres vezes.
35 Disse-lhe Pedro: Ainda que comtigo morrer me seja necessario, não te negarei. E todos os discipulos dissérão o mesmo.
36 Então veio Jesus com elles a hum lugar, chamado Gethsemane, e disse aos discipulos: assentai-vos aqui, até que vá, e ali ore.
37 E tomando comsigo a Pedro, e aos dous filhos de Zebedeo, começou-se a entristecer, e a angustiar em grande maneira.
38 Então lhes disse: Minha alma está totalmente triste até a morte; ficai-vos aqui, e vigiai comigo.
39 E indo hum pouco mais adiante, prostrou-se sobre seu rosto, orando, e dizendo: Pai meu, se he possivel, passe de mim este copo; porém, não como eu quero, mas como tu queres.
40 E veio a seus discipulos, e achou-os dormindo, e disse a Pedro: Basta que nem huma hora comigo podestes vigiar?
41 Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação: o espirito em verdade está prestes, mas a carne he fraca.
42 E tornando segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este copo não pode passar de mim, sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.
43 E vindo a elles, achou-os outra vez dormindo, porque seus olhos estavão carregados.
44 E deixando-os, tornou, e orou terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
45 Então veio a seus discipulos, e disse-lhes: Dormi já e descançai; vêdes aqui chegada he a hora, e o Filho do homem he entregue em mãos dos peccadores.
46 Levantai-vos, vamo-nos, vêdes aqui chegado he o que me trahe.
47 E falando elle ainda, eis que vem Judas, hum dos doze, e com elle huma grande multidão, com espadas e bastoens, da parte dos principes dos sacerdotes, e dos anciãos do povo.
48 E o que o trahia, lhes tinha dado sinal, dizendo: Ao que eu beijar, esse he, prendei-o.
49 E logo chegando a Jesus, disse: Hajas gozo, Rabbi; e o beijou.
50 Porém Jesus lhe disse: Amigo, a que vens? então chegarão, e lançárão mão de Jesus, e o prendêrão.
51 E eis que hum dos que estavão com Jesus, estendendo a mão, puxou de sua espada, e ferindo ao servo do summo pontifice, cortou-lhe huma orelha.
52 Então Jesus lhe disse: Torna tua espada a seu lugar: porque todos os que tomarem espada, á espada perecerão.
53 Ou cuidas tu, que não possa eu agora orar a meu Pai, e elle me daria mais de doze legioens de anjos?
54 Como pois se cumpririão as Escrituras, que dizem, que assim convem que se faça?
55 Naquella mesma hora disse Jesus á multidão: Como a salteador sahistes com espadas e bastoens a me prender: cada dia me assentava comvosco, ensinando no Templo, e não me prendestes.
56 Mas tudo isto se fez, para que as Escrituras dos Prophetas se cumprão. Então todos os discipulos fugirão, deixando-o a elle.
57 E os que prenderão a Jesus, o trouxerão a Caiphas, o summo pontifice, aonde os escribas e os anciãos estavão congregados.
58 E Pedro o seguia de longe, até á sala do summo pontifice: e entrando dentro, assentou-se com os criados, para ver o fim.
59 E os principes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o concilio, buscavão algum falso testemunho contra Jesus, para o poderem matar, e não o achavão.
60 E ainda que muitas falsas testemunhas se apresentavão, comtudo não o achavão.
61 Mas por derradeiro viérão duas falsas testemunhas, e disserão: Este disse; eu posso derribar o Templo de Deos, e edifica-lo em tres dias.
62 E levantando-se o summo pontifice, disse-lhe: Não respondes nada? que testificão estes contra ti?
63 Porém Jesus calava. E respondendo o summo pontifice, disse-lhe: esconjuro-te pelo Deos vivente, que nos digas, se tu es o Christo, o Filho de Deos?
64 Jesus lhe disse: Tu o disseste. Porém digo-vos, que desde agora vereis ao Filho do homem, assentado á mão direita da potencia de Deos, e vindo em as nuvens do ceo.
65 Então o summo pontifice rasgou seus vestidos, dizendo: Blasfemou, que mais necessitamos de testemunhas? vêdes aqui agora ouvistes sua blasfemia.
66 Que vos parece? e respondendo elles, disserão: Culpado he de morte.
67 Então lhe cuspirão no rosto, e lhe derão punhadas.
68 E outros lhe davão bofetadas, dizendo: Prophetiza-nos, ó Christo, quem he o que te ferio?
69 E Pedro estava assentado fóra na sala; e chegou-se a elle huma criada, dizendo: tambem tu estavas com Jesus o Galileo.
70 Mas elle o negou diante de todos, dizendo: não sei o que dizes.
71 E sahindo á anteporta, o vio outra, e disse aos que ali estavão: tambem este estava com Jesus o Nazareno.
72 E negou-o outra vez com juramento, dizendo: não conheço a esse homem.
73 E dali a hum pouco, chegando os que ali estavão, disserão a Pedro: Verdadeiramente tambem tu es delles: porque tua fala te manifesta.
74 Então começou elle a amaldiçoar, e a jurar, dizendo: não conheço a esse homem.
75 E logo o gallo cantou. E lembrou-se Pedro da palavra de Jesus, que lhe disséra: Antes que o gallo cante, me negarás tres vezes. E sahindo para fóra, chorou amargosamente.

CAPITULO 27.

1 E VINDA a manhã, juntamente tomarão conselho todos os principes dos sacerdotes, e anciãos do povo, contra Jesus, para o matarem.
2 E o levarão amarrado, e o entregárão a Poncio Pilatos, o presidente.
3 Então Judas, o que o havia trahido, vendo que já estava condemnado, tornou, arrependido, as trinta moedas de prata aos Principes dos Sacerdotes, e aos Anciãos:
4 Dizendo: pequei, trahindo o sangue innocente. Porém elles disserão: que nos toca isso a nós? vê-o tu.
5 E lançando elle as moedas de prata no Templo, partio, e foi, e enforcou-se.
6 E os Principes dos Sacerdotes, tomando as moedas de prata, disserão: não he licito pô-las no cofre das offertas, porquanto preço de sangue he.
7 E tomando conselho juntamente, comprárão com ellas o campo do Oleiro, para sepultura dos estrangeiros.
8 Pelo que aquelle campo foi chamado campo de sangue, até o dia de hoje.
9 Então se cumprio o que foi dito pelo Propheta Jeremias, que disse: e tomarão as trinta moedas de prata, preço do apreçado pelos filhos de Israël, ao qual elles apreçarão.
10 E as derão pelo campo do Oleiro, segundo o que me mandou o Senhor.
11 E Jesus esteve diante do Presidente, e o Presidente perguntou-lhe, dizendo: es tu o Rei dos Judeos? e Jesus lhe disse: tu o dizes.
12 E sendo accusado pelos Principes dos Sacerdotes e os Anciãos, nada respondeo.
13 Pilatos então lhe disse: não ouves quantas cousas testificão contra ti?
14 E não lhe respondeo nem huma só palavra, de maneira que o Presidente se maravilhava muito.
15 E na festa costumava o Presidente soltar hum preso ao povo, qualquer que quizessem.
16 E tinhão então hum preso bem conhecido, chamado Barabbas.
17 Juntos pois elles, disse-lhes Pilatos: qual quereis que vos solte? a Barabbas, ou a Jesus, que he chamado Christo?
18 Porque sabia que por inveja o entregárão.
19 E estando elle assentado no tribunal, sua mulher enviou a elle, dizendo: não tenhas que fazer com aquelle justo; porque hoje padeci muitas cousas em sonhos por amor delle.
20 Mas os Principes dos Sacerdotes e os Anciãos persuadirão á multidão pedissem a Barabbas, e a Jesus matassem.
21 E respondendo o Presidente, disse-lhes: qual destes dous quereis que vos solte? e elles disserão: a Barabbas.
22 Pilatos lhes disse: que pois farei de Jesus, que he chamado Christo? disserão-lhe todos: seja crucificado.
23 Porém o Presidente disse: pois que mal tem feito? e elles clamavão mais, dizendo: seja crucificado.
24 Vendo pois Pilatos que nada aproveitava, antes se fazia mais alvoroço, tomando agua, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: estou innocente do sangue deste justo: vêde-o vósoutros.
25 E respondendo todo o povo, disse: seu sangue venha sobre nós, e sobre nossos filhos.
26 Então soltou-lhes a Barabbas: porém havendo açoutado a Jesus, o entregou para ser crucificado.
27 Então os soldados do Presidente, levando a Jesus comsigo á audiencia, ajuntarão a elle toda a quadrilha.
28 E despindo-o, o cobrirão com huma capa de grã.
29 E tecendo huma coroa de espinhos, pozerão-lha sobre a cabeça, e huma cana em sua mão direita, e pondo-se de joelhos diante delle, zombavão delle, dizendo: hajas gozo, Rei dos Judeos.
30 E cuspindo nelle, tomarão a cana, e dávão-lhe com ella na cabeça.
31 E depois que o havião escarnecido, despirão-lhe a capa, e o vestirão com seus vestidos, e o levarão a crucificar.
32 E sahindo, acharão a hum homem Cyreneo, por nome Simão: a este constrangêrão a que levasse sua cruz.
33 E chegando ao lugar chamado Golgotha, que se diz o lugar da Caveira.
34 Derão-lhe a beber vinagre misturado com fel; e provando-o, não o quiz beber.
35 E havendo-o crucificado, repartirão seus vestidos, lançando sortes; paraque se cumprisse o que foi dito pelo propheta: repartirão entre si meus vestidos, e sobre minha tunica lançárão sortes.
36 E assentando-se, o guardavão ali.
37 E pozerão por cima de sua cabeça sua causa escrita: ESTE HE JESUS, O REI DOS JUDEOS.
38 Então forão crucificados com elle dous salteadores, hum á mão direita, e outro á esquerda.
39 E os que passavão, blasphemavão delle, meneiando suas cabeças;
40 E dizendo: Tu, que derribas o Templo, e em tres dias o reedificas, salva-te a ti mesmo. Se es Filho de Deos, desce da cruz.
41 E da mesma maneira tambem os Principes dos Sacerdotes, com os Escribas, e Anciãos, e Phariseos, escarnecendo delle dizião:
42 A outros salvou, a si mesmo não se pode salvar. Se he o Rei de Israël, desça agora da cruz, e creremos nêlle.
43 Confiou em Deos, livre-o agora, se bem lhe quer; porque disse: sou Filho de Deos.
44 E o mesmo lhe lançarão tambem em rosto os salteadores, que com elle estavão crucificados.
45 E desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra até á hora nona.
46 E perto da hora nona clamou Jesus com grande voz, dizendo: ELI, ELI LAMA SABACHTHANI: isto he, Deos meu, Deos meu, porque me desemparaste?
47 E alguns dos que ali estavão, ouvindo-o, dizião: a Elias chama este.
48 E logo correndo hum delles, tomou huma esponja, e enchendo-a de vinagre pô-la em huma cana, e dava-lhe de beber.
49 Porém os outros dizião: Deixa, vejamos se Elias vem a livra-lo.
50 E Jesus clamando outra vez com grande voz, deo o espirito.
51 E eis que o véo do Templo se rasgou em dous, de riba até abaixo, e a terra tremeo, e as pedras se fendêrão.
52 E os sepulcros se abrirão, e muitos corpos de santos, que dormirão, forão resuscitados.
53 E sahidos dos sepulcros, depois de sua resurreição, viérão á santa cidade, e apparecerão a muitos.
54 E o Centurião, e os que com elle guardavão a Jesus, vendo o terremoto, e as cousas que havião succedido, temerão em grande maneira, dizendo: Verdadeiramente Filho de Deos era este.
55 E estavão ali muitas mulheres olhando de longe, as quaes desde Galilea havião seguido a Jesus, servindo-o.
56 Entre as quaes estava Maria Magdalena, e Maria mãi de Jacobo e de José, e a mãi dos filhos de Zebedeo.
57 E vinda já a tarde, veio hum homem rico de Arimathea, por nome José, o qual tambem era discipulo de Jesus.
58 Este chegou a Pilatos, e pedio o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo se lhe désse.
59 E tomando José o corpo, embrulhou-o em hum lançol limpo fino.
60 E pô-lo em seu sepulcro novo, que tinha lavrado em huma penha; e revolvendo huma grande pedra á porta do sepulcro, se foi.
61 E estavão ali Maria Magdalena, e a outra Maria, assentadas de fronte do sepulcro.
62 E o seguinte dia, que he depois da preparação, ajuntarão-se os Principes dos Sacerdotes, e os Phariseos a Pilatos,
63 Dizendo: Senhor, lembramos-nos, que aquelle enganador, vivendo ainda, disse: Depois de tres dias resuscitarei.
64 Manda pois que o sepulcro se segure até o dia terceiro, porque por ventura não venhão seus discipulos de noite, e o furtem, e digão ao povo,que dos mortos resuscitou: e assim será o derradeiro erro peior que o primeiro.
65 E disse-lhes Pilatos: a guarda tendes; ide, segurai-o como o entendeis.
66 E indo elles, segurarão o sepulcro com a guarda, sellando a pedra.

CAPITULO 28.

1 E TARDE depois do Sabbado, quando já começava esclarecer para o primeiro dia da semana, veio Maria Magdalena, e a outra Maria, a ver o sepulcro.
2 E eis que se fez hum grande terremoto; porque o Anjo do Senhor descendo do ceo, chegou, e revolveo a pedra da porta, e estava assentado sobre ella.
3 E seu aspecto era como hum relampago, e seu vestido branco como neve.
4 E de medo delle ficarão os guardas mui assombrados, e tornarão-se como mortos.
5 Porém respondendo o Anjo, disse ás mulheres: não temais vósoutras, porque eu sei que buscais a Jesus, o que foi, crucificado.
6 Não está aqui, porque já resuscitou, como disse; vinde, vêde o lugar onde jazia o Senhor.
7 E ide presto, dizei a seus discipulos que já resuscitou dos mortos; e vêdes aqui, elle vos vai diante a Galilea, ali o vereis. Vêdes aqui, vo-lo tenho dito.
8 E sahindo ellas apresuradamente do sepulcro, com temor e grande gozo, corrêrão a denunciá-lo a seus discipulos.
9 E indo ellas a denunciá-lo a seus discipulos, eis que Jesus lhes sahe ao encontro, dizendo: Hajais gozo. E chegando ellas, pegarão de seus pés, e o adorarão.
10 Então Jesus lhes disse: não temais, ide, denunciai a meus irmãos, que vão a Galilea, e lá me verão.
11 E indo ellas, eis que huns da guarda viérão á cidade, e denunciárão aos Principes dos Sacerdotes todas as cousas que tinhão acontecido.
12 E congregados elles com os Anciãos, e tomando conselho entre si, derão muito dinheiro aos soldados;
13 Dizendo: dizei; seus discipulos vierão de noite, e o furtarão, dormindo nósoutros.
14 E se isto vier a ser ouvido do Presidente, nós o persuadiremos, e vos faremos seguros.
15 E elles tomando o dinheiro, fizerão como estavão instruidos. E foi este dito divulgado entre os Judeos até o dia de hoje.
16 E os onze discipulos se forão á Galilea, ao monte aonde Jesus lhes tinha ordenado.
17 E como o virão, o adorarão; porém alguns duvidavão.
18 E chegando Jesus a elles, falou-lhes, dizendo: toda potestade me he dado no ceo e na terra.
19 Portanto ide, ensinai a todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo:
20 Ensinando-lhes que guardem todas as cousas que vos tenho mandado. E vêdes aqui, eu estou comvosco todos os dias, até á consummação do mundo. Amen.

MARCOS

CAPITULO 1.

1 PRINCIPIO do Evangelho de Jesu-Christo, Filho de Deos:
2 Como está escrito em os Prophetas: Eis que eu envio meu Anjo diante de tua face, que preparará teu caminho diante de ti.
3 Voz do que clama em o deserto: Aparelhai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.
4 Estava João baptizando no deserto, e pregando o baptismo de arrependimento, para remissão dos peccados.
5 E sahia a elle toda a provincia de Judea, e os de Jerusalem; e erão todos baptizados delle no rio de Jordão, confessando seus peccados.
6 E João andava vestido de pellos de camelo, e com hum cinto de couro ao redor de seus lombos; e comia gafanhotos, e mel do mato.
7 E prégava, dizendo: Após mim vem o que he mais forte que eu; ao qual eu não sou digno de encurvado desatar a correa de suas alparcas.
8 Bem vos tenho eu baptizado com agoa, mas elle vos baptizará com Espirito Santo.
9 E aconteceo naquelles dias, que veio Jesus de Nazareth, de Galilea, e foi baptizado de João no Jordão.
10 E logo, subindo da agua, vio abrir-se os ceos, e ao Espirito, que como pomba descia sobre elle.
11 E ouvio-se huma voz dos ceos, que dizia: tu es meu Filho amado, em quem me agrado.
12 E logo o Espirito o impellio para o deserto.
13 E esteve ali no deserto quarenta dias, tentado de Satanás: e estava com as feras, e os Anjos o servião.
14 E depois que João foi entregue a prisão, veio Jesus a Galilea, prégando o Evangelho do Reino de Deos:
15 E dizendo: o tempo he cumprido, e o Reino de Deos está perto; arrependei-vos, e crede no Evangelho.
16 E andando junto ao mar de Galilea, vio a Simão, e a André seu irmão, que lançavão a rede ao mar; (porque erão pescadores.)
17 E disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e farei que sejais pescadores de homens.
18 E deixando logo suas redes, o seguirão.
19 E passando dali hum pouco mais adiante, vio a Jacobo filho de Zebedeo, e a João seu irmão, que estavão no barco, concertando suas redes.
20 E logo os chamou; e elles deixando a seu pai Zebedeo no barco com os jornaleiros, forão após elle.
21 E entrarão em Capernaum; e logo em o Sabbado, entrando na Synagoga, ensinava.
22 E espantavão-se de sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os Escribas.
23 E estava em sua Synagoga delles hum homem com hum espirito immundo, e clamou,
24 Dizendo: Ah, que temos comtigo, Jesus Nazareno? vieste a destruirnos? bem sei quem es, o Santo de Deos.
25 E reprehendeo-o Jesus, dizendo: cala-te, e sahe delle.
26 E despedaçando-o o espirito immundo, e clamando com grande voz, sahio delle.
27 E de tal maneira se espantárão todos, que perguntavão entre si, dizendo: que he isto? que nova doutrina he esta? que com potestade até aos espiritos immundos manda, e lhe obedecem?
28 E logo sua fama sahio por toda a Provincia de redor de Galilea.
29 E sahindo logo da Synagoga, vierão á casa de Simão, e de André, com Jacobo e João.
30 E a sogra de Simão estava deitada com febre, e falarão-lhe logo della.
31 Então, chegando-se a ella, tomou-a pela mão, e levantou-a, e logo a febre a deixou, e os servia.
32 E vinda a tarde, quando ja o sol se punha, trazião-lhe todos os que se achavão mal, e os endemoninhados.
33 E toda a cidade se ajuntou á porta.
34 E curou a muitos, que se achavão mal de diversas enfermidades; e lançou fora muitos demonios; e não deixava falar os demonios, porquanto o conhecião.
35 E levantando-se mui de manhã, ainda bem de noite, sahio, e foi a hum lugar deserto, e ali orava.
36 E seguio-o Simão, e os que com elle estavão;
37 E achando-o, disserão-lhe: todos te buscão.
38 E elle lhes disse: Vamos ás aldeas vizinhas, para que eu pregue tambem ali, porque para isso sahi.
39 E prégava em suas Synagogas delles por toda Galilea, e lançava fora aos demonios.
40 E veio hum leproso a elle, rogando-lhe, e pondo-se de joelhos diante delle, e dizendo-lhe: Se quizeres, bem me podes fazer limpo.
41 E Jesus movido de intima compaixão, estendeo a mão, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo.
42 E havendo elle dito isto, logo a lepra se foi delle, e ficou limpo.
43 E defendendo-lhe rigorosamente; logo o despedio de si.
44 E disse-lhe: olha que não digas nada a ninguem; senão vai, mostra-te ao Sacerdote, e offerece por tua limpeza o que Moyses mandou, para que lhes conste.
45 Mas elle tendo sahido, começou a apregoar muitas cousas, e a divulgar o negocio; de maneira que ja não podia entrar publicamente na cidade; mas estava fora em lugares desertos, e de todas as partes vinhão a elle.

CAPITULO 2.

1 E DEPOIS de alguns dias entrou outra vez em Capernaum, e ouvio-se que estava em casa.
2 E logo se ajuntárão tantos, que nem ainda nos lugares junto á porta cabião: e falava-lhes a palavra.
3 E vierão a elle huns que trazião hum paralytico ás costas de quatro.
4 E não podendo chegar a elle por causa da multidão, descobrirão o telhado aonde estava, e fazendo hum buraco, abaixárão por elle o leito em que jazia o paralytico.
5 E vendo Jesus sua fé delles, disse ao paralytico: Filho, teus peccados te são perdoados.
6 E estavão ali assentados alguns dos Escribas, que arrazoavão em seus coraçoens, dizendo:
7 Porque fala este assim blasfemias? Quem pode perdoar peccados, senão só Deos?
8 E conhecendo logo Jesus em seu espirito, que assim entre si arrazoavão, disse-lhes: porque arrazoais destas cousas em vossos coraçoens?
9 Qual he mais facil? dizer ao paralytico: teus peccados te são perdoados? ou dizer-lhe: levanta-te, e toma teu leito, e anda?
10 Pois para que saibais, que o Filho do homem tem poder na terra para perdoar peccados, (disse ao paralytico):
11 A ti te digo: levanta-te, e toma teu leito, e vai-te para tua casa.
12 E logo se levantou; e tomando o leito, sahio em presença de todos; de tal maneira, que todos se espantárão, e glorificárão a Deos, dizendo: nunca tal vimos.
13 E tornou a sahir para o mar, e toda a multidão vinha a elle, e elle os ensinava.
14 E passando elle, vio a Levi, o filho de Alpheo, assentado na Alfandega, e disse-lhe: Segue-me; e levantando-se, o seguio.
15 E aconteceo, que estando elle assentado á mesa em sua casa, muitos publicanos e peccadores estavão tambem assentados á mesa com Jesus e seus discipulos; porque erão muitos, e o tinhão seguido.
16 E os Escribas e os Phariseos, vendo-o comer com os publicanos e peccadores, dissérão a seus discipulos: Que he isto, que come e bebe com os publicanos e peccadores?
17 E ouvindo-o Jesus, disse-lhes: os sãos não necessitão de Medico, senão os que estão doentes; eu não vim a chamar aos justos, senão aos peccadores a que se arrependão.
18 E os discipulos de João, e os dos Phariseos jejuavão; e vierão, e disserão-lhe: Porque jejuão os discipulos de João, e os dos Phariseos, e teus discipulos não jejuão?
19 E Jesus lhes disse: Podem por ventura os filhos de vodas jejuar, em quanto o Esposo com elles está? entre tanto que tem comsigo ao Esposo, não podem jejuar.
20 Mas dias virão, quando o Esposo lhes for tirado; e então naquelles dias jejuarão.
21 E ninguem deita remendo de panno novo em vestido velho; d’outra maneira o mesmo remendo novo rompe o velho, e faz-se peior rotura.
22 E ninguem deita vinho novo em odres velhos; d’outra maneira o vinho novo rompe os odres, e derrama-se o vinho, e os odres se damnão: mas o vinho novo em odres novos se ha de deitar.
23 E aconteceo, que passando elle pelos semeados em Sabbado, e indo seus discipulos andando, começárão a arrancar espigas.
24 E disserão-lhe os Phariseos: Vês isto? porque fazem o que não he licito em Sabbado?
25 E elle lhes disse: nunca léstes o que fez David, quando tinha necessidade e fome, elle e os que com elle estavão?
26 Como entrou na casa de Deos, em tempo de Abiathar Summo Pontifice, e comeo os pães da proposição, dos quaes não he licito comer, senão aos Sacerdotes, e tambem deo aos que com elle estavão?
27 E dizia-lhes: o Sabbado por causa do homem foi feito, não o homem por causa do Sabbado.
28 Assim que o Filho do homem até do Sabbado he Senhor.

CAPITULO 3.

1 E ENTROU outra vez em a Synagoga: e estava ali hum homem, que tinha huma mão secca.
2 E atentavão para elle, se em Sabbado o curaria, para o accusarem.
3 E disse ao homem que tinha a mão secca: Levanta-te no meio.
4 E disse-lhes: he licito fazer bem em Sabbados, ou fazer mal? salvar huma pessoa, ou matá-la? e elles calavão.
5 E olhando para elles ao redor com indignação, condoendo-se da dureza de seu coração disse ao homem: estende tua mão; e elle a estendeo; e foi sua mão restituida saã como a outra.
6 E sahindo os Phariseos, tiverão logo conselho juntamente com os Herodianos contra elle, como o matarião.
7 E retirou-se Jesus com seus discipulos para o mar: e o seguio huma grande multidão de Galilea, e de Judea.
8 E de Jerusalem, e de Idumea, e d’além do Jordão; e grande multidão dos de perto de Tyro, e de Sidon, ouvindo quão grandes cousas fazia, vierão a elle.
9 E disse a seus discipulos, que o barquinho de continuo estivesse perto delle, por causa da multidão; para que não o opprimissem.
10 Porque tinha curado a muitos, de tal maneira que todos quantos tinhão mal algum, cahião sobre elle, para tocá-lo.
11 E os espiritos immundos, vendo-o, se prostravão diante delle, e clamavão, dizendo: Tu es o Filho de Deos.
12 E elle lhes defendia rigorosamente, que o não manifestassem.
13 E subio ao monte, e chamou a si aos que quiz, e vierão a elle.
14 E ordenou aos doze para que estivessem com elle, e para os mandar a prégar.
15 E para que tivessem poder para curarem as enfermidades, e lançarem fora aos demonios.
16 A Simão, poz por nome, Pedro.
17 E a Jacobo filho de Zebedeo, e a João, irmão de Jacobo; e poz-lhes por nome, Boanerges, que he, filhos do trovão.
18 E a André, e a Philippe, e a Bartholomeo, e a Mattheus, e a Thomé, e a Jacobo filho de Alpheo, e a Thaddeo, e a Simão o Cananita.
19 E a Judas Iscariota, o que tambem o trahio. E vierão para casa.
20 E outra vez se ajuntou a multidão, de tal maneira, que nem ainda podião comer pão.
21 E como isto ouvirão os seus, sahirão a pegar delle; porque dizião: está fora de si.
22 E os Escribas, que descerão de Jerusalem, dizião: e Beelzebú tem, e pelo Principe dos demonios lança fora aos demonios.
23 E chamando-os a si, disse-lhes por parabolas: como pode Satanás lançar fora a Satanás?
24 E se algum Reino contra si mesmo for diviso, não pode o tal Reino subsistir.
25 E se alguma casa for divisa contra si mesma, não pode a tal casa subsistir.
26 E se Satanás se levantar contra si mesmo, e for diviso, não pode subsistir, mas tem fim.
27 Ninguem pode roubar o fato do valente, entrando em sua casa, se antes não amarrar ao valente: e então roubará sua casa.
28 Em verdade vos digo, que todos os peccados serão perdoados aos filhos dos homens, e toda sorte de blasfemias com que blasfemarem:
29 Porém qualquer que blasfemar contra o Espirito Santo, não tem perdão para sempre; mas he culpado do eterno juizo.
30 Porque dizião: espirito immundo tem.
31 Vierão pois seus irmãos e sua mãi; e estando de fora, enviárão a elle chamando-o.
32 E a multidão estava assentada ao redor delle; e disserão-lhe: vês aqui tua mãi e teus irmãos te buscão lá fora.
33 E elle lhes respondeo, dizendo: quem he minha mãi, ou meus irmãos?
34 E olhando de redor para os que ao redor delle estavão assentados, disse: vedes aqui minha mãi, e meus irmãos.
35 Porque qualquer que fizer a vontade de Deos, esse he meu irmão, e minha irmaã, e minha mãi.

CAPITULO 4.

1 E COMEÇOU outra vez a ensinar junto ao mar, e ajuntou-se a elle huma grande multidão, de tal maneira que entrando em hum barco, se assentou no mar; e toda a multidão estava em terra junto ao mar.
2 E ensinava-lhes por parabolas muitas cousas; e dizia-lhes em sua doutrina:
3 Ouvi, vedes aqui o semeador sahio a semear;
4 E aconteceo, que semeando elle, cahio huma parte da semente junto ao caminho, e vierão os passaros do ceo, e a comerão.
5 E outra cahio em pedregaes, aonde não tinha muita terra; e logo nasceo, porque não tinha terra funda.
6 Mas sahindo o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, seccou-se.
7 E outra cahio entre espinhos, e crescérão os espinhos, e afogarão-a, e não deo fruto.
8 E outra cahio em boa terra, e deo fruto, que subio, e cresceo: e deo hum trinta, e outro sessenta, e outro cento.
9 E disse-lhes: quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
10 E quando esteve só, perguntarão-lhe os que junto a elle estavão com os doze, ácerca da parábola.
11 E disse-lhes: a vósoutros vos he dado saber os mysterios do Reino de Deos: mas aos que estão de fora, todas estas cousas por parabolas se lhes dizem.
12 Para que vendo, vejão, e não advirtão; e ouvindo, oução, e não entendão; porque por ventura se não convertão, e lhes sejão perdoados os peccados.
13 E disse-lhes: não sabeis esta parabola? como pois entendereis todas as parabolas?
14 O semeador he o que semêa a palavra.
15 E estes são os de junto ao caminho, em os que a palavra se semêa; mas havendo-a ouvido, vem logo Satanás, e tira a palavra que em seus coraçoens foi semeada.
16 E semelhantemente estes são os que se semeão em pedregaes; os que havendo ouvido a palavra, logo com gozo a recebem.
17 E em si mesmos não tem raiz; antes são temporaes. Depois levantando-se tribulação, ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizão.
18 E estes são os que se semeão entre espinhos; a saber, os que ouvem a palavra:
19 E os cuidados deste mundo, e o engano das riquezas, e as cobiças ácerca das outras cousas, entrando, affogão a palavra, e fica sem fruto.
20 E estes são os que forão semeados em boa terra; os que ouvem a palavra, e a recebem, e dão fruto, hum trinta, e outro sessenta, e outro cento.
21 E disse-lhes: vem por ventura a candeia para se pôr debaixo do alqueire, ou debaixo da cama? não vem antes para se pôr sobre o candieiro?
22 Porque não ha nada encuberto que não haja de ser manifesto; nem nada se faz para ficar encuberto, mas para ser descuberto.
23 Se alguem tem ouvidos para ouvir, ouça.
24 E disse-lhes: olhai o que ouvis: com a medida que medirdes vos medirão; e ser-vos-ha acrescentado a vosoutros os que ouvis.
25 Porque ao que tem, ser-lhe-ha dado; e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.
26 E dizia: assim he o Reino de Deos, como se o homem lançasse semente na terra.
27 E dormisse, e se levantasse de noite e de dia, e a semente brotasse, e crescesse, não sabendo elle como.
28 Porque de si mesma fructifica a terra, primeiro herva, depois espiga, depois grão cheio na espiga.
29 E quando ja o fruto se mostra, logo lhe envia a fouce, porquanto chegada he a sega.
30 E dizia: a que assemelharemos o Reino de Deos? ou com que parábola o compararemos?
31 Com o grão da mostarda que quando se semea em terra, he o mais pequeno de todas as sementes que na terra ha.
32 E sendo ja semeado, sobe, e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramas, de tal maneira que os passaros do ceo se possão aninhar debaixo de sua sombra.
33 E com muitas taes parábolas lhes falava a palavra, segundo o que podião ouvir.
34 E sem parábola não lhes falava; mas a seus discipulos declarava tudo em particular.
35 E disse-lhes aquelle dia, vinda ja a tarde: passemos á outra banda.
36 E deixando elles a multidão, o tomarão comsigo como estava no barco, e havia tambem com elle outros barquinhos.
37 E levantou-se huma grande tempestade de vento, e davão as ondas por cima do barco, de tal maneira que ja se enchia.
38 E elle estava na popa dormindo sobre huma almofada, e despertarão-o, e disserão-lhe: Mestre, não se te dá de que nos perdemos?
39 E desperto elle, reprehendeo ao vento, e disse ao mar: cala-te, aquieta-te. E quietou-se o vento, e fez-se grande bonança.
40 E disse a elles: porque sois tão timidos? como, não tendes fé?
41 E temérão com grande temor, e dizião huns aos outros: mas quem he este, que até o vento e o mar lhe obedecem?

CAPITULO 5.

1 E VIEIRÃO á outra banda do mar, á província dos Gadarenos.
2 E sahindo elle do barco, logo lhe sahio ao encontro hum homem das sepulturas com hum espirito immundo,
3 Que tinha sua manida nas sepulturas, e nem ainda com cadeias o podia ninguem liar.
4 Porque muitas vezes fora liado com grilhoens e cadeias, e as cadeias forão por elle feitas em pedaços, e os grilhoens em migalhas, e ninguem o podia amansar.
5 E sempre de dia e de noite andava clamando pelos montes, e pelas sepulturas, e ferindo-se com pedras.
6 E como vio a Jesus de longe, correo, e o adorou.
7 E clamando com grande voz, disse: Que tenho eu comtigo Jesus, Filho do Deos Altissimo? esconjuro-te por Deos, que não me atormentes.
8 (Porque lhe dizia, Sahe deste homem, espirito immundo.)
9 E perguntou-lhe: qual he teu nome? e respondeo, dizendo: Legião he meu nome porque somos muitos.
10 E rogava-lhe muito que os não enviasse fora daquella provincia.
11 E estava ali junto aos montes huma grande manada de porcos pascendo.
12 E rogarão-lhe todos aquelles demonios, dizendo: manda-nos áquelles porcos, para que nelles entremos.
13 E permittio-lho logo Jesus. E sahindo aquelles espiritos immundos, entrarão nos porcos: e a manada se lançou do alto abaixo no mar: (e erão quasi dous mil,) e affogarão-se no mar.
14 E os que apascentavão os porcos fugirão, e derão aviso na cidade, e nos campos; e sahirão a ver que era aquillo que tinha acontecido.
15 E vierão a Jesus, e virão ao endemoninhado assentado, e vestido; e em seu siso ao que tivéra a legião: e temerão.
16 E contarão-lhes os que aquillo tinhão visto, o que acontecéra ao endemoninhado, e ácerca dos porcos.
17 E começarão a rogar-lhe, que se fosse de seus termos.
18 E entrando elle no barco, rogava-lhe o que fora endemoninhado, que o deixasse estar com elle.
19 Mas Jesus não lho permittio, senão disse-lhe: vai-te a tua casa aos teus, e denuncia-lhes quão grandes cousas o Senhor te fez, e como de ti teve misericordia.
20 E foi, e começou a denunciar em Decapolis, quão grandes cousas Jesus lhe fizera; e todos se maravilhavão.
21 E passando Jesus outra vez em hum barco para a outra banda, ajuntou-se a elle grande multidão; e elle estava junto ao mar.
22 E eis que veio hum dos Principes da Synagoga, por nome Jairo; e vendo-o, prostrou-se a seus pés.
23 E rogava-lhe muito, dizendo: minha filhinha está na extremidade, rogo-te que venhas, e ponhas as mãos sobre ella, para que sare, e viverá.
24 E foi com elle, e o seguia huma grande multidão, e o apertavão.
25 E huma certa mulher, que tinha fluxo de sangue, havia doze annos,
26 E havia padecido muito de muitos medicos, e gastado tudo quanto tinha, e nada lhe aproveitára, antes lhe ia peior:
27 Esta ouvindo de Jesus, veio entre a multidão por de tras, e tocou seu vestido.
28 Porque dizia: se tão somente tocar seu vestido, sararei.
29 E logo a fonte de seu sangue se seccou; e sentio em seu corpo que ja daquelle açoute sarara.
30 E conhecendo Jesus logo em si mesmo a virtude que delle sahira, virando-se na multidão, disse: quem tocou meus vestidos?
31 E disserão-lhe seus discipulos: vês que a multidão te aperta, e dizes: quem me tocou?
32 E elle olhava ao redor, para ver a que fizéra isto.
33 Então a mulher temendo, e tremendo, sabendo o que em si fora feito, veio, e prostrou-se diante delle, e disse-lhe toda a verdade.
34 E elle lhe disse: filha, tua fé te salvou, vai-te em paz, e sara deste teu açoute.
35 Estando elle ainda falando, vierão alguns do Principe da Synagoga, dizendo: tua filha he morta; para que enfadas mais ao Mestre?
36 E Jesus, logo em ouvindo esta palavra que se dizia, disse ao Principe da Synagoga: não temas, crê somente.
37 E não permittio que alguem o seguisse, senão Pedro, e Jacobo, e João o irmão de Jacobo.
38 E veio á casa do Principe da Synagoga, e vio o alvoroço, e os que muito choravão, e pranteavão.
39 E entrando, disse-lhes: porque vos alvoroçais, e chorais? a menina não he morta, mas dorme.
40 E rião-se delle, mas elle havendo-os lançado a todos fora, tomou comsigo ao pai e á mãi da menina, e aos que com elle estavão; e entrou aonde a menina estava deitada.
41 E tomando a mão da menina, disse-lhe: Talitha cumi: que traduzido he, filhinha (a ti te digo) levanta-te.
42 E logo a menina se levantou, e andava, porque já era de doze annos: e espantárão-se com grande espanto.
43 E mandou-lhes muito, que ninguem o soubesse: e disse que lhe dessem de comer.

CAPITULO 6.

1 E PARTIO dali, e veio á sua patria, e o seguirão seus discipulos.
2 E chegado o Sabbado, começou a ensinar na Synagoga; e muitos ouvindo-o se espantavão dizendo: donde lhe vem a este estas cousas? e que sabedoria he esta que lhe he dada? e taes maravilhas que por suas mãos se fazem?
3 Não he este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Jacobo, e de Joses, e de Judas, e de Simão? e não estão aqui comnosco suas irmaãs? e escandalizavão-se nelle.
4 E Jesus lhes dizia: não ha Propheta sem honra, senão em sua patria, e entre seus parentes, e em sua casa.
5 E não podia ali fazer nenhuma maravilha; somente, pondo as mãos sobre huns poucos de enfermos, os curou.
6 E estava maravilhado da incredulidade delles. E rodeava as aldeas do redor, ensinando.
7 E chamou a si aos doze, e começou a envia-los de dous em dous: e deo-lhes poder sobre os espiritos immundos.
8 E mandou-lhes, que não tomassem nada para o caminho, senão somente hum bordão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cinta.
9 Mas que calçassem alparcas; e não se vestissem de duas tunicas.
10 E dizia-lhes: aonde quer que entrardes em casa alguma, ficai ali até que dali saiais.
11 E todos aquelles que vos não receberem, nem vos ouvirem; sahindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo de vossos pés, em testemunho contra elles. Em verdade vos digo, que mais toleravel será aos de Sodoma ou Gomorrha no dia do juizo, do que áquella cidade.
12 E sahindo elles, prégavão que se arrependessem.
13 E lançavão fora a muitos demonios, e ungião com azeite a muitos enfermos, e os curavão.
14 E ouvio-o el Rei Herodes (porque ja seu nome era notório) e disse: João, o que baptizava, he resuscitado dos mortos; e portanto estas maravilhas obrão nelle.
15 Outros dizião: he Elias; e outros dizião: he Propheta, ou como algum dos Prophetas.
16 Porém ouvindo Herodes isto, disse: este he João, ao qual eu degollei: he resuscitado dos mortos.
17 Porque o mesmo Herodes enviára, e prendéra a João, e o tinha liado na prisão, por causa de Herodias, mulher de Philippe seu irmão, por quanto se casára com ella.
18 Porque João dizia a Herodes: não te he licito ter a mulher de teu irmão.
19 E Herodias o espiava, e o queria matar, e não podia.
20 Porque Herodes temia a João, sabendo que era varão justo e santo, e o estimava; e ouvindo-o, fazia muitas cousas, e o ouvia de boa mente.
21 E vindo hum dia opportuno, em que Herodes, no dia de seu nascimento, dava huma cea a seus Grandes, e Tribunos, e aos Principaes de Galilea:
22 E entrando a filha da mesma Herodias, e dançando, e agradando a Herodes, e aos que juntamente á mesa estavão; disse el-Rei á menina: pede-me quanto quizeres, e eu to darei.
23 E jurou-lhe: tudo o que me pedires te darei, até a metade de meu Reino.
24 E sahindo ella, disse a sua mãi: que pedirei? e ella disse: a cabeça e João Baptista.
25 E entrando ella logo apresuradamente a el-Rei pedio, dizendo: quero que logo me dés em hum prato a cabeça de João Baptista.
26 E entristeceo-se el-Rei muito; todavia por causa do juramento, e dos que juntamente á mesa estavão, não lha quiz negar.
27 E logo el-Rei enviando o executor, mandou trazer ali sua cabeça. E indo elle degollou-o na prisão;
28 E trouxe sua cabeça em hum prato, e a deo á menina; e a menina a deo a sua mãi.
29 E ouvindo-o seus discipulos, vierão e tomarão seu corpo morto, e o puzerão em hum sepulcro.
30 E os Apostolos se tornarão a ajuntar a Jesus, e denunciárão-lhe tudo, assim o que tinhão feito, como o que tinhão ensinado.
31 E elle lhes disse: vinde vósoutros aqui á parte a hum lugar deserto, e repousai hum pouco: porque havia muitos que ião e vinhão, e não tinhão lugar de comer.
32 E forão em hum barco, a hum lugar deserto á parte.
33 E a multidão os vio ir, e muitos o conhecerão; e concorrerão lá a pé de todas as cidades, e vierão antes que elles, e chegavão-se a elle.
34 E sahindo Jesus, vio huma grande multidão, e moveo-se a intima misericordia delles; porque erão como ovelhas que não tem pastor, e começou-lhes a ensinar muitas cousas.
35 E como já o dia fosse mui entrado, vierão seus discipulos a elle, e disserão: O lugar he deserto, e o dia he ja mui entrado:
36 Despede-os, para que vão aos lugares e aldeas de redor, e comprem para si pão; porque não tem que comer.
37 Porém respondendo elle, disse-lhes: dai-lhes vósoutros de comer. E elles lhe disserão: iremos pois, e compraremos duzentos dinheiros de pão, e lhes daremos de comer?
38 E elle lhes disse: Quantos paens tendes? ide e vede-o. E elles sabendo-o, disserão: Cinco, e dous peixes.
39 E mandou-lhes, que fizessem assentar a todos por ranchos sobre a herva verde.
40 E assentarão-se repartidos de cento em cento, e de cincoenta em cincoenta.
41 E tomando elle os cinco paens e os dous peixes, levantou os olhos ao ceo, benzeo, e partio os paens, e os deo a seus discipulos, para que lhos pozessem diante: E os dous peixes repartio a todos.
42 E comérão todos, e fartárão-se.
43 E levantárão dos pedaços doze cestos cheios, e dos peixes tambem.
44 E erão os que comérão os paens, quasi cinco mil homens.
45 E logo constrangeo a seus discipulos a subir no barco, e ir diante á outra banda, em fronte de Bethsaida, entre tanto que elle despedia a multidão.
46 E havendo-os despedido, foi ao monte a orar.
47 E vinda a tarde, estava o barco no meio do mar, e elle só em terra.
48 E vio que se fatigavão muito remando, (porque o vento lhes era contrario): e perto da quarta vela da noite, veio a elles andando sobre o mar, e queria passar por elles de largo
49 E vendo-o elles andar sobre o mar, cuidarão que era fantasma, e derão grandes gritos.
50 Porque todos o vião, e turbarão-se: e logo falou com elles, e disse-lhes: Tende bom animo, sou eu, não temais.
51 E subio a elles no barco, e o vento quietou: e grandemente se espantavão entre si, e se maravilhavão.
52 Porque ainda não tinhão entendido o milagre dos paens: porque seu coração estava endurecido.
53 E quando já forão da outra banda, vierão á terra de Gennezareth, e tomarão ali porto.
54 E sahindo elles do barco, logo o conhecerão.
55 E correndo toda a terra do redor, começarão a trazer os que molestos se achavão, em camas, aonde quer que ouvião que estava.
56 E aonde quer que entrava, em lugares, ou cidades, ou aldeas, punhão nas praças aos enfermos, e rogavão-lhe que somente tocassem a borda de seu vestido; e todos os que o tocavão, saravão.

CAPITULO 7.

1 E AJUNTARÃO-se a elle os Phariseos, e alguns dos Escribas, que tinhão vindo de Jerusalem.
2 E vendo que alguns de seus discipulos comião pão com mãos impuras, isto he, por lavar, reprehendião-os.
3 Porque os Phariseos, e todos os Judeos, retendo a tradição dos antigos, se muitas vezes não lavão as mãos, não comem.
4 E tornando da praça, se não se lavarem, não comem; e outras muitas cousas ha, que tomarão para guardar, como o lavar dos copos, e dos jarros, e dos vasos de metal, e das camas.
5 Depois lhe perguntarão os Phariseos e os Escribas: Porque não andão teus discipulos conforme á tradição dos antigos? mas comem pão com as mãos por lavar?
6 Porém respondendo elle, disse-lhes: Bem prophetizou Isaias de vósoutros, hypocritas; como está escrito: este povo me honra com os beiços, mas seu coração está longe de mim.
7 Porém em vão me honrão, ensinando por doutrinas, mandamentos de homens.
8 Porque deixando o mandamento de Deos, retendes a tradição dos homens: como o lavar dos jarros, e dos copos; e fazeis outras muitas cousas semelhantes a estas.
9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deos, para guardardes vossa tradição.
10 Porque Moyses disse: Honra a teu pai, e a tua mãi. E quem maldisser ao pai, ou á mãi, morrerá de morte.
11 Porém vósoutros dizeis: Se o homem disser ao pai ou á mãi: Corban (isto he, offerta) tudo o que de mim aproveitar-te podér, desobrigado fica.
12 E não lhe deixais mais nada fazer por seu pai, ou por sua mãi.
13 Invalidando assim a palavra de Deos por vossa tradição, que vós ordenastes; e muitas cousas fazeis semelhantes a estas.
14 E chamando a si toda a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos, e entendei:
15 Não ha fora do homem nada, que nelle entre, que o possa contaminar; mas o que delle sahe, isso he o que ao homem contamina.
16 Se alguem tem ouvidos para ouvir, ouça.
17 E entrando da multidão em casa, perguntarão-lhe seus discipulos ácerca da parabola.
18 E elle lhes disse: Assim tambem vósoutros estais sem entendimento? não entendeis, que tudo o que de fora entra no homem, não o pode contaminar?
19 Porque não entra em seu coração, senão no ventre, e sahe á privada, purgando todas as comidas.
20 E dizia: O que do homem sahe, isso contamina ao homem.
21 Porque de dentro do coração dos homens sahem os máos pensamentos, os adulterios, as fornicaçoens, os homicidios,
22 Os furtos, as avarezas, as maldades, o engano, a dissolução, o máo olho, a blasfemia, a soberba, a louquice.
23 Todos estes males de dentro procedem, e contaminão ao homem.
24 E levantando-se dali, foi aos termos de Tyro e de Sidon; e entrando em huma casa, não quiz que ninguem o soubesse, mas não se pôde esconder.
25 Porque huma mulher, cuja filha tinha hum espirito immundo, ouvindo delle, veio e lançou-se a seus pés.
26 E era esta mulher Grega, Syrophenissa de nação; e rogava-lhe, que de sua filha lançasse fora ao demonio.
27 Mas Jesus lhe disse: Deixa primeiro fartar aos filhos; porque não he bem tomar o pão dos filhos, e lançá-lo aos cachorrinhos.
28 Porém ella respondeo, e disse-lhe: Sim Senhor: mas tambem os cachorrinhos comem debaixo da mesa, das migalhas dos filhos.
29 Então lhe disse elle: Por esta palavra vai, já o demonio sahio de tua filha.
30 E vindo ella a sua casa, achou que já o demonio era sahido, e a filha deitada sobre a cama.
31 E tornando elle a sahir dos termos de Tyro e de Sidon, veio ao mar de Galilea, por meio dos termos de Decapolis.
32 E trouxerão-lhe hum surdo, que difficilmente falava, e rogarão-lhe que puzesse a mão sobre elle.
33 E tomando-o da multidão á parte, metteo-lhe seus dedos nos ouvidos, e cuspindo tocou-lhe a lingoa.
34 E levantando os olhos ao ceo suspirou, e disse: Ephphata, isto he, abre-te.
35 E logo seus ouvidos se abrirão, e a atadura da lingoa se lhe soltou, e falava bem.
36 E mandou-lhes que a ninguem o dissessem; mas quanto mais lho mandava, tanto mais o divulgavão.
37 E sobre maneira muito se espantavão, dizendo: tudo fez bem: e aos surdos faz ouvir, e aos mudos falar.

CAPITULO 8.

1 NAQUELLES dias, havendo mui grande multidão, e não tendo que comerem, chamou Jesus a seus discipulos a si, e disse-lhes:
2 Eu tenho intima misericordia da multidão, porque já ha tres dias que estão comigo, e não tem que comer.
3 E se eu os deixar ir em jejum para suas casas, desmaiarão no caminho; porque alguns delles tem vindo de longe.
4 E seus discipulos lhe responderão: Donde poderá alguem fartar a estes de pão aqui no deserto?
5 E perguntou-lhes: quantos paens tendes? e elles disserão: Sete.
6 E mandou á multidão, que se assentassem pelo chão. E tomando os sete paens, e havendo dado graças, partio-os, e os deo a seus discipulos, para que lhos puzessem diante; e os puzerão diante da multidão.
7 E tinhão huns poucos de peixinhos; e havendo dado graças, disse que tambem lhos puzessem diante.
8 E comerão, e fartarão-se; e levantarão do sobejo dos pedaços, sete alcofas.
9 E erão os que comerão quasi quatro mil; e os despedio.
10 E logo entrando no barco com seus discipulos, veio ás partes de Dalmanutha.
11 E sahirão os Phariseos, e começarão a porfiar com elle, pedindo-lhe sinal do ceo, tentando-o.
12 E suspirando elle profundamente em seu espirito, disse: Porque pede sinal esta geração? em verdade vos digo, que sinal se não dará a esta geração.
13 E deixando-os, tornou a entrar no barco, e foi para a outra banda.
14 E seus discipulos se tinhão esquecido de tomar pão, e não tinhão senão hum pão comsigo no barco.
15 E mandou-lhes, dizendo: Olhai, guardai-vos do fermento dos Phariseos, e do fermento de Herodes.
16 E arrazoavão huns com os outros, dizendo: Isto he porque não temos pão.
17 E entendendo-o Jesus, disse-lhes: Que arrazoais, que não tendes pão? não considerais ainda, nem entendeis? ainda tendes vosso coração endurecido?
18 Tendo olhos, não vedes? e tendo ouvidos, não ouvis?
19 E não vos lembrais, quando parti os cinco paens entre os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços levantastes? dizem-lhe elles: Doze.
20 E quando parti os sete entre os quatro mil, quantas alcofas cheias de pedaços levantastes? e elles disserão: Sete.
21 E elle lhes disse: Como não entendeis?
22 E veio á Bethsaida, e trouxérão-lhe hum cego, e rogarão-lhe que o tocasse.
23 E tomando ao cego pela mão, tirou-o fora da aldea, e cuspindo-lhe nos olhos, e pondo-lhe as mãos em cima, perguntou-lhe se via alguma cousa?
24 E levantando elle os olhos, disse: Vejo os homens; porque vejo que andão como arvores.
25 Depois tornou a por-lhe as mãos sobre os olhos, e fez-lhos levantar, e ficou restaurado, e vio de longe e claramente a todos.
26 E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldea, nem na aldea o digas a ninguem.
27 E sahio Jesus e seus discipulos para as aldeas de Cesarea de Philippe; e no caminho perguntou a seus discipulos, dizendo-lhes: Quem dizem os homens, que eu sou?
28 E elles respondérão: João Baptista; e outros Elias; e outros algum dos Prophetas.
29 E elle lhes disse: Porém vósoutros, quem dizeis que eu sou? e respondendo Pedro, disse-lhe: Tu es o Christo.
30 E defendia-lhes rigorosamente, que delle a ninguem aquillo dissessem.
31 E começou a ensinar-lhes, que importava que o Filho do homem padecesse muito, e fosse reprovado dos Anciãos, e dos Principes dos Sacerdotes, e dos Escribas, e que fosse morto, e depois de tres dias resuscitasse.
32 E livremente dizia esta palavra. E Pedro o tomou á parte, e começou a reprehende-lo.
33 Mas virando-se elle, e olhando para seus discipulos, reprehendeo a Pedro, dizendo: Arreda-te de diante de mim Satanás: Porque não comprehendes as cousas que são de Deos, senão as que são dos homens.
34 E chamando a si a multidão, juntamente com seus discipulos, disse-lhes: qualquer que quizer vir após mim negue-se a si mesmo, e tome sobre si sua cruz, e siga-me.
35 Porque qualquer que quizer salvar sua vida, perdé-la-há; mas qualquer que perder sua vida por amor de mim, e do Evangelho, esse a salvará.
36 Porque, que aproveitaria ao homem, se grangeasse todo o mundo, e perdesse sua alma?
37 Ou que dará o homem por resgate de sua alma?
38 Porque qualquer que se envergonhar de mim e de minhas palavras nesta geração adulterina e peccadora, tambem o Filho do homem delle se envergonhará, quando vier na gloria de seu Pai com os santos Anjos.

CAPITULO 9.

1 DIZIA-LHES tambem: em verdade vos digo, que alguns ha dos que aqui estão, que não gostarão a morte até que visto não hajão que o reino de Deos vem com potencia.
2 E seis dias depois, tomou Jesus comsigo a Pedro, e a Jacobo, e a João, e os levou á parte sós a hum monte alto; e transfigurou-se diante delles.
3 E seus vestidos se tornarão resplandecentes, mui brancos como a neve, quaes lavadeiro os não pode branquear na terra.
4 E appareceo-lhes Elias com Moyses, e falavão com Jesus.
5 E respondendo Pedro, disse a Jesus: Mestre, bom he que nós estejamos aqui, e façamos tres cabanas, para ti huma, e para Moyses huma, e para Elias huma.
6 Porque não sabia o que dizia; que estavão assombrados.
7 E desceo huma nuvem, que os cobrio com sua sombra, e veio huma voz da nuvem, que dizia: Este he meu Filho amado; a elle ouvi.
8 E olhando logo ao redor, não virão mais a ninguem, senão só a Jesus com elles.
9 E descendo elles do monte, mandou-lhes que a ninguem contassem o que tinhão visto, senão quando o Filho do homem já dos mortos fosse resuscitado.
10 E elles retivérão o caso entre si, perguntando huns aos outros, que seria aquillo, resuscitar dos mortos?
11 E perguntárão-lhe, dizendo: porque dizem os Escribas, que he necessario que Elias venha primeiro?
12 E respondendo elle, disse-lhes: Em verdade primeiro Elias virá, e todas as cousas restaurará, e como do Filho do homem está escrito, a saber que muito padeça, e seja aniquilado.
13 Porém eu vos digo, que já Elias he vindo, e fizerão-lhe tudo o que quizerão, como delle está escrito.
14 E como veio aos discipulos, vio grande multidão ao redor delles, e alguns Escribas, que com elles porfiavão.
15 E logo toda a multidão vendo-o se espantou, e correndo a elle, o saudarão.
16 E perguntou aos Escribas: que porfiais com elles?
17 E respondendo hum da multidão, disse: Mestre, trouxe-te meu filho, que tem hum espirito mudo.
18 E aonde quer que o toma, o despedaça, e escuma pela boca, e range os dentes, e se vai seccando; e eu disse a teus discipulos que o lançassem fora, e não podérão.
19 E respondendo-lhe elle, disse: ó geração incredula! até quando estarei ainda comvosco? até quando vos ainda hei de soffrer? trazei-mo.
20 E trouxerão-lho; e como o vio, logo o espirito o despedaçou, e cahindo em terra, espojava-se escumando pela boca.
21 E perguntou a seu pai: quanto tempo ha que isto lhe sobreveio? e elle lhe disse: desde sua meninice.
22 E muitas vezes o lançou tambem no fogo, e na agoa, para o destruir; mas se podes alguma cousa, ajuda-nos, movendo-te a intima misericordia de nós.
23 E Jesus lhe disse: se podes crer, ao que crê tudo he possivel.
24 E logo o pai do menino clamando, com lagrimas disse: creio, Senhor! ajuda minha incredulidade.
25 E vendo Jesus que a multidão concorria, reprehendeo ao espirito immundo, dizendo-lhe: Espirito mudo e surdo, eu te mando, sahe delle, e não entres nelle mais.
26 E clamando, e despedaçando-o muito, sahio; e ficou o menino como morto, de tal maneira, que muitos dizião que estava morto.
27 E tomando-o Jesus pela mão, o ergueo, e elle se levantou.
28 E como entrou em casa, seus discipulos lhe perguntárão á parte: porque o não pudémos nós lançar fóra?
29 E disse-lhes: este genero com nada pode sahir, senão com oração e jejum.
30 E partidos dali caminhárão por Galilea, e não queria que alguem o soubesse.
31 Porque ensinava a seus discipulos, e dizia-lhes: o Filho do homem será entregue em mãos dos homens, e matá-lo-hão; e morto elle, resuscitará ao terceiro dia.
32 Mas elles não entendião esta palavra, e temião perguntar-lhe.
33 E veio a Capernaum, e entrando em casa, perguntou-lhes: que arrazoaveis entre vósoutros pelo caminho?
34 Mas elles se calarão, porque huns com outros havião contendido pelo caminho, qual delles havia de ser o maior.
35 E assentando-se elle, chamou aos doze, e disse-lhes: se alguem quizer ser o primeiro, será o derradeiro de todos, e de todos o ministro.
36 E lançando mão de hum menino, pó-lo no meio delles, e tomando-o entre seus braços, disse-lhes:
37 Qualquer que em meu nome receber a hum dos taes meninos, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não me recebe a mim, senão ao que me enviou.
38 E respondeo-lhe João, dizendo: Mestre, temos visto a hum, que em teu nome lançava fora aos demonios, o qual não nos segue; e defendemos-lho, porque nos não segue.
39 Porém Jesus disse: não lho defendais; porque ninguem ha que faça milagre em meu nome, e logo de mim possa mal falar.
40 Porque quem não he contra nós, por nós he.
41 Porque qualquer que vos der hum pucaro de agua a beber em meu nome, porque sois discipulos de Christo, em verdade vos digo, que não perderá seu galardão.
42 E qualquer que escandalizar a hum destes pequenos que em mim crêm; melhor lhe fôra que lhe pozerão ao pescoço huma mó de atafona, e que fóra lançado no mar.
43 E se tua mão te escandalizar, corta-a; melhor te he entrar na vida aleijado, do que tendo duas mãos ir ao inferno, ao fogo que nunca se apaga.
44 Aonde seu bicho não morre, e seu fogo nunca se apaga.
45 E se teu pé te escandalizar, corta-o; melhor te he entrar na vida manco, do que tendo dous pés ser lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga.
46 Aonde seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
47 E se teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor te he entrar no Reino de Deos com hum olho, do que tendo dous olhos ser lançado no fogo do inferno.
48 Aonde seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
49 Porque cada qual será salgado com fogo, e cada sacrifiicio será salgado com sal.
50 Bom he o sal; mas se o sal se tornar ensosso, com que o adubareis? tende sal em vós mesmos, e paz huns com outros.

CAPITULO 10.

1 E LEVANTANDO-se dali, foi aos termos de Judea, além do Jordão; e tornou a multidão a ajuntar-se a elle, e tornou a ensina-los como de costume tinha.
2 E vindo a elle os Phariseos, perguntarão-lhe, se era licito ao homem deixar a sua mulher? tentando-o.
3 Mas respondendo elle, disse-lhes: que vos mandou Moyses?
4 E elles disserão: Moyses permitio escrever-lhe carta de desquite, e deixá-la.
5 E respondendo Jesus, disse-lhes: pela dureza de vossos coraçoens elle vos escreveo este mandamento.
6 Porém desde o principio da creação, macho e femea os fez Deos.
7 Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãi, e achegar-se-ha a sua mulher.
8 E os dous serão huma carne: assim que ja não são dous, senão huma carne.
9 Portanto o que Deos ajuntou, não o aparte o homem.
10 E em casa tornárão os discipulos a perguntar-lhe ácerca disto mesmo.
11 E disse-lhes: qualquer que deixar a sua mulher, e casar com outra, contra ella adultéra.
12 E se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultéra.
13 E trazião-lhe meninos, para que os tocasse; e os discipulos reprehendião aos que lhos trazião.
14 Porém vendo-o Jesus, indignou-se, e disse-lhes: deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais: porque dos taes he o Reino de Deos.
15 Em verdade vos digo, que qualquer que não receber o Reino de Deos como menino, em maneira nenhuma nelle entrará.
16 E tomando-os entre seus braços, e pondo as mãos sobre elles, os abençoou.
17 E sahindo elle ao caminho, correo a elle hum; e pondo-se de joelhos diante delle, perguntou-lhe: Mestre bom, que farei para herdar a vida eterna?
18 E Jesus lhe disse: porque me chamas bom? ninguem ha bom senão hum, a saber Deos.
19 Os mandamentos sabes; não adulterarás; não matarás; não furtarás; não darás falso testemunho; não defraudarás a ninguem: honra a teu pai, e a tua mãi.
20 Porém respondendo elle, disse-lhe: Mestre, tudo isto guardei desde minha mocidade.
21 E olhando Jesus para elle, amou-o, e disse-lhe; huma cousa te falta; vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás hum thesouro no ceo: e vem, segue-me, tomando sobre ti a cruz.
22 Mas elle pesaroso desta palavra, se foi triste; porque tinha muitas possessoens.
23 Então Jesus olhando ao redor, disse a seus discipulos: quão difficilmente entrarão no Reino de Deos os que tem riquezas!
24 E os discipulos se espantárão destas suas palavras: mas tornando Jesus a responder, disse-lhes: filhos, quão difficil he entrar no Reino de Deos os que em riquezas confião.
25 Mais facil he passar hum camelo pelo fundo de huma agulha, do que entrar o rico no Reino de Deos.
26 E elles se espantavão ainda mais, dizendo huns para os outros: quem pois se poderá salvar?
27 Porém olhando Jesus para elles, disse: quanto aos homens impossivel he; mas quanto a Deos, não; porque todas as cousas são possiveis quanto a Deos.
28 E começou Pedro a dizer-lhe: vês aqui nósoutros tudo deixámos, e te seguimos.
29 E respondendo Jesus, disse: em verdade vos digo, que não ha ninguem que haja deixado casa, ou irmãos, ou irmaãs, ou pai, ou mãi, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do Evangelho;
30 Que não receba cem vezes tanto, agora neste tempo, casas, e irmãos, e irmaãs, e mãis, e filhos, e campos, com perseguiçoens; e no seculo vindouro a vida eterna.
31 Porém muitos primeiros serão derradeiros, e muitos derradeiros, primeiros.
32 E ião de caminho, subindo a Jerusalem; e Jesus ia diante delles, e espantavão-se, e o seguião atemorizados. E tornando a tomar comsigo aos doze, começou-lhes a dizer as cousas que lhe havião de sobrevir:
33 Dizendo: vedes aqui subimos a Jerusalem, e o Filho do homem será entregue aos Principes dos Sacerdotes, e aos Escribas; e á morte o condemnarão, e ás gentes o entregarão.
34 E escarnece-lo-hão, e açouta-lo-hão, e nelle cuspirão, e mata-lo-hão; e ao terceiro dia resuscitará.
35 E vierão a elle Jacobo e João, filhos de Zebedeo, dizendo: Mestre, bem quizéramos que nos fizesses o que pedirmos.
36 E elle lhes disse: que quereis que vos faça?
37 E elles lhe disserão: dá-nos que em tua gloria nos assentemos, hum á tua mão direita, e outro á tua esquerda?
38 Mas Jesus lhes disse: não sabeis o que pedis; podeis vós beber o copo que eu bebo, e ser baptizados com o baptismo com que eu sou baptizado?
39 E elles lhe disserão: Podemos. Porém Jesus lhes disse: em verdade, o copo que eu bebo, bebereis; e com o baptismo, com que eu sou baptizado, sereis baptizados.
40 Mas assentar-se á minha mão direita , ou á minha esquerda, não he meu dá-lo, senão aos que está aparelhado.
41 E como os dez ouvirão isto, começárão a indignar-se contra Jacobo e João.
42 Mas chamando-os Jesus a si, disse-lhes: ja sabeis, que os que se estimão ser Principes das gentes, dellas se ensenhoréão; e os grandes dellas sobre ellas usão de autoridade.
43 Mas entre vósoutros assim não será: antes qualquer que entre vós quizer ser grande, será vosso ministro.
44 E qualquer que de vósoutros quizer ser o primeiro, será servo de todos.
45 Porque tambem não veio o Filho do homem a ser servido, senão a servir, e dar sua vida em resgate por muitos.
46 E vierão a Jericho. E sahindo elle, e seus discipulos, e huma grande multidão de Jericho, estava Bartimeo o cego, filho de Timeo, assentado junto ao caminho mendigando.
47 E ouvindo que era Jesus o Nazareno, começou a clamar, e a dizer: Jesus, Filho de David! tem misericordia de mim.
48 E muitos o reprehendião, para que se callasse: mas elle clamava tanto mais: Filho de David, tem misericordia de mim.
49 E parando Jesus, disse que o chamassem; e chamárão ao cego, dizendo-lhe: tem bom animo, levanta-te, que te chama.
50 E lançando elle de si sua capa, levantou-se, e veio a Jesus.
51 E respondendo Jesus, disse-lhe: que queres que te faça? e o cego lhe disse: Rabboni, que veja.
52 E Jesus lhe disse: vai-te; tua fé te salvou. E logo vio; e seguia a Jesus pelo caminho.

CAPITULO 11.

1 E COMO já chegarão perto de Jerusalem, em Bethphage e Bethania, ao monte das Oliveiras, mandou dous de seus discipulos.
2 E disse-lhes: ide á aldea, que está de fronte de vós; e logo, em ella entrando, achareis hum poldro liado, sobre o qual nenhum homem se tem assentado; soltai-o, e trazei-o.
3 E se alguem vos disser: porque fazeis isso? dizei, que o Senhor o ha mister, e logo o mandará para ca.
4 E forão, e achárão o poldro liado á porta fora entre dous caminhos, e o soltarão.
5 E alguns dos que ali estavão lhes disserão; que fazeis, soltando o poldro?
6 Porém elles lhes disserão como Jesus lhes tinha mandado, e os deixarão ir.
7 E trouxerão o poldro a Jesus, e lançarão sobre elle seus vestidos, e assentou-se sobre elle.
8 E muitos estendião seus vestidos pelo caminho, e outros cortavão ramos das arvores, e os espalhavão pelo caminho.
9 E os que ião diante, e os que seguião clamavão, dizendo: Hosanna, bemdito o que vem em o nome do Senhor.
10 Bemdito o Reino de nosso Pai David, que vem em o nome do Senhor; Hosanna em as alturas.
11 E entrou Jesus em Jerusalem, e no Templo; e havendo visto tudo ao redor, e sendo já tarde, sahio para Bethania com os doze.
12 E o dia seguinte, sahindo elles de Bethania, teve fome.
13 E vendo de longe huma figueira, que tinha folhas, veio a ver se nella acharia alguma cousa: e chegando a ella, não achou senão folhas; porque não era tempo de figos.
14 E respondendo Jesus, disse-lhe: nunca mais coma ninguem fruto de ti para sempre. E isto ouvirão seus discipulos.
15 E vierão a Jerusalem: e entrando Jesus no Templo, começou a lançar fora aos que no Templo vendião e compravão: e transtornou as mezas dos cambiadores, e as cadeiras dos que vendião pombas.
16 E não consentia que alguem levasse vaso algum pelo Templo.
17 E ensinava, dizendo-lhes: não está escrito; minha casa, casa de oração será chamada de todas as gentes? mas vósoutros a tendes feito cova de salteadores.
18 E ouvirão isto os Escribas, e os Principes dos Sacerdotes, e buscavão como o matarião; porque o temião, porquanto toda a multidão estava espantada acerca de sua doutrina.
19 E como já foi tarde, sahio fora da cidade.
20 E passando pela manhã, virão que a figueira estava secca desde as raizes.
21 E lembrando-se Pedro, disse-lhe: Rabbi, vês aqui a figueira que amaldiçoaste, se seccou.
22 E respondendo Jesus, disse-lhes: tende fé em Deos.
23 Porque em verdade vos digo, que qualquer que disser a este monte: alça-te, e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará o que diz, tudo o que disser se lhe fará.
24 Portanto vos digo, que tudo o que pedirdes orando, crede que o recebereis, e vir-vos-ha.
25 E quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma cousa contra alguem, para que vosso Pai, que está nos ceos, vos perdoe vossas offensas.
26 Mas se vósoutros não perdoardes, tambem vosso Pai, que está nos ceos, vos não perdoará vossas offensas.
27 E tornárão a Jerusalem: e andando elle pelo Templo, vierão a elle os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, e os Anciãos.
28 E disserão-lhe: com que autoridade fazes estas cousas? e quem te deo esta autoridade, para fazeres estas cousas?
29 Mas respondendo Jesus, disse-lhes: tambem eu vos perguntarei huma palavra, e respondei-me; e então vos direi com que autoridade faço estas cousas.
30 O Baptismo de João era do ceo, ou dos homens? Respondei-me.
31 E elles arrazoavão entre si, dizendo: se dissermos do ceo, dir-nos-ha: porque pois o não crestes?
32 Porém se dissermos dos homens, tememos ao povo: porque todos tinhão de João que verdadeiramente era Propheta.
33 E respondendo, disserão a Jesus: não sabemos. E respondendo Jesus, disse-lhes: tambem eu vos não direi com que autoridade faço estas cousas.

CAPITULO 12.

1 E COMECOU-LHES a dizer por parábolas: Plantou hum homem huma vinha, e a cercou com valado, e fundou nella hum lagar, e edificou huma torre, e arrendou-a a huns lavradores; e partio para fora da terra.
2 E chegado o tempo, mandou hum servo aos lavradores, para que dos lavradores recebesse do fruto da vinha.
3 Mas elles tomando-o, ferirão-o, e mandarão-o embora vazio.
4 E tornou a mandar-lhes outro servo; e elles apredejando-o, ferirão-o na cabeça, e o mandarão afrontado.
5 E tornou a mandar outro, e áquelle matarão, e a outros muitos, e a huns ferirão, e a outros matarão.
6 Tendo pois elle ainda hum seu filho amado, mandou-lhes tambem por derradeiro a este, dizendo: pelo menos terão respeito a meu filho.
7 Mas aquelles lavradores disserão entre si: este he o herdeiro, vinde, matê-mo-lo; e será nossa a herança.
8 E pegando delle matárão-o, e lançarão-o fora da vinha.
9 Que pois fará o Senhor da vinha? virá, e destruirá os lavradores, e a vinha dará a outros.
10 Nem ainda esta escritura tendes lido? a pedra que os edificadores regeitárão, esta foi feita por cabeça da esquina.
11 Pelo Senhor foi feito isto, e he maravilhoso em nossos olhos.
12 E procuravão prendê-lo, mas temião a multidão; porque entendião, que delles dizia aquella parabola: e deixando-o, se forão.
13 E mandarão-lhe alguns dos Phariseos e dos Herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.
14 E vindo elles, disserão-lhe: Mestre, bem sabemos, que es homem de verdade, e não se te dá de ninguem, porque não attentas para a apparencia dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deos: he licito dar tributo a Cesar, ou não? daremos, ou não daremos?
15 E entendendo elle sua hypocrisia, disse-lhes: porque me tentais? trazei-me a moeda, para que a veja.
16 E elles lha trouxerão. E disse-lhes: cuja he esta imagem, e a inscripção? e elles lhe disserão: de Cesar.
17 E respondendo Jesus, disse-lhes: Dai pois a Cesar, o que he de Cesar, e a Deos o que he de Deos. E maravilhárão-se delle.
18 E vierão a elle os Sadduceos, que dizem que não ha resurreição, e perguntarão-lhe, dizendo:
19 Mestre, Moyses nos escreveo, que se o irmão de alguem morresse, edeixasse mulher, e não deixasse filhos, que seu irmão tomasse sua mulher, e despertasse semente a seu irmão.
20 Houve pois sete irmãos, e o primeiro tomou mulher, e morrendo, não deixou semente.
21 Tomou-a tambem o segundo, e morreo; e nem este deixou semente; e o terceiro da mesma maneira.
22 E a tomárão todos os sete, e tão pouco deixárão semente. Finalmente, depois de todos, morreo tambem a mulher.
23 Na resurreição pois, quando resuscitarem, de qual destes será a mulher? porque os sete a tivérão por mulher.
24 E respondendo Jesus, disse-lhes: por ventura não errais vósoutros, porquanto não sabeis as Escrituras, nem a potencia de Deos?
25 Porque quando resuscitarem dos mortos, nem se casarão, nem se darão em casamento; mas serão como os Anjos que estão nos ceos.
26 E ácerca dos mortos que hajão de resuscitar; não tendes lido no livro de Moyses, como Deos lhe falou em a sarça, dizendo: eu sou o Deos de Abraham, e o Deos de Isaac, e o Deos de Jacob?
27 Deos não he Deos de mortos, senão Deos de vivos. Assim que muito errais.
28 E vindo a elle hum dos Escribas, que os ouvira contender, sabendo que lhes tinha bem respondido, perguntou-lhe: qual de todos he o primeiro mandamento?
29 E Jesus lhe respondeo: o primeiro de todos os mandamentos he: ouve Israël, o Senhor nosso Deos he o unico Senhor.
30 Amarás pois ao Senhor teu Deos de todo teu coração, e de toda tua alma, e de todo teu entendimento, e de todas tuas forças: Este he o primeiro mandamento.
31 E o segundo, semelhante a este he: Amarás a teu proximo como a ti mesmo: não ha outro mandamento maior que estes.
32 E o Escriba lhe disse: Mui bem, Mestre, e com verdade disseste, que hum só Deos ha, e outro não ha senão elle.
33 E que amá-lo de todo coração, e de todo entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças; e amar ao proximo como a si mesmo, mais he que todos os holocaustos e sacrificios.
34 E vendo Jesus que havia respondido sabiamente, disse-lhe: não estás tu longe do Reino de Deos. E já ninguem ousava mais lhe perguntar.
35 E respondendo Jesus dizia, ensinando no Templo: como dizem os Escribas que o Christo he Filho de David?
36 Porque o mesmo David disse pelo Espirito Santo: Disse o Senhor a meu Senhor, assenta-te á minha mão direita, até que ponha a teus inimigos por escabello de teus pés.
37 Pois David mesmo o chama seu Senhor, como he logo seu filho? E a grande multidão o ouvia de boa vontade.
38 E dizia-lhes em sua doutrina: guardai-vos dos Escribas, que folgão de andarem vestidos á comprida, e das saudaçoens nas praças;
39 E das primeiras cadeiras nas Synagogas, e dos primeiros assentos nas ceas.
40 Que devorão as casas das viuvas, e isso com pretexto de larga oração. Estes receberão mais grave juizo.
41 E estando Jesus assentado de fronte da arca do thesouro, attentava como a multidão lançava dinheiro na arca do thesouro; e muitos ricos lançavão muito.
42 E vindo huma pobre viuva, lançou dous minutos, que são dous reis.
43 E chamando Jesus a si seus discipulos, disse-lhes: em verdade vos digo, que esta pobre viuva lançou mais, que todos os que lançarão na arca do thesouro.
44 Porque todos lançarão nella do que lhes sobeja; mas esta de sua pobreza lançou nella tudo o que tinha, todo seu sustento.

CAPITULO 13.

1 E SAHINDO elle do Templo, disse-lhe hum de seus discipulos: Mestre, olha que pedras, e que edificios!
2 E respondendo Jesus, disse-lhe: vês estes grandes edificios? não será deixada pedra sobre pedra, que não seja derribada.
3 E assentando-se elle no monte das Oliveiras, em fronte do Templo, perguntárão-lhe á parte Pedro, e Jacobo, e João, e André:
4 Dize-nos, quando serão estas cousas; e que sinal haverá de quando todas estas cousas se hão de acabar.
5 E respondendo-lhes Jesus, começou a dizer: Olhai que ninguem vos engane:
6 Porque virão muitos em meu nome, dizendo: eu sou o Christo; e a muitos enganarão.
7 E quando ouvirdes de guerras, e de rumores de guerras, não vos turbeis; porque assim importa fazer-se; mas ainda não será o fim.
8 Porque gente se levantará contra gente, e reino contra reino, e haverá terremotos em diversos lugares, e haverá fomes, e alvoroços. Principios de dores serão estes.
9 Mas olhai por vos mesmos; porque vos entregarão em Concilios, e em Synagogas; sereis açoutados, e sereis apresentados ante Presidentes e Reis, por amor de mim, para que lhes conste.
10 E entre todas as gentes importa se prégue primeiro o Evangelho.
11 Porém quando vos levarem a entregar, não estejais d’antes solicitos do que haveis de dizer, nem o penseis: mas o que naquella hora vos for dado, isso falai. Porque não sois vos os que falais, senão o Espirito Santo.
12 E o irmão entregará á morte ao irmão, e o pai ao filho: e levantar-se-hão os filhos contra os pais, e mata-los-hão.
13 E sereis aborrecidos de todos por amor de meu nome: mas quem perseverar até o fim, esse será salvo.
14 Assim que quando virdes a abominação do assolamento, que foi dito pelo Propheta Daniel, estando aonde não deve, (quem lé, advirta) então os que estiverem em Judea, fujão para os montes.
15 E o que estiver sobre telhado, não desça á casa, nem entre a tomar alguma cousa de sua casa.
16 E o que estiver no campo, não torne atraz, a tomar seu vestido.
17 Mas ai das prenhes, e das que criarem naquelles dias.
18 Orai porém, que não succeda vossa fugida no inverno.
19 Porque serão aquelles dias de tal afflicção, qual nunca foi desde o principio da creação das cousas, que Deos creou, até agora, nem tão pouco será.
20 E se o Senhor não abreviasse aquelles dias, nenhuma carne se salvaria: mas por causa dos escolhidos, que escolheo, abreviou aquelles dias.
21 E então se alguem vos disser: vedes aqui está o Christo; ou vêde-o ali está, não o creais.
22 Porque se levantarão falsos Christos, e falsos Prophetas, e farão sinaes e prodigios, para enganar, se fôra possivel, até aos escolhidos.
23 Mas vósoutros olhai, vedes aqui, tudo d’antes vos tenho dito.
24 Porém naquelles dias, depois daquella afflicção, o sol se escurecerá, e a lua não dará seu resplandor.
25 E as estrellas do ceo cahirão, e as forças que estão nos ceos abalarão.
26 E então ao Filho do homem verão vir em as nuvens, com grande potencia e gloria.
27 E então enviará seus Anjos, e ajuntará seus escolhidos dos quatro ventos, desde o cabo da terra, até o cabo do ceo.
28 E da figueira aprendei a semelhança: quando já seu ramo se vai fazendo tenro, e brota folhas, bem sabeis que já o verão está perto.
29 Assim tambem vósoutros, quando virdes succeder estas cousas, sabei que ja está perto ás portas.
30 Em verdade vos digo, que não passará esta geração, até que todas estas cousas não aconteção.
31 O ceo e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.
32 Porém daquelle dia e hora ninguem sabe, nem os Anjos que estão no ceo, nem o Filho, senão o Pai.
33 Olhai, vigiai, e orai; porque não sabeis quando será o tempo.
34 Como o homem, que partindo para fora da terra, deixou sua casa, e deo autoridade a seus servos, e a cada hum sua obra, e mandou ao porteiro que vigiasse.
35 Vigiai pois, (porque não sabeis quando virá o Senhor da casa; se á tarde, se á meia noite, se ao canto do gallo, se pela manhã.)
36 Para que não venha d’improviso, e vos ache dormindo.
37 E as cousas que a vósoutros vos digo, as digo a todos: Vigiai.

CAPITULO 14.

1 E DALI a dous dias era a Paschoa, e a festa dos paens asmos; e buscavão os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, como o prenderião por engano, e matarião.
2 Dizião porém: não na festa, porque por ventura não se faça alvoroço entre o povo.
3 E estando elle em Bethania, em casa de Simão o Leproso, assentado á mesa, veio huma mulher, que tinha hum vaso de alabastro de unguento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso de alabastro, derramou-lho sobre a cabeça.
4 E houve alguns que em si mesmos se indignarão, e disserão: para que se fez esta perdição do unguento?
5 Porque bem se podia isto vender por mais de trezentos dinheiros, e dar-se aos pobres. E bramavão contra ella.
6 Porém Jesus disse: deixai-a; porque a molestais? boa obra me tem feito.
7 Que pobres sempre comvosco os tendes; e quando quizerdes lhes podeis fazer bem: porém a mim sempre me não tendes.
8 Esta o que podia fez; adiantou-se a ungir meu corpo, para preparação de minha sepultura.
9 Em verdade vos digo, que aonde quer que em todo o mundo este Evangelho se pregar, tambem o que esta fez será dito em sua memoria.
10 E Judas Iscariota, hum dos doze, se foi aos Principes dos Sacerdotes para lho entregar.
11 E elles ouvindo-o folgárão; e promettérão de lhe dar dinheiro; e buscava como o entregaria a tempo opportuno.
12 E o primeiro dia dos paens asmos, quando sacrificavão o cordeiro da Paschoa, seus discipulos lhe disserão: aonde queres que te vamos aparelhar, para comeres a Paschoa?
13 E mandou dous de seus discipulos, e disse-lhes: Ide á cidade, e encontrar-vos-ha hum homem, que leva hum cantaro de agua, segui-o.
14 E aonde quer que entrar, dizei ao Senhor da casa: o Mestre diz; onde está o aposento aonde hei de comer a Paschoa com meus discipulos?
15 E elle vos mostrará hum grande cenaculo, ornado e aparelhado; ali nos aparelhai.
16 E sahirão seus discipulos, e viérão á cidade, e achárão como lhes tinha dito, e aparelhárão a Paschoa.
17 E vinda a tarde, veio com os doze.
18 E como se assentassem á mesa, e comessem, disse Jesus: em verdade vos digo, que hum de vósoutros, que comigo come, me ha de trahir.
19 E elles se começarão a entristecer, e a dizer-lhe hum após outro: por ventura sou eu? e outro: por ventura sou eu?
20 Porém respondendo elle, disse-lhes: hum dos doze he, que molha comigo no prato.
21 Em verdade o Filho do homem vai, como delle está escrito; mas ai daquelle homem, por quem o Filho do homem he trahido; bom lhe fôra ao tal homem não haver nascido.
22 E comendo elles, tomou Jesus o pão; e bem-dizendo partio-o, e deo-lho, e disse: Tomai, comei, isto he o meu corpo.
23 E tomando o copo, e dando graças, deo-lho; e bebérão delle todos.
24 E disse-lhes: Isto he o meu sangue, o sangue do novo Testamento, que por muitos he derramado.
25 Em verdade vos digo, que não beberei mais do fruto de vide, até aquelle dia, quando o beber novo em o Reino de Deos.
26 E como cantárão o Hymno, sahirão ao monte das Oliveiras.
27 E Jesus lhes disse: Todos vósoutros em mim vos escandalizareis esta noite; porque escrito está: ferirei ao pastor, e as ovelhas serão derramadas.
28 Mas depois de eu haver resuscitado, vos irei diante a Galilea.
29 E Pedro lhe disse: ainda que todos se escandalizassem, não porém eu.
30 E disse-lhe Jesus: em verdade te digo, que hoje nesta noite, antes que o gallo cante duas vezes, me negarás tres vezes.
31 Mas elle muito mais dizia: ainda que comtigo morrer me seja necessario, em maneira nenhuma te negarei. E todos dizião tambem da mesma maneira.
32 E vierão ao lugar cujo nome era Gethsemane, e disse a seus discipulos: assentai-vos aqui até que ore.
33 E tomou comsigo a Pedro, e a Jacobo, e a João, e começou-se a espavorecer e a angustiar.
34 E disse-lhes: minha alma totalmente está triste até á morte: ficai-vos aqui, e vigiai.
35 E indo hum pouco mais adiante, prostrou-se em terra; e orou, que se fosse possivel, passasse delle aquella hora.
36 E disse: Abba, Pai, todas as cousas te são possiveis; traspassa de mim este copo; porém não o que eu quero, senão o que tu queres.
37 E veio, e achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, dormes? huma hora vigiar não podes?
38 Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação; o espirito em verdade está prestes, mas a carne he fraca.
39 E tornando a ir, orou, dizendo as mesmas palavras.
40 E tornando, achou-os outra vez dormindo; porque seus olhos estavão carregados, e não sabião que responder-lhe.
41 E veio a terceira vez, e disse-lhes: dormi já e descançai. Basta, vinda he a hora. Vedes aqui o Filho do homem he entregue em mãos dos peccadores.
42 Levantai-vos, vamos-nos; eis que o que me trahe está perto.
43 E logo, falando elle ainda, veio Judas, que era um dos doze, e com elle huma grande multidão, com espadas e bastoens, da parte dos Principes dos Sacerdotes, e dos Escribas, e dos Anciãos.
44 E o que o trahia lhes tinha dado hum commum sinal, dizendo: ao que eu beijar, esse he; prendei-o, e levai-o a bom recado.
45 E como veio, foi logo a elle, e disse-lhe: Rabbi, Rabbi, e beijou-o.
46 E lançárão suas mãos nelle, e o prendêrão.
47 E hum dos que ali presentes estavão, puxando da espada, ferio ao servo do Summo Pontifice, e cortou-lhe a orelha.
48 E respondendo Jesus, disse-lhes: como a salteador, com espadas e bastoens sahistes a prender-me?
49 Cada dia comvosco estava no Templo ensinando, e não me prendestes; mas assim se faz para que as Escrituras se cumprão.
50 Então deixando-o todos fugirão.
51 E hum certo mancebo o seguia, envolto em hum lançol sobre o corpo nu. E pegárão delle os mancebos.
52 E elle, largando o lançol, fugiu delles nu.
53 E levárão a Jesus ao Summo Pontifice; e ajuntárão-se a elle todos os Principes dos Sacerdotes, e os Anciãos, e os Escribas.
54 E Pedro o seguio de longe até dentro da sala do Summo Pontifice, e estava assentado juntamente com os servidores, e aquentando-se ao fogo.
55 E os Principes dos Sacerdotes, e todo o Concilio buscavão algum testemunho contra Jesus, para o matarem, e não o achavão.
56 Porque muitos testificavão falsamente contra elle: mas os testemunhos não erão conformes.
57 E levantando-se huns, testificavão falsamente contra elle, dizendo:
58 Nós lhe ouvimos dizer: eu derribarei este templo feito de mãos, e em tres dias edificarei outro, feito sem mãos.
59 E nem assim era seu testemunho conforme.
60 E levantando-se o Summo Pontifice no meio, perguntou a Jesus, dizendo: não respondes nada? que testificão estes contra ti?
61 Mas elle calava, e nada respondeo. O Summo Pontifice lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: es tu o Christo, o Filho do Deos bemdito?
62 E Jesus disse: eu o sou; e vereis ao Filho do homem assentado á mão direita da potencia de Deos, e vir em as nuvens do ceo.
63 E rasgando o Summo Pontifice seus vestidos, disse: que mais necessitamos de testemunhas?
64 Ouvido tendes a blasfemia; que vos parece? e todos o condemnárão por culpado de morte.
65 E alguns começarão a cuspir nelle, e a cobrir-lhe o rosto, e a dar-lhe punhadas, e dizer-lhe: Prophetiza. E os servidores lhe davão de bofetadas.
66 E estando Pedro em baixo na sala, veio huma das criadas do Summo Pontifice;
67 E vendo a Pedro, que se estava aquentando, attentou para elle, e disse: tambem tu estavas com Jesus o Nazareno.
68 Mas elle o negou, dizendo: não o conheço, nem sei o que dizes. E sahio fora ao alpendre; e cantou o gallo.
69 E a criada vendo-o outra vez, começou a dizer aos que ali estavão: delles he este.
70 Mas elle o negou outra vez. E pouco depois disserão os que ali estavão outra vez a Pedro: verdadeiramente delles es; pois tambem es Galileo, e tua falla he semelhante.
71 E elle começou a anatematizar, e a jurar, dizendo: não conheço a esse homem que dizeis.
72 E cantou o gallo a segunda vez. E Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: antes que o gallo cante duas vezes, tu me negarás tres vezes. E retirando-se dali, chorou.

CAPITULO 15.

1 E LOGO em amanhecendo tiverão conseho os Summos Pontifices com os Anciãos, e com os Escribas, e com todo o Concilio; e amarrando a Jesus, o levarão e entregarão a Pilatos.
2 E perguntou-lhe Pilatos: Es tu o Rei dos Judeos? e respondendo elle, disse-lhe: Tu o dizes.
3 E accusavão-o os Principes dos Sacerdotes de muitas cousas; porém elle nada respondia.
4 E perguntou-lhe outra vez Pilatos, dizendo: não respondes nada? olha quantas cousas testificão contra ti!
5 Mas Jesus nada mais respondeo; de maneira que Pilatos se maravilhava.
6 E no dia da festa lhes soltava hum preso, qualquer que elles pedissem.
7 E havia hum chamado Barabbas, preso com outros amotinadores, que em hum motim tinha commettido huma morte.
8 E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
9 E Pilatos lhes respondeo, dizendo: quereis que vos solte ao Rei dos Judeos?
10 (Porque bem sabia elle, que por inveja o entregárão os Principes dos Sacerdotes).
11 Mas os Principes dos Sacerdotes incitarão a multidão, que lhes soltasse antes a Barabbas.
12 E respondendo Pilatos, disse-lhes outra vez: que pois quereis que faça do que chamais Rei dos Judeos?
13 E elles tornarão a clamar: Crucifica-o.
14 Mas Pilatos lhes disse: pois que mal fez? e elles clamavão tanto mais: Crucifica-o.
15 Querendo porém Pilatos satisfazer á multidão, soltou-lhes a Barabbas, e entregou a Jesus açoutado, para que fosse crucificado.
16 E os soldados o levarão dentro á sala, que he a Audiencia; e convocarão toda a quadrilha.
17 E o vestirão de purpura; e tecendo huma coroa de espinhos, pozerão-lha na cabeça.
18 E começárão a saudá-lo, dizendo: hajas gozo, Rei dos Judeos.
19 E ferião-o na cabeça com huma cana, e cuspião nelle, e prostrados de joelhos o adoravão.
20 E havendo-o escarnecido despirão-lhe a purpura, e o vestirão de seus proprios vestidos, e o levarão fora, para o crucificarem.
21 E constrangérão a hum Simão Cyreneo, que por ali passava, e vinha do campo, o pai de Alexandre e de Rufo, que levasse sua cruz.
22 E o levárão ao lugar de Golgotha, que traduzido he: o lugar da Caveira.
23 E derão-lhe a beber vinho mirrado: mas elle não o tomou.
24 E havendo-o crucificado, repartirão seus vestidos, lançando sortes sobre elles, que levaria cada hum.
25 E era a hora terceira, e o crucificarão.
26 E o titulo de sua causa estava sobre elle escrito: O REI DOS JUDEOS.
27 E crucificárão com elle dous salteadores, hum á sua mão direita, e outro á esquerda.
28 E cumprio-se a Escritura, que diz: e com os malfeitores foi contado.
29 E os que passavão delle blasfemavão, meneando suas cabeças, e dizendo: Ah! tu que derribas o Templo, e em tres dias o edificas:
30 Salva-te a ti mesmo, e desce da cruz.
31 E da mesma maneira tambem os Principes dos Sacerdotes, com os Escribas, dizião huns para os outros, zombando: a outros salvou, a si mesmo salvar-se não pode.
32 O! Christo, o Rei de Israël, desça agora da cruz, para que o vejamos, e o creamos. Tambem os que com elle estavão crucificados, o injuriavão.
33 E vinda a hora sexta, forão feitas trevas sobre toda a terra, até á hora nona.
34 E á hora nona exclamou Jesus com grande voz, dizendo: ELOI, ELOI, LAMMA SABACHTHANI; que traduzido, he: Deos meu, Deos meu, porque me desamparaste?
35 E ouvindo-o huns dos que ali estavão, dizião: eis que a Elias chama.
36 E correo hum, e encheo de vinagre huma esponja, e pondo-a em huma cana, dava-lhe de beber, dizendo: Deixai, vejamos se virá Elias a tirá-lo.
37 E Jesus, dando huma grande voz, expirou.
38 E o véo do Templo se rasgou em dous de alto abaixo.
39 E o Centurião, que ali em fronte delle estava, vendo que assim clamando expirára, disse: Verdadeiramente, Filho de Deos era este homem.
40 E tambem ali estavão algumas mulheres olhando de longe, entre as quaes estava tambem Maria Magdalena, e Maria mãi de Jacobo o menor, e de Joses, e Salomé.
41 As quaes tambem, estando elle em Galilea, o seguião, e o servião; e outras muitas, que tinhão subido com elle a Jerusalem.
42 E vinda ja a tarde, por quanto era a preparação, que he o ante Sabbado:
43 Veio José de Arimathea, Senador honrado, que tambem esperava o Reino de Deos, e ousado entrou a Pilatos, e pedio o corpo de Jesus.
44 E Pilatos se maravilhou de que já fosse morto. E chamando a si ao Centurião, perguntou-lhe se ja havia muito que era morto.
45 E havendo-o entendido do Centurião, deo o corpo a José.
46 O qual comprou hum lançol fino, e tirando-o da cruz, envolveo-o no lançol fino, e pô-lo em hum sepulcro lavrado em huma penha, e revolveo huma pedra á porta do sepulcro.
47 E Maria Magdalena, e Maria mãi de Joses, olhavão aonde o punhão.

CAPITULO 16.

1 E PASSADO o Sabbado, Maria Magdalena, e Maria mãi de Jacobo, e Salomé, comprárão especiarias, para virem, e o ungirem.
2 E mui de manhã, o primeiro da semana, vierão ao sepulcro, sahindo já o sol.
3 E dizião humas ás outras: quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
4 E attentando, virão que já a pedra estava revolta: (porque era mui grande.)
5 E entrando no sepulcro, virão hum mancebo assentado da banda direita, vestido de huma roupa comprida branca: e espantárão-se.
6 Mas elle lhes disse: não vos espanteis; buscais a Jesus Nazareno crucificado: já resuscitou; não está aqui: eis aqui o lugar aonde o pozerão.
7 Porém ide, dizei a seus discipulos, e a Pedro, que elle vos vai diante a Galilea; ali o vereis, como elle vos disse.
8 E sahindo ellas apresuradamente, fugirão do sepulcro; e temor e espanto as tinha tomado; e não dizião nada a ninguem, porque temião.
9 E como Jesus resuscitou pela manhã, o primeiro da semana, primeiramente appareceo a Maria Magdalena, da qual tinha lançado sete demonios.
10 Esta indo, denunciou-o aos que havião estado com elle, os quaes estavão tristes e chorando.
11E ouvindo elles que vivia, e della havia sido visto, não o crérão.
12 E depois se manifestou em outra forma a dous delles, que ião de caminho para o campo.
13 E indo estes, o denunciárão aos outros; porém nem ainda a estes crérão.
14 Finalmente se manifestou aos onze, estando elles juntamente assentados, e deitou-lhes em rosto sua incredulidade, e dureza de coração, por não haverem crido aos que o tinhão visto já resuscitado.
15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo, prégai o Evangelho a toda creatura.
16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condemnado.
17 E estes sinaes seguirão aos que crerem: em meu nome lançarão fora aos demonios; fallarão novas linguas;
18 Tirarão serpentes; e se beberem cousa alguma mortifera, não lhes fará nenhum damno; sobre os enfermos porão as mãos, e sararão.
19 O Senhor pois, depois de lhes haver falado, foi recebido arriba no ceo, e assentou-se á mão direita de Deos.
20 E sahindo elles, pregárão por todas as partes, obrando com elles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinaes que seguião. Amen.

LUCAS

CAPITULO 1.

1 PORQUANTO muitos emprehendérão pôr em ordem a relação das cousas, que entre nós tivérão sua inteira certeza,
2 Como nos entregárão os mesmos, que desde o principio as virão, e forão ministros da palavra;
3 Pareceo-me tambem a mim bem, havendo-me desde o principio já de tudo mui bem informado, escreve-las por ordem a ti, ó excellentissimo Theophilo;
4 Para que conheças a certeza das cousas de que já estás informado.
5 Houve em os dias de Herodes, Rei de Judea, hum Sacerdote, por nome Zacharias, da ordem de Abias; e sua mulher, das filhas de Aaron, e era seu nome Elisabeth.
6 E erão ambos justos diante de Deos, andando em todos os mandamentos e direitos do Senhor sem reprehensão.
7 E não tinhão filhos, porquanto Elisabeth era esteril, e ambos erão já vindos em altos dias.
8 E aconteceo, que administrando elle o sacerdocio diante de Deos, em ordem de sua vez.
9 Conforme ao costume sacerdotal, lhe cahio em sorte entrar em o Templo do Senhor, a offerecer o perfume.
10 E toda a multidão do povo estava fora orando, á hora do perfume.
11 E appareceo-lhe o Anjo do Senhor, estando da banda direita do altar do perfume.
12 E turbou-se Zacharias vendo-o, e cahio temor sobre elle.
13 Mas o Anjo lhe disse: Zacharias, não temas, porque tua oração foi ouvida, e tua mulher Elisabeth te parirá hum filho, e chamaras seu nome João.
14 E terás gozo e alegria, e muitos se alegrerão de seu nascimento.
15 Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem cidra; e será cheio do Espirito Santo, até desde o ventre de sua mãi.
16 E a muitos dos filhos de Israël converterá ao Senhor seu Deos delles.
17 E irá diante delle em o espirito e virtude de Elias, para converter os coraçoens dos pais aos filhos, e os rebeldes á prudencia dos justos; para preparar ao Senhor hum povo bem apercebido.
18 E disse Zacharias ao Anjo: em que conhecerei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher vinda em altos dias.
19 E respondendo o Anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriél, que assisto diante de Deos, e fui mandado a falar-te, e a dar-te estas alegres novas.
20 E eis aqui que te ficarás callado, e não poderás fallar, até o dia em que estas cousas aconteção, porquanto não creste as minhas palavras, as quaes a seu tempo se cumprirão.
21 E o povo estava esperando a Zacharias, e maravilhavão-se de que tanto tardava no Templo.
22 E sahindo elle, não lhes podia falar; e entenderão, que tinha visto alguma visão no Templo. E falava por acenos, e ficou mudo.
23 E succedeo, que cumpridos os dias de seu ministerio, veio para sua casa.
24 E depois daquelles dias concebeo sua mulher Elisabeth, e encubria-se por cinco mezes, dizendo:
25 Porque isto me fez o Senhor em os dias em que attentou, para tirar minha affronta entre os homens.
26 E no sexto mez foi o Anjo Gabriël enviado de Deos a huma cidade de Galilea, chamada Nazareth;
27 A huma virgem desposada com hum varão, cujo nome era José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria.
28 E entrando o Anjo a ella, disse: Gozo hajas em graça aceita; o Senhor he comtigo, bemdita tu entre as mulheres.
29 E vendo-o ella, turbou-se muito de suas palavras, e considerava que saudação seria esta.
30 E disse-lhe o Anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deos.
31 E vés aqui conceberás em o ventre, e parirás hum filho, e chamarás seu nome Jesus.
32 Este será grande, e será chamado Filho do Altissimo; e dar-lhe-ha o Senhor Deos o trono de David seu pai.
33 E reinará em a casa de Jacob eternamente, e de seu Reino não haverá fim.
34 E disse Maria ao Anjo: como se fará isto? porquanto varão não conheço.
35 E respondendo o Anjo, disse-lhe: o Espirito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Pelo que tambem o Santo, que de ti ha-de nascer, será chamado Filho de Deos.
36 E vês aqui, Elisabeth tua prima tambem tem concebido hum filho em sua velhice; e este he o sexto méz daquella que era chamada a esteril.
37 Porque nenhuma cousa será a Deos impossivel.
38 Então disse Maria: eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo tua palavra. E o Anjo partio della.
39 E levantando-se Maria naquelles dias, foi apresuradamente ás montanhas, a huma cidade de Juda.
40 E entrou em casa de Zacharias, e saudou Elisabeth.
41 E aconteceo, que como Elisabeth ouvio a saudação de Maria, saltou a criança em seu ventre, e foi Elisabeth cheia do Espirito Santo.
42 E exclamou com grande voz, e disse: Bemdita tu entre as mulheres, e bemdito o fruto de teu ventre.
43 E donde me vem isto a mim, que a mãi de meu Senhor a mim venha!
44 Porque vês aqui, que em a voz de tua saudação chegando a meus ouvidos, saltou a criança de alegria em meu ventre.
45 E bemaventurada a que creo; pois se hão de cumprir as cousas que do Senhor lhe forão ditas.
46 E disse Maria: minha alma engrandece ao Senhor:
47 E meu espirito se alegra em Deos meu Salvador.
48 Porquanto attentou para a baixeza de sua serva; pois eis aqui desde agora todas as geraçoens me chamarão bemaventurada.
49 Porque grandes cousas me fez o Poderoso, e santo he seu Nome.
50 E sua misericordia he de geração em geração, para com os que o temem.
51 Com seu braço obrou valerosamente, e dissipou aos soberbos do pensamento de seu coração.
52 Aos poderosos dos tronos tirou, e aos humildes levantou.
53 Aos famintos encheo de bens, e aos ricos enviou vazios.
54 Alçou a Israël seu servo, lembrando-se de sua misericordia.
55 (Como falou a nossos pais, a Abraham,e á sua semente) para sempre.
56 E ficou Maria com ella quasi tres mezes; e tornou para sua casa.
57 E a Elisabeth se lhe cumprio o tempo de parir, e pario hum filho.
58 E ouvirão os circunvizinhos, e seus parentes, que tinha Deos usado de grande misericordia com ella; e alegrarão-se com ella.
59 E aconteceo que ao oitavo dia vierão para circuncidarem ao menino; e o chamavão do nome de seu pai, Zacharias.
60 E respondendo sua mãi, disse; não, senão João será chamado.
61 E disserão-lhe: ninguem ha em tua parentela que deste nome se chame.
62 E falárão por acenos a seu pai, como queria que lhe chamassem?
63 E pedindo elle a taboinha de escrever, escreveo, dizendo: João he seu nome. E todos se maravilharão.
64 E logo a boca se lhe abrio, e a lingoa se lhe soltou; e falava, louvando a Deos.
65 E veio hum temor sobre todos seus circunvizinhos; e em todas as montanhas de Judea forão divulgadas todas estas cousas.
66 E todos os que as ouvião, as punhão em seus coraçoens, dizendo: quem será ora este menino? E a mão do Senhor era com elle.
67 E Zacharias seu pai foi cheio do Espirito Santo, e prophetizou, dizendo:
68 Bemdito o Senhor Deos de Israël, porque visitou, e redemio a seu povo;
69 E nos levantou o corno da salvação na casa de David seu servo;
70 Como falou por boca de seus santos Prophetas, que desde o principio do mundo houve:
71 Que nos livraria de nossos inimigos, e da mão de todos os que nos aborrecem.
72 Para fazer misericordia a nossos pais, e se lembrar de seu santo concerto:
73 E do juramento, que jurou a Abraham nosso pai que nos havia de dar:
74 Que libertados da mão de nossos inimigos, o serviriamos sem temor.
75 Em santidade e justiça diante delles, todos os dias de nossa vida.
76 E tu, ó menino, Propheta do Altissimo serás chamado; porque diante da face do Senhor has de ir, a aparelhar seus caminhos;
77 Para dar a seu povo conhecimento da salvação, em remissão de seus peccados;
78 Pelas entranhas da misericordia de nosso Deos, com que o Oriente do alto nos visitou;
79 Para apparecer aos que assentados estão em trevas, e em sombra de morte; para endereçar nossos pés pelo caminho da paz.
80 E crescia o menino, e era confortado em espirito. E esteve em os desertos até o dia que se mostrou a Israël.

CAPITULO 2.

1 E ACONTECEO naquelles dias, que sahio hum mandado da parte de Cesar Augusto, que todo o mundo se matriculasse.
2 (Esta primeira matricula foi feita sendo Presidente da Syria Cyrenio.)
3 E ião todos a matricular-se, cada qual á sua propria cidade.
4 E subio tambem José de Galilea, da cidade de Nazareth á Judea, á cidade de David, que se chama Bethlehem; (porquanto era da casa e familia de David.)
5 Para se matricular com Maria sua mulher, com elle desposada, a qual estava prenhe.
6 E aconteceo, que estando elles ali, se cumprirão os dias em que havia de parir.
7 E pario a seu filho o primogenito, e o envolveo em cueiros, e o deitou na manjadoura; porque não havia para elles lugar na estalagem.
8 E havia pastores naquella mesma comarca, que estavão no campo, e guardavão as vigias da noite sobre seu rebanho.
9 E eis que o Anjo do Senhor veio sobre elles, e a gloria do Senhor os cercou de resplandor, e temerão com grande temor.
10 E o Anjo lhes disse: não temais, porque vedes aqui vos dou novas de grande gozo, que será para todo o povo.
11 Que hoje vos he nascido o Salvador, que he Christo o Senhor, na cidade de David.
12 E isto vos será por sinal: achareis ao menino envolto em cueiros, e deitado na manjadoura.
13 E no mesmo instante houve com o Anjo huma multidão de exercitos celestiaes, que louvavão a Deos, e dizião:
14 Gloria em as alturas a Deos, na terra paz, e aos homens boa vontade.
15 E aconteceo, que como os Anjos partirão delles para o ceo, disserão os pastores huns aos outros: passemos pois até Bethlehem, e vejamos isto que succedeo, e que o Senhor nos notificou.
16 E vierão apresuradamente, e acharão a Maria, e a José, e ao menino deitado na manjadoura.
17 E vendo-o, divulgárão a palavra que acerca do menino lhes havia sido dita.
18 E todos os que a ouvirão, se maravilhárão do que os pastores lhes dizião.
19 Mas Maria guardava todas estas palavras, conferindo-as em seu coração.
20 E tornárão os pastores glorificando e louvando a Deos, por todas as cousas que ouvido e visto tinhão; como lhes havia sido dito.
21 E cumpridos os oito dias, para circuncidar ao menino, foi seu nome chamado Jesus; o qual do Anjo lhe foi posto, antes que no ventre fosse concebido.
22 E cumprindo-se os dias de sua purificação della, segundo a Lei de Moyses, o trouxerão a Jerusalem, para o apresentarem ao Senhor.
23 (Como em a Lei do Senhor está escrito: Todo macho que abrir a madre será chamado santo ao Senhor.)
24 E para darem a offerta, segundo o que na Lei do Senhor está dito, hum par de rolas, ou dous pombinhos.
25 E eis que havia hum homem em Jerusalem, cujo nome era Simeão; e era este homem justo, e temente a Deos, e esperava a consolação de Israël; e o Espirito Santo estava sobre elle.
26 E lhe fora feita divina revelação pelo Espirito Santo, que não veria a morte, antes que visse ao Christo do Senhor.
27 E veio pelo Espirito ao Templo; e como os pais introduzirão ao menino Jesus, para com elle fazerem segundo o costume da Lei;
28 Então elle o tomou em seus braços, e louvou a Deos, e disse:
29 Agora despedes, Senhor, em paz a teu servidor, segundo a tua palavra;
30 Pois já meus olhos tem visto tua salvação.
31 A qual aparelhaste perante a face de todos os povos.
32 Luz para illuminação das gentes, e para gloria de teu povo Israël.
33 E José, e sua mãi, se maravilhárão das cousas que delle se dizião.
34 E Simeão os abendiçoou, e disse a sua mãi Maria: Vés aqui que este he posto para queda e levantamento de muitos em Israël; e para sinal que será contradito,
35 (E tambem huma espada traspassará tua propria alma.) para que de muitos coraçoens se manifestem os pensamentos.
36 E estava ali Anna Prophetiza, filha de Phanuël da tribu de Aser; esta tinha já vindo em grande idade, e havia vivido com seu marido sete annos desde sua virgindade.
37 E era viuva de quasi oitenta e quatro annos, e não se apartava do Templo em jejuns, e oraçoens, servindo a Deos de noite e de dia.
38 E sobrevindo esta em a mesma hora, confessava juntamente ao Senhor, e fallava delle a todos os que esperavão a redempção em Jerusalem.
39 E como acabárão de cumprir todas as cousas, que segundo a Lei do Senhor se devião fazer, tornárão a Galilea, para sua cidade de Nazareth.
40 E crescia o menino, e era confortado em espirito, e cheio de sabedoria; e a graça de Deos estava sobre elle.
41 E ião seus pais todos os annos a Jerusalem, á festa da Paschoa.
42 E sendo já de doze annos, subirão a Jerusalem, segundo o costume do dia da festa;
43 E acabados já aquelles dias, tornando elles, ficou o menino Jesus em Jerusalem, e não o soube José nem sua mãi.
44 Porém cuidando elles, que vinha de caminho na companhia, andárão caminho de hum dia; e o buscavão entre os parentes, e entre os conhecidos.
45 E como não o achárão, tornárão em busca delle a Jerusalem.
46 E aconteceo que depois de tres dias, o achárão no Templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e perguntando-lhes.
47 E todos os que o ouvião, pasmavão de seu entendimento e respostas;
48 E vendo-o elles, espantárão-se; e disse-lhe sua mãi: filho, porque assim comnosco о fizeste? vês aqui teu pai e eu, que com ancia te buscávamos.
49 E elle lhes disse: que ha, porque me buscaveis? não sabieis que em os negocios de meu Pai me convém estar?
50 E elles não entenderão as palavras que lhes dizia.
51 E desceo com elles, e veio a Nazareth, e era-lhes sujeito. E sua mãi guardava todas estas cousas em seu coração.
52 E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deos, e para com os homens.

CAPITULO 3.

1 E NO anno quinze do imperio de Tiberio Cesar, sendo Poncio Pilatos Presidente de Judea, e Herodes Tetrarcha de Galilea, e seu irmão Philippe Tetrarcha de Iturea, e da Provincia de Trochonite, e Lysania Tetrarcha de Abylenia;
2 Sendo Annás e Caiphas Summos Pontifices, foi feita a palavra de Deos a João, filho de Zacharias, em o deserto.
3 E veio por toda a terra de redor do Jordão, prégando o baptismo de arrependimento, para perdão dos peccados.
4 Como está escrito no livro das palavras do Propheta Isaias, que diz; Voz do que clama em o deserto; aparelhai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.
5 Todo valle se encherá, e todo monte e outeiro se abaixará; e os caminhos torcidos se endireitarão; e os caminhos asperos se aplainarão.
6 E verá toda carne a salvação de Deos.
7 Dizia pois á multidão dos que sahião a serem baptizados delle: Raça de viboras; quem vos ensinou a fogirdes da ira que está para vir?
8 Dai pois frutos dignos de arrependimento, e não começeis a dizer em vos mesmos: temos a Abraham por Pai. Porque eu vos digo, que até destas pedras pode Deos despertar filhos a Abraham.
9 E tambem já o machado está posto á raiz das arvores; por tanto, toda arvore que não dá bom fruto, se corta e lança no fogo.
10 E a multidão lhe perguntava, dizendo: que faremos logo?
11 E respondendo elle, disse-lhes: quem tiver duas tunicas, parta com o que não tem; e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
12 E viérão tambem a elle os publicanos, para serem baptizados; e dissérão-lhe: Mestre que faremos?
13 E elle lhes disse: não peçais mais do que vos está ordenado.
14 E perguntárão-lhe tambem os soldados, dizendo: e nósoutros que faremos? e elle lhes disse: não trateis mal a ninguem, nem a ninguem defraudeis; e contentai-vos com vossos soldos.
15 E estando o povo esperando, e imaginando todos de João em seus coraçoens, se por ventura fosse o Christo;
16 Respondeo João a todos, dizendo: bem vos baptizo eu com agua, mas vem quem mais forte he que eu, a quem eu não sou digno de desatar-lhe a correa das alparcas; este vos baptizará com Espirito Santo e com fogo.
17 Cuja pá está em sua mão, e alimpará sua eira, e ajuntará o trigo em seu celleiro, porem a palha queimará com fogo que nunca se apaga.
18 Assim que admoestando tambem outras muitas cousas, annunciava o Evangelho ao povo.
19 Porém sendo Herodes Tetrarcha reprehendido delle por causa de Herodias, mulher de seu irmão Philippe, e por todas as maldades que Herodes tinha feito;
20 Accrescentou ainda isto sobre tudo o de mais, que a João encerrou no carcere.
21 E aconteceo, que como todo o povo se baptizava, e Jesus tambem fosse baptisado, e orasse, o ceo se abrio;
22 E desceo o Espirito Santo sobre elle em forma corporal, como pomba; e fez-se huma voz do ceo, que dizia: tu es o meu amado filho, em ti muito me agrado.
23 E o mesmo Jesus começava a ser como de trinta annos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli,
24 E Heli de Matthat, e Matthat de Levi, e Levi de Melchi, e Melchi de Janna, e Janna de José.
25 E José de Mattathias, e Mattathias de Amos, e Amos de Naum, e Naum de Essi, e Essi de Naggai.
26 E Naggai de Maath, e Maath de Mattathias, e Mattathias de Semei, e Semei de José, e José de Juda.
27 E Juda de Johanna, e Johanna de Rhesa, e Rhesa de Zorobabel, e Zorobabel de Salathiel, e Salathiel de Neri.
28 E Neri de Melchi, e Melchi de Addi, e Addi de Cosam, e Cosam de Elmodam, e Elmodam de Er.
29 E Er de José, e José de Eliezer, e Eliezer de Jorim, e Jorim de Matthat, e Matthat de Levi.
30 E Levi de Simeon, e Simeon de Juda, e Juda de José, e José de Jonan, e Jonan de Eliacim.
31 E Eliacim de Melea, e Melea de Mainan , e Mainan de Matthatha, e Matthatha de Nathan, e Nathan de David.
32 E David de Jesse, e Jesse de Obed, e Obed de Booz, e Booz de Salmon, e Salmon de Naasson.
33 E Naasson de Aminadab, e Aminadab de Aram, e Aram de Esrom, e Esrom de Phares, e Phares de Juda.
34 E Juda de Jacob, e Jacob de Isaac, e Isaac de Abraham, e Abraham de Thare, e Thare de Nachor.
35 E Nachor de Saruch, e Saruch de Ragau, e Ragau de Phalegh, e Phalegh de Heber, e Heber de Sala.
36 E Sala de Cainan, e Cainan de Arphaxad, e Arphaxad de Sem, e Sem de Noë, e Noë de Lamech.
37 E Lamech de Mathusala, e Mathusala de Henoch, e Henoch de Jared, e Jared de Maleleel, e Maleleel de Cainan.
38 E Cainan de Henos, e Henos de Seth, e Seth de Adam, e Adam de Deos.

CAPITULO 4.

1 E JESUS cheio do Espirito Santo, tornou do Jordão, e foi levado pelo Espirito ao deserto.
2 E quarenta dias foi tentado do Diabo; e não comeo cousa nenhuma naquelles dias; e acabados elles, finalmente teve fome.
3 E disse-lhe o Diabo: Se tu es Filho de Deos, dize a esta pedra que se faça pão.
4 E Jesus lhe respondeo, dizendo: Escrito está, que não só com pão viverá o homem, mas com toda palavra de Deos.
5 E levando-o o Diabo a hum alto monte, mostrou-lhe todos os Reinos do mundo em hum momento de tempo.
6 E disse-lhe o Diabo: a ti te darei todo este poder, e sua gloria; porque a mim me está entregue, e a quem quero o dou.
7 Portanto se tu me adorares, tudo será teu.
8 E respondendo Jesus, disse-lhe: Arreda-te de mim Satanás; porque escrito está: Ao Senhor teu Deos adorarás, e a elle só servirás.
9 E levou-o a Jerusalem, e pô-lo sobre o pinaculo do Templo, e disse-lhe: Se tu es o Filho de Deos, lança-te daqui abaixo.
10 Porque escrito está, que a seus Anjos mandará ácerca de ti, que te guardem.
11 E que nas mãos te tomarão, para que nunca tropeces com teu pé em alguma pedra.
12 E respondendo Jesus, disse-lhe: dito está: não tentarás ao Senhor teu Deos.
13 E acabando o Diabo toda a tentação, se foi delle por algum tempo.
14 E tornou Jesus em virtude do Espirito para Galilea, e sahio sua fama por toda a terra do redor.
15 E ensinava em suas Synagogas, e de todos era louvado.
16 E veio a Nazareth, onde fora criado, e entrou, segundo seu costume, hum dia de Sabbado, na Synagoga; e levantou-se a ler.
17 E foi lhe dado o livro do Propheta Isaias; e como abria o livro, achou o lugar aonde estava escrito:
18 O Espirito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungio; para evangelizar aos pobres me enviou, para curar aos contritos de coração;
19 Para apregoar liberdade aos captivos, e vista aos cegos; para enviar em liberdade aos quebrantados; para apregoar o anno agradavel do Senhor.
20 E cerrando o livro, e tornando-o a dar ao Ministro, assentou-se; e os olhos de todos na Synagoga estavão fitos nelle.
21 E começou-lhes a dizer: hoje se cumprio esta escritura em vossos ouvidos.
22 E todos lhe davão testemunho, e se maravilhavão das palavras de graça que de sua boca sahião; e dizião: não he este o filho de José?
23 E elle lhes disse: sem duvida este proverbio me direis: Medico, cura-te a ti mesmo; de todas quantas cousas ouvimos forão feitas em Capernaum, faze tambem aqui algumas em tua patria.
24 E disse: em verdade vos digo, que nenhum Propheta he agradavel em sua patria.
25 Porem em verdade vos digo, que muitas viuvas havia em Israël em dias de Elias, quando o ceo se cerrou por tres annos e seis mezes; de modo que em toda a terra houve grande fome.
26 E a nenhuma dellas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidon, a huma mulher viuva.
27 E muitos leprosos havia em Israël, em tempo do Propheta Eliseo; e nenhum delles foi limpo senão Naaman o Syro.
28 E todos se encherão de ira na Synagoga, ouvindo estas cousas.
29 E levantando-se, o lançarão fora da cidade, e o levárão até o cume do monte, em que a cidade delles estava edificada, para dali d’alto abaixo o lançarem.
30 Mas passando elle por meio delles, se foi.
31 E desceo a Capernaum, cidade de Galilea; e ali os ensinava em os Sabbados.
32 E pasmavão de sua doutrina, porque sua palavra era com autoridade.
33 E estava na Synagoga hum homem, que tinha hum espirito de hum demonio immundo, e clamou com grande voz,
34 Dizendo: Ah, que temos comtigo, Jesus Nazareno? vieste a nos destruir? bem sei quem es, o Santo de Deos.
35 E Jesus o reprehendeo, dizendo: calla-te, e sahe delle. E derribando-o o demonio no meio, sahio delle, sem lhe fazer damno algum.
36 E veio espanto sobre todos; e falavão entre si huns com os outros, dizendo: que palavra he esta? que até aos espiritos immundos manda com autoridade e potencia, e sahem?
37 E sua fama se divulgava em todos os lugares do redor daquella comarca.
38 E levantando-se Jesus da Synagoga, entrou em casa de Simão; e a sogra de Simão estava enferma de huma grande febre, e rogarão-lhe por ella.
39 E inclinando-se para ella, reprehendeo a febre; e a febre a deixou. E levantando-se logo, servia-os.
40 E pondo-se já o sol, todos os que tinhão enfermos de varias doenças, lhos trazião; e pondo as mãos sobre cada hum delles, curava-os.
41 E tambem os demonios sahião de muitos, clamando, e dizendo: Tu es o Christo, o Filho de Deos; e reprehendendo-os elle, não os deixava falar, porque sabião que elle era o Christo.
42 E sendo já de dia, sahio, e foi a hum lugar deserto; e as multidoens o buscavão, e vierão até chegar a elle; e o detinhão, que delles se não fosse.
43 Porém elle lhes disse: tambem he necessario, que a outras cidades annuncie o Evangelho do Reino de Deos; porque para isso sou enviado.
44 E prégava nas Synagogas de Galilea.

CAPITULO 5.

1 E ACONTECEO, que derribando-se as multidoens sobre elle, por ouvirem a palavra de Deos, estava elle junto ao lago de Genezaret.
2 E vio estar dous barcos junto á praia do lago; e havendo os pescadores descido delles, estavão lavando as redes.
3 E entrando em hum daquelles barcos, que era o de Simão, pedio-lhe que o desviasse hum pouco de terra; e assentando-se, ensinava a multidão desde o barco.
4 E como deixou de falar, disse a Simão: Leva em alto mar, e lançai vossas redes para pescar.
5 E respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada tomámos; mas em tua palavra lançarei a rede.
6 E fazendo-o assim, colherão grande multidão de peixes, e sua rede se rompia.
7 E capeárão aos companheiros, que estavão no outro barco, que viessem ajudar. E vierão, e encherão ambos os barcos, de tal modo, que quasi ião a pique.
8 E vendo Simão Pedro isto, derribou-se aos pés de Jesus, dizendo: Sahe de mim, Senhor, que sou homem peccador.
9 Porque espanto o tinha tomado, e a todos os que com elle estavão, pela preza dos peixes que tomarão.
10 E semelhantemente tambem a Jacobo e a João, filhos de Zebedeo, que erão companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: não temas; desde agora tomarás homens.
11 E como levárão os barcos á terra, deixando tudo, o seguirão.
12 E aconteceo, que estando em huma daquellas cidades, eis hum homem cheio de lepra, e vendo a Jesus, prostrou-se sobre o rosto, e rogou-lhe, dizendo: Senhor, se quizeres, bem me podes fazer limpo.
13 E estendendo elle a mão, o tocou, dizendo: Quero, sejas limpo. E logo a lepra se foi delle.
14 E mandou-lhe que o não dissesse a ninguem: mas vai, disse, mostra-te ao Sacerdote, e offerece por tua limpeza, como mandou Moyses, para que lhes conste.
15 Porém sua fama andava tanto mais; e ajuntárão-se muitas gentes a ouvir, e a serem curados por elle de suas enfermidades.
16 Mas elle se retirava aos desertos, e ali orava.
17 E aconteceo hum daquelles dias que estava ensinando, e estavão ali assentados Phariseos e Doutores da Lei, que tinhão vindo de todas as aldeas de Galilea, e de Judea, e de Jerusalem; e a virtude do Senhor estava ali para os curar.
18 E eis aqui huns homens, que trazião em huma cama hum homem que estava paralytico; e procuravão levá-lo dentro, e pô-lo diante delle.
19 E não achando por onde o poder levar dentro, por causa da multidão, subirão em cima do telhado, e pelas telhas o abaixárão com o catre ao meio, diante de Jesus.
20 E vendo elle a fé delles, disse-lhe: homem, teus peccados te são perdoados.
21 E os Escribas e os Phariseos começárão a imaginar, dizendo: quem he este, que fala blasfemias? quem pode perdoar peccados, senão só Deos?
22 Porém conhecendo Jesus os pensamentos delles respondeo, e disse-lhes: que imaginais em vossos coraçoens?
23 Qual he mais facil, dizer: teus peccados te são perdoados? ou dizer: levanta-te, e anda?
24 Ora para que saibais, que o Filho do homem tem poder para na terra perdoar peccados, (disse ao paralytico:) a ti te digo, levanta-te, e tomando teu catre, vai-te para tua casa.
25 E levantando-se elle logo diante delles, e tomando-o em que estava deitado, foi para sua casa, glorificando a Deos.
26 E tomou espanto a todos, e glorificavão a Deos; e forão cheios de temor, dizendo: hoje vimos cousas incriveis.
27 E depois destas cousas, sahio; e vio a hum publicano, por nome Levi, assentado na alfandega, e disse-lhe: segue-me.
28 E deixando elle tudo, levantou-se, e o seguio.
29 E fez-lhe Levi hum grande banquete em sua casa; e estava ali muita multidão de publicanos, e de outros que com elles assentados estavão á mesa.
30 E os Escribas delles, e os Phariseos murmuravão contra seus discipulos, dizendo: porque comeis e bebeis com publicanos e peccadores?
31 E respondendo Jesus, disse-lhes: os que estão sãos não necessitão de medico, senão os que estão enfermos.
32 Não vim eu a chamar aos justos, senão aos peccadores a arrependimento.
33 Então lhe disserão elles: porque jejuão os discipulos de João muitas vezes, e fazem oraçoens, como tambem os dos Phariseos; porém os teus comem e bebem?
34 Mas elle lhes disse: podeis vósoutros fazer jejuar aos que estão de vódas, em quanto o esposo está com elles?
35 Porém dias virão, quando o esposo lhes será tirado; e então naquelles dias jejuarão.
36 E dizia-lhes tambem huma parabola: Ninguem deita remendo de panno novo em vestido velho; d’outra maneira, o novo rompe ao velho; e ao velho não convem remendo do novo.
37 E ninguem deita vinho novo em odres velhos; d’outra maneira romperá o vinho novo os odres, e derramar-se-ha o vinho, e os odres se damnarão.
38 Mas o vinho novo se ha de deitar em odres novos; e ambos juntamente se conservão.
39 E ninguem que beber o velho, quer logo o novo; porque diz: melhor he o velho.

CAPITULO 6.

1 E ACONTECEO que passou por huns semeados, o segundo Sabbado primeiro, e ião seus discipulos arrancando espigas, e comendo, esfregando-as com as mãos.
2 E alguns dos Phariseos lhes disserão: porque fazeis o que não he licito fazer em Sabbados?
3 E respondendo-lhes Jesus, disse: nunca léstes o que fez David, quando teve fome, elle e os que com elle estavão?
4 Como entrou na casa de Deos, e tomou e comeo, os pães da proposição, e deo tambem aos que estavão com elle; os quaes não he licito comer senão só aos Sacerdotes?
5 E dizia-lhes: o Filho do homem até do Sabbado he Senhor.
6 E aconteceo tambem em outro Sabbado que entrou na Synagoga, e ensinava: e estava ali hum homem que tinha a mão direita seca.
7 E attentavão os Escribas e os Phariseos para elle, se em Sabbado o curaria: por acharem de que o accusar.
8 Porém bem sabia elle os pensamentos delles; e disse ao homem que tinha a mão seca: levanta-te, e poem-te em pé no meio. E levantando-se elle, poz-se em pé.
9 Então Jesus lhes disse: huma cousa vos hei de perguntar: que he licito em Sabbados? fazer bem, ou fazer mal? salvar huma pessoa, ou matá-la?
10 E olhando para todos ao redor, disse ao homem: estende tua mão. E elle o fez assim: e foi-lhe a mão restituida sã como a outra.
11 E ficárão cheios de furor; e praticavão juntamente huns com os outros, que farião a Jesus.
12 E aconteceo que naquelles dias sahia ao monte a orar; e passou a noite orando a Deos.
13 E como já foi dia, chamou a si a seus discipulos, e escolheo doze delles, a quem tambem chamou Apostolos.
14 Convém a saber a Simão, ao qual tambem chamou Pedro, e a André seu irmão; a Jacobo, e a João; a Philippe, e a Bartholomeo.
15 A Mattheus, e a Thomas; a Jacobo filho de Alpheo; e a Simão, chamado Zelote.
16 A Judas irmão de Jacobo, e a Judas Iscariota, o mesmo que foi o traidor.
17 E descendo com elles, parou em hum lugar plano, e com elle a companhia de seus discipulos, e grande multidão de povo de toda Judea, e de Jerusalem, e da costa maritima de Tyro, e de Sidon,
18 Que tinhão vindo ao ouvir, e a ser curados de suas enfermidades; como tambem os atormentados de espiritos immundos: e forão curados.
19 E toda a multidão procurava tocá-lo; porque sahia delle virtude, e curava a todos.
20 E levantando elle os olhos para seus discipulos, dizia: Bemaventurados vós pobres, porque vosso he o Reino de Deos.
21 Bemaventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bemaventurados vós que agora chorais, porque rireis.
22 Bemaventurados sereis quando os homens vos aborrecerem, e quando vos separarem, e vos injuriarem, e regeitarem vosso nome como máo, por amor do Filho do homem.
23 Gozai-vos naquelle dia, e alegrai-vos, porque vêdes aqui grande he nos ceos vosso galardão; porque assim fazião seus pais aos Prophetas.
24 Mas ai de vósoutros ricos, porque já tendes vossa consolação.
25 Ai de vósoutros que estais fartos, porque havereis fome. Ai de vósoutros que agora rides, porque lamentareis, e chorareis.
26 Ai de vósoutros, quando todos os homens de vósoutros disserem bem; porque assim fazião seus pais aos falsos Prophetas.
27 Mas a vósoutros, que isto ouvis, digo: amai a vossos inimigos; fazei bem aos que vos aborrecem.
28 Bemdizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos calumnião.
29 Ao que te ferir em huma face, offerece-lhe tambem a outra; e ao que te tirar a capa, nem a roupeta lhe defendas de tirar.
30 E a qualquer que te pedir, dá; e ao que te tomar o teu, não lho tornes a pedir.
31 E como vós quereis que vos fação os homens, fazei-lhes vósoutros tambem da mesma maneira.
32 E se amardes aos que vos amão, que grado tereis? porque tambem os peccadores amão aos que os amão.
33 E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que grado tereis? porque tambem os peccadores fazem o mesmo.
34 E se emprestardes áquelles de quem esperais tornar a receber, que grado tereis? porque tambem os peccadores emprestão aos peccadores, para tornarem a receber outro tanto.
35 Amai pois a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem disso nada esperar; e será grande vosso galardão, e sereis filhos do Altissimo; porque he benigno até para com os ingratos e máos.
36 Sêde pois misericordiosos, como tambem vosso Pai he misericordioso.
37 E não julgueis, e não sereis julgados; não condemneis, e não sereis condemnados; soltai, e soltar-vos-hão.
38 Dai, e ser-vos-ha dado; medida boa, recalcada, sacudida, e trasbordando vos darão em vosso regaço; porque com a mesma medida que medirdes vos tornarão a medir.
39 E dizia-lhes huma parabola: Pode por ventura o cego guiar ao cego? não cahirão ambos na cava?
40 Não he o discipulo sobre seu mestre; mas qualquer será perfeito, que for como seu mestre.
41 E porque attentas tu para o argueiro que está no olho de teu irmão; e a trave que está em teu proprio olho não enxergas?
42 Ou como podes dizer a teu irmão: irmão, deixa-me tirar o argueiro que está em teu olho, não attentando tu mesmo para a trave que está em teu olho? hypocrita, tira primeiro fóra a trave de teu olho, e então attentarás em tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.
43 Porque não he boa a arvore que dá máo fruto, nem má a arvore que dá bom fruto.
44 Porque cada arvore se conhece por seu proprio fruto; que não colhem figos dos espinheiros, nem vendimão uvas dos abrolhos.
45 O bom homem do bom thesouro de seu coração tira o bem; e o máo homem do máo thesouro de seu coração tira o mal; porque da abundancia do coração fala sua boca.
46 E porque me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que digo?
47 Qualquer que vem a mim, e ouve minhas palavras, e as faz; eu vos mostrarei a quem he semelhante.
48 Semelhante he ao homem que edificou huma casa, e cavou, e abrio bem fundo, e poz o fundamento sobre penha; e vindo a enchente, deo a corrente com impeto naquella casa, e não a pode abalar, porque estava fundada sobre penha.
49 Mas o que as ouvir, e as não fizer, semelhante he ao homem que edificou huma casa sobre terra sem fundamento, na qual a corrente deo com impeto, e logo cahio; e foi grande a queda daquella casa.

CAPITULO 7.

1 E DEPOIS de acabar todas suas palavras em ouvidos do povo, entrou em Capernaum.
2 E estando o servo de hum certo Centurião, a quem muito estimava, enfermo, ia já morrendo.
3 E como ouvio de Jesus, enviou-lhe os Anciãos dos Judeos, rogando-lhe que viesse, e curasse a seu servo.
4 E vindo elles a Jesus, rogárão-lhe encarecidamente, dizendo: que he digno de lhe concederes isto.
5 Porque ama a nossa nação, e elle mesmo nos edificou a Synagoga.
6 E foi Jesus com elles; mas como já não estivesse longe da casa mandou-lhe o Ceuturião huns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não tomes trabalho, que não sou digno que entres debaixo de meu telhado.
7 Pelo que nem ainda me tive por digno de vir a ti; mas dize huma só palavra, e meu criado sarará.
8 Porque tambem eu sou homem sugeito á potestade de outros, que tenho debaixo de mim soldados, e digo a este: vai, e vai; e a outro, vem, e vem; e a meu servo, faze isto, e fa-lo.
9 E ouvindo Jesus isto, maravilhou-se delle; e virando-se, disse á multidão que o seguia: digo-vos, que nem ainda em Israël tenho achado tanta fé.
10 E tornando para casa os que forão enviados, achárão são ao servo enfermo.
11 E aconteceo o dia seguinte, que ia a huma cidade chamada Nain, e ião com elle muitos de seus discipulos, e huma grande multidão.
12 E como chegou perto da porta da cidade, eis que levavão hum defunto, filho unigenito de sua mãi, que era viuva: e havia com ella huma grande multidão da cidade.
13 E vendo-a o Senhor, moveo-se a intima compaixão della, e disse-lhe: não chores.
14 E chegando-se, tocou a tumba; (e os que a levavão parárão) e disse: Mancebo, a ti te digo, levanta-te.
15 E o defunto se assentou, e começou a falar; e deu-o a sua mãi.
16 E tomou temor a todos, e glorificavão a Deos, dizendo: grande propheta se levantou entre nós, e Deos visitou a seu povo.
17 E sahio esta fama delle por toda Judea, e por toda a terra de redor.
18 E os discipulos de João lhe denunciarão todas estas cousas.
19 E chamando João a certos dous de seus discipulos, mandou-os a Jesus, dizendo: es tu aquelle que havia de vir, ou esperamos a outro?
20 E como aquelles varoens viérão a elle, disserão: João o Baptista nos mandou a ti, dizendo: es tu aquelle que havia de vir, ou esperamos a outro?
21 E na mesma hora curou a muitos de enfermidades, e males, e espiritos máos, e a muitos cegos deo a vista.
22 E respondendo Jesus, disse-lhes: Ide, e denunciai a João as cousas que tendes visto e ouvido, a saber, que os cegos vêem, os mancos andão, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos resuscitão, e aos pobres se annuncia o Evangelho.
23 E bemaventurado aquelle que em mim se não escandalizar.
24 E como se forão os mensageiros de João, começou a dizer de João á multidão: que sahistes a ver ao deserto? alguma cana que do vento he abalada?
25 Mas que sahistes a ver? algum homem vestido de vestidos brandos? eis que os que com preciosos vestidos, e em delicias andão, nos paços Reaes estão.
26 Mas que sahistes a ver? algum propheta? tambem vos digo, e muito mais que propheta.
27 Este he aquelle, de quem está escrito: Eis que envio a meu Anjo diante de tua face, o qual aparelhará teu caminho diante de ti.
28 Porque eu vos digo, que entre os nascidos de mulheres não ha maior propheta que João o Baptista; mas o menor em o Reino dos ceos he maior que elle.
29 E ouvindo-o todo o povo, e os publicanos, que com o baptismo de João forão baptizados, justificárão a Deos.
30 Mas os Phariseos e os Doutores da Lei regeitarão o conselho de Deos contra si mesmos, não sendo baptizados delle.
31 E disse o Senhor: a quem pois compararei os homens desta geração? e a quem são semelhantes?
32 Semelhantes são aos rapazes, assentados na praça, e huns aos outros clamão, e dizem: Tangémos-vos com frautas, e não bailastes; cantámos-vos lamentaçoens, e não chorastes.
33 Porque veio João o Baptista, que nem comia pão, nem bebia vinho, e dizeis: Demonio tem.
34 Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Vêdes aqui hum homem comilão, e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de peccadores.
35 Mas foi a sabedoria justificada de todos seus filhos.
36 E rogou-lhe hum dos Phariseos que comesse com elle; e entrando em casa do Phariseo, assentou-se á mesa.
37 E eis huma mulher, que na cidade era peccadora, entendendo que estava á mesa em casa do Phariseo, trouxe hum vaso de alabastro de unguento.
38 E estando de trás a seus pés, começou chorando a regar-lhe os pés com lagrimas; e alimpava-lhos com os cabellos de sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento.
39 E como isto vio o Phariseo que o tinha convidado, falava comsigo, dizendo: se este fôra propheta, bem soubéra quem e qual he a mulher que o toca: porque peccadora he.
40 E respondendo Jesus, disse-lhe: Simão, huma cousa tenho que te dizer; e elle disse: dize-a Mestre.
41 Disse Jesus: Hum certo credor tinha dous devedores; hum lhe devia quinhentos dinheiros, e o outro cincoenta.
42 E não tendo elles com que pagar, quitou-lhes a divida a ambos. Dize pois, qual destes o amará mais?
43 E respondendo Simão, disse: Para mim tenho que aquelle a quem mais quitou. E elle lhe disse: Bem e direitamente julgaste.
44 E virando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? em tua casa entrei, e agoa aos pés me não déste, e esta os pés com lagrimas me regou, e com os cabellos de sua cabeça mos alimpou.
45 Beijo me não déste; e esta, désde que entrou, não cessou de me beijar os pés.
46 A cabeça com oleo me não ungiste, e esta os pés com unguento me ungio.
47 Pelo que te digo, que seus muitos peccados lhe são perdoados, porque muito amou; mas ao que pouco se perdoa, pouco ama.
48 E a ella lhe disse: Teus peccados te são perdoados.
49 E os que juntamente á mesa estavão assentados começarão a dizer entre si: quem he este, que tambem perdoa peccados?
50 E disse á mulher: tua fé te salvou; vai-te em paz.

CAPITULO 8.

1 E ACONTECEO depois disto, que andava de cidade em cidade, e de aldea em aldea, prégando e annunciando o Evangelho do Reino de Deos; e os doze estavão com elle.
2 E tambem algumas mulheres que havião sido curadas de espiritos malignos, e de enfermidades; a saber, Maria, chamada Magdalena, da qual sahirão sete demonios.
3 E Joanna a mulher de Chusas, Procurador de Herodes; e Susanna, e outras muitas, que lhe servião com suas fazendas.
4 E ajuntando-se huma grande multidão, e vindo a elle de todas as cidades, disse por parabola:
5 Sahio hum semeador a semear sua semente; e semeando elle, cahio huma parte junto ao caminho, e foi pizada, e as aves do ceo a comerão.
6 E outra parte cahio sobre pedra; e nascida seccou-se, porquanto não tinha humidade.
7 E outra parte cahio entre espinhos, e nascendo os espinhos juntamente, a affogárão.
8 E outra parte cahio em boa terra, e nascida deo fruto a cento por hum. Dizendo elle estas cousas, clamava: quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
9 E seus discipulos lhe perguntárão, dizendo: que parabola he esta?
10 E disse elle: a vósoutros vos he dado entender os mysterios do Reino de Deos, mas aos outros por parabolas, para que vendo não vejão, e ouvindo não entendão.
11 Esta he pois a parabola: a semente he a palavra de Deos.
12 E os de junto ao caminho, estes são os que ouvem; depois vem o Diabo, e tira-lhes a palavra do coração, para que crendo se não salvem.
13 E os de sobre pedra, estes são os que ouvindo, recebem a palavra com gozo, e estes não tem raiz, que por hum tempo crêem, e ao tempo da tentação se desvião.
14 E o que cahio entre espinhos, estes são os que ouvirão, e idos, se affogão com os cuidados, e riquezas, e deleites da vida, e não dão fruto em perfeição.
15 E o que cahio em boa terra, estes são os que ouvindo a palavra, a retém em hum honesto e bom coração, e dão fruto em perseverança.
16 E ninguem, acendendo a candeia, a cobre com algum vaso, ou a põem debaixo da cama; mas a põem no candieiro, para que os que entrão vejão a luz.
17 Porque não ha cousa occulta, que não haja de ser manifesta; nem cousa escondida, que se não haja de saber, e vir á luz.
18 Olhai pois como ouvis: porque a qualquer que tiver, lhe será dado; e a qualquer que não tiver, até o que lhe parece que tem, lhe será tirado.
19 E viérão a elle sua mãi, e seus irmãos, e não podião chegar a elle por causa da multidão.
20 E foi-lhe denunciado por alguns, dizendo: tua mãi, e teus irmãos estão fóra, que te querem ver.
21 Porém respondendo elle, disse-lhes: minha mãi e meus irmãos são aquelles, que ouvem a palavra de Deos, e a fazem.
22 E aconteceo hum daquelles dias, que entrou em hum barco, elle e seus discipulos; e disse-lhes: passemos da outra banda do lago. E partirão.
23 E navegando elles, adormeceo; e desceo huma tempestade de vento no lago, e enchião-se de agoa, e perigavão.
24 E chegando-se a elle, o despertárão, dizendo: Mestre, Mestre, que perecemos. E levantando-se elle, reprehendeo ao vento, e as ondas da agoa; e cessárão, e fez-se bonança.
25 E disse-lhes: que de vossa fé? mas temendo elles, maravilharão-se, dizendo huns aos outros: e quem he este? que até aos ventos, e á agoa manda, e lhe obedecem?
26 E navegárão para a terra dos Gadarenos, que está de fronte de Galilea.
27 E sahindo elle á terra, veio-lhe da cidade ao encontro hum homem, que já de muitos tempos atras tinha demonios, e não andava vestido, e não parava em casa nenhuma, senão pelas sepulturas.
28 E vendo a Jesus, o exclamando, prostrou-se diante delle, e disse com grande voz: que tenho eu comtigo, Jesus, Filho do Deos Altissimo? peço-te que me não atormentes.
29 Porque mandava ao espirito immundo que sahisse daquelle homem; porque já de muitos tempos atras o arrebatava. E guardavão-o preso com cadeias e grilhoens; mas quebrando elle as prisoens, era empuxado do demonio aos desertos.
30 E perguntou-lhe Jesus, dizendo: qual he teu nome? e elle disse: Legião; porque muitos demonios tinhão entrado nelle.
31 E rogavão-lhe, que os não mandasse ir para o abysmo.
32 E havia ali huma manada de muitos porcos, que pascia no monte; e rogárão-lhe que lhes concedesse entrarem nelles; e concedeo-lho.
33 E sahidos os demonios daquelle homem, entrárão nos porcos; e a manada se arrojou de hum despenhadeiro no lago, e affogou-se.
34 E vendo os que os pascião o que acontecéra, fugirão; e indo, o denunciárão na cidade, e nos campos.
35 E sahirão a ver o que acontecéra, e vierão a Jesus; e achárão ao homem, do qual havião sahido os demonios, vestido e em seu sizo, assentado aos pés de Jesus; e temérão.
36 E contarão-lhes tambem os que o tinhão visto, como aquelle endemoninhado havia sido salvo.
37 E toda a multidão da terra dos Gadarenos, ao redor, lhe rogárão que se retirasse delles; porque grande temor os tinha tomado. E entrando elle no barco, tornou.
38 E aquelle homem, do qual havião sahido demonios, lhe rogou que podesse estar com elle; mas Jesus o despedio, dizendo:
39 Torna-te para tua casa, e conta quão grandes cousas Deos te fez. E elle se foi apregoando por toda a cidade, quão grandes cousas Jesus lhe tinha feito.
40 E aconteceo que tornando Jesus, a multidão o recebeo; porque todos o estavão esperando.
41 E eis que veio hum varão, cujo nome era Jairo, e era Principe da Synagoga, e derribando-se aos pés de Jesus, rogava-lhe que entrasse em sua casa,
42 Porque tinha huma filha unica, como de doze annos, e estava á morte. E indo elle, a multidão o apertava.
43 E huma mulher que tinha hum fluxo de sangue, doze annos havia, a qual já com medicos tinha gastado todo seu alimento, e de nenhum podéra ser curada,
44 Chegando-se a elle por detras, tocou a borda de seu vestido; e logo estancou o fluxo de seu sangue.
45 E disse Jesus: quem he o que me tocou? e negando todos, disse Pedro e os que com elle estavão: Mestre, a multidão te aperta e opprime, e dizes: quem he o que me tocou?
46 E disse Jesus: alguem me tocou; porque bem conheci que de mim sahio virtude.
47 Vendo a mulher então que não se lhe occultava, veio tremendo, e prostando-se diante delle, declarou-lhe diante de todo o povo a causa porque o havia tocado, e como logo sarára.
48 E elle lhe disse: tem bom animo filha, tua fé te salvou; vai em paz.
49 Estando elle ainda falando, veio hum do Principe da Synagoga, dizendo-lhe: tua filha he já morta, não molestes ao Mestre.
50 Porém ouvindo-o Jesus, respondeo-lhe, dizendo: não temas; crê somente, e será salva.
51 E entrando em casa, a ninguem deixou entrar, senão a Pedro, e a Jacobo, e a João, e ao pai, e á mãi da menina.
52 E choravão todos, e pranteavão a ella; e elle disse: não choreis, não he morta, mas dorme.
53 E rião-se delle, bem sabendo que estava morta.
54 Porém lançando-os elle a todos fóra, e travando-a da mão, clamou, dizendo: levanta-te menina.
55 E tornou seu espirito, e logo se levantou; e mandou que lhe dessem de comer.
56 E seus pais se espantavão, e elle lhes mandou que a ninguem dissessem o que havia succedido.

CAPITULO 9.

1 E CONVOCANDO seus doze discipulos, deo-lhes virtude e poder sobre todos os demonios, e para curarem enfermidades.
2 E mandou-os a prégar o Reino de Deos, e a curar aos enfermos.
3 E disse-lhes: não tomeis nada comvosco para o caminho, nem bordoens, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais dous vestidos.
4 E em qualquer casa que entrardes, ficai ali, e sahi dali.
5 E quaesquer que vos não receberem, sahindo vós daquella cidade, até o pó sacudi de vossos pés, em testemunho contra elles.
6 E sahindo elles, passavão por todas as aldeas, annunciando o Evangelho, e curando aos enfermos em todas as partes.
7 E ouvia Herodes o Tetrarcha todas as cousas, que fazia; e estava em duvida, porquanto alguns dizião que João resuscitára dos mortos.
8 E outros, que Elias havia apparecido; e outros, que algum propheta dos antigos havia resuscitado.
9 E disse Herodes: a João eu o degollei; quem pois he este, de quem taes cousas ouço? e procurava ve-lo.
10 E tornados os Apostolos, contarão-lhe todas as cousas que tinhão feito. E tomando-os comsigo, retirou-se á parte a hum lugar deserto da cidade, chamado Bethsaida.
11 E entendendo-o a multidão, o seguio; e elle os recebeo, e lhes falava do Reino de Deos; e curava aos que de cura necessitavão.
12 E já o dia começava a declinar; e chegando-se a elle os doze, disserão-lhe: despede a multidão, para que indo aos lugares e aldeas do redor, se agasalhem, e achem que comer; porque aqui estamos em lugar deserto.
13 Porém elle lhes disse: dai-lhes vósoutros de comer. E elles disserão: não temos mais que cinco pães, e dous peixes; salvo irmos nós mesmos a comprar de comer para todo este povo.
14 Porque havia ali quasi cinco mil homens. Então disse a seus discipulos: fazei-os assentar por ranchos, de cincoenta em cincoenta.
15 E fizerão-o assim, e os fizerão a todos assentar.
16 E tomando os cinco pães, e os dous peixes, e olhando para o ceo, benzeu-os, e partio-os, e deo-os a seus discipulos, para os pôrem diante da multidão.
17 E comérão todos, e fartárão-se; e levantárão, do que lhes sobejou dos pedaços, doze cestos.
18 E aconteceo, que estando elle só orando, estavão com elle os discipulos; e perguntou-lhes, dizendo: quem diz a multidão que eu sou?
19 E respondendo elles dissérão: alguns, João o Baptista; e outros, Elias; e outros, que algum propheta dos antigos resuscitou.
20 E disse-lhes: e vósoutros, quem dizeis que eu sou? e respondendo Pedro, disse: o Christo de Deos.
21 E defendendo-lhes rigorosamente, mandou-lhes que a ninguem o dissessem;
22 Dizendo: necessario he que o Filho do homem padeça muitas cousas, e seja reprovado dos Anciãos, e dos Principes dos Sacerdotes, e dos Escribas; e seja morto, e resuscite ao terceiro dia.
23 E dizia a todos: se alguem quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia sua cruz, e siga-me.
24 Porque qualquer que quizer salvar sua vida, perdé-la-há; porém qualquer que por amor de mim perder sua vida, esse a salvará.
25 Porque, que aproveita ao homem, grangear todo o mundo, perdendo-se a si mesmo, ou a si mesmo prejudicando.
26 Porque qualquer que de mim, e de minhas palavras se envergonhar, do tal se envergonhará o Filho do homem, quando vier em sua gloria, e em a do Pai, e dos santos Anjos.
27 E digo-vos em verdade, que alguns ha dos que aqui estão, que não gostarão a morte até que vejão o Reino de Deos.
28 E aconteceo, que quasi oito dias depois destas palavras, tomou comsigo a Pedro, e a João, e a Jacobo, e subio ao monte a orar.
29 E estando elle orando, a apparencia de seu rosto se transfigurou, e seu vestido ficou branco e mui resplandecente.
30 E eis que dous varoens estavão falando com elle, que erão Moyses e Elias.
31 Os quaes apparecérão em gloria, e falavão de sua sahida, a qual havia de cumprir em Jerusalem.
32 E Pedro, e os que estavão com elle, estavão carregados de somno; e como despertárão, virão sua gloria, e áquelles dous varoens que estavão com elle.
33 E aconteceo, que apartando-se elles delle, disse Pedro a Jesus: Mestre, bom he estarmos nós aqui, e façamos tres cabanas, para ti huma, e para Moyses huma, e huma para Elias; não sabendo o que dizia.
34 E dizendo elle isto, veio huma nuvem que com sua sombra os cubrio; e temerão, indo elles entrando na nuvem.
35 E veio huma voz da nuvem, que dizia: Este he o meu amado Filho; a elle ouvi.
36 E dada aquella voz, Jesus foi achado só; e elles se calárão, e por aquelles dias não contárão a ninguem nada do que tinhão visto.
37 E aconteceo o dia seguinte, que descendo elles do monte, lhe sahio huma grande multidão ao encontro.
38 E eis que hum homem da multidão clamou, dizendo: Mestre, peço-te que vejas a meu filho, que tenho unigenito.
39 E eis aqui hum espirito o toma, e de repente clama, e o despedaça até pela boca escumar, e apenas se aparta delle quebrantando-o.
40 E roguei a teus discipulos que lho lançassem fora, e não podérão.
41 E respondendo Jesus, disse: ó geração incredula e perversa, até quando estarei ainda comvosco, e vos sofrerei? traze aqui teu filho.
42 E como ainda vinha chegando, o demonio o desconjuntou, e despedaçou; mas Jesus reprehendeo ao espirito immundo, e curou ao menino, e o tornou a seu pai.
43 E todos se espantavão pela magnificencia de Deos. E maravilhando-se todos de todas as cousas que Jesus fazia, disse a seus discipulos:
44 Ponde vósoutros em vossos ouvidos estas palavras: porque o Filho do homem será entregue em mãos dos homens.
45 Mas elles não entendião esta palavra, e era-lhes encuberta, assim que a não comprehendião; e temião perguntar-lhe acerca desta palavra.
46 E levantou-se entre elles huma conferencia, a saber, qual delles seria o maior?
47 Mas vendo Jesus o pensamento de seus coraçoens, tomou a hum menino, e pô-lo a par de si.
48 E disse-lhes: qualquer que receber este menino em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe ao que me enviou; porque o que entre todos vósoutros for o menor, esse será o grande.
49 E respondendo João, disse: Mestre, temos visto a hum, que em teu nome lançava fóra aos demonios, e defendemos-lho, porque comnosco te não segue.
50 E Jesus lhe disse: não lho defendais, porque quem não he contra nós, por nós he.
51 E aconteceo, que cumprindo-se os dias de sua assumpção, endereçou seu rosto a ir a Jerusalem.
52 E mandou mensageiros diante de sua face; e indo elles entrárão em huma aldea de Samaritanos, para ali lhe prepararem pousada.
53 E não o recebérão; porquanto seu rosto era como de quem ia a Jerusalem.
54 E vendo seus discipulos, Jacobo e João, isto, disserão: Senhor, queres que digamos que desça fogo do ceo e os consuma, como tambem Elias fez?
55 Porém virando-se elle, reprehendeo-os, e disse: vósoutros não sabeis de que espirito sois.
56 Porque o Filho do homem não veio a destruir as almas dos homens, mas a salvá-las. E se forão a outra aldea.
57 E aconteceo, que indo elles pelo caminho, lhe disse hum: Senhor, aonde quer que fores te seguirei.
58 E disse-lhe Jesus: as rapozas tem covis, e as aves do ceo ninhos; mas o Filho do homem não tem aonde recline a cabeça.
59 E disse a outro: Segue-me. Porém elle disse: Senhor, deixa-me que vá, e enterre primeiro a meu pai.
60 Mas Jesus lhe disse: Deixa aos mortos enterrar a seus mortos; porém tu vai, e annuncia o Reino de Deos.
61 E disse tambem outro: Senhor, eu te seguirei; mas deixa-me despedir primeiro dos que estão minha em casa.
62 E Jesus lhe disse: ninguem que lançar sua mão do arado, e olhar para tras, he habil para o Reino de Deos.

CAPITULO 10.

1 E DEPOIS disto ordenou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os de dous em dous diante de sua face, a toda cidade e lugar, aonde elle havia de vir.
2 E dizia-lhes: grande he em verdade a séga, mas os obreiros são poucos; portanto rogai ao Senhor de séga, que empuxe obreiros a sua sega.
3 Andai; vedes aqui vos mando como a cordeiros em meio de lobos.
4 Não leveis bolsa, nem alforge, nem alparcas; e a ninguem saudeis pelo caminho.
5 E em qualquer casa que entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa.
6 E se ali houver algum filho de paz vossa paz sobre elle repousará; e se não, a vósoutros se tornará.
7 E na mesma casa ficai, comendo, e bebendo do que tiverem: Pois digno he o obreiro de seu salario. Não vos passeis de casa em casa.
8 E em qualquer cidade que entrardes, e vos recebérem, comei o que vos pozerem diante.
9 E curai os enfermos que nella houver, e dizei-lhes: chegado he vósoutros o Reino de Deos.
10 Mas em qualquer cidade que entrardes e vos não recebérem, sahindo por suas ruas, dizei:
11 Até o pó que de vossa cidade se nos pegou, sacudimos sobre vósoutros: isto todavia sabei, que já o Reino de Deos he chegado a vósoutros.
12 E digo-vos, que mais toleravel será naquelle dia para Sodoma, do que para aquella cidade.
13 Ai de ti Chorazin, ai de ti Bethsaida; que se em Tyro e em Sidon forão feitas as maravilhas que em vósoutras forão feitas, já muito ha que assentadas em saco e em cinza, se houverão arrependido.
14 Portanto para Tyro e Sidon será mais toleravel em o juizo, do que para vósoutras.
15 E tu Capernaum, que até o ceo estás levantada, até o inferno serás abaixada.
16 Quem a vósoutros ouve, a mim me ouve; e quem a vósoutros engeita, a mim me engeita; e quem a mim me engeita, engeita ao que me enviou.
17 E tornarão os setenta com alegria, dizendo: Senhor, até os demonios se nos sugeitão em teu nome.
18 E disse-lhes: Bem via eu a Satanás, que como raio cahia do ceo.
19 Vêdes aqui vos dou poder para pizar sobre serpentes e escorpioens, e sobre toda a força do inimigo, e nada vos fará damno algum.
20 Mas não vos alegreis de que os espiritos se vos sugeitem; antes muito mais vos alegrai de que vossos nomes estão escritos nos ceos.
21 Naquella hora se alegrou Jesus em espirito, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do ceo e da terra, que escondeste estas cousas aos sabios e entendidos, e as revelaste ás crianças; assim he, ó Pai, porque assim foi tua boa vontade diante de ti.
22 Todas as cousas me forão entregues de meu Pai; e ninguem sabe quem seja o Filho, senão o Pai, nem quem seja o Pai, senão o Filho; e a quem o Filho o quizer revelar.
23 E virando-se para seus discipulos, disse-lhes á parte: Bemaventurados os olhos que véem o que vós vedes.
24 Porque vos digo, que muitos Prophetas e Reis dezejárão ver o que vós vêdes, e não o virão; e ouvir o que ouvís, e não o ouvirão.
25 E eis que hum certo Doutor da Lei se levantou, tentando-o, e dizendo: Mestre, que cousa fazendo, herdarei a vida eterna?
26 E elle lhe disse: Que está escrito na Lei? como lês?
27 E respondendo elle disse: amarás ao Senhor teu Deos de todo teu coração, e de toda tua alma, e de todas tuas forças, e de todo teu entendimento; e a teu proximo como a ti mesmo.
28 E disse-lhe: Bem respondeste; faze isso, e viverás.
29 Mas querendo-se elle justificar a si mesmo, disse a Jesus: e quem he meu proximo?
30 E respondendo Jesus, disse: Hum homem descia de Jerusalem a Jericho, e cahio em mãos de salteadores, os quaes tambem o despojarão, e dando-lhe muitas pancadas se forão, deixando-o meio morto.
31 E acaso descia hum certo Sacerdote pelo mesmo caminho, e vendo-o, passou de largo.
32 E semelhantemente tambem hum Levita, chegando junto áquelle lugar, veio, e vendo-o passou de largo.
33 Porém hum certo Samaritano, que ia de caminho, veio junto a elle, e vendo-o, moveo-se a intima compaixão.
34 E chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhe nellas azeite e vinho; e pondo-o sobre sua cavalgadura, levou-o a huma estalagem, e teve cuidado delle.
35 E partindo ao outro dia, tirou dous dinheiros, e deo-os ao hospede; e disse-lhe: Tem delle cuidado; e tudo o que de mais gastares, quando tornar to pagarei.
36 Quem pois destes tres te parece que foi o proximo daquelle que cahio em mãos dos salteadores?
37 E elle disse: aquelle que com elle usou de misericordia. Pelo que Jesus disse: Vai, e faze da mesma maneira.
38 E aconteceo, que indo elles caminhando, entrou em huma aldea; e huma certa mulher, por nome Martha, o recebo em sua casa.
39 E esta tinha huma irmã, chamada Maria; a qual, assentando-se tambem aos pés de Jesus, ouvia sua palavra.
40 Martha porém andava mui distrahida em muitos serviços; e sobrevindo, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir a mim só? dize-lhe pois que me ajude.
41 E respondendo Jesus, disse-lhe: Martha, Martha, cuidadosa e fadigada andas com muitas cousas.
42 Mas huma cousa he necessaria; Porém Maria escolheo a boa parte, a qual lhe não será tirada.

CAPITULO 11.

1 E ACONTECEO, que estando elle orando em hum certo lugar, como cessou, lhe disse hum de seus discipulos: Senhor, ensina-nos a orar, como tambem João ensinou a seus discipulos.
2 E elle lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai nosso que estás nos ceos, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no ceo.
3 Dá-nos cada dia nosso pão quotidiano.
4 E perdoa-nos nossos peccados, pois tambem nós perdoamos a qualquer que nos deve. E não nos mettas em tentação; mas livra-nos do mal.
5 Disse-lhes tambem: Qual de vósoutros terá hum amigo, e a elle irá a meia noite, e lhe dirá: amigo, empresta-me tres pães.
6 Porquanto hum amigo meu veio a mim de caminho, e não tenho que lhe appresentar.
7 E elle de dentro respondendo, diga: Não me inportunes, ja a porta está fechada, e meus filhos estão comigo na recamara, não posso levantar-me para t’os dar.
8 Digo-vos, que ainda que se não levante a dar-lhe, por ser seu amigo; comtudo, por sua importunação se levantará, e tudo lhe dará quanto houver mister.
9 E eu vos digo a vósoutros: pedi, e dar-se-vos-ha; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-ha.
10 Porque qualquer que pede, recebe; e quem busca, acha; e a quem bate, se lhe abrirá.
11 E que pai, de vósoutros, a quem o filho pedir pão, lhe dará huma pedra? ou, se tambem peixe, por peixe lhe dará huma serpente?
12 Ou se tambem pedir hum ovo, lhe dará hum escorpião?
13 Pois se vósoutros, sendo máos, sabeis dar boas dadivas a vossos filhos, quanto mais dará vosso Pai celestial, o Espirito Santo, áquelles que lho pedirem?
14 E estava lançando fora a hum demonio, e era o tal mudo. E aconteceo, que sahido o demonio, o mudo falou, e a multidão se maravilhou.
15 Porém alguns delles dizião: por Beelzebú, Principe dos demonios, lança fora aos demonios.
16 E outros, tentando-o, pedião-lhe sinal do ceo.
17 Mas conhecendo elle seus pensamentos, disse-lhes: todo Reino diviso contra si mesmo he assolado, e cahe a casa contra si mesma divisa.
18 E se tambem Satanás contra si mesmo está diviso, como subsistirá seu Reino? Porquanto dizeis, que por Beelzebú lanço fora aos demonios.
19 E se eu por Beelzebú lanço fora aos demonios, vossos filhos por quem os lanção? portanto elles serão vossos juizes.
20 Mas se eu pelo dedo de Deos lanço fora aos demonios, certamente chegado he a vósoutros o Reino de Deos.
21 Quando o valente armado guarda seu paço, em paz está tudo quanto tem.
22 Mas sobrevindo outro mais valente que elle, e vencendo-o, toma-lhe toda sua armadura em que confiava, e reparte seus despojos.
23 Quem comigo não he, contra mim he; e quem comigo não apanha, derrama.
24 Quando o espirito immundo tem sahido do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e não o achando, diz: tornar-me-hei a minha casa, donde sahi.
25 E vindo acha-a varrida e adornada.
26 Então vai, e toma comsigo outros sete espiritos peiores que elle, e entrados, habitão ali; e são do tal homem as cousas derradeiras peiores que as primeiras.
27 E aconteceo, que dizendo elle estas cousas, huma mulher da multidão, levantando a voz, lhe disse: Bemaventurado o ventre que trouxe, e os peitos que mamaste.
28 Mas elle disse: Antes bemaventurados os que ouvem a palavra de Deos, e a guardão.
29 E ajuntando-se a multidão, começou a dizer: maligna he esta geração; sinal busca, e sinal lhe não será dado, senão o sinal de Jonas o propheta.
30 Porque como Jonas foi sinal para os Ninivitas, assim o será tambem o Filho do homem para esta geração.
31 A Rainha do Sul se levantará em juizo com os homens desta geração, e os condemnará; pois até dos fins da terra veio a ouvir a sabedoria de Salamão; e eis que mais que Salamão está aqui.
32 Os homens de Ninivé se levantarão em juizo com esta geração, e a condemnarão; pois com a pregação de Jonas se convertérão; e eis que mais que Jonas está aqui.
33 E ninguem, accendendo a candeia, a pôem em lugar occulto, nem debaixo do alqueire; senão no candieiro, para que os que entrarem, vejão a luz.
34 A candeia do corpo he o olho. Sendo pois teu olho simple, tambem todo teu corpo será luminoso; porém se for máo, tambem todo teu corpo será tenebroso.
35 Olha pois que a luz que em ti ha não sejão escuridades.
36 Assim que sendo teu corpo todo luminoso, não tendo parte alguma escura, todo será luminoso, como quando a candeia com seu resplandor te alumia.
37 E estando elle ainda falando, rogou-lhe hum Phariseo que viesse a jantar com elle; e entrando assentou-se á mesa.
38 E vendo-o o Phariseo, maravilhou-se, de que não se lavára antes de jantar.
39 E o Senhor lhe disse: agora vósoutros os Phariseos, o exterior do copo e do prato alimpais; porém vosso interior está cheio de rapina e maldade.
40 Loucos, o que fez o exterior não fez tambem o interior?
41 Porém dai de esmola o que tendes; e eis aqui tudo vos será limpo.
42 Mas ai de vósoutros Phariseos, que dizimais a ortelã, e a arruda, e toda hortaliça; e pelo juizo e caridade de Deos passais de largo. Estas cousas importava fazer, e as outras não deixar.
43 Ai de vósoutros Phariseos, que amais os primeiros assentos nas Synagogas, e as saudaçoens nas praças.
44 Ai de vósoutros Escribas e Phariseos hypocritas, que sois como as sepulturas que não apparecem, e os homens que sobre ellas andão o não sabem.
45 E respondendo hum dos Doutores da Lei disse-lhe: Mestre, quando dizes isto tambem afrontas a nósoutros.
46 Porém elle disse: Ai de vósoutros tambem Doutores da Lei, que carregais aos homens com cargas pesadas para levar; e vós mesmos nem ainda com hum de vossos dedos as ditas cargas tocais.
47 Ai de vósoutros, que edificais os sepulcros dos Prophetas, e vossos pais os matárão.
48 Bem testificais pois, que tambem consentis nas obras de vossos pais: porque elles os matárão, e vósoutros edificais seus sepulcros.
49 Portanto diz tambem a sabedoria de Deos: Prophetas e Apostolos lhes mandarei; e delles a huns matarão, e a outros lançarão fora:
50 Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os prophetas, que desde a fundação do mundo foi derramado;
51 Desde o sangue de Abel, até o sangue de Zacharias, que foi morto entre o altar, e a casa de Deos; assim vos digo, será desta geração requerido.
52 Ai de vósoutros Doutores da Lei, que tomastes a chave da sapiencia; vós mesmos não entrastes, e aos que entravão impedistes.
53 E dizendo-lhes estas cousas, os Escribas e os Phariseos começárão ao apertar fortemente, e ao fazer falar de muitas cousas.
54 Armando-lhe ciladas, e procurando caçar alguma cousa de sua boca, para a poderem accusar.

CAPITULO 12.

1 AJUNTANDO-se entretanto muitos milhares de gente, tanto que huns aos outros se atropelavão, começou a dizer a seus discipulos: Primeiramente, guardai-vos do fermento dos Phariseos, que he hypocrisia.
2 E nada ha encuberto que não haja de ser descuberto; nem occulto que não haja de ser sabido.
3 Portanto tudo o que dissestes em trevas á luz será ouvido; e o que falastes ao ouvido nas recamaras sobre os telhados se pregará.
4 E digo-vos, amigos meus, não temais aos que matão o corpo, e depois não tem mais que possão fazer.
5 Mas eu vos mostrarei a quem haveis de temer; temei áquelle, que depois de matar, tambem tem poder para lançar no inferno: assim vos digo, a este temei.
6 Não se vendem cinco passarinhos por dous ceitis? e nem hum delles está esquecido diante de Deos.
7 E ainda até os cabellos de vossa cabeça todos estão contados: não temais pois; mais valeis vósoutros que muitos passarinhos.
8 E digo-vos, que todo aquelle que me confessar diante dos homens, tambem o Filho do homem o confessará diante dos Anjos de Deos.
9 Mas quem me negar diante dos homens, será negado diante dos Anjos de Deos.
10 E a todo aquelle que disser palavra alguma contra o Filho do homem, ser-lhe-ha perdoado, mas ao que blasfemar contra o Espirito Santo, não lhe será perdoado.
11 E quando vos trouxerem ás Synagogas, aos Magistrados e Potestades, não estejais solícitos, como, ou que em defeza vossa hajais de dizer, ou que hajais de falar.
12 Porque na mesma hora vos ensinará o Espirito Santo o que vos convenha falar.
13 E disse-lhe hum da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.
14 Mas elle lhe disse: Homem, quem me pôz a mim por juiz, ou repartidor sobre vósoutros?
15 E disse-lhes: olhai, e guardai-vos da avareza; porque não consiste a vida de ninguem na abundância dos bens que possue.
16 E propôz-lhes huma parabola, dizendo: a herdade de hum homem rico havia bem fructificado.
17 E arrazoava entre si, dizendo: que farei? que não tenho aonde ajuntar meus frutos.
18 E disse: isto farei; derribarei meus celleiros, e os edificarei maiores, e ali ajuntarei toda esta minha novidade, e estes meus bens.
19 E direi a minha alma: Alma, muitos bens tens em deposito, para muitos annos; descança, come, bebe, folga.
20 Porém Deos lhe disse: Louco, esta noite te pedirão tua alma; e o que tens aparelhado cujo será?
21 Assim he o que para si ajunta thesouros, e não he rico em Deos.
22 E disse a seus discipulos: Portanto vos digo, não estejais sollicitos por vossa vida, que comereis; nem pelo corpo, que vestireis.
23 Mais he a vida que o sustento, e o corpo que o vestido.
24 Considerai os corvos, que nem semeão, nem segão; nem tem dispensa, nem celleiro; e Deos os alimenta: quanto mais valeis vósoutros que as aves?
25 E quem de vósoutros pode, com sua sollicitude, acerescentar á sua estatura hum cóvado?
26 Pois se nem ainda podeis o que he menos, porque estais sollicitos pelo de mais?
27 Considerai os lírios, como crescem: não trabalhão, nem fião; e digo-vos, que nem ainda Salamão, em toda sua gloria, se chegou a vestir como hum delles.
28 E se assim veste Deos a herva, que hoje está no campo, e amanhã he lançado no forno, quanto mais a vósoutros, homens de pouca fé?
29 Vósoutros pois, não pergunteis que hajais de comer, ou que hajais de beber; e não andeis suspensos.
30 Porque todas estas cousas, as gentes do mundo as buscão; mas vosso Pai sabe que haveis mister estas cousas.
31 Mas buscai o Reino de Deos, e todas estas cousas vos serão accrescentadas.
32 Não temas, ó pequeno rebanho; porque a vosso Pai agradou de dar a vósoutros o Reino.
33 Vendei o que tendes, e dai esmola. Fazei-vos bolsas que não se envelheção; thesouro nos ceos que nunca desfaleça; aonde ladrão não chega, nem traça nada gasta.
34 Porque aonde estiver vosso thesouro, ali estará tambem vosso coração.
35 Estejão cingidos vossos lombos, e accesas as candeias.
36 E sêde vósoutros semelhantes aos homens, que esperão a seu Senhor, quando das vodas ha de tornar; para que quando vier, e bater, logo lhe possão abrir.
37 Bemaventurados aquelles servos, os quaes, quando o Senhor vier, os achar vigiando: em verdade vos digo que se cingirá, e os fará assentar á mesa, e chegando-se os servirá.
38 E ainda que venha á segunda vigia; e ainda que venha á terceira vigia, e assim os achar, bemaventurados são os taes servos.
39 Isto porém sabei, que se o pai de familias soubesse a que hora o ladrão havia de vir, vigiaria, e não deixaria minar sua casa.
40 Vósoutros pois tambem estai apercebidos; porque á hora que não imaginais virá o Filho do homem.
41 E Pedro lhe disse: Senhor, dizes esta parabola a nósoutros, ou tambem a todos?
42 E disse o Senhor: Qual he pois o mordomo fiel e prudente, a quem o Senhor pozer sobre seus servos, para que a tempo lhes dê ração?
43 Bemaventurado aquelle servo ao qual, quando seu Senhor vier, o achar assim fazendo.
44 Em verdade vos digo, que sobre todos seus bens o porá.
45 Mas se aquelle servo em seu coração disser: meu Senhor tarda em vir; e aos criados e criadas começar a espancar, e a comer, e a beber, e a emborrachar-se;
46 Virá o Senhor daquelle servo, o dia que elle o não espera, e á hora que elle não sabe; e seperá-lo-há, e porá sua parte com os desleaes.
47 E o servo que soube a vontade de seu Senhor, e não se apercebeo, nem fez conforme a sua vontade, com muitas pancadas será espancado.
48 Mas o que a não soube, e fez cousas dignas de pancadas, com poucas pancadas será espancado. E a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais lhe pedirão.
49 Vim a lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está acceso?
50 Porém de hum baptismo me importa ser baptizado; e como me angustio até que se venha a cumprir!
51 Cuidais vósoutros que vim a dar paz á terra? não, vos digo; porém antes dissensão.
52 Porque daqui em diante estarão cinco divisos em huma casa, tres contra dous, e dous contra tres.
53 O pai estará diviso contra o filho, e o filho contra o pai: a mãi contra a filha, e a filha contra a mãi: a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra.
54 E dizia tambem á multidão: Quando vêdes a nuvem que vem do occidente, logo dizeis: lá vem chuva; e assim succede.
55 E quando sopra o sul, dizeis: calma haverá, e assim succede.
56 Hypocritas, sabeis examinar a face da terra e do ceo: e este tempo como não o examinais?
57 E porque tambem de vósoutros mesmos não julgais o que he justo?
58 Pois quando com teu adversario vas ao Magistrado, procura de te livrares delle no caminho, porque por ventura te não leve ao Juiz, e o Juiz te entregue ao meirinho, e o meirinho te lance em prisão.
59 Digo-te, que dali não sahirás, até que não pagues o derradeiro ceitil.

CAPITULO 13.

1 E NAQUELLE mesmo tempo estavão ali presentes alguns, que lhe contavão dos Galileos, cujo sangue Pilatos com seus sacrificios misturára.
2 E respondendo Jesus, disse-lhes: cuidais vósoutros que estes Galileos hajão sido mais peccadores que todos os de mais Galileos, por tal padecido haverem?
3 Não, vos digo; antes se vos não arrependerdes, todos semelhantemente perecereis.
4 Ou aquelles dezoito, sobre os quaes a torre em Siloé cahio, e os matou; cuidais que mais culpados fossem que todos quantos homens em Jerusalem habitão?
5 Não, vos digo; antes se vos não arrependerdes, todos semelhantemente perecereis.
6 E dizia esta parabola: Tinha hum certo homem plantada huma figueira em sua vinha, e veio a ella a buscar fruto, e não o achou.
7 E disse ao vinheiro: Vés aqui tres annos ha, que venho a buscar fruto a esta figueira, e não o acho: corta-a, porque ainda occupa inutilmente a terra?
8 E respondendo elle, disse-lhe: Senhor, deixa-a ainda este anno, até que eu a escave, e a esterque:
9 E se der fruto, deixa-a ficar; quando não, cortá-la-hás depois.
10 E ensinava em huma das Synagogas hum Sabbado.
11 E eis que estava ali huma mulher, que havia dezoito annos que tinha hum espirito de enfermidade; e andava curcovada, e em maneira nenhuma se podia endireitar.
12 E vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, livre estás de tua enfermidade.
13 E póz as mãos sobre ella, e logo se tornou a endireitar, e glorificava a Deos.
14 E respondendo o Principe da Synagoga, indignado de que Jesus tinha curado em Sabbado, disse á multidão: seis dias ha em que he mister obrar: nestes pois vinde a ser curados, e não em dia de Sabbado.
15 Porém o Senhor lhe respondeo, e disse: Hypocrita, não desata em Sabbado cada hum de vósoutros seu boi, ou seu asno da manjadoura, e o leva a dar de beber?
16 E não convinha soltar desta liadura em dia de Sabbado a esta, que he filha de Abraham, a qual, eis que Satanás a havia liado já dezoito annos ha?
17 E dizendo elle estas cousas, todos seus adversarios se confundião; e todo o povo se alegrava de todas as gloriosas cousas que por elle erão feitas.
18 E dizia; a que he semelhante o Reino de Deos? e a que o compararei?
19 Semelhante he ao grão da mostarda, que tomando-o o homem, o lançou em sua horta; e cresceo, e fez-se arvore grande, e as aves dos ceos em suas ramas se aninharão.
20 E disse outra vez: a que compararei o Reino de Deos?
21 Semelhante he ao fermento, que tomando-o a mulher, o escondeo em tres medidas de farinha, até tudo levedar-se.
22 E andava de cidade em cidade, e de aldea em aldea ensinando, e caminhando para Jerusalem.
23 E disse-lhe hum: Senhor, são tambem poucos os que se salvão? e elle lhes disse:
24 Porfiai por entrar pela porta estreita: porque eu vos digo, que muitos procurarão entrar, e não poderão.
25 A saber desde que o pai de familias se levantar, e cerrar a porta, e começardes a estar de fóra, e bater á porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e respondendo elle, vos disser: não vos conheço, nem sei donde sejais:
26 Então começareis a dizer: em tua presença havemos comido e bebido, e em nossas ruas tens ensinado.
27 E elle dirá: Digo-vos que não vos conheço, nem sei donde sejais: apartai-vos de mim, vós todos os obradores de iniquidade.
28 Ali será o choro, e o ranger de dentes, quando virdes a Abraham, e a Isaac, e a Jacob, e a todos os prophetas no Reino de Deos; porém a vósoutros lançados fóra.
29 E virão do oriente, e do occidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-hão á mesa no Reino de Deos.
30 E eis aqui que derradeiros ha que serão primeiros, e primeiros ha que serão derradeiros.
31 Aquelle mesmo dia chegarão huns Phariseos, dizendo-lhe: sahe-te, e vai-te daqui; porque Herodes te quer matar.
33 E disse-lhes: Ide, e dizei áquella raposa: eis aqui lanço fora demonios, e effeituo curas hoje e amanhã, e ao terceiro dia sou consummado.
33 Porém importa que hoje, e amanhã, e o dia seguinte caminhe: porque não succede que morra algum propheta fóra de Jerusalem.
34 Jerusalem, Jerusalem, que matas aos prophetas, e apedrejas aos que te são enviados; quantas vezes quiz eu ajuntar teus filhos, como a galinha seus pintãos debaixo de suas azas, e não quizestes?
35 Eis aqui vossa caza se vos deixa deserta. E digo-vos em verdade, que não me vereis até que venha o tempo quando digais: bemdito aquelle que vem em o nome do Senhor.

CAPITULO 14.

1 E ACONTECEO, que entrando elle hum Sabbado a comer pão em casa de hum dos Principes dos Phariseos, elles o estavão espiando.
2 E eis que hum certo homem hydropico estava ali diante delle.
3 E respondendo Jesus, falou aos Doutores da Lei, e aos Phariseos, dizendo: he licito sarar em Sabbado?
4 Porém elles calárão: e tomando-o elle, o curou, e o despedio.
5 E respondendo-lhes, disse: de qual de vósoutros cahirá o asno, ou o boi em algum poço, que logo em dia de Sabbado o não tire?
6 E nada lhe podião replicar a estas cousas.
7 E disse aos convidados huma parabola, attentando como escolhião os primeiros assentos, dizendo-lhes:
8 Quando de alguem ás vodas fores convidado, não te assentes no primeiro assento; porque por ventura outro mais digno que tu não esteja delle convidado:
9 E vindo o que te convidou a ti e a elle, te diga: dá lugar a este; e então com vergonha comeces a ficar com o derradeiro lugar.
10 Mas quando fores convidado, vai, e assenta-te no derradeiro lugar; para que quando o que te convidou vier, te diga: amigo sobe mais para riba. Então terás honra diante dos que estiverem assentados á mesa contigo.
11 Porque qualquer que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e aquelle que a si mesmo se humilhar, será exaltado.
12 E dizia tambem ao que o tinha convidado: quando fizeres hum jantar, ou huma cea, não chames a teus amigos, nem a teus irmãos, nem a teus parentes, nem a teus vizinhos ricos; para que tambem elles em algum tempo te não tornem a convidar, e te seja recompensado.
13 Mas quando fizeres convite, chama aos pobres, aleijados, mancos, e cegos.
14 E serás bemaventurado, porquanto não tem com que to recompensar: porque recompensado te será em a resurreição dos justos.
15 E ouvindo isto hum dos que juntamente estavão assentados á mesa, disse-lhe: Bemaventurado aquelle que comer pão em o Reino de Deos.
16 Porém elle lhe disse: hum certo homem fez huma grande cea, e convidou a muitos.
17 E á hora da cea mandou a seu servo a dizer aos convidados: vinde, que já tudo está aparelhado.
18 E á huma se começárão todos a escusar. O primeiro lhe disse: comprei hum campo, e importa-me sahir a ve-lo; rogo-te que me hajas por escusado.
19 E outro disse: comprei cinco juntas de bois, e vou a prová-los; rogo-te que me hajas por escusado.
20 E outro disse: casei-me, e portanto não posso vir.
21 E tornando aquelle servo, denunciou estas cousas a seu Senhor. Então indignado o pai de familia, disse a seu servo: sahe depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui aos pobres, e aleijados, e mancos, e cegos.
22 E disse o servo: Senhor, feito está como mandaste; e ainda ha lugar.
23 E disse o Senhor ao servo: sahe-te pelos caminhos, e valados, e força-os a entrar, para que minha casa se encha.
24 Porque eu vos digo, que nenhum daquelles varoens, que forão convidados gostará minha cea.
25 E huma grande multidão ia com elle; e virando-se, disse-lhes;
26 Se alguem vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãi, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda tambem sua propria vida, não pode ser meu discipulo.
27 E qualquer que não levar sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discipulo.
28 Porque qual de vósoutros, querendo edificar huma torre, se não assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, se tem com que a acabar?
29 Porque por ventura depois de haver posto o alicerçe, e não a podendo acabar, não comecem todos os que o virem a escarnecer delle.
30 Dizendo: este homem começou a edificar, e não pôde acabar.
31 Ou qual Rei, indo á guerra a pelejar contra outro Rei, se não assenta primeiro a consultar, se com dez mil pode sahir ao encontro, ao que com vinte mil vem contra elle?
32 D’outra maneira, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores, e roga pelo que á paz convém.
33 Assim pois, qualquer de vósoutros que a tudo quanto tem não renuncia, não pode ser meu discipulo.
34 Bom he o sal; porém se o sal degenerar, com que se adubará?
35 Nem para a terra, nem para o monturo presta: fora o lanção. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

CAPITULO 15.

1 E CHEGAVAO a elle todos os publicanos, e peccadores a ouvi-lo.
2 E murmuravão os Phariseos, e os Escribas, dizendo: este aos peccadores recebe, e com elles come.
3 E elle lhes propôz esta parabola, dizendo:
4 Que homem de vósoutros tendo cem ovelhas, e perdendo huma dellas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida, até que a venha a achar?
5 E achando-a, a não ponha sobre seus hombros gostozo?
6 E vindo á casa, não convoque aos amigos, e vizinhos, dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, porque já achei minha ovelha perdida?
7 Digo-vos, que assim haverá mais alegria no ceo por hum peccador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que de arrependimento não necessitão.
8 Ou que mulher tendo dez drachmas, se a huma drachma perder, não accende a candeia, e varre a casa, e a busca com diligencia até a achar?
9 E achando-a, não convoque as amigas e as vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, porque já a drachma perdida achei.
10 Assim vos digo, que ha alegria diante dos Anjos de Deos por hum peccador que se arrepende.
11 E disse: Hum certo homem tinha dous filhos.
12 E disse o mais moço delles ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence; e elle lhe repartio a fazenda.
13 E depois de não muitos dias. ajuntando o filho mais moço tudo, partio para huma terra mui longe, e ali desperdiçou sua fazenda, vivendo dissolutamente.
14 E havendo elle já tudo gastado, houve huma grande fome naquella terra, e começou a padecer necessidade.
15 E foi, e chegou-se a hum dos cidadãos daquella terra; e mandou-o a seus campos a apascentar os porcos.
16 E desejava encher seu ventre das mondas que comião os porcos, e ninguem lhas dava.
17 E tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai tem abundancia de pão, e eu aqui pereço de fome.
18 Levantar-me-hei, e ir-me-hei a meu pai, e dir-lhe-hei: Pai, contra o ceo, e perante ti pequei.
19 E já não sou digno de ser chamado teu filho: faze-me como a hum de teus jornaleiros.
20 E levantando-se, foi a seu pai. E como ainda estivesse de longe, vio-o seu pai, e moveo-se a intima compaixão; e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e beijou-o.
21 E o filho lhe disse: Pai, contra o ceo, e perante ti pequei; e já não sou digno de ser chamado teu filho.
22 Mas o pai disse a seus servos: Trazei o melhor vestido, e vesti-lho; e ponde hum annel em sua mão, e alparcas nos pés.
23 E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos.
24 Porque este meu filho, morto era, e reviveo; tinha-se perdido, e he achado. E começárão-se a alegrar.
25 E seu filho o mais velho estava no campo; e como veio, e chegou perto da casa, ouvio a musica, e as danças.
26 E chamando a si a hum dos servos, perguntou-lhe, que era aquillo?
27 E elle lhe disse: Teu irmão he vindo; e teu pai matou o bezerro cevado, porquanto o recuperou são e salvo.
28 Porém elle se indignou, e não queria entrar. Assim que sahindo o pai, rogava-lhe que entrasse.
29 Mas respondendo elle, disse ao pai; eis aqui, tantos annos ha que te sirvo, e nunca teu mandamento traspassei, e nunca hum cabrito me déste, para que com meus amigos me alegrasse.
30 Porém vindo este teu filho, que com mundanas desperdiçou tua fazenda, o bezerro cevado lhe mataste.
31 E elle lhe disse; Filho, tu sempre comigo estás, e todas minhas cousas são tuas.
32 Pelo que convinha alegrar-se e folgar; porque este teu irmão era morto, e reviveo; e tinha-se perdido, e he achado.

CAPITULO 16.

1 E DIZIA tambem a seus discipulos: havia hum certo homem rico, o qual tinha hum mórdomo; e este foi perante elle accusado, como que seus bens dissipava.
2 E chamando-o elle, disse-lhe: que he isto que ouço de ti? dá conta de tua mordomia; porque já não poderás ser mais mórdomo.
3 E disse o mórdomo entre si: que farei, pois meu Senhor me tira a mordomia? cavar não posso, mendigar tenho vergonha.
4 Eu sei o que hei de fazer, paraque quando for desapossado da mordomia, me recebão em suas casas.
5 E chamando a si a cada hum dos devedores de seu Senhor, disse ao primeiro: quanto deves a meu Senhor?
6 E elle disse: cem medidas de azeite. E disse-lhe: toma teu conhecimento, e assentando-te escreve logo cincoenta.
7 Depois disse a outro: e tu quanto deves? e elle disse: cem alqueires de trigo. E disse-lhe: toma teu conhecimento, e escreve oitenta.
8 E louvou aquelle Senhor ao injusto mórdomo, por prudentemente haver feito: porque mais prudentes são os filhos deste mundo, do que os filhos da luz, em seu genero.
9 E eu vos digo: grangeai amigos com o injusto Mammon, para que quando vos faltar, vos recebão em os eternos tabernaculos.
10 Quem he fiel no minimo, tambem he fiel no muito; e quem he injusto no minimo, tambem injusto he no muito.
11 Pois se no injusto Mammon não fostes fieis; quem vos confiará o verdadeiro?
12 E se no alheio não festes fieis; quem vos dará o vosso?
13 Nenhum servo pode servir a dous senhores, porque ou ha de aborrecer a hum, e amar ao outro, ou se ha de chegar a hum; e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deos, e a Mammon.
14 E todas estas cousas ouvião tambem os Phariseos, que erão avarentos, e fazião delle zombaria.
15 E disse-lhes: Vósoutros sois os que a vós mesmos diante dos homens vos justificais: mas Deos conhece vossos coraçoens. Porque o que entre os homens he sublime, perante Deos he abominação.
16 A Lei e os Prophetas até João durárão: desde então he o Reino de Deos annunciado, e quem quer lhe faz força.
17 E mais facil he passar o ceo e a terra, do que cahir hum til da Lei.
18 Qualquer que deixa sua mulher, e se casa com outra, adultéra; e qualquer que se casa com a do marido deixada, tambem adultéra.
19 Havia porém hum certo homem rico, e vestia-se de purpura, e de linho finissimo, e cada dia vivia regalada e esplendidamente.
20 Havia tambem hum certo mendigo, por nome Lazaro, o qual jazia á sua porta cheio de chagas.
21 E desejava fartar-se das migalhas que cahião da mesa do rico; vinhão porém tambem os caens, e lambião-lhe as chagas.
22 E aconteceo que morreo o mendigo, e foi levado pelos Anjos ao regaço de Abraham.
23 E morreo tambem o rico, e foi sepultado. E levantando no inferno seus olhos, estando nos tormentos, vio a Abraham de longe, e a Lazaro em seu regaço.
24 E clamando elle, disse: Pai Abraham, tem misericordia de mim, e manda a Lazaro que a ponta de seu dedo molhe na agua, e me refresque a lingua; porque atormentado estou nesta flamma.
25 Porém Abraham disse: Filho, lembra-te que em tua vida recebeste teus bens, e Lazaro semelhantemente males: e agora este he consolado, e tu atormentado.
26 E de mais de tudo isto, hum tão grande abysmo está posto entre nósoutros e vósoutros, que os que daqui quizessem passar para vósoutros não poderião; nem tão pouco os de lá passar para cá.
27 E disse elle: Rogo-te pois, ó pai, que o mandes á casa de meu pai.
28 Porque tenho cinco irmãos, para que disto lhes proteste; para que tambem não venhão a este lugar de tormento.
29 Disse-lhe Abraham: a Moyses e aos Prophetas tem, oução-os.
30 E disse elle: não pai Abraham; mas se alguem dos mortos a elles fosse, arrepender-se-ião.
31 Porém Abraham lhe disse: Se a Moyses e aos Prophetas não ouvem; tão pouco persuadir-se deixarão,ainda que alguem dos mortos resuscite.

CAPITULO 17.

1 E DISSE aos discipulos: Impossivel he que escandalos não venhão; mas ai daquelle por quem viérem.
2 Melhor lhe fôra pôrem-lhe ao pescoço huma mó de atafona, e ser lançado no mar, do que escandalizar a hum destes pequenos.
3 Olhai por vósoutros. E se teu irmão contra ti peccar, reprehende-o; e se se arrepender, perdca-lhe.
4 E se sete vezes ao dia peccar contra ti, e sete vezes ao dia a ti tomar, dizendo: arrependo-me, perdoar-lhe-has.
5 E disserão os Apostolos ao Senhor: accrescenta-nos a fé.
6 E disse o Senhor: se tivesseis tanta fé como hum grão de mostarda, a esta amoreira dirieis: desarraiga-te daqui, e planta-te no mar, e obedecer-vos-ia.
7 E qual de vósoutros terá hum servo lavrando ou apascentando gado, que tornando do campo, logo lhe diga: chega, e á mesa te assenta.
8 E não lhe diga antes: aparelha-me que cear, e arregaça-te, e serve-me, até que comido e bebido haja; e depois, come e bebe tu.
9 Por ventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe fora mandado? Cuido que não.
10 Assim tambem vósoutros, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Servos inuteis somos; porque fizemos sómente o que deviamos fazer.
11 E aconteceo que indo elle a Jerusalem, passou por meio de Samaria e Galilea.
12 E entrando em huma certa aldea, sahirão-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quaes pararão de longe.
13 E levantarão a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericordia de nós.
14 E vendo-os elle, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos Sacerdotes. E aconteceo que indo elles, ficarão limpos.
15 E vendo hum delles, que estava são, tornou, glorificando a Deos á grande voz.
16 E derribou-se sobre seu rosto a seus pés, dando-lhe graças: e era este Samaritano.
17 E respondendo Jesus, disse: não forão dez os limpos? e onde estão os nove?
18 Não houve quem tornasse a dar gloria a Deos, senão este estrangeiro?
19 E disse-lhe: Levanta-te, e vai-te; tua fé te salvou.
20 E perguntado dos Phariseos, quando o Reino de Deos havia de vir; respondeo-lhes, e disse: o Reino de Deos não vem com apparencia exterior.
21 Nem dirão: ei-lo aqui, ou ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deos entre vósoutros está.
22 E disse aos discipulos: dias virão, quando desejareis ver hum dos dias do Filho do homem, e não o vereis.
23 E dir-vos-hão: ei-lo aqui, ou ei-lo ali está, não vades, nem sigais.
24 Porque como o relampago, relampadejando désde huma parte debaixo do ceo, resplandece ate a outra debaixo do ceo, assim será tambem o Filho do homem em seu dia.
25 Mas primeiro convém padecer muito, e ser reprovado desta geração.
26 E como aconteceo nos dias de Noé, assim será tambem nos dias do Filho do homem.
27 Comião, bebião, casavão, e se davão em casamento, até o dia em que Noë entrou na Arca; e veio o diluvio, e a todos os consumio.
28 Como tambem da mesma maneira aconteceo em os dias de Lot, comião, bebião, compravão, vendião, plantavão, e edificavão.
29 Mas o dia em que Lot sahio de Sodoma, choveo fogo e enxofre do ceo, e a todos os consumio.
30 Assim será tambem no dia, em que o Filho do homem se ha de manifestar.
31 Naquelle dia, o que estiver no telhado, e suas alfaias em casa, não desça a tomá-las: e o que estiver no campo, assim mesmo não torne ao que atras fica.
32 Lembrai-vos da mulher de Lot.
33 Qualquer que procurar salvar sua vida, perdé-la-ha; e qualquer que a perder, salvá-la-ha.
34 Digo-vos, que naquella noite estarão dous em huma cama, hum será tomada, e o outro será deixado.
35 Duas estarão juntas moendo, huma será tomada, e a outra será deixada.
36 Dous estarão no campo; hum será tomado, e o outro será deixado.
37 E respondendo, disserão-lhe: aonde Senhor? e elle lhes disse: aonde estiver o corpo, ali se ajuntarão as aguias.

CAPITULO 18.

1 E DISSE-lhes tambem huma parabola acerca de que sempre importa orar, e nunca desfalecer.
2 Dizendo: havia hum certo Juiz em huma cidade, que nem a Deos temia, nem a homem nenhum respeitava.
3 Havia tambem naquella mesma cidade huma certa viuva, e vinha a elle, dizendo: faze-me justiça acerca de meu adversario.
4 E por muito tempo não quiz: mas depois disto, disse entre si, ainda que nem a Deos temo, e a homem nenhum respeito,
5 Todavia, porque esta viuva me molesta, lhe hei de fazer justiça: porque em fim não venha, e me importune muito.
6 E disse o Senhor: ouvi o que diz o injusto Juiz.
7 E não fará Deos justiça a seus escolhidos, que dia e noite a elle clamão, ainda que longanimo para com elles seja?
8 Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Porém quando o Filho do homem vier, achará por ventura fé na terra?
9 E disse tambem a huns, que de si mesmos confiavão que erão justos, e aos outros desprezavão, esta parabola:
10 Dous homens subirão ao Templo a orar, hum era Phariseo, e o outro Publicano.
11 O Phariseo estando em pé, orava entre si desta maneira: ó Deos, graças te dou, que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adulteros; nem ainda como este Publicano.
12 Jejuo duas vezes na semana, dou dizimos de tudo quanto possuo.
13 E o Publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao ceo, mas batia em seu peito, dizendo: ó Déos, tem misericordia de mim peccador.
14 Digo-vos, que mais justificado desceo este a sua casa, do que aquelle: porque qualquer que a si mesmo se exalta, será humilhado: e qualquer que a si mesmo se humilha, será exaltado.
15 E trazião-lhe tambem meninos, para que os tocasse; e vendo-o os discipulos, reprehendião-os.
16 Mas chamando Jesus os meninos a si, disse: deixai vir a mim os meninos, e não os empeçais; porque dos taes he o Reino de Deos.
17 Em verdade vos digo, que qualquer que o Reino de Deos não receber como menino, não ha de entrar nelle.
18 E perguntou-lhe hum certo Principe, dizendo: Bom mestre, que he o que fazendo herdarei a vida eterna?
19 E Jesus lhe disse: porque me chamas bom? ninguem ha bom senão hum, a saber Deos.
20 Os mandamentos sabes: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho; honra a teu pai, e a tua mãi.
21 E disse elle: Todas estas cousas tenho guardado desde minha mocidade.
22 Porém ouvindo Jesus isto, disse-lhe: ainda huma cousa te falta: vende tudo quanto tens, e reparte-o entre os pobres, e terás hum thesouro no ceo; e vem, segue-me.
23 Mas ouvindo elle isto, ficou mui triste, porque era mui rico.
24 E vendo Jesus que mui triste ficára, disse: quão difficilmente entrarão no Reino de Deos os que tem riquezas.
25 Porque mais facil cousa he entrar hum camelo pelo fundo de huma agulha, do que entrar hum rico no Reino de Deos.
26 E os que isto ouvirão, dissérão: quem se pode logo salvar.
27 E elle disse: as cousas que acerca dos homens são impossiveis, possiveis são acerca de Deos.
28 E disse Pedro: eis aqui que tudo deixámos, e te havemos seguido.
29 E elles lhes disse: Em verdade vos digo, que ninguem ha, que casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo Reino de Deos haja deixado.
30 Que muito mais neste tempo não haja de tornar a receber, e no seculo vindouro a vida eterna.
31 E tomando comsigo aos doze, disse-lhes: Vêdes aqui subimos a Jerusalem, e cumprir-se-ha no Filho do homem tudo o que pelos Prophetas está escrito.
32 Porque ás gentes ha de ser entregado, e escarnecido, e injuriado, e cuspido.
33 E havendo-o açoutado, mata-lo-hão: e ao terceiro dia resuscitará.
34 E elles nada destas cousas entendião, e esta palavra lhes era encuberta: e não entendião o que se lhes dizia.
35 E aconteceo, que chegando elle perto de Jericho, estava hum cego assentado junto ao caminho, mendigando.
36 E ouvindo este passar a multidão, perguntou que era aquillo?
37 E disserão-lhe, que Jesus Nazareno passava.
38 Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de David, tem misericordia de mim.
39 E os que ião passando o reprehendião, para que calasse; porém elle clamava tanto mais: Filho de David, tem misericordia de mim.
40 Jesus então parando, mandou que lho trouxessem; e chegando elle, perguntou-lhe,
41 Dizendo: que queres que te faça? e elle disse: Senhor, que veja.
42 E Jesus lhe disse: Vê, tua fé te salvou.
43 E logo vio, e seguia-o, glorificando a Deos. E vendo todo o povo isto, dava louvores a Deos.

CAPITULO 19.

1 E ENTRANDO Jesus, foi passando por Jericho.
2 E eis que havia ali hum varão chamado por nome Zaccheo, e era este Principe dos publicanos, e era rico.
3 E procurava ver a Jesus quem fosse, e não podia, por causa da multidão, porquanto era pequeno de estatura.
4 E correndo diante, subio a huma figueira brava, para o ver; porque havia de passar por ali.
5 E como Jesus chegou áquelle lugar, olhando para riba, vio-o, e disse-lhe: Zaccheo apressate, e desce; porque hoje me importa pousar em tua casa.
6 E apressando-se, desceo, e o recebeo gostoso.
7 E vendo todos isto, murmuravão, dizendo: que entrara a pousar com hum homem peccador.
8 E levantando-se Zaccheo, disse ao Senhor: Senhor, eis aqui a metade de meus bens dou aos pobres; e se em alguma cousa a alguem defraudei, o rendo com os quatro tantos.
9 E Jesus lhe disse: Hoje houve salvação nesta casa, porquanto tambem este he filho de Abraham.
10 Porque o Filho do homem veio a buscar, e a salvar o que se havia perdido.
11 E ouvindo elles estas cousas, proseguio, e disse huma parabola, porquanto estava perto de Jerusalem, e cuidavão que logo o Reino de Deos se havia de manifestar.
12 Disse pois: Hum certo homem nobre partio a huma terra mui longe, a tomar para si hum Reino, e tornar.
13 E chamando a dez servos seus, deo-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha:
14 E seus cidadãos o aborrecião; e mandárão após elle embaixadores, dizendo: não queremos que este sobre nósoutros reine.
15 E aconteceo que tornando elle, havendo tomado o Reino, disse que lhe chamassem áquelles servos, a quem havia dado o dinheiro, para saber o que cada hum negociando havia ganhado.
16 E veio o primeiro, dizendo: Senhor, tua mina tem ganhado outras dez minas.
17 E elle lhe disse: Está bem, bom servo; pois no minimo foste fiel, sobre dez cidades terás potestade.
18 E veio o segundo, dizendo: Senhor, tua mina grangeou cinco minas.
19 E tambem a este disse: E tu está tambem sobre cinco cidades.
20 E veio outro, dizendo: Senhor, eis aqui tua mina, que em hum lenço guardei.
21 Porque tive medo de ti, que es homem rigoroso, que tomas o que não pozeste, e segas o que não semeaste.
22 Porém elle lhe disse: Servo maligno, por tua boca te julgarei; sabias que eu era homem rigoroso, que tomo o que não puz, e que sego o que não semeei.
23 Porque pois não déste meu dinheiro ao banco; e vindo eu, o demandára com onzena?
24 E disse aos que com elle estavão: tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem as dez minas.
25 E elles lhe disserão: Senhor, dez minas tem.
26 Porque eu vos digo, que a qualquer que tiver, ser-lhe-ha dado; mas ao que não tiver, até o que tem, lhe será tirado.
27 Porém áquelles meus inimigos, que não quizerão que eu sobre elles reinasse, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.
28 E dito isto, ia caminhando diante, subindo a Jerusalem.
29 E aconteceo, que chegando perto de Bethphage, e de Bethania, ao monte chamado das Oliveiras, mandou a dous de seus discipulos.
30 Dizendo: Ide á aldea que está defronte; aonde entrando, achareis hum poldro liado, em que nenhum homem jámais se assentou; soltai-o, e trazei-o.
31 E se alguem vos perguntar, porque o soltais? dir-lhe-heis assim: porque o Senhor o ha mister.
32 E indo os que havião sido mandados, acharão como lhes disse.
33 E soltando o poldro, seus donos lhes disserão: porque soltais o poldro?
34 E elles disserão: o Senhor o ha mister.
35 E o trouxerão a Jesus: e lançando seus vestidos sobre o poldro, pozerão em cima a Jesus.
36 E indo elle andando, estendião seus vestidos de baixo delle pelo caminho.
37 E como já chegasse perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discipulos gozando-se, começou com grande voz louvar a Deos, por todas as maravilhas que tinhão visto;
38 Dizendo: Bemdito o Rei que vem em nome do Senhor; Paz no ceo, e Gloria em as alturas.
39 E alguns dos Phariseos da multidão lhe disserão: Mestre, reprehende a teus discipulos.
40 E respondendo elle, disse-lhes: Digo-vos, que se estes se calarem, logo as pedras clamarão.
41 E indo já chegando, e vendo a cidade, chorou sobre ella;
42 Dizendo: Ah se tambem conhecesses, ao menos neste teu dia, o que á tua paz pertence! mas agora a teus olhos está encuberto.
43 Porque dias virão sobre ti, em que teus inimigos com tranqueiras te cercarão, e ao redor te sitiarão, e de todas as bandas em estreito te porão.
44 E a ti, e a teus filhos dentro de ti, á terra te derribarão; e pedra sobre pedra em ti não deixarão, porquanto não conheceste o tempo de tua visitação:
45 E entrando no Templo, começou a lançar fóra a todos os que nelle vendião e compravão:
46 Dizendo-lhes: escrito está: Minha casa, he casa de oração: mas vósoutros cova de salteadores a tendes feito.
47 E ensinava cada dia no Templo; e os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, e os Principes do povo, procuravão mata-lo.
48 E não achavão que lhe fazer, porque todo o povo pendia delle, ouvindo-o.

CAPITULO 20.

1 E ACONTECEO hum daquelles dias, que estando elle ensinando ao povo no Templo, e annunciando o Evangelho, sobrevierão os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas com os Anciãos.
2 E falarão-lhe, dizendo: Dize-nos, com que autoridade fazes estas cousas? ou quem he o que te deo esta autoridade?
3 E respondendo elle, disse-lhes: Tambem eu vos perguntarei huma palavra; e dizei-me:
4 O baptismo de João era do ceo, ou dos homens?
5 E elles arrazoavão entre si, dizendo: se dissermos do ceo: dir-nos-ha: porque pois o não crestes?
6 E se dissermos, dos homens; todo o povo nos apedrejará; pois por certo tem que João era Propheta.
7 E responderão, que não sabião donde era.
8 E Jesus lhes disse: nem tão pouco eu vos digo com que autoridade estas cousas faço.
9 E começou a dizer ao povo esta parabola: Hum certo homem plantou huma vinha, e arrendou-a a huns lavradores, e partio para fora da tem por muito tempo.
10 E a seu tempo mandou hum servo aos lavradores, para que lhe déssem do fruto da vinha; mas espancando-o os lavradores, o mandárão vazio.
11 E tornou ainda a mandar outro servo: mas elles espancando e affrontando tambem a este, o mandarão vazio.
12 E tornou ainda a mandar ao terceiro: mas elles ferindo tambem a este, o lançárão fora.
13 E disse o Senhor da vinha: que farei? mandarei a meu filho amado; por ventura vendo-o, o respeitarão.
14 Mas vendo-o os lavradores, arrazoarão entre si, dizendo: este he o herdeiro, vinde, mate-mo-lo, paraque a herdade seja nossa.
15 E lançando-o fôra da vinha, o matárão. Que pois lhes fará o Senhor da vinha?
16 Virá e destruirá a estes lavradores, e a vinha dará a outros. E ouvindo elles isto, disserão: assim não seja!
17 Mas olhando elle para elles, disse: Que pois he isto que escrito está? a pedra que os edificadores reprovárão, essa foi feita por cabeça da esquina.
18 Qualquer que cahir sobre aquella pedra, será quebrantado; e aquelle sobre quem ella cahir, fa-lo-ha em pedaços.
19 E procuravão os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, de naquella mesma hora lançarem mão delle, mas temêrão ao povo; porque bem entenderão que contra elles dissera esta parabola.
20 E trazendo-o de sobre olho, mandarão espias, que se fingissem justos, para o apanharem em alguma palavra, e o entregarem ao Senhorio e poder do Presidente.
21 E perguntarão-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que bem e direitamente falas, e ensinas; e que não attentas para a apparencia da pessoa, antes com verdade ensinas o caminho de Deos.
22 He-nos licito dar tributo a Cesar, ou não?
23 E entendendo elle sua astucia, disse-lhes: porque me tentais?
24 Mostrai-me huma moeda; de quem tem a imagem, e a inscripção? E respondendo elles, disserão: de Cesar.
25 Então lhes disse: dai pois a Cesar e que he de Cesar, e a Deos o que he de Deos.
26 E não o podérão apanhar em palavra alguma diante do povo; e maravilhados de sua resposta, calárão-se.
27 E chegando-se alguns dos Sadduceos, que contradizendo dizem não haver resurreição, perguntarão-lhe.
28 Dizendo: Mestre, Moyses nos escreveo, que se o irmão de alguem falecer, tendo ainda mulher, e morrer sem filhos; tome seu irmão a mulher, e desperte semente a seu irmão.
29 Houve pois sete irmãos, e tomou o primeiro a mulher, e morreo sem filhos.
30 E tomou-a o segundo; e tambem este morreo sem filhos.
31 E tomou-a o terceiro, e assim mesmo tambem os sete, e não deixarão filhos, e morrerão.
32 E por derradeiro depois de todos morreo tambem a mulher.
33 Em a resurreição pois, mulher de qual delles será? pois os sete a tiverão por mulher.
34 E respondendo Jesus, disse-lhes: Os filhos deste seculo se casão, e se dão em casamento.
35 Mas os que por dignos forem havidos de alcançar aquelle seculo, e a resurreição dos mortos, nem se hão de casar, nem ser dados em casamento.
36 Porque já não podem mais morrer; porque são iguaes aos Anjos; e são filhos de Deos, pois são filhos da resurreição.
37 E que os mortos hajão de resuscitar, tambem Moyses junto ao sarçal o mostrou, quando ao Senhor chama, Deos de Abraham, e Deos de Isaac, e Deos de Jacob.
38 Ora Deos não he Deos de mortos mas de vivos; porque todos vivem quanto a elle.
39 E respondendo huns dos Escribas, dissérão: Mestre, bem disseste.
40 E não ousavão perguntar-lhe mais cousa alguma.
41 E elle lhes disse: Como dizem que o Christo he filho de David?
42 Dizendo o mesmo David no livro dos Psalmos: Disse o Senhor a meu Senhor: assenta-te á minha mão direita.
43 Até que a teus inimigos ponha por escabello de teus pés.
44 Assim que David o chama seu Senhor; e como he seu filho?
45 E ouvindo-o todo o povo, disse a seus discipulos:
46 Guardai-vos dos Escribas, que querem andar vestidos á comprida; e amão as saudaçoens nas praças, e as primeiras cadeiras nas Synagogas, e os primeiros assentos nos convites.
47 Que devorão as casas das viuvas, e em apparencia usão de larga oração. Estes receberão maior condemnação.

CAPITULO 21.

1 E OLHANDO elle, vio aos ricos Iançar suas offertas na arca do thesouro.
2 E vio tambem a huma pobre viuva lançar ali dous minutos.
3 E disse: em verdade vos digo, que mais que todos lançou esta pobre viuva.
4 Porque todos aquelles, do que lhes sobeja, lançarão para as offertas de Deos: mas esta de sua probreza lançou todo sustento quanto tinha.
5 E dizendo alguns do Templo, que estava adornado com formosas pedras e dadivas, disse:
6 Estas cousas que vedes; dias virão, em que se não deixará pedra sobre pedra, que não seja derribada.
7 E perguntárão-lhe, dizendo: Mestre, quando pois serão estas cousas? e que sinal haverá, quando estas cousas hajão de acontecer?
8 Então disse elle: olhai que não vos enganem, porque virão muitos em meu nome, dizendo: eu sou o Christo. E já o tempo está perto: portanto não vades após elles.
9 E quando ouvirdes de guerras, e de sediçoens, não vos espanteis. Porque necessario he que estas cousas aconteção primeiro; mas nem logo será o fim.
10 Então lhes disse: Levantar-se-ha gente contra gente, e Reino contra Reino:
11 E haverá em varios lugares grandes terremotos, e fomes, e pestilencias: haverá tambem cousas espantosas, e grandes sinaes do ceo.
12 Mas antes de todas estas cousas, lançarão mão de vósoutros, e vos perseguirão, entregando-vos em Synagogas, e prizoens, e trazendo-vos diante de Reis, e Presidentes, por amor de meu nome.
13 E sobrevir-vos-ha isto por testemunho.
14 Proponde pois em vossos coraçoens, de não premeditar como hajais de responder.
15 Porque vos darei boca e sabedoria, a que todos quantos se vos oppozerem, contradizer nem resistir poderão.
16 E até de pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues; e alguns de vós matarão.
17 E de todos sereis aborrecidos por amor de meu nome.
18 Mas nem hum cabello de vossa cabeça perecerá.
19 Vossas almas possuí em vossa paciencia.
20 Porém quando virdes a Jerusalem cercada de exercitos, sabei então, que já sua assolação chegada he.
21 Então os que estiverem em Judea, fujão aos montes; e os que estiverem em meio della, saião; e os que nos campos, nella não entrem.
22 Porque dias de vingança são estes: para que todas as cousas, que estão escritas, se cumprão.
23 Mas ai das prenhes, e das que criarem naquelles dias: porque grande aperto haverá na terra, e ira sobre este povo.
24 E cahirão a fio de espada, e por todas as gentes os levarão captivos; e Jerusalem será pizada dos Gentios, até que os tempos dos Gentios se cumprão.
25 E haverá sinaes no sol, e na lua, e nas estrellas; e na terra aperto de gentes com confusão, bramando o mar e as ondas.
26 Desmaiando os homens por causa do temor, e da espera das cousas que sobrevirão á redondeza da terra. Porque as forças do ceo se abalarão.
27 E então ao Filho do homem verão vir em huma nuvem, com grande poder e gloria.
28 Ora quando estas cousas começarem a acontecer, olhai para cima, e levantai vossas cabeças, porquanto vossa redempção está perto.
29 E disse-lhes huma parabola: Olhai a figueira, e todas as arvores:
30 Quando já brotão, e vós o vedes, de vós mesmos sabeis que já o verão está perto.
31 Assim tambem vósoutros, quando virdes acontecer estas cousas, sabei que já o Reino de Deos está perto.
32 Em verdade vos digo, que não passará esta geração, até que tudo não aconteça.
33 O ceo e a terra passarão, mas minhas palavras em maneira nenhuma passarão.
34 E olhai por vósoutros, que por ventura vossos coraçoens se não carreguem de glotonaria, e borracheira, e dos cuidados desta vida; e sobre vósoutros d’improviso venha aquelle dia.
35 Porque como hum laço ha de vir sobre todos os que habitão sobre a face de toda a terra.
36 Vigiai pois em todo tempo, orando, que sejais havidos por dignos de evitar todas estas cousas, que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem.
37 E ensinava de dia no Templo; porém sahindo ás noites, as passava no monte, chamado o das Oliveiras.
38 E todo o povo vinha pela manhã cedo a elle ao Templo, a ouvi-lo.

CAPITULO 22.

1 E ESTAVA perto a festa dos pães asmos, chamada a Pascoa.
2 E os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas procuravão como o matarião: porque temião ao povo.
3 E entrou Satanás em Judas, o que tinha por sobrenome Iscariota, qual era do numero dos doze.
4 E foi, e falou com os Principes dos Sacerdotes, e com os Capitães, de como lho entregaria.
5 Os quaes folgárão, e concertárão de lhe dar dinheiro.
6 E prometteo-lho, e buscava opportunidade para lho entregar sem alvoroço.
7 E veio o dia dos pães asmos, em que importava sacrificar a Pascoa.
8 E mandou a Pedro, e a João, dizendo: Ide, aparelhai-nos a Pascoa, para que a comamos.
9 E elles lhe disserão: Aonde queres que a aparelhemos?
10 E elle lhes disse: Eis-que como entrardes na cidade, vos encontrará hum homem, que leva hum cántaro de agoa: segui-o até á casa aonde entrar.
11 E direis ao pai de familia da casa: o Mestre te diz; onde está o aposento, onde com meus discipulos hei de comer a Pascoa?
12 Então elle vos mostrará hum grande cenaculo já preparado; aparelhai-a ali.
13 E indo elles, achárão como lhes tinha dito; e aparelhárão a Pascoa.
14 E vinda a hora, assentou-se á mesa, e com elle os doze Apostolos.
15 E disse-lhes: Muito desejei de comvosco comer esta Pascoa, antes que padeça.
16 Porque vos digo, que della mais não comerei, até que no Reino de Deos se cumpra.
17 E tomando o copo, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vósoutros.
18 Porque vos digo, que do fruto de vide não beberei, até que o Reino de Deos não venha.
19 E tomando o pão, e havendo dado graças, partio-o, e deu-lho, dizendo: Isto he o meu corpo, que por vósoutros he dado; fazei isto em memoria de mim.
20 Semelhantemente tambem o copo, depois da cea, dizendo: Este copo he o Novo Testamento em meu sangue, que por vósoutros he derramado.
21 Porém vedes aqui a mão do que me trahe, está á mesa comigo.
22 E bem vai o Filho do homem, segundo o que está determinado: porém ai daquelle homem por quem he trahido.
23 E começárão a perguntar entre si, qual delles seria o que isto havia de fazer.
24 E houve tambem entre elles contenda, qual delles parecia ser o maior.
25 E elle lhes disse: os Reis das gentes se ensenhoreão dellas, e os que sobre ellas tem potestade são chamados bemfeitores.
26 Mas vósoutros não assim: antes o maior entre vósoutros seja como o menor; e o que precede, como o que serve.
27 Porque qual he maior? o que á mesa se assenta, ou o que serve? Porventura não he o que á mesa se assenta? Porém eu sou entre vósoutros como aquelle que serve.
28 E vósoutros sois os que comigo em minhas tentaçoens tendes permanecido.
29 E eu vos ordeno o Reino, como meu Pai mo ordenou.
30 Para que em meu Reino á minha mesa comais e bebais; e sobre thronos vos assenteis, julgando ás doze tribus de Israël.
31 Disse tambem o Senhor: Simão, Simão; vedes aqui que Satanás vos desejou muito, para vos cirandar como a trigo.
32 Mas eu roguei por ti, que tua fé não desfaleça; e tu quando alguma vez te converteres, conforta a teus irmãos.
33 E elle lhe disse: Senhor, aparelhado estou, para ir comtigo até á prisão, e á morte.
34 Mas elle disse: Pedro, digo-te, que não cantará hoje o gallo, antes que tres vezes negues que me conheces.
35 E disse a elles: quando vos mandei sem bolsa, e sem alforge, e sem alparcas, por ventura faltou-vos alguma cousa? e disserão: nada.
36 Disse-lhes pois: agora porém, o que bolsa tem, tome-a, como tambem o alforge; e o que não tem, venda seu vestido, e compre espada.
37 Porque vos digo, que ainda importa que em mim se cumpra aquillo que está escrito: e com os malfeitores foi contado. Porque o que de mim está escrito tem seu cumprimento.
38 E elles dissérão: Senhor, eis aqui duas espadas. E elle lhes disse: Basta.
39 E sahindo, se foi, como costumava, ao monte das Oliveiras; e o seguírão tambem seus discipulos.
40 E como chegou áquelle lugar, disse-lhes: Orai, que não entreis em tentação.
41 E apartou-se delles, como hum tiro de pedra. E pondo-se de juelhos, orava.
42 Dizendo: Pai, se queres, passa este copo de mim; porém não se faça minha vontade, senão a tua.
43 E appareceo-lhe hum Anjo do ceo, que o confortava.
44 E posto em agonia, orava mais intensamente. E fez-se seu suor como gotas grandes de sangue, que corrião até o chão.
45 E levantando-se da oração, veio a seus discipulos, e achou-os dormindo de tristeza.
46 E disse-lhes: Que estais dormindo? levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.
47 E estando elle ainda falando, eis aqui a multidão: e hum dos doze, que se chamava Judas, ia diante delles, e chegou-se a Jesus, para o beijar.
48 E Jesus lhe disse: Judas, com beijo trahes ao Filho do homem?
49 E vendo os que estavão com elle o que havia de succeder, disserão-lhe: Senhor, feriremos á espada?
50 E hum delles ferio ao servo do Principe dos Sacerdotes, e cortou-lhe a orelha direita.
51 E respondendo Jesus, disse: Deixai-os até aqui: e tocando-lhe a orelha, curou-o.
52 E disse Jesus aos Principes dos Sacerdotes, e aos Capitaens do Templo, e aos Anciãos, que contra elle tinhão vindo: como a salteador, com espadas e bastoens sahistes?
53 Estando comvosco cada dia no Templo, contra mim as mãos não estendestes: mas esta he a vossa hora, e a potestade das trevas.
54 E prendendo-o, trouxérão-o, e o metterão em casa do Principe dos Sacerdotes. E Pedro o seguia de longe.
55 E havendo accendido fogo no meio da sala, e assentando-se juntamente, assentou-se Pedro entre elles.
56 E vendo-o huma certa criada estar assentado ao fogo, e postos os olhos nelle, disse: tambem este estava com elle.
57 Porém elle o negou, dizendo: Mulher, não o conheço.
58 E hum pouco depois, vendo-o outro, disse: tambem tu es delles. Porém Pedro disse: Homem, não sou.
59 E como já quasi huma hora passada, affirmava outro, dizendo: verdadeiramente tambem este estava com elle, porque tambem he Galileo.
60 E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes. E logo, estando elle ainda falando, cantou o gallo.
61 E virando-se o Senhor, olhou para Pedro; e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: antes que o gallo cante, me negarás tres vezes.
62 E sahindo Pedro para fora, chorou amargosamente.
63 E os homens que tinhão preso a Jesus, zombavão delle, ferindo-o.
64 E cobrindo-o, ferião-o no rosto; e perguntavão-lhe, dizendo: prophetiza, quem he o que te ferio?
65 E outras muitas cousas dizião contra elle, blasfemando.
66 E como já foi de dia, ajuntárão-se os Anciãos do povo, e os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, e o trouxerão a seu concilio.
67 Dizendo: es tu o Christo? dize-no-lo. E disse-lhes: se vo-lo disser, não o creréis:
68 E tambem se vos perguntar, não me respondereis, nem soltareis.
69 Desde agora se assentará o Filho do homem á mão direita da potencia de Deos.
70 E dissérão todos: es tu logo o Filho de Deos? e elle lhes disse: vósoutros dizeis que eu sou.
71 E disserão elles: que mais necessitamos de testemunho? pois nós mesmos o ouvimos de sua boca.

CAPITULO 23.

1 E LEVANTANDO-se toda a multidão delles, levárão-o a Pilatos.
2 E começarão a accusá-lo, dizendo: a este havemos achado, que perverte a nação, e prohibe dar tributo a Cesar, dizendo: que elle mesmo he Christo o Rei.
3 E Pilatos lhe perguntou, dizendo: es tu o Rei dos Judeos? E respondendo-lhe elle, disse: Tu o dizes.
4 E disse Pilatos aos Principes dos Sacerdotes, e á multidão: culpa nenhuma acho neste homem.
5 Mas elles tanto mais insistião, dizendo: alvoroça ao povo, ensinando por toda Judea, começando desde Galilea até aqui.
6 Então Pilatos, ouvindo de Galilea, perguntou se aquelle homem era Galileo.
7 E entendendo que era da jurisdicção de Herodes, remetteo-o a Herodes: o qual tambem naquelles dias estava em Jerusalem.
8 E vendo Herodes a Jesus, folgou muito: porque havia muito que o desejava ver, porquanto delle ouvia muitas cousas: e esperava que algum sinal lhe veria fazer.
9 E perguntava-lhe com muitas palavras, mas elle nada lhe respondia.
10 E estavão os Principes dos Sacerdotes, e os Escribas, accusando-o com grande vehemencia.
11 E Herodes, com seus soldados, desprezando-o, e delle escarnecendo, o vestio de huma roupa resplandecente, e o tornou a enviar a Pilatos.
12 E no mesmo dia Pilatos e Herodes se fizérão entre si amigos: porque d’antes andavão em inimizade hum contra o outro.
13 E convocando Pilatos aos Principes dos Sacerdotes, e aos Magistrados, e ao povo, disse-lhes:
14 Haveis-me apresentado este homem, como que perverte ao povo: e vedes aqui, examinando-o eu em vossa presença, nenhuma culpa das de que o accusais, acho neste homem.
15 E nem ainda Herodes: porque a elle vos remetti: e eis aqui que nenhuma cousa digna de morte tem feito.
16 Castigá-lo-hei pois e soltá-lo-hei.
17 E era-lhe necessario soltar-lhes a hum, pela Festa.
18 Porém toda a multidão clamou á huma, dizendo: fóradaqui com este, e solta-nos a Barrabbas.
19 O qual por huma sedição feita na cidade, e por huma morte, fóra lançado na prisão.
20 Falou-lhes pois outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus.
21 Mas elles clamavão em contra, dizendo: crucifica-o, crucifica-o.
22 E elle lhes disse a terceira vez: pois que mal fez este? nenhuma culpa de morte nelle achei. Castigá-lohei pois, e solta-lo-hei.
23 Mas elles instavão com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E seus gritos, e os dos Principes dos Sacerdotes, se esforçavão ainda mais.
24 Então julgou Pilatos que se fizesse o que pedião.
25 E soltou-lhes ao que fôra lançado na prisão por huma sedição emorte, que era o que pedião: porém a Jesus lhes entregou á sua vontade.
26 E indo-o já levando, tomarão a hum Simão Cyreneo, que vinha do campo, e puzérão-lhe a cruz ás costas, para que a levasse após Jesus.
27 E seguia-o grande multidão de povo, e de mulheres, as quaes tambem batião nos peitos, e o lamentavão.
28 E virando-se Jesus para ellas, disse: Filhas de Jerusalem, não choreis por mim, mas chorai por vós mesmas, e por vossos filhos.
29 Porque vedes aqui, que dias vem, em que dirão: Bemaventuradas as estereis, e os ventres que não parirão, e os peitos que não criárão.
30 Então começarão a dizer aos montes: Cahi sobre nósoutros; e aos outeiros: cobri-nos.
31 Porque se isto fazem ao madeiro verde, ao seco que se fará?
32 E levarão tambem outros dous, sendo malfeitores, a matar com elle.
33 E como vierão ao lugar chamado a Caveira, crucificarão-o ali, e aos malfeitores, hum á mão direita, e outro á esquerda.
34 E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E repartindo seus vestidos, lançarão sortes.
35 E o povo estava olhando: e zombavão tambem delle os Principes juntamente com elles, dizendo: a outros salvou, salve-se agora a si mesmo, se he o Christo, o escolhido de Deos.
36 E escarnecião delle tambem os soldados, chegando-se a elle, e apresentando-lhe vinagre;
37 E dizendo: Se tu es o Rei dos Judeos, salva-te a ti mesmo.
38 E estava tambem por cima delle hum titulo escrito com letras Gregas, e Romanas, e Hebraicas; ESTE HE O REI DOS JUDEOS.
39 E hum dos malfeitores que pendurados estavão, blasfemava delle, dizendo: Se tu es o Christo, salva-te a ti mesmo, e a nósoutros.
40 Porém respondendo o outro, reprehendia-o, dizendo; nem ainda tu temes a Deos, estando na mesma condemnação?
41 E nósoutros em verdade justamente: Porque o que nossos feitos merecião, isso recebemos; mas este nenhum mal fez.
42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino.
43 E Jesus lhe disse: Em verdade te digo, que hoje estarás comigo no Paraiso.
44 E era já quasi a hora sexta, e houve trevas em toda a terra, até a hora nona.
45 E o Sol se escureceo, e o veo do Templo se rasgou pelo meio.
46 E clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, em tuas mãos encommendo meu espirito. E havendo dito isto expirou.
47 E vendo o Centurião o que havia acontecido, deo gloria a Deos, dizendo: Verdadeiramente este homem era justo.
48 E toda multidão que se ajuntara a este espectáculo, vendo o que havia acontecido, tornava batendo nos peitos.
49 E estavão de longe todos seus conhecidos, e as mulheres, que juntamente desde Galilea o havião seguido, vendo estas cousas.
50 E eis que hum varão por nome José, Senador, homem de bem e justo,
51 (Que nem em seu conselho, nem em seus feitos havia consentido) de Arimathea, cidade dos Judeos, e que tambem esperava o Reino de Deos.
52 Este, chegando a Pilatos, pedio o corpo de Jesus.
53 E havendo-o tirado, envolveo-o em hum lançol fino, e pô-lo em hum sepulcro, lavrado em huma penha, aonde ainda nunca ninguem havia sido posto.
54 E era o dia de Preparação, e o Sabbado esclarecia.
55 E tambem as mulheres que com elle vierão de Galilea, o seguirão, e virão o sepulcro, e como seu corpo nelle foi posto.
56 E tornadas ellas, aparelhárão especiarias e unguentos; e repousárão o Sabbado, conforme ao mandamento.

CAPITULO 24.

1 E O primeiro dia da semana, mui de madrugada, forão ao sepulcro, levando as especiarias que tinhão aparelhado; e algumas mais com ellas.
2 E achárão a pedra já revolta do sepulcro.
3 E entrando, não achárão o corpo do Senhor Jesus.
4 E aconteceo, que estando ellas disto perplexas, eis que dous varoens parárão junto a ellas, com vestidos resplandecentes.
5 E estando ellas mui atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, lhes disserão elles: Porque buscais ao vivente entre os mortos?
6 Não está aqui, porém já resuscitou. Lembrai-vos de como vos falou, estando ainda em Galilea:
7 Dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregado em mãos de homens peccadores, e que seja crucificado, e resuscite ao terceiro dia.
8 E lembrarão-se de suas palavras.
9 E tornando do sepulcro, denunciárão todas estas cousas aos onze, e a todos os de mais.
10 E erão Maria Magdalena, e Joanna, e Maria mãi de Jacobo, e as de mais que com ellas estavão, que dizião estas cousas aos Apostolos.
11 E a elles lhes parecião como desvarios suas palavras; e não as crérão.
12 Porém levantando-se Pedro, correo ao sepulcro; e abaixando-se, vio os lançoes postos sós a huma banda; e se foi maravilhado entre si deste caso.
13 E eis que dous delles ião o mesmo dia a huma aldea, que estava de Jerusalem sessenta estadios; cujo nome era Emmaus;
14 E ião falando entre si de todas aquellas cousas que havião succedido.
15 E aconteceo, que indo elles entre si falando, e perguntando-se hum ao outro, o mesmo Jesus se lhes chegou, e ia com elles.
16 Mas seus olhos erão retidos, para que o não conhecessem.
17 E disse-lhes: Que praticas são estas, que indo andando, entre vósoutros tratais, e estais tristes?
18 E respondendo hum, cujo nome era Cleophas, disse-lhe: Tu só es peregrino em Jerusalem, e não sabes as cousas que nella tem succedido estes dias?
19 E elle lhes disse: quaes? e elles lhe dissérão; as tocante a Jesus Nazareno, o qual foi varão Propheta; poderoso em obras e em palavras diante de Deos, e de todo o povo.
20 E como os Principes dos Sacerdotes, e nossos Principes o entregárão á condemnação de morte, e o crucificarão;
21 E nósoutros esperavamos que elle era o que a Israël havia de redimir; porém ainda de mais de tudo isto, hoje he já o terceiro dia desde que estas cousas tem succedido.
22 Ainda que tambem algumas mulheres d’entre nósoutros nos espantarão, as quaes de madrugada forão ao sepulcro:
23 E não achando seu corpo, vierão dizendo: que tambem tinhão visto visão de Anjos, que dizem que vive.
24 E forão alguns dos que estão comnosco ao sepulcro, e acharão ser assim como as mulheres tinhão dito: porém a elle não o virão.
25 E elle lhes disse: ó nescios, e tardios de coração, para crer a tudo o que falárão os Prophetas!
26 Por ventura não convinha padecer o Christo estas cousas, e assim entrar em sua gloria?
27 E começando de Moyses, e de todos os Prophetas, lhes declarava em todas as Escrituras o que delle estava escrito.
28 E chegarão á aldea, aonde ião: e elle se houve como que ainda ia mais longe.
29 E elles o constrangérão, dizendo: fica-te comnosco; porque já he tarde, e já o dia se abaixou: e entrou para ficar com elles.
30 E aconteceo, que estando com elles á mesa assentado, tomando o pão, o benzeo; e partindo-o, lho deo.
31 E os olhos se lhes abrirão, e o conhecérão, e elle lhes desappareceo.
32 E dizião hum ao outro: por ventura não estava nosso coração em nós ardendo, quando nos falava pelo caminho, e quando nos abria as Escrituras?
33 E levantando-se na mesma hora, tornárão a Jerusalem, e achárão congregados aos onze, e aos que estavão com elles.
34 Que dizião: verdadeiramente o Senhor resuscitou, e já appareceo a Simão.
35 E elles contárão as cousas que no caminho lhes succedérão: e como delles fora conhecido no partir do pão.
36 E falando elles destas cousas, o mesmo Jesus se poz no meio delles, e lhes disse: paz seja comvosco.
37 E espantados elles, e mui atemorizados, pensavão que vião algum espirito.
38 E elle lhes disse: porque estais turbados, e porque sobem taes pensamentos em vossos coraçoens?
39 Vede minhas mãos, e meus pés, que sou eu mesmo. Apalpai-me, e vede que o espirito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho.
40 É dizendo isto, lhes mostrou as mãos, e os pés.
41 E não o crendo elles ainda de gozo, e maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma cousa que comer?
42 Então elles lhe apresentárão parte de hum peixe assado, e de hum favo de mel.
43 O que elle tomou, e o comeo diante de seus olhos.
44 E disse-lhes: estas são as palavras que vos disse, estando ainda comvosco: que convinha se cumprissem todas as cousas, que na Lei de Moyses, e nos Prophetas, e nos Psalmos, de mim estão escritas.
45 Então lhes abrio o sentido, para que entendessem as Escrituras.
46 E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha, que o Christo padecesse, e ao terceiro dia resuscitasse dos mortos:
47 E em seu nome se prégasse arrependimento, e remissão de peccados em todas as gentes; começando de Jerusalem.
48 E destas cousas vósoutros sois testemunhas.
49 E vedes aqui, a promessa de meu Pai envio sobre vósoutros: porém vósoutros ficai na cidade de Jerusalem, até que do alto sejais revestidos com potencia.
50 E levou-os fóra até Bethania; e levantando suas mãos, os abençoou.
51 E aconteceo, que abençoando-os elle, se apartou delles, e foi recebido arriba no ceo.
52 E adorando-o elles, tornarão com grande gozo a Jerusalem.
53 E estavão sempre no Templo louvando e bem-dizendo a Deos. Amen.

JOÃO

CAPITULO 1.

1 NO Principio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deos, e a Palavra era Deos.
2 Esta estava no principio junto de Deos.
3 Por esta forão feitas todas as cousas, e sem ella se não fez cousa nenhuma do que foi feito.
4 Nella estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
5 E a luz resplandece nas trevas; e as trevas não a comprehendêrão.
6 Houve hum homem enviado de Deos, cujo nome era João.
7 Este veio por testemunho, para que testificasse da luz, paraque todos por elle cressem.
8 Não era elle a luz: senão paraque da luz testificasse.
9 Esta era a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem no mundo.
10 No mundo estava, e por elle foi feito o mundo; e o mundo o não conheceo.
11 Ao seu proprio veio, e os seus o não recebérão.
12 Mas a todos quantos o receberão, lhes deo potestade de serem feitos filhos de Deos, convém a saber, aos que crém em seu nome.
13 Os quaes não são gerados de sangue, nem de vontade de carne, nem de vontade de varão, senão de Deos.
14 E aquella Palavra encarnou, e habitou entre nós: (e vimos sua gloria, gloria como do unigenito do Pai) cheio de graça e de verdade.
15 João delle testificou, e clamou, dizendo: Este era aquelle, de quem eu dizia: o que vem após mim he antes de mim: porque era primeiro que eu.
16 E de sua plenidão recebemos todos tambem graça por graça.
17 Porque a Lei foi dada por Moyses: a graça e a verdade foi feita por Jesu-Christo.
18 A Deos nunca ninguem o vio; o unigenito Filho, que está no regaço do Pai, elle no-lo declarou.
19 E este he o testemunho de João, quando os Judeos mandarão alguns Sacerdotes e Levitas de Jerusalem, que lhe perguntassem: Tu quem es?
20 E confessou, e não negou; e confessou: Eu não sou o Christo.
21 E perguntárão-lhe, Que pois? Es tu Elias? e disse: não sou. Es tu o Propheta? e respondeo: não.
22 Disserão-lhe pois: Quem es? para que dêmos resposta aos que nos enviárão: Que dizes de ti mesmo?
23 Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto; endireitai o caminho do Senhor, como disse o Propheta Isaias.
24 E os enviados erão dos Phariseos.
25 E perguntárão-lhe, e disserão-lhe: Porque pois baptizas, se tu não es o Christo, nem Elias, nem o Propheta?
26 João lhes respondeo, dizendo: Eu baptizo com agua; mas em meio de vósoutros está a quem vósoutros não conheceis.
27 Este he aquelle que vem após mim, o qual já foi antes de mim, do qual eu não sou digno de lhe desatar a correa da alparca.
28 Estas cousas acontecerão em Bethabara, da outra banda do Jordão, onde João estava baptizando.
29 O seguinte dia vio João a Jesus vir a elle, e disse: Vedes aqui o Cordeiro de Deos, que tira o peccado do mundo.
30 Este he aquelle, do qual eu disse: após mim vem hum varão, que já foi antes de mim: porque já era primeiro que eu.
31 E eu não o conhecia; mas paraque fosse manifesto a Israël, por isso vim eu baptizando com agua.
32 E João testificou, dizendo: Eu vi ao Espirito como pomba descer do ceo, e repousou sobre elle.
33 E eu não o conhecia, mas aquelle que me mandou a baptizar com agua, esse me disse: Sobre aquelle que vires descer ao Espirito, e repousar sobre elle, esse he o que baptiza com Espirito Santo.
34 E eu o vi, e testificado tenho, que este he o Filho de Deos.
35 O seguinte dia estava outra vez ali João, e dous de seus discipulos.
36 E vendo por ali andar a Jesus, disse: Vedes aqui o Cordeiro de Deos.
37 E ouvirão os dous discipulos dizer aquillo, e seguirão a Jesus.
38 E virando-se Jesus, e vendo-os seguir, disse-lhes:
39 Que buscais? e elles lhe disserão: Rabbi, (que traduzido, quer dizer, Mestre) onde moras?
40 Disse-lhes elle: Vinde, e vede: viérão, e virão onde morava, e ficárão com elle aquelle dia: e já era quasi a hora decima.
41 Era André, o irmão de Simão Pedro, hum dos dous que ouvirão aquillo de João, e o havião seguido.
42 Este achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Já achámos ao Messias, que traduzido, he o Christo.
43 E levou-o a Jesus. E olhando Jesus para elle, disse: Tu es Simão o filho de Jonas; tu serás chamado Cephas, que se interpreta, Pedro.
44 O dia seguinte quiz Jesus ir a Galilea, e achou a Philippe, e disse-lhe: Segue-me.
45 E era Philippe de Bethsaida, a cidade de André e de Pedro.
46 Philippe achou a Nathanaël, e disse-lhe: havemos achado áquelle de quem Moyses escreveo na Lei, e os Prophetas, a saber a Jesus, o filho de José, de Nazareth.
47 E disse-lhe Nathanael: Pode de Nazareth haver cousa alguma boa? disse-lhe Philippe: Vem, e ve-o.
48 Vio Jesus vir a si a Nathanael, e disse delle: Vedes aqui verdadeiramente hum Israëlita, em quem não ha engano.
49 Disse-lhe Nathanael: Donde me conheces tu a mim? Respondeo Jesus, e disse-lhe: Antes que Philippe te chamara, estando tu debaixo da figueira, eu te vi.
50 Respondeo Nathanael, e disse-lhe: Rabbi tu es o Filho de Deos, tu es o Rei de Israël.
51 Respondeo Jesus, e disse-lhe: Porque te disse: Debaixo da figueira te vi, crês: cousas maiores que estas verás.
52 E disse-lhe: Em verdade, em verdade vos digo, que daqui em diante vereis aberto o ceo, e aos Anjos de Deos subir e descer sobre o Filho do homem.

CAPITULO 2.

1 E AO terceiro dia se fizerão humas vodas em Cana de Galilea: e estava ali a mãi de Jesus.
2 E foi tambem convidado Jesus, e seus discipulos ás vodas.
3 E faltando o vinho, a mãi de Jesus lhe disse: Vinho não tem.
4 Disse-lhe Jesus: Que tenho eu comtigo, mulher? ainda minha hora não he vinda.
5 Disse sua mãi aos servidores: Tudo quanto elle vos disser fazei.
6 E estavão ali postas seis talhas de pedra, conforme á purificação dos Judeos, em cada huma das quaes cabião dous ou tres almudes.
7 Disse-lhes Jesus: Enchei estas talhas de agua. E enchêrão-as até riba.
8 E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao Mestresala. E apresentárão-lha.
9 E como o Mestresala provou a agua, feita vinho (e não sabia donde era, porém os servidores, que havião tirado a agua, o sabião) chamou o Mestresala ao esposo:
10 E disse-lhe: Todo homem põem primeiro o bom vinho, e quando já tem bem bebido, então o some-nos: mas tu guardaste o bom vinho até agora.
11 Este principio de sinaes fez Jesus em Cana de Galilea, e manifestou sua gloria; e crerão seus discipulos nelle.
12 Depois disto desceo a Capernaum, elle e sua mãi, e seus irmãos, e seus discipulos, e ficarão ali não muitos dias.
13 E estava perto a Paschoa dos Judeos, e subio Jesus a Jerusalem.
14 E achou no Templo aos que vendião bois, e ovelhas, e pombas, e aos cambiadores assentados.
15 E feito hum açoute de cordeis, a todos os lançou fora do Templo, como tambem as ovelhas, e os bois; e o dinheiro dos cambiadores derramou, e as mesas trastornou.
16 E aos que vendião as pombas, disse: Tirai daqui isto; e não façais casa de venda, a casa de meu Pai.
17 E lembrarão-se seus discipulos que está escrito: O zelo de tua casa me comeo.
18 Responderão pois os Judeos e disserão-lhe: Que sinal nos mostras de que fazes estas cousas?
19 Respondeo Jesus, e disse-lhe; Derribai este Templo, e em tres dias o levantarei.
20 Disserão pois os Judeos: Em quarenta e seis annos foi este Templo edificado, e levanta-lo-has tu em tres dias?
21 Porém elle falava do Templo de seu corpo.
22 Portanto, quando dos mortos resuscitou, se lembrárão seus discipulos que isto lhes havia dito; e crerão na Escritura, e na palavra, que Jesus lhes dissera.
23 E estando elle em Jerusalem pela Pascoa, no dia da Festa, crérão muitos em seu nome, vendo os sinaes que fazia.
24 Mas o mesmo Jesus a si mesmo delles se não confiava, porquanto a todos os conhecia.
25 E não necessitava de que alguem do homem lhe testificasse, porque bem sabia elle o que havia no homem.

CAPITULO 3.

1 E HAVIA hum homem dos Phariseos, cujo nome era Nicodemus, Principe dos Judeos.
2 Este veio a Jesus de noite, e disse-lhe: Rabbi, bem sabemos que es Mestre vindo de Deos: porque ninguem pode fazer estes sinaes que tu fazes, se Deos não for com elle.
3 Respondeo Jesus e disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo, que aquelle que não tornar a nascer, não pode ver o Reino de Deos.
4 Disse-lhe Nicodemus: Como pode o homem nascer, sendo velho? por ventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãi, e nascer?
5 Respondeo Jesus: Em verdade, em verdade te digo, que aquelle que não nascer de agua e de Espirito, não pode entrar no Reino de Deos.
6 O que he nascido de carne, carne he; e o que he nascido de Espirito, Espirito he.
7 Não te maravilhes de que te disse: Necessario vos he tornar a nascer.
8 O vento sopra aonde quer, e ouves seu sonido; porém não sabes donde vem, nem para onde vai; assim he todo aquelle que he nascido do Espirito.
9 Respondeo Nicodemus, e disse-lhe: Como se pode fazer isto?
10 Respondeo Jesus, e disse-lhe: Es tu Mestre de Israël, e isto não sabes?
11 Em verdade, em verdade te digo, que o que sabemos, isso falamos; e o que visto temos, isso testificamos; e não aceitais nosso testemunho.
12 Se cousas terreaes vos disse, e não crêdes; como crereis, se vos disser as celestiaes?
13 E ninguem subio ao ceo, senão o que desceo do ceo; a saber o Filho do homem, que está no ceo.
14 E como Moyses levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado.
15 Para que todo aquelle que nelle crer, não pereça, mas tenha a vida eterna.
16 Porque de tal maneira amou Deos ao mundo, que deo a seu Filho unigenito; para que todo aquelle que nelle crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.
17 Porque não mandou Deos a seu Filho ao mundo, para que condemnasse ao mundo; mas para que o mundo por elle fosse salvo:
18 Quem nelle crer, não hecondemnado; mas quem não crê, já está condemnado: porquanto não creo no nome do unigenito Filho de Deos.
19 E esta he a condemnação, que a luz veio ao mundo, e os homens amárão mais as trevas que a luz; porque suas obras erão más.
20 Porque todo aquelle que faz mal, aborrece a luz, e não vem a luz, para que suas obras não sejão redarguidas.
21 Mas quem obra verdade vem á luz, para que suas obras sejão manifestas, que são feitas em Deos.
22 Depois disto veio Jesus com seus discipulos á terra de Judea; e estava ali com elles, e baptizava.
23 E baptizava tambem João em Enon, junto a Salim, porquanto havia ali muitas aguas; e vinhão ali, e erão baptizados.
24 Porque ainda João não fôra lançado na prisão.
25 Houve pois questão movida dos discipulos de João com os Judeos, sobre a purificação.
26 E viérão a João, e disserão-lhe: Rabbi, aquelle que comtigo estava d’além do Jordão, ao qual tu dêste testemunho, vês aqui baptiza, e todos vem a elle.
27 Respondeo João, e disse: Não pode o homem receber cousa alguma, se lhe não for dado do ceo.
28 Vósoutros mesmos me sois testemunhas, que disse: Eu não sou o Christo; mas que sou enviado diante delle.
29 Aquelle que tem a esposa, he o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste, e o ouve, com alegria se goza pela voz do esposo. Assim pois já este meu gozo he cumprido.
30 A elle convém crescer, porém a mim diminuir.
31 Aquelle que vem de riba, he sobre todos; aquelle que da terra vem, da terra he, e da terra fala. Aquelle que vem do ceo he sobre todos.
32 E aquillo que vio e ouvio, isto testifica; e ninguem aceita seu testemunho.
33 Aquelle que aceitou seu testemunho, esse sellou que Deos he verdadeiro.
34 Porque aquelle que Deos enviou, as palavras de Deos fala; porque não lhe dá Deos o Espirito por medida.
35 O Pai ama ao Filho, e todas as cousas lhe deo em sua mão.
36 Aquelle que cré no Filho, tem vida eterna; mas aquelle que ao Filho he incrédulo, não verá a vida, mas a ira de Deos está sobre elle.

CAPITULO 4.

1 COMO pois o Senhor entendeo, que os Phariseos ouvirão, que Jesus fazia e baptizava mais discipulos que João:
2 (Ainda que Jesus mesmo não baptizava, senão seus discipulos)
3 Deixou a Judea, e foi outra vez a Galilea.
4 E era mister que passasse por Samaria.
5 Veio pois a huma cidade de Samaria, chamada Sichar, junto á herdade que Jacob deo a José seu filho.
6 E estava ali a fonte de Jacob. Jesus pois cansado do caminho, se assentou assim junto á fonte: Era isto quasi á hora sexta.
7 Veio huma mulher de Samaria a tirar agua: Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.
8 (Porque seus discipulos erão idos á cidade, a comprar de comer.)
9 Disse-lhe pois a mulher Samaritana: Como, sendo tu Judeo, me pedes a mim de beber, que sou mulher Samaritana? porque os Judeos não se communicão com os Samaritanos.
10 Respondeo Jesus, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deos, e quem he o que te diz, dá-me de beber; tu lhe pedirias, e elle te daria agua viva.
11 Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço he fundo: donde pois tens a agua viva?
12 Es tu maior que nosso pai Jacob, que nos deo o poço? e elle mesmo delle bebeo, e seus filhos, e seu gado?
13 Respondeo Jesus, e disse-lhe: Qualquer que beba desta agua tornará a ter sede;
14 Porém aquelle que beber da agua que eu lhe der, nunca terá sede, mas agua que eu lhe der se fará nelle fonte de agua, que salte para vida eterna.
15 Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me desta agua para que não mais tenha sede, nem aqui venha a tirar.
16 Disse-lhe Jesus: Vai, chama a teu marido, e vem cá.
17 Respondeo a mulher, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido.
18 Porque cinco maridos tiveste, e o que agora tens não he teu marido; isto com verdade disseste.
19 Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que es Propheta.
20 Nossos pais adorarão neste monte, e vósoutros dizeis que em Jerusalem he o lugar onde importa adorar.
21 Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalem adorareis ao Pai.
22 Vósoutros adoreis o que não sabeis; nósoutros adoramos o que sabemos: porque a salvação vem dos Judeos.
23 Porém a hora vem, e agora he, quando os verdadeiros adoradores ao Pai adorarão em espirito e em verdade: porque tambem o Pai busca a taes que o adorem.
24 Deos he Espirito, e os que o adorão, importa que o adorem em espirito e em verdade.
25 Disse-lhe a mulher: Eu sei que o Messias vem. (que se chama o Christo;) quando elle vier, todas as cousas nos denunciará.
26 Disse-lhe Jesus: Eu sou o que comtigo falo.
27 E nisto vierão seus discipulos; e maravilharão-se de que falasse com huma mulher: todavia ninguem lhe disse: Que perguntas? ou, Que com ella falas?
28 Deixou pois a mulher seu cantaro, e foi á cidade, e disse á gente della:
29 Vinde, vêde hum homem que me disse tudo quanto tenho feito; não he este por ventura o Christo?
30 Sahirão pois da cidade, e vierão a elle.
31 E entretanto lhe rogavão os discipulos, dizendo: Rabbi, come.
32 Porém elle lhes disse: Huma comida tenho que comer, que vósoutros não sabeis.
33 Dizião pois os discipulos huns aos outros: Por ventura trouxe-lhe alguem de comer?
34 Disse-lhes Jesus: Minha comida he, que faça a vontade daquelle que me enviou, e cumpra sua obra.
35 Não dizeis vósoutros, que ainda ha quatro mezes até que venha a sega? vêdes aqui vos digo: Levantai vossos olhos, e vêde as terras; que ja estão brancas para a sega.
36 E o que séga, recebe galardão, e ajunta fruto para vida eterna; para que ambos se gozem, assim o que seméa, como o que séga.
37 Porque nisto he o dito verdadeiro; que hum he o que semêa, e outro o que séga.
38 Eu vos enviei a segar o em que vósoutros não trabalhastes; outros trabalhárão, e vósoutros entrastes em seu trabalho.
39 E muitos dos Samaritanos daquella cidade crêrão nelle pela palavra da mulher, que testificava, dizendo: Tudo quanto tenho feito me disse.
40 Vindo pois os Samaritanos a elle, rogárão-lhe, que ficasse com elles; e ficou ali dous dias.
41 E crerão ainda muitos mais por sua palavra delle.
42 E dizião á mulher: Ja não cremos por teu dito; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que verdadeiramente este he o Christo o Salvador do mundo.
43 E depois de dous dias partio dali, e foi a Galilea.
44 Porque o mesmo Jesus testificou, que não tem o Propheta honra em sua propria patria.
45 Vindo pois a Galilea, os Galileos o recebérão, vistas todas as cousas que fizéra em Jerusalem no dia da Festa, porque tambem elles forão ao dia da Festa.
46 Veio pois Jesus outra vez a Cana de Galilea, aonde da agua fizéra vinho. E estava ali hum Regulo, cujo filho estava enfermo em Capernaum.
47 Ouvindo este que Jesus vinha de Judea a Galilea, foi ter com elle, e rogava-lhe que descesse, e curasse a seu filho, porque já estava á morte.
48 Disse-lhe pois Jesus: Se não virdes sinaes e milagres não haveis de crer.
49 O Regulo lhe disse: Senhor, desce, antes que meu filho morra.
50 Disse-lhe Jesus: Vai, teu filho vive. E creo o homem na palavra que Jesus lhe disse, e se foi.
51 E descendo elle já, seus servos lhe sahirão ao encontro, e lhe denunciárão, dizendo: Teu filho vive.
52 Perguntou-lhes pois, a que hora se achára melhor: e dissérão-lhe: Hontem ás sete horas o deixou a febre.
53 Entendeo pois o Pai, que aquella era a mesma hora em que Jesus lhe disse: Teu filho vive. E creo elle, e toda sua casa.
54 Este segundo sinal tornou Jesus a fazer, quando de Judea veio a Galilea.

CAPITULO 5.

1 DEPOIS disto era hum dia de Festa dos Judeos, e subio Jesus a Jerusalem.
2 E ha em Jerusalem á porta das ovelhas hum tanque, que em Hebreo se chama Bethesda, e tem cinco alpendres.
3 Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos, e dessecados, aguardando o movimento da agua.
4 Porque hum Anjo descia a certo tempo ao tanque, e revolvia a agua; e o primeiro que descia nelle, depois do movimento da agua, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
5 E estava ali hum certo homem, que havia trinta e oito annos que estava enfermo.
6 Vendo Jesus a este deitado, e sabendo, que ja havia muito tempo que ali jazia, disse-lhe: Queres sarar?
7 Respondeo-lhe o enfermo: Senhor, não tenho homem nenhum, que quando a agua se revolva, me metta no tanque: e em quanto eu venho, outro antes de mim desce.
8 Disse-lhe Jesus: Levanta-te, toma teu catre, e anda.
9 E logo aquelle homem sarou; e tomou seu catre, e ia-se. E era Sabbado aquelle dia.
10 Dissérão pois os Judeos áquelle que fóra curado: Sabbado he, não te he licito levar o catre.
11 Respondeo-lhes elle: Aquelle que me curou, esse me disse: Toma teu catre, e anda.
12 Perguntárão-lhe pois: Quem he o homem que te disse: Toma teu catre e anda?
13 E o que fóra curado, não sabia quem fosse: porque Jesus se havia retirado, porquanto naquelle lugar havia huma grande multidão.
14 Depois Jesus achou-o no Templo, e disse-lhe: Vês aqui ja estás são; não peques mais, porque te não succeda alguma cousa peior.
15 Foi aquelle homem, e denunciou aos Judeos que Jesus era o que o curara.
16 E por isso perseguião os Judeos a Jesus, e procuravão matá-lo, porque fazia estas cousas em Sabbado.
17 E Jesus lhes respondeo: Meu Pai até agora obra, e eu tambem obro.
18 Por isto pois tanto mais procuravão os Judeos matá-lo, porque não só quebrantava o Sabbado, mas tambem dizia que Deos era seu proprio Pai, fazendo-se igual a Deos.
19 Respondeo pois Jesus, e disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo, que não pode o Filho fazer cousa alguma de per si mesmo, se o não vir fazer ao Pai: porque tudo quanto elle faz, o faz tambem semelhantemente o Filho.
20 Porque o Pai ama ao Filho, e todas as cousas que faz lhe mostra: e maiores obras que estas lhe mostrará, para que vósoutros vos maravilheis.
21 Porque como o Pai aos mortos resuscita, e vivifica; assim tambem o Filho aos que quer vivifica.
22 Porque tambem o Pai a ninguem julga, mas todo o juizo deo ao Filho.
23 Para que todos honrem ao Filho, como honrão ao Pai. Quem não honra ao Filho, não honra ao Pai que o enviou.
24 Em verdade, em verdade vos digo, que quem ouve minha palavra, e crê no que me enviou, tem vida eterna, e não virá em condemnação, mas passou da morte á vida.
25 Em verdade, em verdade vos digo, que a hora vem, e agora he, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deos, e os que a ouvirem, viverão.
26 Porque como o Pai tem vida em si mesmo, assim deo tambem ao Filho que tivesse vida em si mesmo.
27 E deo-lhe poder, para fazer juizo, porquanto he o Filho do homem.
28 Não vos maravilheis disto: porque a hora vem, em que todos os que estão em os sepulcros ouvirão sua voz.
29 E sahirão os que fizérão bem, á resurreição de vida; e os que fizérão mal, á resurreição de condemnação.
30 Não posso eu de per mim mesmo fazer alguma cousa. Como ouço, assim julgo; e meu juizo he justo; porque não busco minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
31 Se eu testifico de mim mesmo, meu testemunho não he verdadeiro.
32 Outro ha que testifica de mim, e sei que o testemunho, que testifica de mim, he verdadeiro.
33 Vósoutros enviastes a João, e elle deo testemunho á verdade.
34 Porém eu não tomo testemunho de homem; mas digo isto, para que vos salveis.
35 Elle era huma candeia ardente e resplandecente: e vósoutros vos quizestes por hum pouco de tempo alegrar em sua luz.
36 Mas eu tenho maior testemunho que o de João. Porque as obras que o Pai me deo que cumprisse, as mesmas obras que eu faço, testificão de mim que o Pai me enviou.
37 E o Pai que me enviou, elle mesmo testificou de mim. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes seu parecer.
38 E não tendes sua palavra permanecente em vósoutros; porque ao que elle enviou, a esse vósoutros não crédes.
39 Examinai as Escrituras; porque vósoutros cuidais que nellas tendes a vida eterna, e ellas são as que de mim testificão.
40 E não quereis vir a mim, para que tenhais vida.
41 Não tomo honra de homens.
42 Mas bem vos conheço que não tendes o amor de Deos em vos mesmos.
43 Eu vim em nome de meu Pai, e vósoutros me não aceitais; se outro vier em seu proprio nome, a esse aceitareis.
44 Como podeis vósoutros crer, tomando honra huns dos outros? e não buscais a honra que só de Deos he?
45 Não cuideis que eu vos haja de accusar para com o Pai: o que vos accusa he Moyses, em quem vósoutros esperais.
46 Porque se vósoutros crêsseis em Moyses, tambem em mim me crerieis: porque elle escreveo de mim.
47 Porém se não credes em seus escritos, como crereis em minhas palavras?

CAPITULO 6.

1 DEPOIS disto partio Jesus da outra banda do mar de Galilea, que he o de Tiberias.
2 E o seguia huma grande multidão; porque via os sinaes que fazia nos enfermos.
3 E subio Jesus ao monte, e assentou-se ali com seus discipulos.
4 E já a Pascoa, a Festa dos Judeos, estava perto.
5 Levantando pois Jesus os olhos, e vendo que huma grande multidão vinha a elle, disse a Philippe: Donde compraremos pães, para que estes comão?
6 (Mas isto dizia, attentando-o; porque bem sabia elle o que havia de fazer.)
7 Respondeo-lhe Philippe: Duzentos dinheiros de pão lhes não bastarão, para que cada hum delles tome hum pouco.
8 Disse-lhe hum de seus discipulos, a saber, André, o irmão de Simão Pedro:
9 Hum menino está aqui que tem cinco pães de cevada e dous peixinhos; mas que he isto entre tantos?
10 E disse Jesus: Fazei assentar os homens; e havia muita herva naquelle lugar. Assentárão-se pois os homens, como numero de cinco mil.
11 E tomou Jesus os pães, e havendo dado graças, repartio-os aos discipulos, e os discipulos aos que estavão assentados; semelhantemente tambem dos peixes, quanto querião.
12 E como ja estivérão fartos, disse a seus discipulos: recolhei os pedaços que sobejárão, para que nada se perca.
13 Recolherão-os pois, e enchêrão doze cestos dos pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejárão aos que comérão.
14 Vendo pois aquelles homens o sinal que Jesus fizéra, disserão: Este he verdadeiramente o Propheta que havia de vir ao mundo.
15 Sabendo pois Jesus que havião de vir, e arrebatá-lo, para o fazer Rei, tornou-se elle só a retirar ao monte.
16 E como já se fez tarde, descêrão seus discipulos ao mar.
17 E entrando no barco, vierão da outra banda do mar a Capernaum, E era já escuro, e ainda Jesus não tinha vindo a elles.
18 E o mar se levantou, porquanto hum grande vento soprava.
19 E havendo já navegado quasi vinte e cinco, ou trinta estadios, virão a Jesus vir andando sobre o mar, e chegando-se ao barco; e temêrão.
20 Mas elle lhes disse: Eu sou, não temais.
21 Elles pois o receberão de boamente no barco; e logo o barco chegou á terra aonde ião.
22 O dia seguinte vendo a multidão, que estava da outra banda do mar, que não havia ali mais que hum barquinho, em que seus discipulos entrárão; e que Jesus não entrara com seus discipulos naquelle barquinho, mas que seus discipulos sós se havião ido:
23 (Porém que outros barquinhos vierão de Tiberias, perto do lugar, aonde comerão o pão, havendo o Senhor dado graças.)
24 Vendo pois a multidão que Jesus não estava ali, nem seus discipulos, entrarão elles tambem nos barcos, e vierão a Capernaum em busca de Jesus.
25 E achando-o da outra banda do mar, disserão-lhe: Rabbi, quando cá chegaste?
26 Respondeo-lhes Jesus, e disse: Em verdade, em verdade vos digo, que me buscais, não pelos sinaes que vistes, mas pelo pão que comestes, e vos fartastes.
27 Obrai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este sellou Deos Pai.
28 Disserão-lhe pois: Que faremos, para obrarmos as obras de Deos?
29 Respondeo Jesus, e disse-lhes: Esta he a obra de Deos, que creais naquelle que elle enviou.
30 Disserão-lhe pois: Que sinal pois fazes tu para que o vejamos, e creamos em ti? que obras?
31 Nossos pais comêrão o Manná no deserto, como está escrito: Pão do ceo lhes deo a comer.
32 Disse-lhes pois Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que não vos deo Moyses o pão do ceo; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do ceo.
33 Porque o pão de Deos he aquelle, que do ceo desce, e dá vida ao mundo.
34 Disserão-lhe pois: Senhor, dá-nos sempre deste pão.
35 E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; quem vem a mim, em maneira nenhuma terá fome; e quem crê em mim, nunca terá sede.
36 Mas já vos tenho dito, que tambem me vistes, e não credes.
37 Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e ao que vem a mim, em maneira nenhuma o lançarei fóra.
38 Porque eu desci do ceo, não para fazer minha vontade, senão a vontade daquelle que me enviou.
39 E esta he a vontade do Pai, que me enviou, que de tudo quanto me deo, nada perca, mas que o ressuscite no ultimo dia.
40 E esta he a vontade daquelle que me enviou, que todo aquelle que vé ao Filho, e nelle crê, tenha vida eterna; e eu o resuscitarei no ultimo dia.
41 Murmuravão pois delle os Judeos, porque disséra: Eu sou o pão que desceo do ceo.
42 E dizião: Não he este Jesus, o filho de José, cujos pai e mãi nósoutros conhecemos? como pois diz este: Do ceo descido tenho?
43 Respondeo pois Jesus, e disse-lhes: não murmureis entre vósoutros.
44 Ninguem pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não puxar; e eu o resuscitarei no ultimo dia.
45 Está escrito nos Prophetas: E serão todos ensinados de Deos. Assim que, todo aquelle que do Pai o ouvio, e aprendeo, esse vem a mim.
46 Não que alguém visse ao Pai, senão aquelle que he de Deos; este tem visto ao Pai.
47 Em verdade, em verdade vos digo, que aquelle que crê em mim tem vida eterna.
48 Eu sou o pão da vida.
49 Vossos pais comêrão Manná no deserto, e morrerão.
50 Este he o pão que desce do ceo, para que o homem delle coma, e não morra.
51 Eu sou o pão vivo, que desceo do ceo; se alguém comer deste pão, para sempre ha de viver. E o pão que eu hei de dar, he minha carne, a qual hei de dar pela vida do mundo.
52 Contendião pois os Judeos entre si, dizendo: Como nos pode dar este sua carne a comer?
53 Jesus pois lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo, que se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.
54 Quem come minha carne, e bebe meu sangue, tem vida eterna, e eu o resuscitarei no ultimo dia.
55 Porque minha carne verdadeiramente he comida: e meu sangue verdadeiramente he bebida.
56 Quem come minha carne, e bebe meu sangue, em mim permanece, e eu nelle.
57 Como o Pai vivente me enviou; e eu vivo pelo Pai; assim quem a mim me come, tambem por mim ha de viver.
58 Este he o pão, que desceo do ceo. Não como vossos pais, que comêrão o Manná, e morrêrão; quem comer este pão, para sempre ha de viver.
59 Estas cousas disse elle na Synagoga, ensinando em Capernaum.
60 Muitos pois de seus discipulos, ouvindo isto, disserão: Dura he esta palavra; quem a pode ouvir?
61 Sabendo pois Jesus em si mesmo, que seus discipulos murmuravão disto, disse-lhes: Isto vos escandaliza?
62 Que seria pois, se visseis ao Filho do homem subir aonde estava primeiro?
63 O Espirito he o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo espirito e vida são.
64 Mas alguns de vósoutros ha que não crem. Porque bem sabia Jesus já desde o principio, quem erão os que não crião, e quem era o que o havia de entregar.
65 E dizia: Porisso vos tenho dito, que ninguem pode vir a mim, se lhe não for dado de meu Pai.
66 Desde então se tornarão muitos de seus discipulos atras, e já não andavão com elle.
67 Assim que disse Jesus aos doze: Por ventura quereis vósoutros tambem ir?
68 Respondeo-lhe pois Simão Pedro: Senhor, a quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna.
69 E já nósoutros cremos, e conhecêmos que tu es o Christo, o Filho do Deos vivente.
70 Jesus lhes respondeo: Não vos escolhi eu doze; e hum de vósoutros he Diabo?
71 E isto dizia elle de Judas de Simão Iscariota; porque este o havia de entregar, o qual era hum dos doze.

CAPITULO 7.

1 E DEPOIS disto andava Jesus em Galilea; que já não queria andar em Judea, porquanto os Judeos procuravão matá-lo.
2 E estava já perto a Festa das Cabanas dos Judeos.
3 Disserão-lhe pois seus irmãos: Passa-te daqui, e vai-te a Judea, para que tambem teus discipulos vejão as obras que fazes.
4 Que ninguem, que procura ser nomeado, faz alguma cousa em occulto. Se fazes estas cousas, manifesta-te ao mundo.
5 Porque nem ainda seus irmãos crião nelle.
6 Disse-lhes pois Jesus: Meu tempo ainda não he chegado; mas vosso tempo sempre está prestes.
7 Não vos pode o mundo aborrecer a vósoutros, mas a mim me aborrece, porquanto delle testifico que suas obras são más.
8 Vósoutros subi a esta Festa: eu não subo ainda a esta Festa, porque ainda meu tempo não he cumprido.
9 E havendo-lhes dito isto, ficou em Galilea.
10 Mas havendo seus irmãos já subido, então subio elle tambem á Festa, não manifestamente, mas como em occulto.
11 Buscavão-o pois os Judeos na Festa, e dizião: Aonde está elle?
12 E havia grande murmuração delle na multidão. Alguns dizião: Bom he; e outros dizião: Não, antes engana a gente.
13 Todavia ninguem falava delle abertamente, com medo dos Judeos.
14 Porém no meio da Festa subio Jesus ao Templo, e ensinava.
15 E maravilhavão-se os Judeos, dizendo: Como sabe este letras, não as havendo aprendido?
16 Respondeo-lhes Jesus, e disse: Minha doutrina não he minha, senão daquelle que me enviou.
17 Se alguem quizer fazer sua vontade, da mesma doutrina conhecerá, se he de Deos, ou se eu falo de mim mesmo.
18 Quem fala de si mesmo busca sua propria honra; mas quem busca a honra daquelle que o enviou, esse he verdadeiro, e não ha nelle injustiça.
19 Não vos deo Moyses a Lei, e ninguem de vósoutros faz a Lei? porque me procurais matar?
20 Respondeo a multidão, e disse: O Demonio tens; quem te procura matar?
21 Respondeo Jesus, e disse-lhes: Huma obra fiz, e todos vós maravilhais.
22 Por isso Moyses vos deo a circuncisão (não porque seja de Moyses, mas dos pais) e em Sabbado circuncidais ao homem.
23 Se o homem recebe a circuncisão em Sabbado, para que a Lei de Moyses não seja quebrantada; indignaisvos comigo, porque em Sabbado curei a todo hum homem?
24 Não julgueis segundo a apparencia, mas julgai juizo justo.
25 Dizião pois alguns dos de Jerusalem: Não he este ao que procurão matar?
26 E eis aqui fala livremente, e nada lhe dizem: por ventura sabem verdadeiramente os Principes que este he o Christo?
27 Mas este bem sabemos donde he: Porém quando vier o Christo, ninguem saberá donde he.
28 Clamava pois Jesus no Templo, ensinando, e dizendo: E a mim me conheceis, e sabeis donde sou? e eu não vim de mim mesmo; mas aquelle que me enviou he verdadeiro, ao qual vósoutros não conheceis.
29 Porém eu o conheço, porque delle sou, e elle me enviou.
30 Procuravão pois prendé-lo, mas ninguem lançou mão delle, porque ainda sua hora não era vinda.
31 E muitos da multidão crérão nelle, e dizião: Quando o Christo viér, fará ainda mais sinaes, do que os que este tem feito?
32 Ouvirão os Phariseos que a multidão murmurava delle estas cousas: e os Phariseos e os Principes dos Sacerdotes mandarão servidores a prendê-lo.
33 Disse-lhes pois Jesus: Ainda hum pouco de tempo estou com vosco,e então me irei áquelle que me enviou.
34 Buscar-me-heis, e não me achareis; e aonde eu estou vósoutros não podeis rir.
35 Disserão pois os Judeos huns para os outros: Aonde se irá este, que não o acharemos? Por ventura ir-se-ha aos espargidos entre os Gregos, e a ensinar os Gregos?
36 Que dito he este que disse: Buscar-me-heis, e não me achareis; e aonde eu estou vósoutros não podeis vir?
37 E no ultimo e grande dia da Festa se póz Jesus em pé, e clamou, dizendo: Se alguem tem séde, venha a mim, e beba.
38 Quem crê em mim como diz a Escritura, rios de agua viva manarão de seu ventre.
39 (E isto disse elle do Espirito que havião de receber aquelles que nelle cressem. Porque ainda o Espirito Santo não era vindo, por quanto ainda Jesus não era glorificado.)
40 Assim que muitos da multidão, ouvindo este dito, dizião: Verdadeiramente este he o Propheta.
41 Outros dizião: Este he o Christo: e outros dizião: Virá pois de Galilea o Christo?
42 Não diz a Escritura que o Christo ha de vir da semente de David, e da aldea de Bethlehem, donde era Da vid?
43 Assim que havia dissensão na multidão por amor delle.
44 E alguns delles o querião prender, mas ninguem lançou mão delle.
44 Vierão pois os servidores aos Pontifices e Phariseos; e elles lhes disserão: Porque o não trouxestes?
46 Responderão os servidores: Nunca homem nenhum assim falou como este homem.
47 Responderão-lhes pois os Phariseos: Estais vósoutros tambem enganados?
48 Por ventura creo nelle algum dos Principes, ou dos Phariseos?
49 Senão esta multidão, que não sabe a Lei, maldita he.
50 Disse-lhes Nicodemus, o que viera a elle de noite, que era hum delles.
51 Porventura julga nossa Lei ao homem sem primeiro o ouvir, e entender o que faz?
52 Responderão elles, e disserão-lhe: Es tu tambem de Galilea? examina, e vê que nenhum Propheta se levantou de Galilea.
53 E foi cada hum para sua casa.

CAPITULO 8.

1 POREM Jesus se foi ao monte das Oliveiras.
2 E pela manhã cedo tornou ao Templo, e todo o povo veio a elle: e assentando-se, ensinava-os.
3 E trouxérão-lhe os Escribas e Phariseos huma mulher tomada em adulterio:
4 E pondo-a no meio, disserão-lhe: Mestre, esta mulher foi tomada no mesmo feito, adulterando.
5 E na Lei nos mandou Moyses, que as taes sejão apedrejadas: Tu pois que dizes?
6 E isto dizião elles, tentando-o, para que tivessem de que o accusar. Mas inclinando-se Jesus, escrevia com o dedo em terra.
7 E como perseverassem perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquelle que de vósoutros está sem peccado, seja o primeiro que atire pedra contra ella.
8 E tornando-se a inclinar, escrevia em terra.
9 Porém ouvindo elles isto, e redarguidos da consciencia, sahirão hum a hum, começando dos mais velhos até os ultimos; e Jesus ficou só, e a mulher, que estava no meio.
10 E endireitando-se Jesus, e não vendo a ninguem mais que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aquelles teus accusadores? ninguem te condemnou?
11 E disse ella: Ninguem, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu tambem te condemno: vai-te, e não peques mais.
12 Falou-lhes pois Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me seguir não andará em trevas, mas terá lume de vida.
13 Disserão-lhe pois os Phariseos: Tu testificas de ti mesmo; teu testemunho não he verdadeiro.
14 Respondeo Jesus, e disse-lhes: Ainda que eu testifico de mim mesmo, meu testemunho he verdadeiro; porque sei donde vim, e para onde vou: porém vósoutros não sabeis, donde venho, nem para onde vou.
15 Vósoutros julgais segundo a carne, eu não julgo a ninguem.
16 E se eu tambem julgo, meu juizo he verdadeiro; porque não sou eu só, mas eu, e o Pai que me enviou.
17 E tambem em vossa Lei está escrito, que o testemunho de dous homens he verdadeiro.
18 Eu sou o que testifico de mim mesmo; e tambem de mim testifica o Pai, que me enviou.
19 Disserão-lhe pois: Onde está teu Pai? Respondeo Jesus: Nem a mim me conheceis, nem a meu Pai: se vós a mim me conhecesseis, tambem conhecerieis a meu Pai.
20 Estas palavras falou Jesus junto á arca do thesouro, ensinando no Templo; e ninguem o prendeo, porque ainda sua hora não era chegada.
21 Disse-lhes pois Jesus outra vez: Eu me vou, e buscar-me-heis, e morrereis em vosso peccado: aonde eu vou vósoutros não podeis vir.
22 Dizião pois os Judeos: Porventura ha-se de matar a si mesmo, que diz: Aonde eu vou vósoutros não podeis vir?
23 E dizia-lhes: Vósoutros sois de baixo, eu sou de riba; vósoutros sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
24 Porisso vos disse, que morrereis em vossos peccados; porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos peccados.
25 Disserão-lhe pois: Tu quem es? Jesus lhes disse; O que já desde o principio tambem vos digo.
26 Muitas cousas tenho que dizer e julgar de vósoutros: mas verdadeiro he aquelle que me enviou; e eu o que delle tenho ouvido, isso falo ao mundo.
27 Mas não entendérão que lhes falava do Pai.
28 Disse-lhes pois Jesus: Quando levantardes ao Filho do homem, então entendereis que eu sou, e que nada faço de mim mesmo; mas isto digo, como meu Pai mo ensinou.
29 E aquelle que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque sempre faço o que lhe agrada.
30 Falando elle estas cousas, muitos crerão nelle.
31 Dizia pois Jesus aos Judeos, que crião nelle: Se vósoutros permanecerdes em minha palavra, verdadeiramente sereis meus discipulos.
32 E entendereis a verdade,e a verdade vos libertará.
33 Responderão-lhe: Semente de Abraham somos, e nunca servimos a ninguem; como dizes tu logo: Libertos sereis?
34 Respondeo-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que todo aquelle que faz peccado, servo he do peccado.
35 E o servo não fica em casa para sempre; o Filho fica para sempre.
36 Assim que, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis libertos.
37 Bem sei que sois semente de Abraham; porém procurais matar-me, porque minha palavra em vós não cabe.
38 Eu, o que vi junto a meu Pai, isso falo; e vósoutros, o que tambem vistes junto a vosso pai isso fazeis.
39 Respondêrão, e disserão-lhe: Nosso pai he Abraham. Disse-lhes Jesus: Se fosseis filhos de Abraham, fizéreis as obras de Abraham.
40 Porém agora procurais matar-me, homem que vos tenho falado a verdade que de Deos tenho ouvido: não fez isto Abraham.
41 Vósoutros fazeis as obras de vosso pai. Disserão-lhe pois: Nósoutros não somos nascidos de fornicação; hum Pai temos, a saber Deos.
42 Disse-lhes pois Jesus: Se Deos fôra vosso Pai, verdadeiramente me amarieis: porque eu sahi e venho de Deos; que não vim de mim mesmo, porém elle me enviou.
43 Porque não entendeis minha linguagem? porquanto não podeis ouvir minha palavra.
44 Vósoutros sois de pai Diabo, e quereis fazer os desejos de vosso pai: elle foi homicida desde o principio, e não permaneceo na verdade, porque nelle verdade não ha; quando fala mentira, do seu proprio fala; porque he mentiroso, e pai da mentira.
45 Porém a mim, porque vos digo a verdade, não me credes.
46 Quem de vósoutros me convence de peccado? e se digo a verdade, porque me não credes?
47 Quem he de Deos, ouve as palavras de Deos; portanto as não ouvis vósoutros, porquanto não sois de Deos.
48 Respondérão pois os Judeos. e disserão-lhe: Não dizemos nós bem, que es Samaritano, e tens o demonio?
49 Respondeo Jesus: Eu não tenho demonio, antes honro a meu Pai; e vósoutros me deshonrais.
50 Eu porém não busco minha gloria; ha quem a busque, e a julgue.
51 Em verdade, em verdade vos digo, que se alguem guardar minha palavra, nunca verá a morte.
52 Disserão-lhe pois os Judeos: Agora conhecemos que tens o demonio. Morreo Abraham, e os Prophetas; e dizes tu: Se alguem guardar minha palavra, nunca gostará a morte?
53 Es tu maior que nosso pai Abraham, o qual morreo? e morrérão os prophetas: Quem te fazes a ti mesmo?
54 Respondeo Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, nada he minha gloria; meu Pai he o que me glorifica; o qual dizeis que he vosso Deos.
55 E vósoutros não o conheceis, mas eu o conheço: e se disser, que o não conheço, serei mentiroso como vósoutros; mas conheço-o, e guardo sua palavra.
56 Abraham vosso pai saltou de prazer por ver meu dia; e o vio, e alegrou-se.
57 Disserão-lhe pois os Judeos: Ainda não tens cincoenta annos, e viste a Abraham?
58 Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que antes que Abraham fosse, eu sou.
59 Tomárão pois pedras para lhe atirarem. Mas Jesus se escondeo, e sahio do Templo, atravessando por meio delles, e assim se foi.

CAPITULO 9.

1 E INDO Jesus passando, vio a hum homem cego desde seu nascimento.
2 E perguntarão-lhe seus discipulos, dizendo: Rabbi, quem peccou? este, ou seus pais, para que nascesse cego?
3 Respondeo Jesus: Nem este peccou, nem seus pais; mas assim he para que as obras de Deos nelle se manifestem.
4 A mim me convém obrar as obras daquelle que me enviou, entretanto que he de dia: a noite vem, quando ninguem pode obrar.
5 Em quanto no mundo estou, eu sou a luz do mundo.
6 Isto dito, cuspio em terra, e fez lodo do cuspo, e untou com aquelle lodo os olhos ao cego.
7 E disse-lhe: Vai; lava-te no tanque de Siloë (que se interpreta Enviado). Foi pois, e lavou-se; e tornou vendo.
8 Assim que os vizinhos, e os que d’antes o virão que era cego; dizião: Não he este aquelle que estava assentado, e mendigava?
9 Outros dizião: Este he. E outros: Parece-se com elle. Elie dizia: Eu sou.
10 Dizião-lhe pois: Como se te abrirão os olhos?
11 Respondeo elle, e disse: Aquelle homem chamado Jesus, fez lodo, e me untou os olhos, e me disse: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. E fui, e lavei-me, e vi.
12 Disserão-lhe pois: Onde está elle? disse elle: Não o sei.
13 Levárão-o pois aos Phariseos, a saber o d’antes cego.
14 E era Sabbado, quando Jesus fez o lodo, e lhe abrio os olhos.
15 Tornarão pois tambem os Phariseos a perguntar-lhe como vira, e elle lhes disse: Póz-me lodo sobre os olhos, e lavei-me, e vejo.
16 Assim que alguns dos Phariseos dizião: Este homem não he de Deos; pois não guarda o Sabbado. Outros dizião: Como pode hum homem peccador fazer taes sinaes? E havia dissensão entre elles.
17 Tornão pois a dizer ao cego: Tu que dizes delle, pois os olhos te abrio? e elle disse: que he propheta.
18 Assim que os Judeos não crião delle que houvesse sido cego, e agora visse; até que chamarão aos pais do que agora via.
19 E perguntárão-lhes, dizendo: He este vosso filho, aquelle que dizeis que nasceo cego? como pois agora vê?
20 Respondêrão-lhes seus pais, e disserão: Sabemos que este he nosso filho, e que nasceo cego:
21 Mas como agora veja, não o sabemos; ou, quem lhe haja aberto os olhos, não o sabemos; idade tem, perguntai-lhe a elle mesmo, elle falará por si mesmo.
22 Isto disserão seus pais, porque temião aos Judeos. Porquanto já os Judeos á huma tinhão concluido, que se alguem confessasse ser elle o Christo, fosse lançado da Synagoga.
23 Por isso disserão seus pais: Idade tem, perguntai-lhe a elle mesmo.
24 Chamárão pois segunda vez ao homem que fôra cego, e disserãolhe: Dá gloria a Deos; nós sabemos que este homem he peccador.
25 Respondeo pois elle, e disse: Se he peccador, não o sei; huma cousa sei, que havendo eu sido cego, agora vejo.
26 E tornárão-lhe a dizer: Que te fez? como te abrio os olhos?
27 Respondeo-lhes: Já vo-lo tenho dito, e ainda o não ouvistes: que quereis tornar a ouvir? por ventura quereis-vos tambem fazer-vos seus discipulos?
28 Assim que o injuriárão e disserão: Tu sejas seu discipulo: que nósoutros somos discipulos de Moyses.
29 Bem sabemos nósoutros que Deos falou a Moyses; mas este donde he, não sabemos.
30 Respondeo aquelle homem, e disse-lhes: Na verdade, que maravilhosa cousa he esta! que vósoutros não sabeis donde seja este; e a mim me abrio os olhos.
31 E bem sabemos que Deos não ouve aos peccadores; mas se alguem he temente a Deos, e faz sua vontade, a este ouve.
32 Desde todos os seculos se não ouvio, que alguem abrisse os olhos a hum que nasceo cego.
33 Se este não fôra vindo de Deos, nada pudéra fazer.
34 Responderão elles, e disserão-lhe: Em peccados es todo nascido, e nos ensinas a nós? e o lançárão fóra.
35 Ouvio Jesus que o havião lançado fóra, e achando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deos?
36 Respondeo elle, e disse: Quem he, Senhor, para que nelle crea?
37 E disse-lhe Jesus: Já o tens visto; e o que fala comtigo, esse he.
38 E elle disse: Creio, Senhor; e adorou-o.
39 E disse Jesus: Eu vim a este mundo para juizo, para que os que não vêm, vejão; e os que vêm, ceguem.
40 E ouvirão isto alguns dos Phariseos, que estavão com elle; e disserão-lhe: Somos nósoutros tambem cegos?
41 Disse-lhes Jesus: Se fôreis cegos, não tivéreis peccado; mas agora dizeis: Vêmos; portanto vosso peccado permanece.

CAPITULO 10.

1 EM verdade, em verdade vos digo, que aquelle que no curral das ovelhas não entra pela porta, mas sobe por outra parte, he ladrão, e salteador.
2 Mas aquelle que entra pela porta, he o pastor das ovelhas.
3 A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem sua voz, e a suas ovelhas chama nome por nome, e as leva fóra.
4 E quando tira fóra suas ovelhas, vai diante dellas, e as ovelhas o seguem, porquanto conhecem sua voz.
5 Mas ao estranho em maneira nenhuma seguirão, antes delie fogirão; porquanto não conhecem a voz dos estranhos.
6 Esta parabola lhes disse Jesus: porém elles não entendêrão que era o que lhes falava.
7 Tornou-lhes pois Jesus a dizer: Em verdade, em verdade vos digo, que eu sou a porta das ovelhas.
8 Todos quantos viérão antes de mim, são ladroens e salteadores: mas as ovelhas não os ouvirão.
9 Eu sou a porta; se alguem entrar por mim, salvar-se-ha: e entrará, e sahirá, e achará pasto.
10 O ladrão não vem senão a roubar, e matar, e destruir: eu vim para que tenhão vida, e tenhão abundancia.
11 Eu sou o bom Pastor: o bom Pastor pelas ovelhas põem sua vida.
12 Mas o jornaleiro, e que não he o pastor, cujas não são proprias as ovelhas, vê vir ao lobo, e deixa as ovelhas, e foge: e o lobo as arrebata, e dissipa as ovelhas.
13 E o jornaleiro foge, porquanto he jornaleiro, e das ovelhas não tem cuidado.
14 Eu sou o bom Pastor, e as minhas conheço, e das minhas sou conhecido.
15 Como o Pai me conhece a mim, assim conheço eu tambem ao Pai: e ponho minha vida pelas ovelhas.
16 Ainda tenho outras ovelhas que não são deste curral; a estas tambem me convém trazer, e ouvirão minha voz, e far-se-ha huma grei, e hum pastor.
17 Porisso me ama o Pai, porquanto ponho minha vida para torná-la a tomar.
18 Ninguem ma tira a mim, mas eu de mim mesmo a ponho: poder tenho para a pór, e poder tenho para a tornar a tomar. Este mandamento recebi de meu Pai.
19 Tornou pois a haver dissensão entre os Judeos, por causa destas palavras.
20 E muitos delles diziao: O demonio tem, e está fóra de si; para que o ouvis?
21 Dizião outros: Estas palavras não são de endemoninhado; pode porventura o demonio abrir os olhos aos cegos?
22 E era a Festa da renovação do Templo em Jerusalem, e era inverno.
23 E andava Jesus passeando no Templo, no alpendre de Salamão.
24 Rodeárão-o pois os Judeos. e disserão-lhe: Até quando em suspenso terás nossa alma? Se tu es o Christo, dize-no-lo livremente.
25 Respondeo-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas testificão de mim.
26 Mas vósoutros não credes, porque não sois de minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito.
27 Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e ellas me seguem.
28 E eu lhes dou a vida eterna, e nunca perecerão, e ninguem as arrebatará de minha mão.
29 Meu Pai que mas deo, maior he que todos; e ninguem as pode arrebatar da mão de meu Pai.
30 Eu e o Pai somos hum.
31 Tornárão pois os Judeos a tomar pedras, para o apedrejarem.
32 Respondeo-lhes Jesus: Muitas exeellentes obras de meu Pai vos tenho mostrado; por qual obra destas me apedrejais?
33 Respondérão-lhe os Judeos dizendo: Por boa obra te não apedrejamos senão pela blasfemia; e porque sendo tu homem, a ti mesmo te fazes Deos.
34 Respondeo-lhes Jesus: Não está escrito em vossa Lei: Eu disse, Deoses sois?
35 Pois se a Lei chamou Deoses áquelles, a quem a palavra de Deos foi endereçada, e a Escritura não pode ser quebrantada:
36 A mim, a quem o Pai sanctificou, e ao mundo enviou, dizeis vósoutros: Blasfemas; porque disse: Filho de Deos sou?
37 Se não faço as obras de meu Pai, não me creais.
38 Porém se as faço, e a mim me não credes, crede ás obras; para que conheçais, e creais, que o Pai está em mim, e eu nelle.
39 Procuravão pois outra vez prendé-lo; e elle sahio de suas mãos.
40 E tornou-se a ir da outra banda do Jordão, ao lugar aonde João primeiro baptizava; e ficou ali.
41 E muitos vinhão a elle, e dizião: Em verdade que nenhum sinal fez João; mas tudo quanto João disse deste, era verdade.
42 E muitos ali crérão nelle.

CAPITULO 11.

1 E ESTAVA enfermo hum certo homem, chamado Lazaro, de Bethania da aldéa de Maria, e de Martha sua irmã.
2 (E era Maria a que ungio ao Senhor com o unguento, e com seus cabellos lhe alimpou os pés; cujo irmão Lazaro era o que estava enfermo.)
3 Enviárão pois suas irmãs a elle, dizendo: Senhor, vês aqui aquelle que amas, está enfermo.
4 E ouvindo-o Jesus, disse: Esta enfermidade não he para morte, mas para gloria de Deos; para que o Filho de Deos por ella seja glorificado.
5 E amava Jesus a Martha, e a sua irmã, e a Lazaro.
6 Ouvindo pois que estava enfermo, ficou então ainda dous dias no lugar onde estava.
7 Depois disto tornou a dizer aos discipulos: Vamos outra vez a Judea.
8 Dizem-lhe os discipulos: Rabbi, ainda agora te procuravão os Judeos apedrejar; e tornas para lá?
9 Respondeo Jesus: Não ha doze horas no dia? Se alguem anda de dia, não tropeça, porquanto vê a luz deste mundo.
10 Mas se alguem anda de noite, tropeça; porquanto nelle não ha luz.
11 Isto falou; e disse-lhes depois: Lazaro nosso amigo dorme; mas vou a desperta-lo do somno.
12 Disserão pois seus discipulos: Senhor, se dorme, será salvo.
13 Mas isto dizia Jesus de sua morte; porém elles cuidavão, que falava do repouso do dormir.
14 Então pois lhes disse Jesus claramente: Lazaro he morto.
15 E folgo, por amor de vósoutros, que eu lá não estivesse, para que creais: porém vamos ter com elle.
16 Disse pois Thomas, chamado o Didymo, aos condiscipulos: Vamos nósoutros tambem, para que com elle morramos.
17 Vindo pois Jesus, achou que já havia quatro dias que estava na sepultura.
18 (E Bethania estava como quasi quinze estadios perto de Jerusalem.)
19 E muitos dos Judeos tinhão vindo a Martha, e a Maria, a consolá-las ácerca de seu irmão.
20 Ouvindo pois Martha que Jesus vinha, sahio-lhe ao encontro; mas Maria ficou assentada em casa.
21 Disse pois Martha a Jesus: Senhor, se tu estiveras aqui, não morréra meu irmão.
22 Porém tambem sei agora, que tudo quanto pedires a Deos, Deos t’o dará.
23 Disse-lhe Jesus: Teu irmão ha de resuscitar.
24 Martha lhe disse: Eu sei que ha de resuscitar, na resurreição, em o ultimo dia.
25 Disse-lhe Jesus; Eu sou a resurreição, e a vida; quem crê em mim, ha de viver, ainda que esteja morto.
26 E todo aquelle que vive, e crê em mim, nunca ha de morrer. Crês isto?
27 Disse-lhe ella: Sim Senhor; Jácri que tu es o Christo, o Filho de Deos, que havia de vir ao mundo.
28 E dito isto, se foi, e chamou em segredo a Maria sua irmã, dizendo: Aqui está o Mestre, e te chama.
29 Ouvindo ella isto, logo se levantou, e foi ter com elle.
30 (Que ainda Jesus não era chegado á aldéa; mas estava no lugar aonde Martha lhe sahira ao encontro.)
31 Vendo pois os Judeos, que com ella estavão em casa e a consolavão, que Maria apresuradamente se levantára, e sahira, seguirão-a, dizendo: á sepultura vai, a chorar lá.
32 Vindo pois Maria aonde Jesus estava, e vendo-o, derribou-se a seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivéras aqui, não morréra meu irmão.
33 Vendo-a pois Jesus chorar, e aos Judeos, que com ella tambem vinhão chorando, moveo-se muito em espirito, e turbou-se em si mesmo.
34 E disse: Onde o puzestes? disserão-lhe: Senhor, vem e vê-o.
35 E chorou Jesus.
36 Disserão pois os Judeos: Vêde como o amava!
37 E alguns delles disserão: não podia este, que abrio os olhos ao cego, fazer que tambem este não morresse.
38 Movendo-se pois Jesus outra vez muito em si mesmo, veio á sepultura: e era esta huma caverna, e estava huma pedra posta sobre ella.
39 Disse Jesus: Tirai a pedra. Martha, a irmã do defunto, lhe disse: Senhor, já féde, que já he de quatro dias.
40 Jesus lhe disse: Não te tenho dito, que se crêres, verás a gloria de Deos?
41 Tirárão pois a pedra donde o defunto jazia. E levantou Jesus os olhos para riba, e disse: Pai, graças te dou, que já me tens ouvido.
42 Porém bem sabia eu que sempre me ouves; mas por amor da multidão, que está ao redor, o disse; para que creão que tu me enviaste.
43 E havendo dito isto, clamou com grande voz: Lazaro, sahe fóra.
44 E sahio o defunto liadas as mãos e os pés com faixas, e seu rosto envolto em hum sudario. Disse-lhes Jesus: Desliai-o e deixai-o ir.
45 Pelo que, muitos dos Judeos, que a Maria tinhão vindo, e havião visto o que Jesus fizéra, crêrão nelle.
46 Mas alguns delles forão aos Phariseos, e disserão-lhes o que Jesus tinha feito.
47 Os Pontifices pois, e os Phariseos, ajuntárão o Concilio, e dizião: Que faremos? que este homem faz muitos sinaes.
48 Se assim o deixamos, todos crerão nelle, e virão os Romanos, e tomar-nos-hão assim o lugar como a nação.
49 E Caiphas, hum delles, que era Summo Pontifice daquelle anno, lhes disse: Vósoutros nada sabeis:
50 Nem considerais que nos convém, que hum homem morra pelo povo, e toda a nação não pereça.
51 E isto não disse elle de si mesmo; senão, que como era o Summo Pontifice daquelle anno, prophetizou, que Jesus pelo povo havia de morrer.
52 E não somente por aquelle povo, mas tambem para que ajuntasse em hum aos filhos de Deos, que espargidos andavão.
53 Assim que desde aquelle dia consultavão juntos de o matarem.
54 De maneira que já Jesus não andava mais manifestamente entre os Judeos, mas se foi dali á terra, junto ao deserto, a huma cidade chamada Ephraim; e ali andava com seus discipulos.
55 E estava perto a Pascoa dos Judeos, e muitos daquella terra subirão a Jerusalem antes da Pascoa, para se purificarem.
56 Buscavão pois a Jesus; e dizião huns aos outros estando no Templo: Que vos parece? que não virá á Festa?
57 E os Pontifices e os Phariseos tinhão dado mandamento, que se alguem soubesse onde estava, o notificasse, para que o podessem prender.

CAPITULO 12.

1 VEIO pois Jesus seis dias antes da Pascoa a Bethania, aonde estava Lazaro, o que falecéra, a quem resuscitára dos mortos.
2 Fizerão-lhe pois ali huma cea, e Martha servia; e Lazaro era hum dos que juntamente com elle á mesa estavão assentados.
3 Tomando pois Maria hum arratel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungio os pés a Jesus, e alimpou-lhe os pés com seus cabellos; e encheo-se a casa do cheiro do unguento.
4 Então disse Judas de Simão Iscariota, hum de seus discipulos, o que o havia de trahir:
5 Porque se não vendeo este unguento por trezentos dinheiros, e se deo aos pobres?
6 E isto disse elle, não pelo cuidado que tivesse dos pobres; mas porque era ladrão, e tinha a bolsa, e trazia o que se lançava nella.
7 Disse pois Jesus: Deixa-a; para o dia de meu enterro guardou isto.
8 Porque aos pobres sempre comvosco os tendes, porém a mim sempre me não tendes.
9 Entendeo pois muita gente dos Judeos, que elle estava ali: e viérão, não somente por amor de Jesus, mas tambem por ver a Lazaro, a quem resuscitára dos mortos.
10 E consultárão os Principes dos Sacerdotes, de tambem matarem a Lazaro.
11 Porque muitos dos Judeos ião por amor delle, e crião em Jesus.
12 O seguinte dia, ouvindo huma grande multidão, que viéra ao dia da Festa, que Jesus vinha a Jerusalem,
13 Tomarão ramos de palmas, e lhe sahirão ao encontro, e clamavão: Hosanna: Bemdito aquelle que vem em o nome do Senhor, o Rei de Israël.
14 E achou Jesus hum asninho, e assentou-se sobre elle, como está escrito.
15 Não temas ô filha de Sião; eis aqui teu Rei vem assentado sobre o poldro de huma asna.
16 Porém isto não entendérão seus discipulos ao principio: mas sendo Jesus já glorificado, então se lembrárão que isto delle estava escrito, e que isto lhe fizerão.
17 A multidão pois, que estava com elle, testificava, que a Lazaro chamára da sepultura, e o resuscitára dos mortos.
18 Pelo que tambem a multidão lhe sahio ao encontro, por quanto ouvira que fizera este sinal.
19 Disserão pois os Phariseos entre si; vedes que nada aproveitais? eis que o mundo se vai após elle.
20 E havia alguns Gregos, dos que havião subido a adorarem no dia da Festa.
21 Estes pois vierão a Philippe, que era de Bethsaida de Galilea, e rogárão-lhe, dizendo: Senhor, queriamos ver a Jesus.
22 Veio Philippe, e disse-o a André; e André então e Philippe o disserão a Jesus.
23 Porém Jesus lhes respondeo, dizendo: Vinda he a hora, que o Filho do homem ha de ser glorificado.
24 Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo, que cahe na terra, não morrer, elle fica só; porém se morrer, muito fruto dá.
25 Quem ama sua vida, perdê-laha; e quem neste mundo aborrece sua vida, a guardará para a vida eterna.
26 Se alguem me serve, siga-me; e onde eu estiver, ali estará tambem meu servidor. E se alguem me servir, o Pai o ha de honrar.
27 Agora está turbada minha alma; e que direi? Pai, salva-me desta hora: mas por isso vim a esta hora.
28 Pai glorifica teu Nome. Veio pois huma voz do ceo, que dizia: e já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei.
29 A multidão pois que ali estava, e a ouvio, dizia: que havia sido trovão. Outros dizião: algum Anjo lhe tem falado.
30 Respondeo Jesus e disse: não veio esta voz por amor de mim, senão por amor de vósoutros.
31 Agora he o juizo deste mundo: agora será lançado fóra o Principe deste mundo.
32 E eu, quando for levantado da terra, a todos trarei a mim.
33 (E isto dizia, significando de que morte havia de morrer.)
34 Respondeo-lhe a multidão: da Lei temos ouvido, que o Christo permanece para sempre; e como dizes tu, que convém, que o Filho do homem seja levantado? quem he este Filho do homem?
35 Disse-lhes pois Jesus: ainda por hum pouco de tempo a luz está comvosco; andai em quanto tendes luz, paraque as trevas vos não apanhem. E quem anda em trevas, não sabe aonde vai.
36 Em quanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas cousas falou Jesus, e indo-se, escondeo-se delles.
37 E ainda que perante elles tinha feito tantos sinaes, nem porisso crião nelle.
38 Para que se cumprisse a palavra do Propheta Isaias, que disse; Senhor, quem creo nossa prégação? e a quem foi revelado o braço do Senhor?
39 Por isso não podião crer, porquanto outra vez Isaias disse:
40 Os olhos lhes cegou, e o coração lhes endureceo; para que dos olhos não vejão, e de coração não entendão, e se convertão, e eu os cure.
41 Isto disse Isaias, quando vio sua gloria, e falou delle.
42 Comtudo ainda até dos Principes tambem crérão muitos nelle: mas não o confessavão por amor dos Phariseos; por não serem lançados da Synagoga.
43 Porque amavão mais a gloria dos homens, do que a gloria de Deos.
44 E clamou Jesus, e disse: Quem crê em mim, não crê em mim, senão naquelle que me enviou:
45 E quem a mim me vê, vê áquelle que me enviou.
46 Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquelle que crê em mim, não permaneça em trevas.
47 E se alguem ouvir minhas palavras, e as não crer, não o julgo eu. Porque não vim a julgar ao mundo, mas salvar ao mundo.
48 Quem a mim me engeitar, e minhas palavras não receber, já tem quem o julgue; a palavra que tenho falado, essa o ha de julgar no ultimo dia.
49 Porque eu não tenho falado de mim mesmo: porém o Pai que me enviou, elle me deo mandamento do que hei de dizer, e do que hei de falar.
50 E sei que seu mandamento he vida eterna. Assim que o que eu falo, assim o falo, como o Pai me tem dito.

CAPITULO 13.

1 E ANTES da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que já sua hora era vinda, para que deste mundo passasse ao Pai, havendo amado aos seus. que estavão no mundo, até o fim os amou.
2 E acabada a cea (havendo já o Diabo mettido no coração de Judas de Simão Iscariota, que o trahisse.)
3 Sabendo Jesus que já o Pai todas as cousas lhe tinha dado em as mãos, e que de Deos havia sahido, e a Deos se ia.
4 Levantou-se da cea, e tirou os vestidos, e tomando huma toalha, cingio-se.
5 Depois deitou agua em huma bacia, e começou a lavar os pés aos discipulos, e alimpar-lhos com a toalha, com que estava cingido.
6 Veio pois a Simão Pedro; e elle lhe disse: Senhor, tu a mim me lavas os pés?
7 Respondeo Jesus, e disse-lhe: o que o faço não o sabes tu agora; mas depois o entenderás.
8 Disse-lhe Pedro: nunca me lavarás os pés. Respondeo-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não terás parte comigo.
9 Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só meus pés, mas ainda as mãos e a cabeça.
10 Disse-lhe Jesus: aquelle que está lavado não necessita senão de lavar os pés, mas todo está limpo. E vósoutros limpos estais porém não todos.
11 Porque bem sabia elle quem o havia de trahir: porisso disse; todos não estais limpos.
12 Assim que havendo-lhes lavado os pés, e tomado seus vestidos, tornou-se assentar á mesa, e disse-lhes: entendeis o que vos tenho feito?
13 Vósoutros me chamais Mestre, e Senhor, e bem dizeis; que eu o sou:
14 Pois se eu, o Senhor, e o Mestre, vos tenho lavado os pés, tambem vósoutros vos deveis lavar os pés huns aos outros.
15 Porque vos tenho dado exemplo, para que como eu vos tenho feito, façais vósoutros tambem.
16 Em verdade, em verdade vos digo, que não he o servo maior que seu Senhor; nem o embaixador maior que aquelle que o enviou.
17 Se sabeis estas cousas, sereis bemaventurados, se as fizerdes.
18 Não digo de todos vósoutros; bem sei eu aos que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura, que diz: o que come comigo, levantou contra mim seu calcanhar.
19 Desde agora, antes que se faça, vo-lo digo, para que, quando se fizer, creais que eu o sou.
20 Em verdade, em verdade vos digo; que se alguem receber ao que eu enviar, a mim me recebe: e quem a mim me receber, recebe aquelle que me enviou.
21 Havendo Jesus dito isto, turbou-se em espirito, e testificou, e disse: em verdade, em verdade vos digo, que hum de vósoutros me ha de trahir.
22 Pelo que os discipulos se olhavão huns para os outros, duvidando de quem isto dizia.
23 E hum de seus discipulos, a quem Jesus amava, estava assentado á mesa recostado no regaço de Jesus.
24 A este pois fez sinal Simão Pedro, que perguntasse, quem era aquelle de quem isto dizia?
25 E derribando-se elle ao peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem he?
26 Respondeo Jesus: aquelle he a quem eu der o bocado molhado. E molhando o bocado, o deo a Judas de Simão Iscariota.
27 E após o bocado, entrou nelle Satanás. Disse-lhe pois Jesus: o que fazes, faze-o depressa.
28 E nenhum dos que á mesa estavão assentados, entendeo a que proposito lho disséra.
29 Porque alguns cuidavão, que por quanto Judas tinha a bolsa, lhe dizia Jesus: Compra o que para o dia da Festa nos he necessario: ou, que alguma cousa désse aos pobres.
30 Havendo elle pois tomado o bocado, logo sahio. E era já noite.
31 Sabido elle pois, disse Jesus: agora he o Filho do homem glorificado, e Deos he glorificado nelle.
32 Se Deos nelle he glorificado, tambem Deos o glorificará em si mesmo, e logo o ha de glorificar.
33 Filhinhos, ainda hum pouco estou comvosco. Buscar-me-heis; e, como aos Judeos disse; aonde eu vou, vósoutros não podeis vir: assim vo-lo digo eu agora tambem.
34 Hum mandamento novo vos dou, que vos ameis huns aos outros: como eu vos amei a vós, que tambem vós huns aos outros vos ameis.
35 Nisto conhecerão todos que sois meus discipulos, se vós tiverdes amor huns aos outros.
36 Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, aonde vas? Respondeo-lhe Jesus: aonde eu vou me não podes tu seguir agora; porém depois me seguirás.
37 Disse-lhe Pedro: porque agora te não posso seguir? por ti porei minha vida.
38 Respondeo-lhe Jesus: por mim porás tua vida? em verdade, em verdade te digo, que o gallo não cantará, até que tres vezes me não negues.

CAPITULO 14.

1 NÃO se turbe vosso coração: credes em Deos, crede tambem em mim.
2 Em casa de meu Pai muitas moradas ha; quando não, eu vo-lo diria; vou a vos aparelhar lugar.
3 E quando eu fôr, e vos aparelhar lugar, outra vez virei, e vos tomarei comigo, para que vósoutros tambem estejais onde eu estiver.
4 E já sabeis aonde vou, e sabeis o caminho.
5 Disse-lhe Thomas: Senhor, não sabemos aonde vas; e como podemos saber o caminho?
6 Jesus lhe disse: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguem vem ao Pai, senão por mim.
7 Se vós a mim me conhecêreis, tambem conhecerieis a meu Pai; e jà désde agora o conheceis, e o tendes visto.
8 Disse-lhe Philippe: Senhor, mostra-nos ao Pai, e basta-nos.
9 Jesus lhe disse: tanto tempo ha que estou comvosco, e ainda me não tens conhecido Philippe? Quem a mim me tem visto, ja tem visto ao Pai; e como dizes tu; mostranos ao Pai?
10 Não cres tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? as palavras que eu vos falo, não as falo de mim mesmo, mas o Pai que está em mim, elle he o que faz as obras.
11 Crede-me que estou no Pai, e que o Pai está em mim: e quando não, crede-me pelas mesmas obras.
12 Em verdade, em verdade vos digo, que aquelle que crê em mim, as obras que eu faço tambem elle as fará: e fará maiores que estas. Porque eu vou a meu Pai.
13 E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei: para que o Pai seja glorificado em o Filho.
14 Se alguma cousa pedirdes em meu nome, fala-hei.
15 Se me amais, guardai meus mandamentos.
16 E eu rogarei ao Pai, e elle vos dará outro Consolador, para que para sempre fique comvosco:
17 Ao Espirito de verdade, a quem o mundo não pode receber; porque não o vê, nem o conhece; mas vòsoutros o conheceis, porque habita comvosco, e em vósoutros ha de estar.
18 Orfãos vos não deixarei, outra vez a vós virei.
19 Ainda hum pouco, e mais o mundo me não verá: mas vósoutros me vereis: porquanto eu vivo, e vósostros vivereis.
20 Naquelle dia conhecereis que estou em meu Pai, e vósoutros em mim, e eu em vósoutros.
21 Quem tem meus mandamentos, e os guarda, esse he o que me ama e quem a mim me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e a elle me manifestarei.
22 Disse-lhe Judas, não o Iscariota: Senhor, que ha, porque a nósoutros te has de manifestar, e não ao mundo’.
23 Respondeo Jesus, e disse-lhe: se alguem me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a elle, e faremos morada com elle.
24 Quem me não ama, não guarda minhas palavras. E a palavra que ouvis não he minha, senão do Pai que me enviou.
25 Estas cousas vos tenho dito, estando ainda comvosco.
26 Mas aquelle Consolador, o Espirito Santo, ao qual o Pai ha de enviar em meu nome, esse vos ensinará todo, e tudo quanto vos tenho dito, vos fará lembrar.
27 A paz vos deixo, minha paz vos dou: não como o mundo a da, vo-la dou. Não se turbe vosso coração, nem se atemorize.
28 Ja ouvistes que vos tenho dito: vou, e venho a vósoutros. Se me amásseis, verdadeiramente vos gozarieis, porquanto tenho dito, ao Pa’ vou: pois meu Pai maior he que eu.
29 E já agora vo-lo disse antes que se faça, para que quando se fizer, o creais.
30 Já comvosco não falarei muito; pois já o Principe deste mundo vem, e nada em mim tem.
31 Mas para que o mundo saiba que eu amo ao Pai; e assim faço como o Pai me mandou: levantai-vos, vamonos daqui.

CAPITULO 15.

1 EU sou verdadeira vide, e meu Pai he o lavrador.
2 Todo sarmento que em mim não dá fruto, o tira; e todo o que dá fruto, o alimpa, para que dê mais fruto.
3 Já vósoutros estais limpos pela palavra, que vos tenho falado.
4 Estai em mim, e eu em vósoutros: como o sarmento de si mesmo não pode dar fruto, se não estiver na vide, assim tão pouco vósoutros, se não estiverdes em mim.
5 Eu sou a vide, vósoutros os sarmentos: quem está em mim, e eu nelle, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
6 Se alguem não estiver em mim, se lança fóra, como o sarmento, e secase: e os colhem, e os lanção no fogo, e ardem.
7 Se vós estiverdes em mim, e minhas palavras estiverem em vós, tudo o que quizerdes pedireis, ser-vos-ha feito.
8 Nisto he glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim sereis meus discipulos.
9 Como o Pai me amou, tambem eu vos amei a vósoutros; estai neste meu amor.
10 Se guardardes meus mandamentos, estareis em meu amor; como eu guardado tenho os mandamentos de meu Pai, e estou em seu amor.
11 Estas cousas vos tenho dito, para que meu gozo esteja em vós, e vosso gozo seja cumprido.
12 Este he meu mandamento, que vos ameis huns aos outros, assim como eu vos amei.
13 Ninguem tem maior amor que este, que alguém por amor de seus amigos ponha sua vida.
14 Meus amigos sois vósoutros, se fizerdes o que eu vos mando.
15 Já vos não chamo mais servos; porque o servo não sabe o que faz seu Senhor: mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai, vos tenho feito notório.
16 Não me elegestes vósoutros a mim, porém eu vos elegi a vósoutros, e vos tenho posto, para que vades, e deis fruto; e vosso fruto permaneça; para que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, elle vo-lo dé.
17 Isto vos mando, para que vos ameis huns aos outros.
18 Se o mundo vos aborrece, sabei, que antes que a vósoutros, me aborreceo, a mim.
19 Se vos fôreis do mundo, o mundo amaria ao seu: mas porquanto não sois do mundo, antes eu vos elegi do mundo, porisso vos aborrece o mundo.
20 Lembrai-vos da palavra, que vos tenho dito: não he o servo maior que seu Senhor. Se a mim me perseguirão, tambem a vós vos perseguirão; se guardárão minha palavra, tambem guardarão a vossa.
21 Mas tudo isto vos farão por amor de meu nome: porquanto não conhecem áquelle que me enviou.
22 Se eu não viéra, nem lhes houvera falado, não terião peccado; mas já agora escusa não tem de seu peccado.
23 Quem a mim me aborrece, tambem aborrece a meu Pai.
24 Se eu entre elles não fizera obras, quaes nenhum outro tem feito, não terião peccado; mas agora já as tem visto, e aborrecérão a mim, e a meu Pai.
25 Porém isto he, para que se cumpra a palavra, que em sua Lei está escrita: Sem causa me aborrecérão.
26 Mas quando vier o Consolador, que eu do Pai vos hei de enviar, a saber aquelle Espirito de verdade, que sahe do Pai, elle de mim testificará.
27 E tambem vósoutros testificareis, pois estivestes comigo desde o principio.

CAPITULO 16.

1 ESTAS cousas vos tenho dito, para que vos não escandalizeis.
2 Lançar-vos-hão fóra das Synagogas: ainda a hora vem, quando qualquer que vos matar, cuidará lazer serviço a Deos.
3 E estas cousas vos farão, porquanto nem ao Pai, nem a mim me conhecêrão.
4 Porém isto vos tenho dito, para que quando aquella hora vier, disso vos lembreis, que já vo-lo tenho dito: mas isto eu vos não disse desde o principio, porquanto estava comvosco.
5 E agora vou áquelle que me enviou; e nenhum de vósoutros me pergunta: aonde vas?
6 Antes, porque vos tenho dito estas cousas, tristeza encheo vosso coração.
7 Porém vos digo a verdade, que vos convém que eu vá: porque se eu não for, o Consolador não virá a vósoutros; porém se eu for, vo-lo hei de enviar.
8 E vindo elle, ao mundo ha de convencer de peccado, e de justiça, e de juizo.
9 De peccado, porquanto não crêm em mim:
10 E de justiça, porquanto vou a meu Pai, e mais me não haveis de vêr:
11 E de juizo, porquanto já o Principe deste mundo está julgado.
12 Ainda tenho muitas cousas que vos dizer, mas agora ainda as não podeis supportar.
13 Porém quando vier aquelle Espirito de verdade, elle vos guiará em toda verdade. Porque de si mesmo não ha de falar; mas falará tudo o que ouvir: E as cousas que hão de vir, vos ha de denunciar.
14 Elle me ha de glorificar, porque ha de tomar do meu, e vo-lo ha de denunciar.
15 Tudo quanto tem o Pai, meuhe: por isso disse, que ha de tomar do meu, e vo-lo ha de denunciar.
16 Hum pouco, e não me vereis; e outra vez, hum pouco, e vêr-me heis: porquanto vou ao Pai.
17 Disserão pois alguns de seus discipulos huns aos outros: que he isto que nos diz? hum pouco, e não me vereis; e outra vez, hum pouco, e vêr-me-heis; e porquanto vou ao Pai?
18 Assim que dizião: que he isto que diz? hum pouco! não sabemos o que diz.
19 Conheceo pois Jesus, que lhe querião perguntar, e disse-lhes: perguntais entre vósoutros ácerca disto que disse: hum pouco, e não me vereis, e outra vez: hum pouco, e vêr-meheis?
20 Em verdade, em verdade vos digo, que vósoutros chorareis e lamentareis, e o mundo se alegrará, e vósoutros estareis tristes: mas vossa tristeza se tornará em gozo.
21 A mulher quando pare tem tristeza, porquanto sua hora he vinda: mas havendo parido a criança, já da ancia se não lembra, pelo gozo de que hum homem haja nascido no mundo.
22 Assim que tambem vósoutros agora na verdade tendes tristeza: mas outra vez vos verei, e gozar-se-ha vosso coração, e ninguem de vósoutros tirará vosso gozo.
23 E naquelle dia nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo, que tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, vo-lo ha de dar.
24 Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e receberéis, para que se cumpra vosso gozo.
25 Estas cousas vos falei por parabolas: porém a hora vem, quando por parabolas vos não falarei mais, mas vos denunciarei abertamente ácerca do Pai.
26 Naquelle dia pedireis em meu nome; e não vos digo, que eu ao Pai rogarei por vósoutros:
27 Pois o mesmo Pai vos ama, por quanto vósoutros me amastes, e crestes que de Deos sahi.
28 Sahi do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou ao Pai.
29 Disserão-lhe seus discipulos: eis aqui agora falas abertamente, e nenhuma parabola dizes.
30 Agora sabemos que sabes todas as cousas; e não has mister que ninguem te pergunte. Por isso cremos que sahiste de Deos.
31 Respondeo-lhes Jesus, agora credes?
32 Vedes aqui a hora vem, e já he vinda, quando cada hum sereis espargidos por seu cabo, e me deixareis só. E comtudo não estou só, pois o Pai está comigo.
33 Estas cousas vos tenho dito, para que paz tenhais em mim: em o mundo tereis afflicção; porém tende bom animo, já eu venci ao mundo.

CAPITULO 17.

1 ESTAS cousas falou Jesus, e levantou seus olhos ao ceo, e disse: Pai, vinda he a hora, glorifica a teu Filho; para que tambem teu Filho te glorifique a ti.
2 Como lhe déste poder sobre toda carne, para que a tudo quanto lhe déste, lhes dê a vida eterna.
3 E esta he a vida eterna, que te conheção a ti só Deos verdadeiro, e a Jesu-Christo, a quem tens enviado.
4 Ja eu na terra te glorifiquei; consummado tenho a obra que me déste, que fizesse.
5 E agora glorifica-me tu, ó Pai, ácerca de ti mesmo, com aquella gloria que acerca de ti tinha, antes que o mundo fosse.
6 Ja teu nome manifestei aos homens, que do mundo me déste. Teus erão, e tu mos déste, e guardarão tua palavra.
7 Agora já tem conhecido, que tudo quanto me déste he de ti.
8 Porque as palavras que me déste, lhes tenho dado a elles, e já elles as recebérão, e verdadeiramente tem conhecido, que de ti tenho sahido, e crêrâo que me enviaste.
9 Eu por elles rogo; não rogo pelo mundo, senão por aquelles que me déste, porque teus são.
10 E todas minhas cousas são tuas; e tuas cousas são minhas; e nelles sou glorificado.
11 E eu já no mundo não estou: porém estes ainda no mundo estão, e eu venho a ti. Pai Santo, guarda-os em teu nome, a saber áquelles que me tens dado, para que hum sejão, como tambem nós.
12 Quando eu com elles estava no mundo, em teu nome eu os guardava. A aquelles que tu me déste guardado os tenho; e nenhum delles se perdeo, senão о filho de perdição, para que a Escritura se cumpra.
13 Mas agora venho a ti, e falo isto no mundo, para que em si mesmos minha alegría tenhão cumprida.
14 Tua palavra lhes dei, e o mundo os aborreceo, porquanto do mundo não são, como eu do mundo não sou.
15 Não rogo que os tires do mundo, senão que os guardes do maligno.
16 Não são do mundo, como eu não sou do mundo.
17 Santifica-os em tua verdade: tua palavra he a verdade.
18 Como tu me enviaste ao mundo, assim eu os enviei ao mundo.
19 E por elles a mim mesmo me santifico, para que tambem elles santificados sejão em verdade.
20 E não somente rogo por estes, senão tambem por aquelles que em mim, por sua palavra, hão de crer.
21 Para que todos hum sejão: como tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, que tambem elles em nós hum sejão: para que o mundo crea que tu me tens enviado.
22 E eu lhes tenho dado a gloria que a mim me déste, para que hum sejão, como nós tambem hum somos.
23 Eu nelles, e tu em mim, para que perfeitos sejão em hum: e para que o mundo conheça, que tu me enviaste a mim, e a elles os tens amado, como a mim me amaste.
24 Pai, aquelles que me tens dado, quero que aonde eu estou, elles tambem estejão comigo; para que vejão minha gloria, que me tens dado, pois tu me amaste desde antes da fundação do mundo.
25 Pai justo, o mundo te não tem conhecido; mas eu te tenho conhecido, e estes tem conhecido, que tu a mim me enviaste.
26 E eu lhes fiz notório teu nome, e notório lh’o farei; para que o amor com que me amaste, nelles esteja, e eu nelles.

CAPITULO 18.

1 HAVENDO Jesus dito estas cousas, sahio com seus discipulos para alem do ribeiro de Cedron, aonde estava huma horta, em que entrou elle e seus discipulos.
2 E tambem Judas, o que o trahia, sabia aquelle lugar; porquanto muitas vezes se ajuntára ali Jesus com seus discipulos.
3 Judas pois tomando o esquadrão de soldados, e alguns dos ministros dos Pontifices e dos Phariseos, veio ali com lanternas, e fachas, e armas.
4 Sabendo pois Jesus todas as cousas que sobre elle havião de vir, se adiantou, e lhes disse: a quem buscais?
5 Respondérão-lhe: a Jesus Nazareno. Disse-lhes Jesus: Eu sou. E Judas, o que o trahia, tambem com elles estava.
6 Como pois lhes disse: Eu sou, tornárão para tras, e cahirão em terra.
7 Tornou-lhes pois a perguntar: a quem buscais? e elles disserão: a Jesus Nazareno.
8 Respondeo Jesus: Já vos tenho dito que eu sou. Por tanto se a mim me buscais, a estes deixai ir.
9 Para que se cumprisse a palavra, que tinha dito: dos que me déste, a nenhum delles perdi.
10 Então Simão Pedro, que tinha espada, puxou della, e ferio ao servo do Pontifice, e cortou-lhe a orelha direita. E era o nome do servo Malco.
11 Disse pois Jesus a Pedro: mette tua espada na bainha: não beberei eu o copo que o Pai me tem dade?
12 O esquadrão pois, e o Tribuno, e os servidores dos Judeos juntamente tomarão a Jesus, e o amarrarão.
13 E o levárão primeiramente a Annás, porque era sogro de Caiphás, o qual era Pontifice daquelle anno.
14 E era Caiphás o que aconselhára aos Judeos, que convinha que hum homem morresse pelo povo.
15 E seguia a Jesus Simão Pedro, e outro discipulo. E era este discipulo conhecido do Pontifice, e entrou com Jesus na sala do Pontifice.
16 E Pedro estava fóra á porta. Sahio pois o outro discipulo, que era conhecido do Pontifice, e falou á porteira, e metteo dentro a Pedro.
17 Disse pois a criada porteira a Pedro: não es tu tambem dos discipulos deste homem? disse elle: não sou.
18 E estavão ali os servos, e os ministros, que havião feito brazas, porquanto fazia frio, e aquentavão-se. Estava tambem com elles Pedro, e aquentava-se.
19 Perguntou pois o Pontifice a Jesus acerca de seus discipulos, e de sua doutrina.
20 Jesus lhe respondeo: Eu abertamente falei ao mundo; eu sempre ensinei na Synagoga e no Templo, aonde aonde os Judeos de todos os lugares se ajuntão, e nada falei em occulto.
21 Que me perguntas a mim? Pergunta aos que o ouvirão, que he o que lhes tenha falado? vês aqui estes sabem que he o que tenho dito.
22 E dizendo elle isto, hum dos ministros, que ali estava, deo a Jesus huma bofetada, dizendo: assim respondes ao Summo Pontifice?
23 Respondeo-lhe Jesus; Se falei mal, dá testemunha do mal; e se bem, porque me feres?
24 (Assim pois amarrado o mandára Annás ao Summo Pontifice Caiphás.)
25 E estava Simão Pedro ali, e aquentava-se: disserão-lhe pois: não es tu tambem de seus discipulos? negou elle, e disse: não sou.
26 Disse hum dos servos do Pontifice, parente daquelle a quem Pedro cortára a orelha: não te vi eu na horta com elle?
27 Negou pois Pedro outra vez, e logo cantou o gallo.
28 Levárão pois a Jesus de Caiphás á Audiencia. E era pela manhã: e não entrarão na Audiencia, por não se contaminarem, mas que podessem comer a Pascoa.
29 Então sahio fora a elles Pilatos, e disse: que accusação trazeis contra este homem?
30 Respondérão, e disserão-lhe: Se este não fóra malfeitor, não to entregariamos.
31 Disse-lhes pois Pilatos: Tomai-o vósoutros, e o julgai segundo vossa lei. Disserão-lhe pois os Judeos: a nós não nos he licito matar a alguem.
32 Para que se cumprisse a palavra de Jesus, que tinha dito, significando de que morte havia de morrer.
33 Assim que Pilatos tornou a entrar na Audiencia, e chamou a Jesus, e disse-lhe: es tu o Rei dos Judeos?
34 Respondeo-lhe Jesus: Dizes tu isso de ti mesmo, ou disserão-to outros de mim?
35 Pilatos respondeo: por ventura sou eu Judeo? tua gente, e os Principes dos Sacerdotes te entregarão a mim: que fizeste?
36 Respondeo Jesus: meu Reino não he deste mundo: se meu Reino fóra deste mundo, meus servidores pelejarião, para que eu aos Judeos não fosse entregue: porém agora meu Reino não he daqui.
37 Disse-lhe pois Pilatos: Logo es tu Rei? Respondeo Jesus: Tu dizes que eu sou Rei. Eu para isto sou nascido, e para isto vim ao mundo, para dar testemunho á verdade. Todo aquelle que he da verdade, ouve minha voz.
38 Disse-lhe Pilatos: que cousa he verdade? e havendo dito isto, tornou a sahir aos Judeos, e disse-lhes; nenhum crime acho nelle.
39 Mas vósoutros tendes por costume, que eu vos solte hum pela Pascoa. Quereis pois que vos solte ao Rei dos Judeos?
40 Tornarão pois todos a clamar, dizendo; não a este, senão a Barabbas. E era Barabbas hum salteador.

CAPITULO 19.

1 ASSIM que então tomou Pilatos a Jesus, e o açoutou.
2 E entretecendo os soldados huma coroa de espinhos, pozérão-lha sobre a cabeça, e o vestirão de huma veste de grã.
3 E dizião: hajas gozo, Rei dos Judeos. E davão-lhe bofetadas.
4 Sahio pois Pilatos outra vez fora, e disse-lhes: vêdes aqui vo-lo trago fora, para que saibais, que nenhum crime acho nelle.
5 Sahio pois Jesus fora, levando a coroa de espinhos, e a veste de grã. E disse-lhes Pilatos: vêdes aqui o homem.
6 Vendo-o pois os Principes dos Sacerdotes, e os servidores; clamarão, dizendo: crucifica-o, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Tomai-o vósoutros, e crucificai-o; porque eu nenhum crime acho nelle.
7 Respondêrão-lhe os Judeos: Nósoutros temos Lei, e segundo nossa Lei deve morrer: porque se fez Filho de Deos.
8 Como pois Pilatos ouvio esta palavra, ficou mais atemorizado.
9 E entrou outra vez na Audiencia, e disse a Jesus: donde es tu? mas Jesus não lhe deo resposta.
10 Disse-lhe pois Pilatos: a mim me não falas? não sabes que tenho poder para te crucificar, e tenho poder para te soltar?
11 Respondeo Jesus: nenhum poder contra mim terias, se te não fosse dado de riba; por tanto o que me entregou a ti maior peccado tem.
12 Desde então procurava Pilatos solta-lo; mas os Judeos clamavão, dizendo: Se soltas a este, não es amigo de Cesar; qualquer que se faz Rei, contradiz a Cesar.
13 Ouvindo pois Pilatos este dito, levou fóra a Jesus, e assentou-se no Tribunal, no lugar chamado Lithostrotos, e em Hebraico Gabbatha.
14 E era a preparação da Pascoa, e quasi á hora sexta, e disse aos Judeos: vêdes aqui vosso Rei.
15 Mas elles bradárão: Tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: a vosso Rei hei de crucificar? Responderão os Principes dos Sacerdotes: não temos outro Rei senão a Cesar.
16 Então lho entregou, para que fosse crucificado. E tomárão a Jesus, e levárão-o.
17 E levando elle ás costas sua cruz, sahio ao lugar chamado a Caveira, que em Hebraico se chama Golgotha.
18 Aonde o crucificarão, e com elle outros dous, de cada banda hum, e a Jesus no meio.
19 E escreveo tambem Pilatos hum rotulo e pô-lo em cima da cruz, e estava nelle escrito: JESUS NAZARENO REI DOS JUDEOS.
20 Lérão pois muitos dos Judeos este rotulo; porque o lugar aonde Jesus estava crucificado era perto da cidade; e estava escrito em Hebraico, em Grego, e em Latim.
21 Dizião pois os Principes dos Sacerdotes dos Judeos a Pilatos: não escrevas Rei dos Judeos, senão que disse: Rei sou dos Judeos.
22 Respondeo Pilatos: o que escrevi, escrevi.
23 Havendo pois os soldados crucificado a Jesus, tomarão seus vestidos, (e fizerão quatro partes, a cada soldado huma parte) e a tunica. E era a tunica sem costura, toda tecida desde riba até baixo.
24 Disserão pois huns aos outros: não a partamos, senão lancemos sortes sobre ella, cuja será: para que se cumprisse a Escritura, que diz: Entre si partirão meus vestidos, e sobre minha veste lançarão sortes. Isto pois fizérão os soldados.
25 E estavão junto á cruz de Jesus, sua mãi, e a irmã de sua mãi, Maria mulher de Cleopa, e Maria Magdalena.
26 E vendo Jesus a sua mãi, e ao discipulo a quem amava, que ali estava, disse a sua mãi: Mulher, vês ahi teu filho.
27 Depois disse ao discipulo: vês ahi tua mãi. E desde aquella hora a recebeo o discipulo em sua casa.
28 Depois sabendo Jesus que ja todas as cousas estavão cumpridas, para que a Escritura se cumprisse, disse: tenho sede.
29 Estava pois ali hum vaso cheio de vinagre, e enchérão huma esponja de vinagre, e envolvendo-a com hysopo, chegárão-lha á boca.
30 Como pois Jesus tomou o vinagre, disse: Consummadohe; eabaixando a cabeça, deo o Espirito.
31 Os Judeos pois, porque os corpos não ficassem o Sabbado na cruz, porquanto então era a preparação, (porque era o grande dia do Sabbado) rogárão a Pilatos, que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados.
32 Viérão pois os soldados, e na verdade quebrarão as pernas ao primeiro, e ao outro, que com elle fóra crucificado.
33 Mas vindo a Jesus, e vendo-o ja morto, não lhe quebrárao as pernas.
34 Mas hum dos soldados lhe furou com huma lança o lado, e logo sahio sangue e agua.
35 E o que vio isto, o testificou; e seu testemunho he verdadeiro, e sabe que he verdade o que diz, para que vósoutros tambem creais.
36 Porque estas cousas acontecerão, para que se cumprisse a Escritura que diz: Osso delle não será quebrantado.
37 E outra vez diz outra Escritura: Verão ao que traspassarão.
38 E depois rogou a Pilatos José de Arimathea, (que era discipulo de Jesus, porém occulto por medo dos Judeos) que podesse tirar o corpo de Jesus; e Pilatos lho permittio. Veio pois e tirou o corpo de Jesus.
39 E veio tambem Nicodemos, (aquelle que d’antes de noite tinha vindo a Jesus) trazendo hum composto de myrrha e aloes, de quasi cem arrateis.
40 Tornárão pois o corpo de Jesus, e o envolverão em lançoes com as especiarias, como he costume dos Judeos sepultar.
41 E havia huma horta naquelle lugar, aonde fóra crucificado: e na horta hum sepulcro novo, em que ainda nunca alguem havia sido posto.
42 Ali pois (por causa da preparação da Pascoa dos Judeos, e porque aquelle sepulcro estava perto) pozérão a Jesus.

CAPITULO 20.

1 E O primeiro dia da semana veio Maria Magdalena de madrugada, sendo ainda escuro, ao sepulcro; e vio a pedra ja tirada do sepulcro.
2 Correo pois, e veio a Simão Pedro e ao outro discipulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: ao Senhor tornárão do sepulcro, e não sabemos onde o pozerão.
3 Sahio pois Pedro e o outro discipulo, e viérão ao sepulcro.
4 E corrião estes dous juntos: e o outro discipulo correo diante mais depressa que Pedro, e veio primeiro ao sepulcro.
5 E abaixando-se, vio estar os lançoes: todavia não entrou.
6 Veio pois Simão Pedro seguindo-o, e entrou no sepulcro, e vio estar os lançoes.
7 E o sudario que fóra posto sobre sua cabeça não o vio estar com os lançoes, senão envolto em hum lugar á parte.
8 Então pois entrou tambem o outro discipulo, que primeiro viéra ao supulcro, e vio, e creo.
9 Porque ainda não sabião a Escritura, que era necessario que resuscitasse dos mortos.
10 Tornárão-se pois os discipulos para casa.
11 E Maria estava fora chorando junto ao sepulcro. Estando ella pois chorando, abaixou-se ao sepulcro.
12 E vio a dous Anjos vestidos de branco, assentados hum á cabeceira, e o outro aos pés, aonde jazéra o corpo de Jesus.
13 E disserão-lhe elles: Mulher, porque choras? Disse-lhes ella: porquanto levárão a meu Senhor, e não sei aonde o pozerão.
14 E havendo dito isto, virou-se para tras, e vio estar a Jesus, e não sabia que era Jesus.
15 Disse-lhe Jesus: Mulher porque choras? a quem buscas? Ella cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o pozeste, e eu o levarei.
16 Disse-lhe Jesus: Maria! Virando-se ella, disse-lhe, Rabboni, que se diz Mestre.
17 Disse-lhe Jesus: não me toques: porque ainda não subi a meu Pai: porém vai a meus irmãos, e dize-lhes: Subo a meu Pai, e a vosso Pai; a meu Deos, e a vosso Deos.
18 Veio Maria Magdalena; e denunciou aos discipulos, que vira ao Senhor, e que estas cousas lhe dissera.
19 Vinda pois ja a tarde, o primeiro dia da semana, e cerradas as portas onde os discipulos, por medo dos Judeos, se tinhão ajuntado, veio Jesus, e poz-se no meio, e disse-lhes: Paz hajais.
20 E dizendo isto, mostrou-lhes suas mãos, e seu lado. Assim que os discipulos se gozárão, vendo ao Senhor.
21 Disse-lhes pois Jesus outra vez:Paz hajais; como o Pai me enviou, assim eu vos envio a vosoutros.
22 E havendo dito isto, soprou sobre elles, e disse-lhes: Recebei o Espirito Santo.
23 A quem quer que perdoardes os peccados, lhes são perdoados; e a quem quer que os retiverdes, lhes são retidos.
24 E Thomé, hum dos doze, chamado o Didymo, não estava com elles, quando Jesus veio.
25 Disserão-lhe pois os outros discipulos: vimos ao Senhor. Porém elíe lhes disse: se em suas mãos não vir o sinal dos cravos, e não metter meu dedo no lugar dos cravos, e não metter minha mão em seu lado, em maneira nenhuma o crerei.
26 E oito dias depois, estavão seus discipulos outra vez dentro, e com elles Thomé; e veio Jesus, fechadas ja as portas, e poz-se no meio, e disse: Paz hajais.
27 Depois disse a Thomé, chega teu dedo aqui, e vê minhas mãos; e chega tua mão, e mette-a em meu lado; e não sejas incredulo, senão crente.
28 E respondeo Thomé e disse-lhe: Senhor meu, e Deos meu,
29 Disse-lhe Jesus: Porque me viste, ó Thomé, creste; bemaventurados aquelles que não virão, e crerão.
30 Outros muitos sinaes fez Jesus tambem ainda em presença de seus discipulos, que neste livro não estão escritos:
31 Porém estes estão escritos, paraque creais, que Jesus he o Christo, o Filho de Deos; e para que crendo, tenhais vida em seu nome.

CAPITULO 21.

1 DEPOIS disto se manifestou Jesus outra vez aos discipulos, junto ao mar de Tiberias; e manifestou-se assim.
2 Estavão juntos Simão Pedro, e Thomé, chamado o Didymo, e Nathanael, o de Cana de Galilea, e os filhos do Zebedeo, e outros dous de seus discipulos.
3 Disse-lhes Simão Pedro: vou a pescar. Dizem-lhe elles: tambem nós vamos comtigo. Forão, e subirão logo no barco; e aquella noite nada tomarão.
4 E fazendo-se ja manhã, Jesus se pôz na praia: porém os discipulos não sabião que era Jesus.
5 Assim que Jesus lhes disse: Filhinhos, tendes alguma cousa que comer? Respondérão-lhe: não.
6 E elle lhes disse: Lançai a rede da banda direita do barco, e achareis. Lançarão-a pois, e ja a não podião tirar pela multidão dos peixes.
7 Disse pois aquelle discipulo, a quem Jesus amava, a Pedro: o Senhor he. Ouvindo pois Simão Pedro que era o Senhor, cingio-se com o capote, (porque estava nu,) e lançouse ao mar.
8 E os outros discipulos vierão com o barquinho, (porque não estavão senão como duzentos covados longe de terra) trazendo apôs si a rede de peixes.
9 Como pois descérão á terra, virão ja as brazas postas, e hum peixe posto nellas, e mais pão.
10 Disse-lhes Jesus: trazei dos peixes que tomastes agora.
11 Subio Simão Pedro, e puxou pela rede a terra, cheia de cento e cincoenta e tres grandes peixes; e sendo tantos, a rede não se rompeo.
12 Disse-lhes Jesus: vinde, jantai. E nenhum dos discipulos lhe ousava perguntar; tu quem es? sabendo que era o Senhor.
13 Assim que veio Jesus, e tomou o pão, e deo-lho; e semelhantemente do peixe.
14 E esta era ja a terceira vez que Jesus se manifestou a seus discipulos, depois de haver resuscitado dos mortos.
15 Havendo elles pois ja jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão filho de Jonas, amas-me mais do que estes? Disse-lhe elle: Sim Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: apascenta meus cordeiros.
16 Tornou-lhe a dizer a segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: apascenta minhas ovelhas.
17 Disse-lhe a terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Entristeceo-se Pedro de que ja pela terceira vez lhe dissesse: amas-me? e disse- lhe: Senhor, tu sabes todas as cousas, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: apascenta minhas ovelhas.
18 Em verdade, em verdade te digo, que quando eras mais moço, tu mesmo te cingias, e andavas por onde querias; mas quando ja fores velho, estenderás tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará aonde tu não quizéras.
19 E isto disse, significando com que morte a Deos havia de glorificar. E dito isto, disse-lhe: Segue-me.
20 E virando-se Pedro, vio que o seguia aquelle discipulo a quem Jesus amava, o que tambem na cea se recostara a seu peito, e dissera: Senhor, quem he o que te ha de trahir?
21 Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e este que?
22 Disse-lhe Jesus: Se eu quero que elle fique, até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.
23 Sahio pois este dito entre os irmãos, que aquelle discipulo não havia de morrer. E Jesus não lhe disse, que não morreria, senão; se eu quero que elle fique, até que eu venha, que te importa a ti?
24 Este he o discipulo que testifica destas cousas, e estas cousas escreveo: e sabemos que seu testemunho he verdadeiro.
25 Ainda porém ha outras muitas cousas que Jesus fez, que se cada huma de por si se escrevessem, nem ainda o mesmo mundo, cuido que poderia comprehender os livros dellas escritos. Amen.

ATOS DOS APOSTOLOS.

CAPITULO 1.

1 O PRIMEIRO livro, ó Theophilo, fiz eu, acerca de todas as cousas que Jesus começou, assim a fazer, como a ensinar:
2 Até o dia em que foi recebido a riba, depois de pelo Espirito Santo haver dado mandamentos aos Apostolos que escolhêra.
3 Aos quaes tambem, depois de haver padecido, se apresentou vivo com muitas e infalliveis provas; sendo delles visto por quarenta dias, e falando-lhes das cousas que pertencem ao Reino de Deos.
4 E ajuntando-os, lhes mandou que se não apartassem de Jerusalem, mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse) de mim ouvistes.
5 Porque bem baptizou João com agua, porém vósoutros sereis baptizados com o Espirito Santo, não muitos dias depois destes.
6 Aquelles pois que se haviao ajuntado lhe perguntárão, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o Reino a Israël?
7 E disse-lhes: não he vosso saber os tempos, ou as sazoens que o Pai pôz em seu proprio poder.
8 Mas recebereis a virtude do Espirito Santo, que ha de vir sobre vósoutros; e ser-me-heis testemunhas assim em Jerusalem, como em toda Judea, e Samaria, e até o cabo da terra.
9 E havendo dito estas cousas, vendo-o elles, foi levantado em alto; e huma nuvem o tirou de seus olhos.
10 E estando elles com os olhos postos no ceo, entretanto que elle ia subindo, eis que dous varoens, em vestidos brancos, se pozérão junto a elles.
11 Os quaes tambem disserão: Varoens Galileos, que estais olhando para o ceo? Este Jesus, que de vósoutros foi tomado a riba ao ceo, assim virá, como o vistes ir ao ceo.
12 Então tornárão-se a Jerusalem, do monte que se chama das Oliveiras, o qual está perto de Jerusalem, distante caminho de hum Sabbado.
13 E entrando, subirão ao cenaculo, onde ficárão, convém a saber, Pedro e Jacobo, e João, e André, Philippe e Thomé, Bartholomeo e Mattheus, e Jacobo filho de Alpheo, e Simão Zelotes, e Judas irmão de Jacobo.
14 Todos estes perseveravão concordemente em oraçoes e supplicaçoens, com as mulheres, e com Maria a mãi de Jesus, e com seus irmãos.
15 E levantando-se Pedro naquelles dias, em meio dos discipulos, disse: (e era a multidão junta como de quasi cento e vinte pessoas.)
16 Varoens irmãos, convinha que se cumprisse esta Escritura, que o Espirito Santo pela boca de David predisse acerca de Judas, que foi o guia daquelles que prendêrão a Jesus.
17 Porque foi contado comnosco, e alcançou sorte neste ministerio.
18 Este pois adquirio o campo do galardão de iniquidade, e precipitando-se, arrebentou pelo meio, e todas suas entranhas se derramárão.
19 E foi notório a todos os que habitão em Jerusalem; de maneira que aquelle campo se chama em sua propria lingua, Aceldama, isto he, campo de sangue.
20 Porque no livro dos Psalmos está escrito: Sua habitação se faça deserta, e não haja quem nella habite; e outro tome seu bispado.
21 He pois necessario, que dos varoens, que comnosco conversarão todo o tempo em que o Senhor Jesus entre nósoutros entrou e sahio,
22 Começando désde o baptismo de João, até o dia em que de nós foi recebido a riba, se faça hum delles comnosco testemunha de sua resurreição.
23 E apresentárão dous, a saber José, chamado Barsabas, que tinha por sobrenome o Justo, e Matthias.
24 E orando, disserão: Tu Senhor, Conhecedor dos coraçoes de todos, mostra a qual destes dous tens escolhido.
25 Para que tome a sorte deste ministerio e Apostolado, do qual Judas se desviou, para ir a seu proprio lugar.
26 E lançárão-lhes as sortes; e cahio a sorte sobre Matthias. E por voto commum de todos foi contado com os onze Apostolos.

CAPITULO 2.

1 E CUMPRINDO-se o dia de Pentecoste, estavão todos concordemente juntos.
2 E de repente se fez hum sonido do ceo como de hum vento vehemente e impetuoso, e encheo toda a casa, onde estavão assentados.
3 E forão delles vistas linguas repartidas como de fogo, e sobre cada hum delles se póz.
4 E forão todos cheios do Espirito Santo, e começárão a falar em outras linguas, como o Espirito Santo lhes dava que falassem.
5 E havia Judeos, que habitavão em Jerusalem, varoens religiosos, de toda a gente dos que estão debaixo do ceo.
6 E feita esta voz, ajuntou-se a multidão; e estava confusa, porque cada hum os ouvia falar em sua propria lingua.
7 E todos pasmavão, e se maravilhavão, dizendo huns aos outros; vedes aqui, não são todos estes, que estão falando, Galileos?
8 Como pois os ouvimos cada hum em nossa propria lingua, em que somos nascidos?
9 Parthos e Medos, e Elamitas, e os que habitamos em Mesopotamia, e Judea, e Cappadocia, Ponto, e Asia.
10 E Phrygia, e Pamphylia, Egypto, e partes de Libya, que está junto a Cyrene, e Romanos estrangeiros, assim Judeos como Proselytos,
11 Cretenses e Arabios, os ouvimos em nossas proprias linguas falar as grandezas de Deos.
12 E todos pasmavão, e estavão suspensos, dizendo huns para os outros; Que quererá isto vir a ser?
13 E outros zombando, dizião: Cheios estão de vinho doce.
14 Porém Pedro, pondo-se em pé com os onze, levantou sua voz, e falou-lhes, dizendo: Varoens Judeos, e todos os que habitais em Jerusalem, seja-vos isto notorio, e ponde minhas palavras em vossos ouvidos:
15 Porque estes não estão bebados como vósoutros para vos tendes, sendo ainda a hora terceira do dia.
16 Mas isto he o que foi dito pelo Propheta Joel.
17 E será em os ultimos dias, diz Deos, que de meu Espirito derramarei sobre toda carne, e vossos filhos e vossas filhas prophetizarão, e vossos mancebos verão visoens, e vossos velhos sonharão sonhos.
18 E tambem sobre meus servos, e sobre minhas servas, naquelles dias derramarei de meu Espirito, e pro phetizarão.
19 E darei prodigios a riba no Ceo,e sinaes abaixo na terra, sangue, e fogo, e vapor de fumo.
20 O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o dia grande e illustre do Senhor.
21 E será, que todo aquelle que invocar o nome do Senhor, será salvo,
22 Varoens Israëlitas, ouvi estas palavras: Jesus o Nazareno, varão entre vósoutros de Deos approvado com maravilhas, e prodigios, e sinaes, que Deos por elle fez em meio de vósoutros, como tambem vós mesmos bem sabeis.
23 Este, sendo entregue pelo determinado conselho e presciencia de Deos, tomando-o vósoutros, por mãos dos injustos o crucificastes, e o matastes.
24 Ao qual Deos resuscitou, soltas as dores da morte; porquanto possivel não era que della fosse retido.
25 Porque delle diz David: Sempre diante de mim via ao Senhor, porque á minha mão direita está, para que não seja commovido.
26 Pelo que meu coração está alegre, e minha lingua se goza, e ainda minha carne ha de repousar em esperança.
27 Pois não deixarás minha alma no inferno, nem entregarás a teu Santo, para que veja corrupção.
28 Os caminhos da vida me fizeste notorios: com tua face me encherás do gozo.
29 Varoens irmãos, licito me he dizer-vos livremente acerca do Patriarcha David, que morreo, e foi sepultado, e ainda sua sepultura está comnosco até dia de hoje.
30 Assim que sendo Propheta, e sabendo que Deos com juramento lhe havia jurado, que do fruto de seus lombos, quanto á carne, levantaria ao Christo, para o assentar sobre seu throno:
31 Vendo-o d’antes, falou da resurreição de Christo, que sua alma não haja sido deixada no inferno, nem sua carne haja visto corrupção.
32 A este Jesus resuscitou Deos; do que todos nósoutros somos testemunhas.
33 Assim que exaltado ja pela mão direita de Deos, e recebendo do Pai a promessa do Espirito Santo, derramou isto que agora vedes, e ouvis.
34 Porque não subio David aos ceos; antes diz: Disse o Senhor a meu Senhor; assenta-te á minha mão direita:
35 Até que ponha a teus inimigos por escabello de teus pés.
36 Saiba pois certamente toda a casa de Israël, que Deos o fez Senhor e Christo, a saber, a este Jesus, que vósoutros crucificastes.
37 E ouvindo elles estas cousas, forão compungidos de coração, e dissérão a Pedro, e aos de mais Apostolos: Que faremos, varoes irmãos?
38 E Pedro lhes disse: Arrependeivos, e baptize-se cada hum de vosoutros em o nome de Jesu Christo, para perdão dos peccados; e recebereis o dom do Espirito Santo.
39 Porque a vós vos pertence a promessa, e a vossos filhos, e a todos os que ainda estão longe, a tantos quantos Deos nosso Senhor chamar.
40 E com outras muitas palavras testificava, e os exhortava, dizendo: Salvai-vos desta perversa geração.
41 Assim que, os que de boamente recebérão sua palavra, forão baptizados; e acrecentárão-se naquelle dia á Igreja quasi tres mil almas.
42 E perseveravão na doutrina dos Apostolos, e na communhão, e no partir do pão, e nas oraçoens.
43 E em toda alma havia temor, e muitas maravilhas e sinaes se fazião pelos Apostolos.
44 E todos os que crião estavão juntos, e todas as cousas tinhão communs.
45 E vendião suas possessoens e fazendas, e com todos as repartião, segundo cada hum havia mister.
46 E perseverando cada dia concordemente no Templo, e partindo o pão de casa em casa, comião juntos com alegria, e com singeleza de coração.
47 Louvando a Deos, e tendo graça para com todo o povo. E acrecentava o Senhor cada dia á Igreja aquelles que se salvavão.

CAPITULO 3.

1 E SUBIÃO Pedro e João juntos ao Templo á hora da oração, que era a nona.
2 E trazião a hum certo varão, que era coxo desde o ventre de sua mãi, ao qual cada dia punhão á porta do Templo, chamada a Formosa, para pedir esmola aos que entravão no Templo.
3 O qual, vendo a Pedro e a João, que vinhão entrando no Templo, pedio que lhe dessem huma esmola.
4 E fitando Pedro com João os olhos nelle, disse: attenta para nós.
5 E póz os olhos nelles, esperando receber delles alguma cousa.
6 E dissse Pedro: Prata e ouro não tenho; mas o que tenho, isso te dou: em o nome de Jesu-Christo o Nazareno, levantate, e anda.
7 E tomando-o pela mão direita levantou-o, e logo seus pés e artelhos se firmarão.
8 E saltando elle, pôz-se em pé, e andou, e com elles entrou no Templo, andando, e saltando, e louvando a Deos.
9 E todo o povo o vio andar, e louvar a Deos.
10 E conhecião-o, que era o que se assentava á esmola á porta Formosa do Templo; e ficárão cheios de pasmo, e de espanto, pelo que lhe acontecera.
11 E apegando-se o coxo, que fora curado, de Pedro e de João, todo o povo concorreo atonito a elles ao alpendre, que se chama de Salamão.
12 E vendo Pedro isto, respondeo ao povo: Varoens Israëlitas, porque disto vos marvilhais? ou porque para nos tanto attentais, como se por nossa propria virtude ou santidade a este fizessemos andar.
13 O Deos de Abraham, e de Isaac, e de Jacob, o Deos de nossos pais glorificou a seu filho Jesus, ao qual vósoutros entregastes, e perante a face de Pilatos o negastes, julgando elle que houvéra de ser solto.
14 Mas vósoutros negastes ao Santo e ao Justo, e pedistes que hum homem homicida se vos désse.
15 E matastes ao Principe da vida, ao qual Deos resuscitou dos mortos, do que nós somos testemunhas.
16 E pela fé em seu nome confirmou seu nome a este, que vedes e conheceis; e a fé que por elle he, deo a este esta perfeita saude em presença de todos vósoutros.
17 E agora, irmãos, eu sei que por ignorancia o fizestes, como tambem vossos principes.
18 Mas Deos cumprio assim o que ja d’antes por boca de todos seus Prophetas havia denunciado, que o Christo havia de padecer.
19 Arrependei-vos pois, e converteivos, paraque vossos peccados sejão apagados, quando viérem os tempos do refrigerio da presença do Senhor.
20 E elle enviar a Jesu-Christo, que ja d’antes vos foi prégado.
21 Ao qual convém que o ceo receba até os tempos da restauração de todas as cousas, que Deos falou por boca de todos seus santos Prophetas, desde todo seculo.
22 Porque aos Pais disse Moyses: De vossos irmãos levantará o Senhor vosso Deos hum Propheta como a mim, a elle ouvireis, em tudo quanto vos falar.
23 E será que toda alma que não ouvir a este Propheta, será desarraigada do povo.
24 E tambem todos os Prophetas desde Samuel, e em diante, todos quantos tem falado, tambem d’antes denunciárão estes dias.
25 Vósoutros sois os filhos dos Prophetas, e do concerto, que Deos contratou com nossos Pais, dizendo a Abraham; em tua semente serão bemditas todas as familias da terra.
26 Resuscitando pois Deos a seu Filho Jesus, primeiro a vós o enviou, para que nisto vos bemdissesse, que a cada qual de vósoutros desviasse de vossas maldades.

CAPITULO 4.

1 E ESTANDO elles falando ao povo, viérão sobre elles os Sacerdotes, e o Capitão do Templo, e os Sadduceos:
2 Mui enfadados de que ao povo ensinassem, e em o nome de Jesus denunciassem a resurreição dos mortos.
3 E lançarão mão delles, e os pozerão em guarda até o dia seguinte, porquanto ja era a tarde.
4 E muitos dos que ouvirão a palavra, crerão: e fez-se o numero dos varoens quasi até cinco mil.
5 E aconteceo o dia seguinte, que seus Principes, e Anciãos, e Escribas, se ajuntárão em Jerusalem:
6 E Annás, o Summo Pontifice, o Caiphas, e João, e Alexandre, e todos quantos havia da linhagem Pontifical.
7 E pondo-os no meio, perguntárão-lhes: com que poder, ou em cujo nome fizestes isto?
8 Então Pedro, cheio do Espirito Santo, lhes disse: Principes do povo. e vósoutros Anciãos de Israël:
9 Pois que hoje juridicamente demandados somos acerca do beneficio a hum homem enfermo feito, como haja sido curado:
10 Seja-vos notorio a todos, e a todo o povo de Israël, que em o nome de Jesu-Christo, o Nazareno; aquello que vósoutros crucificastes, ao qual Deos resuscitou dos mortos, nelle está este perante vósoutros são.
11 Este he a pedra que de vósoutros os edificadores foi desprezada, a qual foi feita por cabeça da esquina.
12 E em nenhum outro ha salvação: porque tambem nenhum outro nome ha debaixo do ceo, entre os homens dado, em que devemos ser salvos.
13 Vendo elles então a ousadia de Pedro, e de João, e informados de que erão homens sem letras e idiotas, maravilhárão-se: e bem os conhecião, que havião estado com Jesus.
14 E vendo estar com elles ao homem que fóra curado, nada tinhão que dizer em contrario.
15 E mandando-os sahir fora do Conselho, conferião entre si;
16 Dizendo: Que havemos de fazer a estes homens? porque que hum sinal notorio por elles foi feito, manifesto he a todos os que habitão em Jerusalem, e não o podemos negar.
17 Mas para que de mais em mais se não divulgue entre o povo, ameaçêmo-los rigorosamente, que a homem algum neste nome mais não falem.
18 E chamando-os, dissérão-lhes,que totalmente mais não falassem, nem ensinassem em o nome de Jesus.
19 Porém respondendo Pedro, e João, dissérão-lhes: Julgai vós, se he justo diante de Deos, ouvir-vos mais a vós, do que a Deos?
20 Porque não podemos deixar de falar o que temos visto e ouvido.
21 Mas elles ainda mais os ameaçarão, nada achando porque os castigar, e os deixárão ir por causa do povo: porque todos glorificavão a Deos ácerca do que acontecêra.
22 Porque de mais de quarenta annos era o homem, em quem este milagre de saude se fizéra.
23 E soltos elles, viérão aos seus, e contárão-lhes tudo quanto os Principes dos Sacerdotes, e os Anciãos lhes disserão.
24 E ouvindo elles isto, levantárão unanimes a voz a Deos, e dissérão: Senhor, tu es o Deos, que fizeste o ceo, e a terra, e o mar, e todas as cousas que nelles ha.
25 Que pela boca de David teu servo disseste: Porque bramão as gentes, e os povos pensarão cousas vãs?
26 Os Reis da terra se levantarão á huma, e os Principes se ajuntárão em hum contra o Senhor, e contra seu Ungido.
27 Porque verdadeiramente contra teu Santo Filho Jesus, ao qual tu ungiste, se ajuntárão assim Herodes, como Poncio Pilatos, com as Gentes e os povos de Israël.
28 Para fazerem tudo o que tua mão, e teu conselho ja d’antes tinha determinado, que se havia de fazer.
29 Agora pois, ó Senhor, poem os olhos em suas ameaças, e dá a teus servos, que com toda ousadia falem tua palavra.
30 Estendendo tua mão para curas, e que se fação sinaes, e prodigios pelo nome de teu Santo Filho Jesus.
31 E havendo orado, moveo-se o lugar, em que estavão ajuntados, e forão todos cheios do Espirito Santo, e falavão a palavra de Deos com ousadia.
32 E da multidão dos que crião, era hum coração e huma alma; e ninguem dizia ser seu proprio cousa alguma do que tinha, mas todas as cousas lhes erão communs.
33 E os Apostolos davão testemunho da resurreição do Senhor Jesus com grande esforço; e em todos elles havia grande graça.
34 Porque tambem nenhum necessitado havia entre elles; porque todos os que possuião herdades, ou casas, vendendo-as, trazião o preço do vendido, e depositavão-o aos pés dos Apostolos.
35 E a cada hum se repartia segundo cada qual tinha necessidade.
36 Então Joses, dos Apostolos por sobrenome chamado Barnabas (que traduzido, he filho de consolação) Levita, natural de Cypro.
37 Como tambem tivesse huma herdade, a vendeo, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos Apostolos.

CAPITULO 5.

1 E HUM certo varão, por nome Ananias, com Sapphira sua mulher, vendeo huma possessão.
2 E defraudou do preço, sabendo-o tambem sua mulher; e trazendo huma parte delle, a depositou aos pés dos Apostolos.
3 E disse Pedro: Ananias, porque encheo Satanás teu coração, paraque mentisses ao Espirito Santo, e defraudasses do preço da herdade?
4 Guardando-a, não ficava para ti? e vendida, não estava em teu poder? Que he que propozeste em teu coração? não mentiste aos homens, senão a Deos.
5 E ouvindo Ananias estas palavras, cahio, e expirou. E veio hum grande temor sobre todos os que o ouvirão.
6 E levantando-se os mancebos, o tomarão, e levando-o fóra, o sepultárão.
7 E passado ja espaço como de tres horas, entrou tambem sua mulher, não sabendo o que havia acontecido.
8 E Pedro lhe disse: Dize-me, vendestes por tanto aquella herdade? e ella disse: sim, por tanto.
9 E Pedro lhe disse: que ha que entre vos concertastes de tentar ao Espirito do Senhor? Vés a qui á porta os pés dos que sepultárão a teu marido, e tambem a ti te levarão.
10 E logo cahio a seus pés, e expirou. E entrando os mancebos, achárao-a morta; e a levárão fóra, e a sepultárão junto a seu marido.
11 E veio hum grande temor em toda a Igreja, e em todos os que ouvirão estas cousas.
12 E por mãos dos Apostolos se fazião muitos sinaes e prodigios entre o povo. E estavão todos unanimes no alpendre de Salamão.
13 E dos de mais ninguem se ousava a ajuntar com elles; porém o povo os tinha em grande estima.
14 E a multidão dos que crião em o Senhor, assim de varoens como de mulheres, se augmentava de mais em mais.
15 De maneira, que aos enfermos trazião ás ruas, e os punhão em camas e catres, para que, vindo Pedro, ao menos tambem sua sombra a algum delles cubrisse.
16 E até das cidades circunvizinhas concorria a multidão a Jerusalem, trazendo enfermos, e atormentados de espiritos immundos; os quaes todos erão curados.
17 E levantando-se o Summo Pontifice, e todos os que estavão com elle, (que era a Seita dos Sadduceos) enchêrão-se de inveja.
18 E lançárão mão dos Apostolos, e os pozérão na prisão publica.
19 Mas o Anjo do Senhor abrio de noite as portas da prisão, e tirando-os fóra, disse:
20 Ide, e pondo-vos em pé, falai no Templo ao povo todas as palavras desta vida.
21 E ouvindo elles isto, entrarão pela manhã cedo no Templo, e ensinavão. Vindo porém o Summo Pontífice, e os que estavão com elle, convocárão o Concilio, e a todos os Anciãos dos filhos de Israël, e mandárão ao carcere, para que os trouxessem.
22 Mas como lá viérão os servidores, não os achárão na prisão; e tomando, denunciárão-iAo.
23 Dizendo; bem achámos nós o carcere com toda segurança fechado, e as guardas que estavão de fóra ás portas; mas como as abrimos, a ninguem achámos dentro.
24 Ouvindo então estas palavras o Summo Pontifice, e o Capitão do Templo, e os Principes dos Sacerdotes, duvidavão delles, do que aquillo viria a ser.
25 E vindo hum, denunciou-lhes, dizendo: Vedes aqui os varoens que pozestes na prisão, estão no Templo, e ensinão ao povo.
26 Então foi o Capitão com os servidores, e trouxe-os, porém não com violencia, (porque temião ao povo, de que não fossem apedrejados.)
27 E como os trouxérão, apresentárão-os ao Concilio. E o Summo Pontifice lhes perguntou, dizendo:
28 Não vos denunciámos nós encarecidamente, que mais neste nome não ensinasseis? e vedes aqui ja enchestes a Jerusalem desta vossa doutrina, e sobre nosoutros quereis trazer o sangue deste homem.
29 Porém respondendo Pedro, e os Apostolos, disserão: mais importa obedecer a Deos, do que aos homens.
30 O Deos de nossos Pais resuscitou a Jesus, ao qual vósoutros matastes pendurando-o no madeiro.
31 A este exaltou Deos com sua mão direita por Principe e Salvador, para a Israël dar arrependimento e remissão de peccados.
32 E nósoutros somos suas testemunhas ácerca destas palavras, e tambem o Espirito Santo, o qual Deos tem dado áquelles que lhe obedecem.
33 E ouvindo elles isto, arrebentavão de raiva, e consultavão de os matar.
34 Levantando-se porém no Concilio hum certo Phariseo, por nome Gamaliel, doutor da Lei, de todo o povo venerado, mandou que aos Apostolos levassem hum pouco fóra.
35 E disse-lhes: Varoens Israëlitas, olhai por vósoutros, que acerca destes homens haveis de fazer.
36 Porque antes destes dias se levantou Theudas, dizendo, que alguem era; ao qual, numero de quasi quatrocentos homens se chegou; o qual foi morto, e todos os que lhe derão ouvidos forão dissipados, e tornados em nada.
37 Depois deste se levantou Judas o Galileo, em os dias da matricula, e perverteo muito povo após si: e pereceo tambem este, e todos os que lhe dérão ouvidos forão dissipados.
38 E agora, digo-vos, dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque se este conselho, ou esta obra he de homens, desfar-se-ha.
39 Mas se he de Deos, não a podereis desfazer: porque por ventura não sejais achados, que tambem repugnais a Deos.
40 Edérão-lhe ouvidos. E chamando a si aos Apostolos, e havendo-os açoutado, mandárão-lhes que em o nome de Jesus mais não falassem; e os deixarão ir.
41 Forão pois de diante da face do Concilio, gostosos de que fossem havidos por dignos de padecerem affronta por seu nome.
42 E todos os dias no Templo, e pelas casas, não cessavão de ensinar, e annunciar a Jesu-Christo.

CAPITULO 6.

1 E NAQUELLES dias multiplicando-se os discipulos, houve huma murmuração dos Gregos contra os Hebreos, de que suas viuvas erão desprezadas no ministerio quotidiano.
2 E convocando os doze a multidão dos discipulos, disserão: não he razão que nósoutros deixemos a palavra de Deos, e sirvamos ás mezas.
3 Olhai pois irmãos por sete varoens d’entre vósoutros, de que haja bom testemunho, cheios do Espirito Santo e de sabedória, aos quaes constituamos sobre este importante negocio.
4 Nós porém perseveraremos na oração, e no ministerio da palavra.
5 E contentou esta palavra a toda a multidão, e elegêrão a Estevão, varão cheio de fé e do Espirito Santo, e a Philippe, e a Prochoro, e a Nicanor, e a Timon, e a Parmenas, e a Nicolão o proselyto de Antiochia.
6 Aos quaes apresentárão ante os Apostolos; e orando estes, pozerão as mãos sobre elles.
7 E crescia a palavra de Deos, e o numero dos discipulos se multiplicava muito em Jerusalem, e grande multidão dos Sacerdotes obedecia á fé.
8 E Estevão cheio de fé, e de potencia, fazia prodigios, e sinaes grandes entre o povo.
9 E levantárão-se huns, que erão da Synagoga, chamada a dos Libertinos, e Cyreneos, e Alexandrinos, e dos que erão de Cilicia, e de Asia, e contendião com Estevão.
10 E não podião resistir á sabedoria, e ao Espirito, com que falava.
11 Então subornarão a huns homens, que dissessem: Palavras blasfemas lhe ouvimos falar contra Moyses, e contra Deos.
12 E commovérão ao povo, e aos Anciãos, e aos Escribas; e arremettendo a elle o arrebatárão, e o levarão ao Concilio.
13 E apresentárão testemunhas falsas, que dizião: este homem não cessa de falar palavras blasfemas contra este santo lugar, e contra a Lei.
14 Porque nós lhe ouvimos dizer, que este Jesus Nazareno ha de destruir este lugar, e mudar os costumes que Moyses nos deo.
15 Então todos os que estavão assentados no Concilio, pondo nelle os olhos, virão seu rosto como o rosto do hum Anjo.

CAPITULO 7.

1 E DISSE o Principe dos Sacerdotes: Como, he isto assim?
2 E elle disse: Varoens irmãos, e pais, ouvi; a nosso Pai Abraham appareceo o Deos da gloria, estando ainda em Mesopotamia, antes que habitasse em Charran.
3 E disse-lhe: Sahe-te de tua terra, e de tua parentéla, e vem á terra que eu te mostrarei.
4 Então sahio da terra dosChaldeos, e habitou em Charran. E dali, depois que faleceo seu pai, o traspassou a esta terra, em que agora habitais.
5 E não lhe deo nella herança, nem ainda a pégada de hum pé; e prometteo-lhe que lha daria em possessão, e á sua semente depois delle, não tendo elle ainda filho,
6 E falou Deos assim; Que sua semente seria peregrina em terra alheia, e a sugeitanão em servidão, e a maltratarião por quatrocentos annos.
7 E a gente a quem servirem, eu a julgarei, disse Deos. E depois disto sahirão, e me servirão neste lugar.
8 E deo-lhe o Concerto da circuncisão; e assim gerou a Isaac, e o circuncidou ao oitavo dia; e Isaac gerou a Jacob, e Jacob aos doze Patriarchas.
9 E invejosos os Patriarchas, vendêrão a José para Egypto; e Deos era com elle.
10 E o livrou de todas suas tribulaçoens, e lhe deo graça e sabedoria diante de Pharao, Rei do Egypto, e o pôz por Governador sobre o Egypto, e toda sua casa.
11 E veio fome em toda a terra de Egypto, e de Chanaan, e grande tribulação; e nossos pais não achavão alimentos.
12 Porém ouvindo Jacob, que em Egypto havia trigo, mandou a nossos pais a primeira vez.
13 E na segunda foi José conhecido de seus irmãos, e a linhagem de José foi manifesta a Pharao.
14 E enviou José, e mandou chamar a seu pai Jacob, e a toda sua parentéla, setenta e cinco almas por todas.
15 E desceo Jacob a Egypto, e morreo, elle, e nossos pais.
16 E forão traspassados a Sichem. e postos na sepultura que Abraham, por certa somma de dinheiro, comprou aos filhos de Emmor pai de Sichem.
17 Mas como ja se chegasse o tempo da promessa, que Deos tinha jurado a Abraham, cresceo o povo, e multiplicou-se em Egypto.
18 Até que se levantou outro Rei, que não conhecêra a José.
19 Este, usando de astucia com nossa linhagem, maltratou a nossos pais, até lhes fazer engeitar suas crianças, para que não se multiplicassem.
20 No qual tempo nasceo Moyses. e era mui formoso, e foi criado tres mezes em casa de seu pai.
21 E sendo engeitado, a filha de Pharão o tomou, e o criou para si por seu filho.
22 E foi Moyses instruido em toda a sabedoria dos Egypcios; e era poderoso em ditos e feitos.
23 E como se lhe cumprio o tempo de quarenta annos, veio-lhe ao coração ir visitar a seus irmãos, os filhos de Israël.
24 E vendo aggravar a hum delles, o defendeo; e vingou ao aggravado matando ao Egypcio.
25 E elle cuidava, que seus irmãos entendessem, que Deos lhes havia de dar liberdade por sua mão; porém elles não o entendêrão.
26 E o dia seguinte, pelejando elles, foi delles visto, e constrangia-os à paz, dizendo: varoens, irmãos sois; porque vos aggravais hum ao outro?
27 E o que aggravava a seu proximo, o repellio, dizendo: Quem te pôz a ti por Principe e Juiz sobre nósoutros?
28 Queres me tu tambem matar a mim, como hontem mataste ao Egypcio?
29 E a esta palavra fugio Moyses, e foi peregrino em terra de Madiam, aonde gerou dous filhos.
30 E cumpridos quarenta annos, o Anjo do Senhor lhe appareceo no deserto do monte de Sina, em huma flamma de fogo de hum sarçal.
31 Então Moyses vendo-o, maravilhou-se da visão; e chegando-se a ver, a voz do Senhor lhe foi feita.
32 Dizendo: Eu sou o Deos de teus pais, o Deos de Abraham, e o Deos de Isaac, e o Deos de Jacob; e Moyses todo tremendo, não ousava attentar.
33 E disse-lhe o Senhor. Descalça as alparcas de teus pés; porque o lugar em que estás, terra santa he.
34 Attentamente tenho visto a afflicção de meu povo, que está em Egypto, e ouvi seu gemido, e desci aos livrar, agora pois vem, enviar-te-hei a Egypto.
35 A este Moyses pois, ao qual havião negado, dizendo; quem te pôz por Principe e Juiz? a este enviou Deos por Principe; e Libertador, por mão do Anjo, que lhe apparecêra no sarçal.
36 Este os tirou fora, fazendo prodigios e sinaes na terra de Egypto, e no mar vermelho, e no deserto, por quarenta annos.
37 Este he aquelle Moyses, que aos filhos de Israël disse: hum Propheta vos levantará o Senhor vosso Deos dentre vossos irmãos, como a mim, a elle ouvireis.
38 Este he aquelle que esteve na congregação do povo em o deserto, com o Anjo, que lhe falava no monte de Sina, e com nossos pais; o qual recebeo as palavras viventes, para as dar a nós.
39 Ao qual nossos pais não quizerão obedecer; antes o engeitárão, e de coração se tornárão a Egypto.
40 Dizendo a Aarão: Faze-nos Deoses, que vão diante de nós. Porque quanto a este Moyses, que nos tirou fóra da terra de Egypto, não sabemos que lhe aconteceo.
41 E naquelles dias fizérão o bezerro, e offerecérão sacrificio ao idolo, e se alegrarão nas obras de suas mãos.
42 E Deos tornou, e os entregou, a que servissem ao exercito do ceo, como está escrito no livro dos Prophetas: Offerecestes-me por ventura victimas, e sacrificios no deserto, por quarenta annos, ó casa de Israël?
43 Antes o tabernaculo de Moloch tomastes aos hombros, e a estrella de vosso Deos Remphan, figuras que vos fizestes, para adorá-las; transportar vos-hei pois para d’além de Babylonia.
44 No deserto estava entre nossos Pais o Tabernaculo do testemunho, como aquelle ordenára, que disse a Moyses, que o fizesse segundo a forma que tinha visto.
45 O qual recebendo-o tambem nossos Pais, com Jesus o levárão á possessão das Gentes, que Deos lançou de diante da face de nossos Pais, até os dias de David.
46 O qual achou graça diante de Deos, e pedio que achasse tabernaculo para o Deos de Jacob.
47 E Salamão lhe edificou casa.
48 Mas o Altissimo não habita em templos feitos de mão, como o Propheta diz:
49 O ceo he o meu throno, e a terra o estrado de meus pés; que casa me edificareis? diz o Senhor; ou qual he o lugar de meu repouso?
50 Não fez por ventura minha mão todas estas cousas?
51 Duros de pescoço, e incircuncisos de coração, e de ouvidos; sempre vós resistis ao Espirito Santo; como vossos Pais assim tambem vósoutros.
52 A qual dos Prophetas não perseguirão vossos Pais? e matárão aos que d’antes denunciárão a vinda do Justo, do qual vósoutros agora fostes os traidores e homicidas.
53 Que recebestes a Lei por disposição dos Anjos, e não a guardastes.
54 E ouvindo estas cousas, rebentavão em seus coraçoens, e rangião os dentes contra elle.
55 Mas elle estando cheio do Espirito Santo, e postos os olhos no ceo, vio a gloria de Deos, e a Jesus, que estava á mão direita de Deos.
56 E disse: Eis que vejo os ceos abertos, e ao Filho do homem, que está á mão direita de Deos.
57 Porém elles, clamando com grande voz, taparão seus ouvidos, e arremettérão unanimes contra elle.
58 E lançando-o fora da cidade, apedrejavão-o. E as testemunhas pozérão seus vestidos aos pés de hum mancebo, chamado Saulo.
59 E apedrejárão a Estevão, invocando elle, e dizendo: Senhor Jesus, recebe meu espirito.
60 E pondo-se de juelhos, clamou, com grande voz: Senhor, não lhes imputes este peccado. É havendo dito isto, adormeceo.

CAPITULO 8.

1 ECONSENTIA tambem Saulo em sua morte. E naquelle dia foi feita huma grande perseguição contra a Igreja, que estava em Jerusalem; e todos forão espargidos pelas terras de Judea, e de Samaria, excepto os Apostolos.
2 E alguns varoens pios levárão juntos a enterrar a Estevão, e fizérão sobre elle grande pranto.
3 E Saulo assolava a Igreja, entrando pelas casas; e puxando por homens e mulheres, entregava-os na prisão.
4 Os que pois espargidos andavão, ião passando pela terra, e annunciando a palavra.
5 E descendo Philippe á cidade de Samaria, prégava-lhes a Christo.
6 E as multidoens estavão concordemente attentas ás cousas, que Philippe dizia, porquanto onvião, e vião os sinaes que fazia.
7 Porque os espiritos immundos sahião de muitos, que os tinhão, clamando a grande voz; e muitos paralyticos e coxos erão curados.
8 E havia grande gozo naquelle cidade.
9 E havia hum certo varão, por nome Simão, que d’antes naquella cidade usára da arte magica, e a gente de Samaria havia illudido, dizendo de si, per algum grande.
10 Do qual todos pendião, desde o mais pequeno até o mais grande, dizendo: este he a grande virtude de Deos.
11 E pendião delle, porque com suas artes magicas os havia ja de muito tempo illudido.
12 Mas como crerão a Philippe, que lhes annunciava o Evangelho do Reino de Deos, e o nome de Jesu-Christo, baptizavão-se assim homens, como mulheres.
13 E até o mesmo Simão creo;e sendo baptizado, ficou de continuo com Philippe: e vendo os sinaes, e as grandes maravilhas que se fazião, estava atonito.
14 Ouvindo pois os Apostolos, que estavão em Jerusalem, que Samaria recebêra a palavra de Deos, enviarão-lhes a Pedro e a João.
15 Os quaes havendo descido, orarão por elles, para que recebessem o Espirito Santo.
16 (Porque ainda sobre nenhum delles descêra; mas somente erão baptizados em o nome do Senhor Jesus)
17 Então pozérão as mãos sobre elles, e recebêrão o Espirito Santo.
18 E como Simão vio, que pela imposição das mãos dos Apostolos se dava o Espirito Santo, offereceo-lhes dinheiro.
19 Dizendo: Dai-me tambem a mim este poder, que sobre qualquer que eu puzer as mãos recêba o Espirito Santo.
20 Porém Pedro lhe disse: teu dinheiro seja comtigo para perdição, que cuidaste que o dom de Deos por dinheiro se alcance.
21 Não tens tu parte nem sorte nesta palavra; porque teu coração não he recto diante de Deos.
22 Arrepende-te pois desta tua maldade; e ora a Deos, se por ventura esta imaginação de teu coração se te perdoe.
23 Porque em fel de grande amargura, e em travadura de maldade, vejo que estás.
24 Respondendo porém Simão, disse: Orai vósoutros por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim.
25 Havendo elles pois testificado e falado a palavra do Senhor, tomárão a Jerusalem, e em muitas aldeas dos Samaritanos annunciárão o Evangelho.
26 E o Anjo do Senhor falou a Philippe, dizendo: Levanta-te, e vai para a banda do Sul, ao caminho que desce de Jerusalem para Gaza, a qual he deserta.
27 E levantou-se, e foi, e eis hum varão Ethiope, Eunucho, Mordomo môr de Candace, Rainha dos Ethiopes, o qual estava posto sobre todos seus thesouros, e a adorar viéra a Jerusalem;
28 E tornava, e assentado em seu carro, lia ao Propheta Isaias.
29 E disse o Espirito a Philippe: Chega-te, e ajunta-te a este carro.
30 E correndo Philippe, ouvio que lia ao Propheta Isaias, e disse: mas entendes tu o que lês?
31 E elle disse: e como poderia, se alguem me não ensinasse? e rogou a Philippe que subisse, e com elle se assentasse.
32 E o lugar da Escritura que lia era este: Como ovelha foi levado ao matadouro, e como o cordeiro está mudo diante do que o tosquia, assim sua boca não abrio.
33 Em seu abatimento foi seu juizo tirado; e sua geração quem a contará? porque da terra sua vida he tirada.
34 E respondendo o Eunucho a Philippe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o Propheta? de si mesmo, ou de outro alguem?
35 E abrindo Philippe sua boca, e começando desta Escritura, evangelizou-ihe Jesus.
36 E indo elles caminhando, chegárão a huma certa agua; e disse o Eunucho: eis aqui agua; que me impede ser baptizado?
37 E Philippe disse: Se crês de todo coração, licito he. E respondendo elle, disse: Creio que Jesu-Christo he o Filho de Deos.
38 E mandou parar o carro: e descêrão ambos á agua, assim Philippe, como o Eunucho; e o baptizou.
39 E como subirão da agua, o Espirito do Senhor arrebatou a Philippe, e não o vio mais o Eunucho, e foi seu caminho gozoso.
40 Mas Philippe se achou em Azoto; e indo passando pela terra, annunciava o Evangelho em todas as cidades, até que veio a Cesarea.

CAPITULO 9.

1 ESAULO, assoprando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, foi ao Principe dos Sacerdotes.
2 E pedio-lhe cartas para Damasco, para as Synagogas, para que se achasse alguns deste caminho, assim homens como mulheres, os trouxesse prezos a Jerusalem.
3 E indo ja de caminho aconteceo, que chegando perto de Damasco, subitamente o cercou hum resplandor de luz do ceo.
4 E cahindo em terra, ouvio huma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues?
5 E elle disse: Quem es Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Dura cousa te he dar couces contra os aguilhoens.
6 E elle tremendo, e atonito disse: Senhor, que queres que faça? e o Senhor lhe disse: Levanta-te, e entra na cidade, e dir-se-te-ha ali o que te convém fazer.
7 E os varoens que de caminho ião com elle, pararão atonitos, ouvindo bem a voz, porém não vendo a ninguem.
8 E levantou-se Saulo da terra, e abrindo seus olhos, não via a ninguem. E guiando-o pela mão, levárão-o a Damasco.
9 E esteve tres dias sem ver; e não comeo, nem bebeo.
10 E havia em Damasco hum certo discipulo, por nome Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias; e elle respondeo: eis me aqui, Senhor.
11 E o Senhor lhe disse: Levanta-te, e vai á rua chamada a Direita, e pergunta em casa de Judas por hum chamado, Saulo, de Tarso; porque vés aqui que óra.
12 E tem visto em visão, que hum varão, por nome Ananias, entrava, e sobre elle punha a mão, para que tornasse a ver.
13 E respondeo Ananias: Senhor, a muitos deste varão ouvi, quantos males tem feito a teus santos em Jerusalem.
14 E aqui tem poder dos Principes dos Sacerdotes, para prender a todos os que invocão teu nome.
15 Porém o Senhor lhe disse: vai, porque vaso escolhido me he este, para levar meu nome diante das Gentes, e dos Reis, e dos filhos de Israël.
16 Porque eu lhe mostrarei, quanto padecer deva por meu nome.
17 E foi Ananias e entrou na casa, e pondo as mãos sobre elle, disse: Saulo irmão, o Senhor (convêm a saber, Jesus, que no caminho, por onde vinhas, te appareceo,) me enviou, para que tornes a ver, e sejas cheio do Espirito Santo.
18 E logo lhe cahirão dos olhos como escamas, e recebeo logo a vista, e levantando-se, foi baptizado.
19 E como comeo, ficou confortado. E esteve Saulo alguns dias com os discipulos, que estavão em Damasco.
20 E logo nas Synagogas pregava a Christo, que aquelle era o Filho de Deos.
21 E todos os que o ouvião, estavão atonitos, e dizião: não he este aquelle que em Jerusalem assolava aos que invocavão este nome? e a isso veio aqui, para os levar presos aos Principes dos Sacerdotes?
22 Mas Saulo muito mais se esforçava, e confundia aos Judeos que habitavão em Damasco, provando que aquelle era o Christo.
23 E como passarão muitos dias, tivérão os Judeos entre si conselho para o matarem.
24 Mas suas ciladas viérão á noticia de Saulo; e elles guardavão as portas, assim de dia como de noite, para o poderem matar.
25 Porém tomando-o os discipulos de noite, o guindarão pelo muro abaixo em hum cesto.
26 E como Saulo veio a Jerusalem, procurava ajuntar-se com os discipulos; porém todos delle se temião, não crendo que fosse discipulo.
27 Mas tomando-o Barnabé comsigo, trouxe-o aos Apostolos, e contou-lhes como no caminho vira ao Senhor, e lhe falára, e como em Damasco falára ousadamente em o nome de Jesus.
28 E andava com elles entrando, e sahindo em Jerusalem.
29 E falando ousadamente em o nome do Senhor Jesus; falava e disputava tambem contra os Gregos, porém elles procuravão matá-lo.
30 Entendendo-o porém os irmãos, o acompanhárão até Cesarea, e o enviarão a Tarso.
31 As Igrejas pois por toda Judea, e Galilea, e Samaria, tinhão paz, e erão edificadas; e andando em o temor do Senhor, e na consolação do Espirito Santo, se multiplicavão.
32 E aconteceo, que passando Pedro por todas as partes, veio tambem aos santos que habitavão em Lydda,
33 E achou ali a hum certo homem, por nome Enéas, que havia oito annos que jazia em huma cama, qual era paralytico.
34 E disse-lhe Pedro: Enéas, Jesu- Christo te dá saude, levanta-te, e faze tua cama. E logo se levantou.
35 E virão-o todos os que habitavão em Lydda e Sarona, os quaes se convertêrão ao Senhor.
36 E havia em Joppe huma cera discipula, por nome Tabitha. que traduzido, se diz Dorcas. Esta estava cheia de boas obras, e esmolas que fazia.
37 E aconteceo naquelles dias, que enfermando ella, morreo; e havendo-a lavado, a pozerão no cenáculo.
38 E como Lydda estava perto de Joppe, ouvindo os discipulos que Pedro estava ali, mandàrão-lhe dous varoens, rogando-lhe que não se detivesse em vir a elles.
39 E levantando-se Pedro foi com elles; o qual como chegou, o levárão ao cenaculo, e todas as viuvas o rodeárão, chorando, e mostraudo-lhe as tunicas e os vestidos que Dorcas fizera quando estava com ellas.
40 Porém Pedro lançando-as fora a todas, póz-se de joelhos, e orou: e virando-se para o corpo, disse: Tabitha, levantate; e ella abrio seus olhos, e vendo a Pedro, assentou-se.
41 E dando-lhe elle a mão, levantoua; e chamando aos santos, e ás viuvas, apresentou-lha viva.
42 E foi isto notorio por toda Joppe, e crêrão muitos em o Senhor.
43 E aconteceo, que ficou muitos dias em Joppe, com hum certo Simão curtidor.

CAPITULO 10.

1 E HAVIA hum certo varão em Cesarea, por nome Cornelio, Centurião, do esquadrão chamado o Italiano.
2 Pio, e temente a Deos, com toda sua caza, e que fazia muitas esmolas ao povo, e de continuo orava a Deos.
3 Este vio claramente em visão, quasi á hora nona do dia, a hum Anjo de Deos, que entrava a elle, e lhe dizia: Cornelio.
4 E elle postos nelle os olhos, e mui atemorisado, disse: Que he Senhor? e disse-lhe: tuas oraçoens e tuas esmolas tem subido em memoria diante de Deos.
5 Envia pois agora alguns varoens a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6 Este pousa em caza de hum Simão curtidor, que tem sua caza junto ao mar; este te dirá o que deves fazer.
7 E ido o Anjo, que falava com Cornelio, chamou a dous de seus criados, e a hum soldado pio, dos que de continuo lhe assistião.
8 E havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Joppe.
9 E o dia seguinte, indo elles ja de caminho, e chegando perto da cidade, subio Pedro ao terrado a orar, quasi á hora sexta.
10 E tendo elle fome,quiz comer; e estando-lho aparelhando, cahio sobre elle hnm arrebatamento de sentidos.
11 E vio o ceo aberto, e que descia a elle hum certo vaso, como hum grande lançol, atado pelas quatro pontas, e abaixando-se á terra.
12 Em que havia de todos os animaes da terra de quatro pés, e féras, e reptis, e aves do Ceo.
13 E foi-lhe feita huma voz: levanta-te Pedro, mata, e come.
14 Porém Pedro disse: em maneira nenhuma, Senhor; porque cousa nenhuma commum, nem immunda, nunca comi.
15 E tornou-lhe a voz segunda vez a dizer: o que Deos purificou, não o faças tu commum.
16 E aconteceo isto por tres vezes; e tornou-se o vaso a recolher a riba ao ceo.
17 E estando Pedro duvidando entre si, que seria aquella visão, que vira, eis que os varoens, que forão enviados de Cornelio, perguntando pela casa de Simão, pararão á porta.
18 E chamando perguntárão, se Simão, que tinha por sobrenome Pedro, pousava ali?
19 E pensando Pedro naquella visão, disse-lhe o Espirito: eis que tres varoens te buscão.
20 Levanta-te pois, e desce, e vai com elles não duvidando; porque eu os enviei.
21 E descendo Pedro aos varoens, que de Cornelio lhe forão enviados, disse; eis que eu sou o que buscais; qual he a causa porque estais aqui?
22 E elles disserão: Cornelio o Centurião, varão justo, e temente a Deos, e que tem bom testemunho de toda a nação dos Judeos, por divina revelação foi amoestado de hum santo Anjo, que te mandasse chamar a sua caza, e ouvisse de ti as palavras de salvação.
23 Chamando-os pois dentro, recebeo-os em caza. Porém o dia seguinte foi Pedro com elles; e forão com elle alguns dos irmãos de Joppe.
24 E o dia seguinte viérão a Cesarea. E Cornelio os estava esperando, havendo já convocado a seus parentes, e aos amigos mais familiares.
25 E succedeo que entrando Pedro, Cornelio sahio ao receber, e derribando-se a seus pés, o adorou.
26 Porém Pedro o levantou, dizendo: levanta-te, que tambem eu mesmo sou homem.
27 E falando com elle, entrou; e achou a muitos que ali se ajuntárão.
28 E disse-lhes: Bem sabeis vósoutros, como não he licito a hum varão Judeo ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros: porém Deos me mostrou, que a nenhum homem chame commum ou immundo.
29 Pelo que sendo chamado, vim sem contra-dizer. Assim que pergunto, porque razão me mandastes chamar?
30 E disse Cornelio: Quatro dias ha,que até estas horas estava em meu jejum, e orava á hora nona em minha caza.
31 E eis que hum varão se pôz diante de mim com hum vestido resplandecente, e disse: Cornelio, tua oração he ouvida, e tuas esmolas tem vindo em memoria diante de Deos.
32 Envia pois a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro; este pousa em casa de Simão o curtidor, junto ao mar; o qual vindo, te falará.
33 Assim que logo a ti enviei; e bem fizeste em aqui vir. Agora pois aqui estamos todos presentes diante de Deos, para ouvir tudo quanto de Deos te he mandado.
34 E abrindo Pedro a boca, disse: Por verdade acho, que Deos não he aceitador de pessoas.
35 Senão que, aquelle que em toda nação o teme, e obra justiça, lhe he agradavel.
36 Esta he a palavra que enviou aos filhos de Israël, annunciando a paz por Jesu-Christo: este he o Sennor de todos.
37 Bem sabeis vósoutros a palavra que veio por toda Judea, começando desde Galilea, depois do baptismo que João prégou.
38 Acerca de Jesus de Nazareth; como Deos o ungio com o Espirito Santo, e com virtude: o qual andou pela terra, bem fazendo, e curando a todos os opprimidos do diabo; porque Deos era com elle.
39 E nós somos testemunhas de todas as cousas que fez, assim em a terra de Judea, como em Jerusalem; ao qual matárao, pendurando-o de hum madeiro.
40 A este resuscitou Deos ao terceiro dia, e fez que fosse manifesto:
41 Não a todo o povo, senão ás testemunhas que Deos d’antes ordenara; a saber a nósoutros, que juntamente com elle comêmos, e bebêmos, depois que dos mortos resuscitou.
42 E nos mandou pregar ao povo, e testificar que elle he aquelle que de Deos foi ordenado por Juiz dos vivos e dos mortos.
43 A este dão testemunho todos os Prophetas, de que todos os que nelle crerem, receberão perdão de peccados por seu nome.
44 E falando Pedro ainda estas palavras, cahio o Espirito Santo sobre todos os que ouvião a palavra.
45 E os fieis que erão da circuncisão, tantos quantos tinhão vindo com Pedro, se espantárão de que tambem sobre as Gentes se derramasse o dom do Espirito Santo.
46 Porque os ouvião falar em linguas estranhas, e magnificar a Deos. Então respondeo Pedro:
47 Pode por ventura alguém impedir a agua, que não sejão baptizados estes, que tambem como nos receberão o Espirito Santo?
48 E mandou que fossem baptizados em o nome do Senhor. Então lhe rogárão que ficasse com elles por alguns dias.

CAPITULO 11.

1 E OUVIRÃO os Apostolos, e os irmãos que estavão em Judea, que tambem as Gentes receberão a palavra de Deos.
2 E subindo Pedro a Jerusalem, contendião contra elle os que erão da circuncisão.
3 Dizendo: entraste a varoens incircuncizos, e comeste com elles.
4 Porém começando Pedro contoulhes tudo por ordem, dizendo:
5 Estando eu orando em a cidade de Joppe, vi, arrebatado dos sentidos, huma visão, a saber hum certo vaso que descia como hum grande lançol, pelas quatro pontas désde o ceo abaixado, e vinha até junto a mim.
6 No qual pondo eu os olhos, considerei, e vi animaes da terra de quatro pés, e feras, e reptis, e aves do ceo.
7 E ouvi huma voz que me dizia: levanta-te Pedro, mata, e come.
8 Porém eu disse: em maneira nenhuma Senhor; porque nunca cousa alguma commum, nem immunda, entrou em minha boca.
9 Mas a voz me respondeo do ceo segunda vez: o que Deos purificou, não o chames tu commum.
10 E succedeo isto por tres vezes; e tornou-se tudo a recolher a riba ao ceo.
11 E eis que na mesma hora tres varoens, enviados a mim de Cesarea, parárão junto á casa aonde eu estava.
12 E o Espirito me disse, que fosse com elles, não duvidando; e tambem estes seis irmãos forão comigo, e entramos em casa daquelle varão.
13 Econtou-nos como vira estar hum Anjo em sua casa, e lhe disséra: envia alguns varoens a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro.
14 O qual te falará palavras, com que tu, e toda tua casa te salves.
15 E como comecei a falar, cahio o Espirito Santo sobre elles, como tambem ao principio sobre nósoutros.
16 E lembrei-me do dito do Senhor, como disséra: bem baptizou João com agua, mas vósoutros sereis baptizados com o Espirito Santo.
17 Assim que se Deos lhes deo igual dom, como tambem a nósoutros, que já em o Senhor Jesu-Christo havemos crido; quem era eu pois, que a Deos podesse estorvar?
18 E ouvidas estas cousas, apaziguárão-se, e glorificárão a Deos, dizendo: de maneira que tambem ás Gentes deo Deos arrependimento para vida.
19 E os que forão espargidos por causa da oppressão, que succedeo por via de Estevão, passarão pela terra até Phenicia, e Cypro, e Antiochia, não falando a ninguem a palavra, senão aos Judeos sós.
20 E havia delles huns varoens Cyprios, e Cyrenenses, os quaes entrando em Antiochia, falárão aos Gregos, annunciando ao Senhor Jesus.
21 E a mão do Senhor era com elles, e muito numero creo, e se converteo ao Senhor.
22 E chegou a fama delles a ouvidos da Igreja que estava em Jerusalem; e enviárão a Barnabé, que fosse até Antiochia.
23 O qual como chegou, e vio a graça de Deos, gozou-se; e exhortou a todos, que com proposito do coração permanecessem em o Senhor.
24 Porque era homem de bem, e cheio do Espirito Santo, e de fé; e muita gente se chegou ao Senhor.
25 E partio Barnabé a Tarso, a buscar a Saulo; e achando-o, trouxe-o a Antiochia.
26 E succedeo que todo hum anno se congregarão naquella Igreja, e ensinárão a muita gente; e que os discipulos primeiramente em Antiochia se chamarão Christãos.
27 E naquelles dias descerão de Jerusalem alguns Prophetas a Antiochia.
28 E levantando-se hum delles, por nome Agabo, dava a entender pelo Espirito, que havia de haver huma grande fome em todo o mundo: a qual tambem veio em tempo de Claudio Cesar.
29 E os discipulos determinárão de cada hum, conforme ao que podesse, mandar algum socorro para serviço dos irmãos que habitavão em Judea.
30 O que tambem fizérão, enviando-o aos Anciãos por mão de Barnabé e de Saulo.

CAPITULO 12.

1 E POR aquelle mesmo tempo póz el-Rei Herodes as mãos em alguns da Igreja, para os maltratar.
2 E matou a Jacobo, o irmão de João, á espada.
3 E vendo que isto agradára aos Judeos, passou adiante, para tambem prender a Pedro, (e erão os dias dos pães asmos.)
4 Do qual tambem pegando, lançouo na prisão, entregando-o a quatro quaternos de soldados, que o guardassem; querendo tirá-lo ao povo depois da Pascoa.
5 Assim que Pedro era guardado na prisão; porém a Igreja fazia continua oração por elle a Deos.
6 E quando Herodes o havia de tirar, aquella mesma noite estava Pedro dormindo entre dous soldados, liado com duas cadeias; e as guardas diante da porta guardavão a prisão.
7 E eis que sobreveio o Anjo do Senhor, e huma luz resplandeceo na prisão; e dando a Pedro na ilharga, despertou-o, dizendo: Levanta-te apresuradamente: e as cadeias lhe cahirão das mãos.
8 E disse-lhe o Anjo: cinge-te, e ata tuas alparcas; e fê-lo assim. E disse-lhe: lança ás costas tua capa, e segue-me.
9 E sahindo, o seguia; e não sabia que fosse verdade o que se fazia pelo Anjo, mas cuidava que via alguma visão.
10 E como passárão a primeira e segunda guarda, viérão á porta de ferro, que vai para a cidade, a qual se lhes abrio por si mesma; e sahidos passarão huma rua, e logo o Anjo se apartou delle.
11 E tornando Pedro em si, disse: agora verdadeiramente sei, que o Senhor enviou seu Anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de tudo o que o povo dos Judeos esperava.
12 E considerando elle isto, foi a casa de Maria, a mãi de João, que tinha por sobrenome Marcos, onde muitos estavão juntos, e orando.
13 E batendo Pedro á porta do páteo, sahio huma menina por nome Rode, a escutar.
14 E conhecendo a voz de Pedro, de gozo não abrio a porta do páteo, senão correndo para dentro, annunciou que Pedro estava fora á porta do páteo.
15 E dissérão-lhe: estás fóra de ti. Mas ella affirmava que assim era. E dizião: seu Anjo he.
16 Porém Pedro perseverava em bater; e como abrirão, virão-o, e espantárão-se.
17 E acenando-lhes elle com a mão, que calassem, contou-lhes como o Senhor o tirára da prisão; e disse:denunciai isto a Jacobo e aos irmãos. E sahindo, partio para outro logar.
18 E fazendo-se ja de dia, havia não pouco alvoroco entre os soldados, que se houvesse feito de Pedro.
19 E como Herodes o buscou, e não o achou, feita inquirição juridica das guardas, mandou-os levar presos. E partindo de Judea para Cesarea, ficou ali.
20 E intentava Herodes fazer guerra aos de Tyro, e de Sidon; porém vindo elles de commum accordo a elle, e persuadindo a Blasto, que era o Camareiro d’el-Rei, pedião paz; porquanto sua terra se sustentava da de el-Rei.
21 E hum dia assinalado, vestindo- se Herodes de vestidos Reaes, e assentado no tribunal, fez-lhes huma pratica.
22 E o povo exclamava: Voz de Deos, e não de homem.
23 E no mesmo instante o Anjo do Senhor o ferio, porquanto não deo a gloria a Deos; e comido de bichos expirou.
24 E a palavra de Deos crescia, e se multiplicava.
25 E Barnabé e Saulo, havendo cumprido aquelle serviço, se tornárão de Jerusalem, tomando tambem comsigo a João, o que tinha por sobrenome Marcos.

CAPITULO 13.

1 E HAVIA em Antiochia, na Igreja que ali estava, alguns prophetas e doutores, a saber Barnabé e Simeão, chamado Niger, e Lucio Cyreneo, e Manahen, que fôra criado com Herodes o Tetrarcha, e Saulo.
2 E servindo elles ao Senhor, e jejuando, disse o Espirito Santo: apartai-me a Barnabé, e a Saulo, para a obra para que os tenho chamado.
3 Então jejuando, e orando, e pondo sobre elles as mãos, os despedirão.
4 Estes pois enviados pelo Espirito Santo, descerão a Seleucia, e dali na vegárão para Cypro.
5 E chegados a Salamina, denunciavão a palavra de Deos em as Synagogas dos Judeos; e tinhão tambem a João por ministro.
6 E havendo atravessado a ilha até Papho, achárão a hum certo encantadór, falso propheta, Judeo, cujo nome era Bar-Jesus.
7 O qual estava com o Proconsul Sergio Paulo, varão prudente. Este chamando a si a Barnabé, e a Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deos.
8 Mas resistia-lhes Elymas o encantadór, (que assim se interpreta seu nome,) procurando apartar da fé ao Proconsul.
9 Porém Saulo, que tambem se chama Paulo, cheio do Espirito Santo, e pondo nelle os olhos, disse:
10 O’ filho do Diabo, cheio de todo engano e de toda malicia, inimigo de toda justiça, não cessarás de perverter os rectos caminhos do Senhor?
11 Agora pois vês aqui a mão do Senhor contra ti, e serás cego, não vendo o sol por algum tempo. E no mesmo instante cahio nelle escuridade, e trevas; e andando ao redor, buscava quem o guiasse pela mão.
12 Então vendo o Proconsul o que havia succedido, creo, pasmado da doutrina do Senhor.
13 E partidos de Papho, Paulo e os que com elle estavão, viérão a Perges cidade de Pamphylia. Porem João, apartando-se delles tornou a Jerusalem.
14 E elles passando de Perges, viérão a Antiochia cidade de Pisidia; e entrando na Synagoga hum dia de Sabbado, assentárão-se.
15 E depois da lição da Lei e dos Prophetas, os Principes da Synagoga enviárão a elles dizendo: Varoens irmãos, se em vósoutros ha algumapalavra de consolação para o povo, falai.
16 E levantando-se Paulo, e feito silencio com a mão, disse: Varoens Israëlitas, e os que temeis a Deos, ouvi:
17 O Deos deste povo de Israël elegeo a nossos Pais, e exaltou ao povo, sendo elles estrangeiros em terra de Egypto, e com braço levantado os tirou della.
18 E por tempo de quasi quarenta annos, supportou seus costumes no deserto.
19 E destruindo a sete gentes na terra de Chanaan, por sorte lhes repartio sua terra.
20 E depois disto, quasi quatrocentos e cincoenta annos lhes deo Juizes até o Propheta Samuel.
21 E desde então pedirão Rei, e deo-lhes Deos a Saul, filho de Cis, varão da tribu de Benjamin, por espaço de quarenta annos.
22 E tirando a este, levantou-lhes por Rei a David, ao qual tambem deo testemunho, e disse: a David filho de Jesse achei, varão conforme a meu coração, que fará toda minha vontade.
23 Da semente deste, conforme a promessa, levantou Deos a Jesus por Salvador de Israël.
24 Havendo João primeiro, antes de sua vinda, a todo o povo de Israël prégado o baptismo de arrependimento.
25 Mas como João cumprisse sua carreira, disse: Quem cuidais vós que eu sou? Eu não sou o Christo, mas eis que após mim vem aquelle, cujas alparcas dos pés eu não sou digno desatar.
26 Varoens irmãos, filhos da geração de Abraham, e os que entre vósoutros temem a Deos, a vósoutros he enviada a palavra desta salvação.
27 Porque não conhecendo os que habitavão em Jerusalem, nem seus Principes, a este; condemnando-o, assim cumprirão as vozes dos Prophetas, que se lém todos os Sabbados.
28 E nenhuma causa de morte achando, pedirão a Pilatos que fosse morto.
29 E havendo elles cumprido todas as cousas, que estavão escritas delle, tirando-o do madeiro, o pozérão na sepultura.
30 Porém Deos o resuscitou dos mortos.
31 O qual foi visto por muitos dias dos que com elle de Galilea subirão a Jerusalem, e são suas testemunhas para com o povo.
32 E nósoutros vos evangelizamos a promessa, que foi feita aos Pais; a qual Deos já nos cumprio a nósoutros seus filhos, a Jesus resuscitando.
33 Como tambem está escrito no Psalmo segundo: meu Filho es tu, hoje te gerei.
34 E que o resuscitasse dos mortos, para nunca mais tornar á corrupção, assim disse: as fieis beneficencias de David vos darei.
35 Pelo que tambem em outro Psalmo diz: não darás a teu Santo para, que veja corrupção.
36 Porque na verdade, havendo David em seu tempo servido ao conselho de Deos, dormio, e foi posto junto a seus pais, e vio corrupção.
37 Mas aquelle que Deos resuscitou, nenhuma corrupção vio.
38 Seja-vos pois notorio, varoens irmãos, que por este se vos annuncia remissão dos peccados.
39 E que de tudo do que pela Lei de Moyses, não podestes ser justificados, neste he justificado todo aquelle que crê.
40 Vêde pois, que sobre vósoutros não venha o que nos Prophetas está dito:
41 Vêde, ó desprezadores, e espantai-vos, e esvaecei-vos: porque obra obro em vossos dias, obra que não a crereis se alguem vo-la contar.
42 E sahidosda Synagoga os Judeos, rogárão as Gentes que o Sabbado seguinte as mesmas palavras se lhes falassem.
43 E acabada a Synagoga, muitos dos Judeos, e dos religiosos proselytos, seguirão a Paulo e a Barnabé; os quaes falando-lhes, os admoestavão, que permanecessem na graça de Deos.
44 E o Sabbado seguinte ajuntou-se quasi toda a cidade, a ouvir a palavra de Deos.
45 Porém vendo os Judeos as multidoens, enchêrão-se de inveja, e contradizião ao que Paulo dizia, contradizendo, e blasfemando.
46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, dissérão: a vósoutros era mister, que primeiro a palavra de Deos se vos falasse; mas porque a engeitais, e vos não julgais dignos da vida eterna, vêdes aqui que nos tornamos ás Gentes.
47 Porque assim no-lo mandou o Senhor, dizendo: Por luz das Gentes te puz, para que fosses por salvação até o cabo da terra.
48 E ouvindo isto as Gentes, alegrárão-se, e glorificavão a palavra do Senhor; e crérão todos quantos estavão or denados para a vida eterna.
49 E divulgava-se a palavra do Senhor por toda aquella provincia.
50 Mas os Judeos incitárão algumas mulheres religiosas e honradas, e aos principaes da cidade, e levantarão perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançarão fóra de seus termos.
51 Porém sacudindo contra elles o pó de seus pés, viérão a Iconio.
52 E os discipulos enchião-se de alegria, e do Espirito Santo.

CAPITULO 14.

1 E ACONTECEO em Iconio que entrárão juntos na Synagoga dos Judeos, e falarão de tal maneira, que creo huma grande multidão, assim de Judeos, como de Gregos.
2 Porém os Judeos incredulos incitarão e irritarão os animos das Gentes contra os irmãos.
3 Detivérão-se pois ali muito tempo falando ousadamente em o Senhor, o qual dava testemunho á palavra de sua graça, dando que sinaes e prodigios se fizessem por suas mãos.
4 E a multidão da cidade se dividio: e huns erão pelos Judeos, e outros pelos Apostolos.
5 E fazendo-se huma revolta, assim dos Judeos como das Gentes, juntamente com seus principes, para os afrontarem, e apedrejarem:
6 Entendendo-o elles, acolhêrão-se a Lystra, e Derbes, cidades de Lycaonia, e á provincia do redor.
7 E ali prégavão o Evangelho.
8 E hum certo varão em Lystra estava assentado, impotente dos pés, coxo desde o ventre de sua mãi, que nunca tinha andado.
9 Este ouvio falar a Paulo; o qual pondo os olhos nelle, e vendo que tinha fé para sarar;
10 Disse com grande voz: Levantate direito sobre teus pés: e elle saltou, e andou.
11 E vendo as multidoens o que Paulo fizéra, levantárão suas vozes, dizendo em lingua Lycaonia: os Deoses se tem feito semelhantes aos homens, e a nósoutros descêrão.
12 E a Barnabé chamavão Jupiter; e a Paulo, Mercurio; porque este era o que falava.
13 E o Sacerdote de Jupiter, que estava diante de sua cidade, trazendo touros e grinaldas á entrada da porta, com a multidão queria sacrificar-lhes.
14 Porém ouvindo-o os Apostolos Barnabé e Paulo, rasgarão seus vestidos, e saltárão entre a multidão, clamando,
15 E dizendo: varoens, porque fazeis estas cousas? Tambem nós somos homens como vósoutros, sugeitos ás mesmas paixoens, e vos denunciamos que vos convertais destas vaidades ao Deos vivo, que fez o ceo, e a terra, e o mar, e tudo quanto nelles ha.
16 O qual nos tempos passados deixou andar a todas as Gentes cada huma em seus caminhos.
17 Ainda que com tudo a si mesmo se não deixou sem testemunho, bemfazendo desde’ o ceo, dando-nos chuvas e tempos fructiferos, e enchendo nossos coraçoens de mantimento e de alegria.
18 E dizendo isto, apenas detivérão as multidoens que lhes não sacrificassem.
19 Porém sobreviérão huns Judeos de Antiochia, e de Iconio, e persuadirão a multidão; e apedrejando a Paulo, trouxérão-o arrastando fora da cidade, cuidando que era morto.
20 Mas rodeando-o os discipulos, levantou-se, e entrou na cidade; e o dia seguinte sahio com Barnabé para Derbes.
21 E havendo denunciado o Evangelho áquella cidade, e feito muitos discipulos, tornárão-sc a Lystra, e a Iconio. e a Antiochia:
22 Confirmando os animos dos discipulos, e exhortando-os a que permanecessem na fé, e que por muitas tribulaçoens nos importa entrar em o Reino de Deos.
23 E havendo-lhes por commum consentimento eleito Anciãos em cada Igreja.orando com jejuns, encommendárão-os ao Senhor, em o qual havião crido.
24 E passando por Pisidia, viérão a Pamphylia.
25 E havendo falado a palavra em Perges descerão a Attalia.
26 E dali navegarão para Antiochia, donde á graça de Deos forão encommendados, para a obra que ja havião cumprido.
27 E como ali viérão, e ajuntárão a Igreja, relatarão quão grandes cousas Deos com elles fizéra; e como ás Gentes abrira a porta da fé.
28 E ficarão ali não pouco tempo com os discipulos.

CAPITULO 15.

1 E ALGUNS que de Judea havião descido, ensinavão aos irmãos, dizendo: Se conforme ao uso de Moyses vos não circuncidardes, não vos podeis salvar.
2 Feita pois por Paulo e Barnabé não pequena resistencia e contenda contra elles, ordenarão que Paulo e Barnabé, e alguns outros delles subissem aos Apostolos, e aos Anciãos a Jerusalem sobre esta questão.
3 Assim que acompanhados elles da Igreja, passarão por Phenice, e Samaria, contando a conversão das Gentes: e davão grande alegria a todos os irmãos.
4 E vindos a Jerusalem, forão recebidos da Igreja, e dos Apostolos, e dos Anciãos; e denunciárão-lhes quão grandes cousas Deos com elles tinha feito.
5 Porém que alguns da seita dos Phariseos, que havião crido, se levantárão, dizendo: Que he necessario circuncidá-los, e mandar-lhes que guardem a Lei de Moyses.
6 E congregárão-se os Apostolos, e os Anciãos, para attentarem neste negocio.
7 E havendo grande contenda, Pedro se levantou, e lhes disse: Varoens irmãos, bem sabeis como ja vai por muito tempo, que Deos entre nos me elegeo, para que por minha boca as Gentes ouvissem a palavra do Evangelho, e cressem.
8 E Deos, que conhece os coraçoens, lhes deo testemunho, dando-lhes o Espirito Santo, como tambem a nósoutros.
9 E nenhuma differença fez entre nósoutros e ellas, purificando pela fé seus coraçoens.
10 Agora pois, porque tentais a Deos, pondo hum jugo sobre o pescoço dos discipulos; que nem nossos pais, nem nósoutros podemos levar?
11 Antes cremos, que pela graça do Senhor Jesu-Christo seremos salvos, como tambem elles.
12 E toda a multidão calou; e ouvirão a Barnabé e a Paulo, que contavão, quão grandes sinaes e prodigios Deos por meio delles entre as Gentes fizéra.
13 E havendo-se estes calado, respondeo Jacobo, dizendo: Varoens irmãos, ouvi-me.
14 Simeão contou, como primeiro Deos visitou as Gentes, para tomar dellas hum povo para seu nome.
15 E com isto concordão as palavras dos Prophetas, como está escrito:
16 Depois disto tornarei, e reedificarei o Tabernaculo de David, que cahido está, e reedificarei suas ruinas, e o tornarei a levantar:
17 Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todas as demais Gentes, sobre as quaes meu nome he invocado, diz o Senhor, que faz todas estas cousas.
18 Notórias são a Deos desde ab eterno todas suas obras.
19 Pelo que julgo, que os que das Gentes se convertem a Deos, não devem ser perturbados.
20 Senão escrever-lhes, que se abstenhão das contaminacoens dos idolos, e de fornicação, e de affogado, e de sangue.
21 Porque Moyses, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, e nas Synagogas cada Sabbado he lido.
22 Então pareceo bem aos Apostolos, e aos Anciãos, com toda a Igreja, eleger delles alguns varoens, e os enviar com Paulo e Barnabé a Antiochia:a saber a Judas, que tinha por sobrenome Barsabas, e a Silas; varoens principaes entre os irmãos.
23 E escrevérão com elles o seguinte: Os Apostolos, e os Anciãos, e os irmãos, aos irmãos das Gentes, que estão em Antiochia, e Syria, e Cilicia, saude.
24 Porquanto ouvimos, que alguns, que sahirão d’entre nósoutros, vos perturbarão com palavras, e fizérão titubear vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos, e guardar a Lei, aos quaes tal não mandámos:
25 Pareceo-nos bem ajuntados concordemente, eleger alguns varoens, e enviar-vo-los com nossos amados Barnabé, e Paulo.
26 Homens que ja entregárão suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesu-Christo.
27 Assim que enviamos a Judas, e a Silas, os quaes tambem de boca o mesmo vos denunciarão.
28 Porque ao Espirito Santo, e a nósoutros pareceo bem, de nenhuma carga mais vos impór, senão estas cousas necessarias:
29 Convem a saber: Que vos abstenhais das causas sacrificadas aos idolos, e de sangue, e de affogado, e de fornicação; das quaes cousas, se vos guardardes, bem fareis. Bem vos vá.
30 Despedidos pois elles, viérão a Antiochia, e ajuntando a multidão, entregárão a carta.
31 E lendo-a alegrárão-se ácerca da consolação.
32 Judas pois, e Silas, como tambem erão Prophetas, com muitas palavras exhortárão e confirmárão aos irmãos.
33 E detendo-so ali algum tempo, os irmãos os deixarão tornar em paz aos Apostolos.
34 Porém a Sdas lhe pareceo bem ficar ali.
35 E Paulo e Barnabé ficarão em Antiochia, ensinando e evangelizando, com outros muitos, a palavra do Senhor.
36 E depois de alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos-nos a visitar a nossos irmãos por cada cidade, em que ja denunciamos a palavra do Senhor, a ver como estão.
37 E Barnabé aconselhava, que tomassem comsigo a João chamado Marcos.
38 Mas a Paulo lhe parecia razão, que não tomassem comsigo aquelle, que desde Pamphylia se apartára delles, e com elles não fóra áquella obra.
39 Houve pois entre elles tal contenda, que se apartárão hum do outro: e tomando Barnabé comsigo a Marcos, navegou para Cypro.
40 Porém Paulo escolhendo a Silas, partio, encommendado dos irmãos á graça de Deos.
41 E foi passando por Syria e Cilicia, confirmando as Igrejas.

CAPITULO 16.

1 E VEIO até Derbes e Lystra: e eis que estava ali hum certo discipulo, por nome Timotheo, filho de huma mulher Judea fiel,mas de pai Grego.
2 Do qual davão bom testemunho os irmãos, que estavão em Lystra, e em Iconio.
3 Este quiz Paulo que fosse com elle: e tomando-o, circuncidou-o, por causa dos Judeos, que estavão naquelles lugares: porque todos conhecião seu pai, que era Grego.
4 E indo passando pelas cidades, lhes entiegavão as ordenanças, que forão determinadas pelos Apostolos e Anciãos em Jerusalem, para que asguardassem.
5 Assim que as Igrejas erão confirmadas na fé, e cada dia se augmentavão em numero.
6 E passando por Phrygia, e pela provincia de Galacia, impedio-se-lhes pelo Espirito Santo, de falarem a palavra em Asia.
7 E como viérão a Mysia, intentavão ir a Bethynia; e não lho permittio o Espirito.
8 E passando de largo a Mysia, descêrão a Troas.
9 E vio Paulo de noite huma visão; e foi que hum varão Macedonio se lhe pôz diante, rogando-lhe, e dizendo: Passa a Macedonia, e ajuda-nos.
10 E como vio a visão, logo procurámos partir para Macedonia, concluindo dali que o Senhor nos chamava, para lhes denunciar-mos o Evangelho.
11 Navegando pois desde Troas, viemos correndo caminho direito a Samothracia, e o dia seguinte a Neapoles.
12 E dali a Philippos, que he a primeira cidade desta parte de Macedonia, e he huma colonia: e estivemos naquella cidade alguns dias.
13 E o dia do Sabbado sahimos fóra da cidade ao rio, aonde se costumava fazer a oração: e assentando-nos, falamos ás mulheres que ali se ajuntarão.
14 E huma certa mulher, por nome Lydia, vendedora de purpura, da cidade de Thyatira, que servia a Deos, nos ouvio, o coração da qual o Senhor abrio, para que estivesse attenta ao que Paulo dizia.
15 E como foi baptizada ella e sua casa, rogou-nos, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa e ficai ali. E constrangeo-nos.
16 E aconteceo, que indo nósoutros á oração, nos sahio ao encontro huma moça, que tinha espirito Pythonico: a qual com advinhar trazia grande ganancia a seus Senhores.
17 Esta seguindo após Paulo e a nósoutros, clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deos Altissimo, que nos denuncião o caminho da salvação.
18 E isto fazia ella por muitos dias. Porém descontentando isto a Paulo, virou-se, e disse ao espirito: em nome de Jesu-Christo te mando, que della saias. E na mesma hora sahio.
19 E vendo seus Senhores que a esperança de sua ganancia era ida, pegárão de Paulo, e de Silas, e os levárão á Praça, perante os Maioraes.
20 E apresentando-osaosCapitaens, disserão: estes homens alvoroção nossa cidade, não obstante serem Judeos.
21 E prégão ritos que não nos he licito receber, nem fazer; visto que somos Romanos.
22 E a multidão se levantou juntamente contra elles; e rasgando-lhes os Capitaens os vestidos, mandarão-os açoutar.
23 E havendo-lhes dado muitos açoutes os lançarão na prisão; mandando ao Tronqueiro que os guardasse seguramente.
24 O qual recebido hum tal mandamento, lançou-os no carcere de mais a dentro, segurou-lhes os pés no tronco.
25 E perto da meia noite orando Paulo e Silas, e cantando hymnos a Deos, eseutávão-os os outros prezos.
26 E de repente se fez hum tão grande terremoto, que os alicerces do carcere se movião: e logo todas as portas se abrirão, e as prizoens de todos se soltarão.
27 E acordando o Tronqueiro, e vendo abertas as portas da prisão, tirando da espada, se houvéra de matar, cuidando que ja os prezos erão fugidos.
28 Porem Paulo clamou com grande voz, dizendo: não te faças nenhum mal, que todos estamos aqui.
29 E pedindo luz, saltou dentro, e grandemente tremendo, se derribou aos pés de Paulo e Silas.
30 E tirando-os fóra, disse: Senhores, que me he necessario fazer para me salvar?
31 E elles lhe dissérão: Crê em o Senhor Jesu-Christo, e salvar-te has, tu, e tua casa.
32 E falárão-lhe a palavra do Senhor, e a todos os que estavão em sua casa.
33 E tomando-os elle comsigo, naquella mesma hora da noite, lavou-lhes os açoutes, e logo foi baptizado elle, e todos os seus.
34 E levando-os a sua casa, pôz-lhes a mesa; e gozou-se de que com toda sua casa cresse em Deos.
35 E sendo ja de dia, mandárão os Capitaens aos quadrilheiros, dizendo: solta áquelles homens.
36 E o Tronqueiro denunciou estas palavras a Paulo, dizendo; os Capitaens tem mandado que vos soltem: assim agora sahi, e ide em paz.
37 Porem Paulo lhes disse: açoutando-nos publicamente, e sem ser sentenciados, sendo homens Romanos, nos lançarão na prisão, e agora encubertamente nos lanção fóra? não ha de ser assim, senão que venhão elles mesmos, e nos tirem fora.
38 E tornárão os quadrilheiros a dizer aos Capitaens estas palavras: e temêrão, ouvindo que erão Romanos.
39 E vindo rogárão-lhes, e tirando-os fóra, pedirão-lhes que da cidade sahissem.
40 E sahindo da prisão, entrárão em casa de Lydia, e vendo aos irmãos, os consolárão; e da cidade sahirão.

CAPITULO 17.

1 E TOMANDO seu caminho por Amphipolis e Appollonia, viérão a Thessalonica, áonde havia huma Stnagoga de Judeos.
2 E entrou Paulo a elles, como tinha de costume, e por tres Sabbados disputava com elles pelas Escrituras.
3 Declarando-as, e propondo-lhes que convinha que o Christo padecesse, e dos mortos resuscitasse: e que este Jesus he o Christo, que eu dizia elle, vos denuncio.
4 E alguns delles crêrão, e com Paulo e Silas se ajuntárão; e dos Gresos religiosos grande multidão; e mulheres principaes não poucas.
5 Porem os Judeos desobedientes movidos de inveja, tomarão comsigo alguns homens malignos dos maganos, e ajuntando ao povo, alvoroçárão a cidade: e acomettendo a casa de Jason, procuravão tira-los ao povo.
6 É não os achando, trouxérão com violencia a Jason, e a alguns irmãos, aos Maioraes da cidade, clamando: estes que ao mundo tem alvoroçada viérão tambem até aqui.
7 Aos quaes Jason tem recolhido, e todos estes fazem contra os mandados de Cesar, dizendo; que ha outro Rei a saber Jesus.
8 E alvoroçarão a multidão, e aos Maioraes da cidade, que ouvião estas cousas.
9 Porem recebida satisfacção de Jason, e dos de mais, os soltarão.
10 E logo os irmãos enviárão de noite a Paulo, e a Silas, a Berea: os quaes chegando lá, forão á Synagoga dos Judeos.
11 E forão estes mais nobres que os Judeos, que estavão em Thessalonica, como aquelles que recebêrão a palavra com toda boa affeição, examinando cada dia as Escrituras, se estas cousas assim erão.
12 Assim que muitos delles crêrão, e das mulheres Gregas honestas, e dos varoens não poucos.
13 Mas como os Judeos de Thessalonica entenderão, que tambem em Berea a palavra de Deos era denunciada por Paulo, viérão tambem lá, e commovérão as multidoens.
14 Porem no mesmo instante mandarão os irmãos a Paulo, que fosse como ao mar: mas Silas e Timotheo ficárão ali.
15 E os que a Paulo acompanhárão, o levarão até Athenas; e recebendo mandado para Silas e Timotheo, que viessem a elle o mais cedo quepudessem, partirão.
16 E em quanto Paulo os esperava em Athenas, seu espirito se accendia nelle, vendo a cidade tão dada á idolatria.
17 Assim que disputava na Synagoga com os Judeos, e com os Religiosos; e na praça cada dia, com os que lhe occorrião.
18 E alguns dos Philosophos Epicureos, e Estoicos, contendião com elle: e huns dizião: Que quer dizer este Paroleiro? e outros: parece he prégador de Deoses estranhos; porquanto lhes evangelizava a Jesus e a resureição.
19 Etomando-o, trouxérão-oao Areopago, dizendo; Não poderemos saber, que doutrina nova seja esta de que falas?
20 Porque cousas estranhas nos trazes aos ouvidos: queremos pois saber, que isto quererá vir a ser.
21 (Então todos os Athenienses, e os hospedes estrangeiros, em nenhuma outra cousa se occupavão, senão em dizer e em ouvir cousa alguma de novo.)
22 E estando Paulo no meio do Areopago, disse: Varoens Athenienses, em tudo vos vejo como mais supersticiosos.
23 Porque passando eu pela cidade, e vendo vossos Sanctuarios, achei tambem hum altar, em que estava escrito: AO DEOS NÃO CONHECIDO. A este pois que vosoutros não conhecendo servis, a esse vos denuncio eu.
24 O Deos que fez o mundo, e todas as cousas que nelle ha; este, sendo Senhor do ceo e da terra, não habita em templos feitos de mãos.
25 Nem tão pouco servido he por mãos de homens, como de cousa alguma necessitando: pois elle só a todos dá a vida, e a respiração, e todas as cousas.
26 E de hum sangue fez toda a geração dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando os tempos já d’antes ordenados, e os termos de sua habitação.
27 Para que ao Senhor buscassem, se por ventura o pudessem apalpar e achar: ainda que não está longe de cada hum de nosoutros.
28 Porque nelle vivemos, e nos movemos, e somos; como tambem alguns de vossos Poetas dissérão: Porque tambem sua geração somos.
29 Sendo pois geração de Deos, não havemos de cuidar que a Divindade seja semelhante a ouro, ou a prata, ou á pedra esculpida por artificio e imaginação de homens.
30 Assim que dissimulando Deos os tempos de ignorancia, agora denuncia a todos os homens, e em todo lugar, que se arrependão.
31 Porquanto tem estabelecido hum dia, em que justamente ha de julgar ao mundo, por aquelle varão, que para isso tem ordenado; dando dissocerteza a todos, resuscitando-o dos mortos.
32 E como ouvirão da resurreição dos mortos, alguns zombavão; e outros dizião: outra vez ácerca disto te ouviremos.
33 E assim sahio Paulo do meio delles.
34 Porem chegando-se alguns varoens a elle, crêrão: entre os quaes foi tambem Dionysio o Areopagita, e huma mulher por nome Damaris, e outros mais com elles.

CAPITULO 18.

1 E DEPOIS disto partio Paulo de Athenas, e veio a Corintho.
2 E achando a hum certo Judeo, por nome Aquila, natural de Ponto, que havia pouco que tinha vindo de Italia, e a Priscilla sua mulher, (porquanto Claudio mandára que todos os Judeos de Roma sahissem) veio a elles.
3 E porque era do mesmo officio, ficou com elles, e trabalhava: porque tinhão por orneio fazer tendas.
4 E disputava na Synagoga cada Sabbado; e a Judeos, e a Gregos persuadia á fé.
5 E como Silas e Timotheo descerão de Macedonia, foi Paulo constrangido do Espirito, testificando aos Judeos que Jesus era o Christo.
6 Porem resistindo, e blasfemando elles, sacudio os vestidos, e disse-lhes: vosso sangue seja sobre vossa cabeça; limpo estou eu: e desde agora ás Gentes irei.
7 E partindo dali, entrou em casa de hum, por nome Justo, que servia a Deos, cuja casa estava a par da Synagoga.
8 E Crispo, o Maioral da Synagoga, creo no Senhor com toda sua casa; e ouvindo-o muitos dos Corinthios, crêrão e forão baptizados.
9 E disse o Senhor em visão de noite a Paulo: não temas, senão fala, e não cales.
10 Porque eu comtigo estou, e ninguem de ti lançará mão para te fazer mal: porque muito povo tenho nesta cidade.
11 E ficou ali hum anno e seis meses, ensinando entre elles a palavra de Deos.
12 Porem sendo Gallio Proconsul de Achaia, se levantárão os Judeos concordemente contra Paulo, e o trouxérão ao Tribunal,
13 Dizendo; este persuade aos homens a servir a Deos contra a Lei.
14 E querendo Paulo abrir a boca, disse Gallio aos Judeos: Se algum aggravo, ou crime enorme houvéra, ó judeos, com razão vos sofreria:
15 Mas se a questão he de palavras, e de nomes, e da Lei que entre vos ha, vêde-o vos mesmos: porque dessas causas não quero ou ser juiz.
16 E lançou-os do Tribunal.
17 Porem tomando todos os Gregos a Sosthenes, o Maioral da Synagoga, ferião-o diante do Tribunal; ea Gallio nada destas cousas se lhe dava.
18 E ficando Paulo ainda ali muitos dias, despedio-se dos irmãos, e dali navegou para Syria; e com elle Priscilla e Aquila: havendo primeiro tosqueado a cabeça em Cenchras, porque tinha feito voto.
19 E chegou a Epheso, e deixou-os ali: porem elle entrando na Synagoga, disputava com os Judeos.
20 E rogando-lhe elles, que com elles por mais algum tempo ficasse, não conveio nisso.
21 Antes se despedio delles, dizendo; necessario me he em todo caso ter a festa que vem em Jerusalem: mas outra vez, querendo Deos, a vosoutros tornarei; e partio de Epheso.
22 E vindo a Cesarea, subio a Jerusalem, e saudando a Igreja, desceo a Antiochia.
23 E estando ali algum tempo partio, passando successivamente pela provincia de Galacia e Phrygia, confirmando a todos os discipulos.
24 E chegou a Epheso hum certo Judeo, por nome Apollos, natural de Alexandria, varão eloquente, poderoso em as Escrituras.
25 Este era ja instruido no caminho do Senhor; e fervente de espirito, falava e ensinava diligentemente as cousas do Senhor: sabendo somente o baptismo de João.
26 E começou este a falar ousadamente na Synagoga; e ouvindo-o Priscilla e Aquila, o tornárão comsigo, e declararão-lhe mais pontualmente o caminho de Deos.
27 E querendo elle passar a Achaia, exhortando-o os irmãos, escrevérão aos discipulos que o recebessem; o qual vindo, aproveitou muito aos que crião pela graça.
28 Porque com grande vehemencia publicamente convencia aos Judeos, mostrando pelas Escrituras, que Jesus era o Christo.

CAPITULO 19.

1 E EM quanto Apollos estava em Corintho succedeo, que havendo Paulo passado por todas as regioens superiores, veio a Epheso: e achando ali alguns discipulos,
2 Disse-lhes: Recebestes vós já o Espirito Santo quando crestes? e elles lhe dissérão; antes nem ainda ouvimos, se haja Espirito Santo.
3 E elle lhes disse: em que pois sois baptizados? e elles dissérão: no baptismo de João.
4 Porem Paulo disse: bem baptizou João com o baptismo de arrependimento, dizendo ao povo, que cressem em o que havia de vir após elle, isto he, em Jesu-Christo.
5 E os que o ouvirão, forão baptizados em o nome do Senhor Jesus.
6 E impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre elles o Espirito Santo, e em linguas estranhas falavão, e prophetizavão.
7 E erão todos estes como até doze varoens.
8 E entrando elle na Synagoga, falava ousadamente por espaço de tres meses, disputando, e persuadindo as cousas do Reino de Deos.
9 Mas endurecendo-se alguns, e não obedecendo, e do caminho do Senhor mal falando perante a multidão, desviou-se delles; e apartou aos discipulos, disputando cada dia na escola de hum certo Tyranno.
10 E durou isto por espaço de dous annos; de tal maneira que todos os que em Asia habitavão, ouvirão a palavra do Senhor Jesus, assim Judeos, como Gregos.
11 E fazia Deos maravilhas extraordinarias por mãos de Paulo:
12 De tal maneira que até os lenços e cendaes de seu corpo se leva vão sobre os enfermos, e as enfermidades ião delles, e os espiritos malignos sahião.
13 E alguns exorcistas dos Judeos, vagabundos, intentarão invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinhão espiritos malignos, dizendo; por Jesus que Paulo préga, vos esconjuramos.
14 E erão sete filhos de Sceva, Judeo, Principe dos Sacerdotes, os que isto fazião.
15 Porem respondendo o espirito maligno, disse: a Jesus conheço, e bem sei quem Paulo he; porem vósoutros quem sois?
16 E saltando nelles o homem em quem o espirito maligno estava, e ensenhoreando-se delles, podia mais que elles; de tal maneira que nus, e feridos fugirão daquella casa.
17 E foi isto notorio a todos os que habitavão em Epheso, assim a Judeos como a Gregos; e cahio temor sobre todos elles; e assim era engrandecido o nome do Senhor Jesus.
18 E vinhão muitos dos que crião, confessando, e publicando seus feitos.
19 Tambem muitos dos que seguião artes curiosas, seus livros trouxérão, e em presença de todos os queimarão; e lançarão a conta de seu preço, e achárão que montava cincoenta mil moedas de prata.
20 Assim crescia, e prevalecia poderosamente a palavra do Senhor.
21 E cumpridas estas cousas, propôz Paulo em Espirito, de passando por Macedonia, e Achaia irse a Jerusalem, dizendo; desde que lá honver estado, me importa tambem vêr a Roma.
22 E enviando a Macedonia dous daquelles que o servião, a saber a Timotheo e a Erasto, ficou elle por algum tempo em Asia.
23 Porem naquelle mesmo tempo houve hum alvoroço não pequeno á cerca do caminho do Senhor.
24 Porque hum certo ourives da prata, por nome Demetrio, que de prata fazia templos de Diana, dava aos artifices não pouca ganancia.
25 Aos quaes, havendo-os ajuntado com os officiaes de semelhantes cousas, disse: Varoens, bem sabeis vós que deste officio temos nossa prosperidade.
26 E bem vêdes, e ouvis, que este Paulo, não somente em Epheso, mas até quasi em toda Asia, tem persuadido e apartado huma grande multidão, dizendo, que não são Deoses os que com as mãos se fazem.
27 E não somente ha perigo de que isto se nos torne em desprezo, porém tambem que até o mesmo templo da grande Deosa Diana estimado seja em nada; e que sua magestade, a qual toda a Asia, e o mundo universo venera, venha a ser destruida.
28 E ouvindo estas cousas, enchêrãose de ira, e clamarão, dizendo: grande he a Diana dos Ephesios.
29 E toda a cidade se encheo de confusão, e unanimes arremetêrão ao Theatro, arrebatando comsigo a Gayo, e a Aristarcho, Macedonios, companheiros He Paulo na viagem.
30 E querendo Paulo sahir ao povo, os discipulos lho não permittirão.
31 E tambem alguns dos Maioraes de Asia, que erão seus amigos, enviãrão a elle, rogando-lhe, que se não apresentasse no Theatro.
32 Clamávão pois, huns de huma, outros de outra maneira: porque o ajuntamento era confuso; e os mais não sabião por que causa se ajuntárão.
33 E tirárão fora da multidão a Alexandre, impellindo-o os Judeos para diante: e acenando Alexandre com a mão, queria dar razão disto ao povo.
34 Porém entendendo que era Judeo, levantou-se huma voz de todos, clamando por quasi espaço de duas horas: grande he a Diana dos Ephesios.
35 E apaziguando o Escrivão da Cidade a multidão, disse: Varoens Ephesios, qual he o homem que não saiba, que a cidade dos Ephesios he a guardadora do Templo da grande Deosa Diana, e da imagem que desceo de Jupiter.
36 Assim que pois isto não pode ser contradito, convem que vos aplaqueis, e que nada temerariamente façais.
37 Porque trouxestes aqui a estes homens, que nem são sacrilegos, nem blasfemão de vossa Deosa.
38 Que se Demetrio, e os artifices que com elle estão, contra alguem tem algum negocio; Audiencias se dão, e Proconsules ha, huns aos outros se accusem.
39 E se outra alguma cousa demandais, em legitimo ajuntamento se averiguará.
40 Que perigo corremos de que por hoje de sedição sejamos accusados: não havendo causa nenhuma porque deste concurso possamos dar alguma razão. E havendo dito isto, despedio ao ajuntamento.

CAPITULO 20.

1 E CESSANDO o alvoroço, chamou Paulo a si os discipulos, e abraçando-os sahio, para ir a Macedonia.
2 E havendo andado por aquellas partes, e exhortando-os com muitas palavras, veio a Grecia.
3 E passando ali tres mezes, e sendolhe pelos Judeos postas ciladas, havendo de navegar para Syria, determinou a tornar por Macedonia.
4 E acompanhou-o até Asia Sopater Beroense; e dos Thessalonicenses Aristarcho, e Segundo, e Gayo Derbeo, e Timotheo; e dos Asianos Tychice, e Trophimo.
5 Estes, indo adiante, nos esperarão em Troas.
6 E depois dos dias dos paens asmos, navegámos de Philippos, e em cinco dias viémos ter com elles a Troas, aonde estivemos sete dias.
7 E o primeiro, ajuntando-se os discipulos a partir o pão, praticava Paulo com elles, havendo de partir o dia seguinte; e alargou a pratica até a meia noite.
8 E havia muitas luzes em o cenaculo, onde estavão juntos.
9 E estando hum certo mancebo, por nome Eutycho, assentado em huma janella, tomado de hum somno profundo, como Paulo ainda lhesestivesse largamente falando, foi derribado de somno, e cahio désde o terceiro sobrado abaixo, e levantárão-o morto.
10 Porém descendo Paulo, derribou-se sobre elle, e abraçando-o disse: não vos alvoroceis, que ainda sua alma nelle está.
11 E tornando a subir, e partindo e gostando o pão, e falando-lhes largamente até a alva do dia, assim partio.
12 E trouxérão ao moço vivo, e não pouco forão consolados.
13 Porem adiantando-nos nósoutros ao navio, navegámos até Asson, donde haviamos de receber a Paulo; porque assim o ordenára, e elle havia de ir a pé.
14 E como comnosco se ajuntou em Asson, to-mámo-lo comnosco, e viémos a Mitylene.
15 E navegando dali, viemos o dia seguinte em fronte de Chio, e ao outro dia nos aportámos a Samo: e ficando nos em Trogyllio, o dia seguinte viémos a Mileto,
16 Porque ja Paulo havia determinado de passar mais adiante de Epheso, por em Asia não gastar o tempo. Porque se apresurava estar (se possivel íe fosse) no dia de Pentecoste em Jerusalem.
17 Enviou porém desde Mileto a Epheso, e mandou chamar os Anciãos da Igreja.
18 E como a elle viérão, disse-lhes: Bem sabeis vós desde o primeiro dia que entrei em Asia, o modo como todo aquelle tempo estive comvosco:
19 Servindo ao Senhor com toda humildade, e com muitas lagrimas, e tentaçoens, que pelas ciladas dos Judeos me tem sobrevindo.
20 Como nada, que util vos fosse, deixei de vos denunciar, e ensinar publicamente, e pelas casas.
21 Testificando, assim a Judeos, como a Gregos, a conversão a Deos, e a fé em nosso Senhor Jesu-Christo.
22 E agora, eis que liado eu do Espirito, me vou a Jerusalem, não sabendo o que lá me ha de acontecer:
23 Senão que o Espirito Santo de cidade em cidade me testifica, dizendo, que prisoens, e tribulaçoens me espérão.
24 Mas de nenhuma cousa faço caso, nem minha vida por preciosa tenho, para que com alegria cumpra minha carreira, e o ministerio que do Senhor Jesus recebi, para testificar do Evangelho da graça de Deos.
25 E agora vedes aqui que bem sei, que todos vósoutros, por quem prégando o Reino de Deos passei, mais meu rosto não vereis.
26 Por tanto no dia de hoje vos protesto, que do sangue de todos vosoutros estou limpo.
27 Porque não deixei de vos annunciar todo o conselho de Deos.
28 Portanto attentai por vósoutros, e por todo o rebanho, sobre que o Espirito Santo por Bispos vos tem posto, para apascentardes a Igreja de Deos, a qual alcançou com seu proprio sangue.
29 Porque isto sei eu, que depois de minha partida, entrarão entre vósoutros lobos crueis, que não perdoarão ao rebanho.
30 E que dentre vósoutros mesmos se levantarão homens que falem cousas perversas, para após si attrahirem aos discipulos.
31 Por tanto vigiai, lembrando-vos, como por espaço de tres annos, noite e dia não cessei, de vos amoestar a cada hum de vósoutros com lagrimas.
32 E agora irmãos, a Deos, e á palavra de sua graça vos encommendo; que poderoso he para vos edificar, e vos dar herança entre todos os santificados.
33 De ninguem cobicei a prata, nem o ouro, nem o vestido.
34 Antes vós mesmos sabeis, que para o que a mim, e aos que comigo estão, necessario me era, me servirão estas mãos.
35 Em tudo vos tenho mostrado que trabalhando assim, he necessario sobrelevar aos enfermos; e lembrarse das palavras do Senhor Jesus, que disse: mais bemaventurada cousa he dar, do que receber.
36 E havendo dito isto, pondo-se de joelhos, com todos elles orou.
37 E houve hum grande pranto de todos; e derribando-se sobre o pescoço de Paulo, beijavão-o:
38 Entristecendo-se muito, principalmente pela palavra que disséra, que mais seu rosto não verião: e o acompanhárão até o navio.

CAPITULO 21.

1 E COMO aconteceo que delles nos arrancámos, e navegámos, fomos correndo caminho direito, e viémos a Coos, e o dia seguinte a Rhodas, e dali a Patara.
2 E achando hum navio que passava a Phenice, embarcámos-nos nelle, e partimos.
3 E indo ja á vista de Cypro, e deixando-a á mão esquerda, navegámos para Syria, e viémos a Tyro; porque o navio havia de descarregar ali sua carga.
4 E ficámos nós ali sete dias, achando aos discipulos; os quaes pelo Espirito dizião a Paulo, que não subisse a Jerusalem.
5 E havendo ali passado aquelles dias, sahimos, e seguimos nosso caminho,acompanhando-nos todos com suas mulheres e filhos até fora da cidade; e postos de joelhos na praia orámos.
6 E saudando-nos huns aos outros, subimos ao navio; e elles tornarão para suas casas.
7 E nósoutros, acabada a navegação de Tyro, viémos a Ptolemaida; e havendo saudado aos irmãos, ficámos com elles hum dia.
8 E o dia seguinte, partindo dali Paulo, e nós que com elle estavamos, viemos a Cesarea; e entrando em casa de Philippe. o Evangelista (que era hum dos sete), ficámos com elle.
9 E este tinha quatro filhas ainda donzellas, que profetizavão.
10 E ficando-nos ali por muitos dias, desceo de Judea hum Propheta, por nome Agabo:
11 E vindo elle a nósoutros, e tomando a cinta de Paulo, e liando-se os pés e as mãos. disse: Isto diz o Espirito Santo: assim liarão os Judeos em Jerusalem ao varão, cuja he esta cinta, e o entregarão em mãos das Gentes.
12 E ouvindo nósoutros isto, lhe rogámos, assim nós, como os que erão daquelle lugar, que não subisse a Jerusalem.
13 Porém Paulo respondeo: Que fazeis chorando, e magoando-me o coração? porque eu, não só a ser liado, mas ainda a morrer em Jerusalem, estou prestes, pelo nome do Senhor Jesus.
14 E como se não deixou persuadir aquietámos-nos, dizendo; faça-se a vontade do Senhor.
15 E depois daquelles dias, apercebemos-nos, e subimos a Jerusalem.
16 E forão tambem comnosco alguns dos discipulos de Cesarea, trazendo comsigo a hum certo Mnason, Cypro, discipulo antigo, com o qual haviamos de pousar.
17 E como chegámos a Jerusalem os irmãos nos recebérão de mui boa vontade.
18 E o dia seguinte entrou Paulo comnosco a Jacobo, e todos os Anciãos viérão ali.
19 E havendo-os saudado, contou-Ihes por miudo o que Deos fizera entre as Gentes por seu ministerio.
20 E ouvindo-o elles, glorificarão ao Senhor; e dissérão-lhe: Bem vés irmão, quantos milhares de Judeos ha que crêm, e todos são zeladores da Lei.
21 E já ácerca de ti informados forão, que a todos os Judeos, que estão entre as gentes, ensinas a apartáremse de Moyses, dizendo, que não hão de circuncidar seus filhos, nem andar segundo os costumes da Lei.
22 Que ha pois? em todo caso he necessario que a multidão se ajunte; porque ouvirão que ja es vindo.
23 Faze pois isto que te dizemos: quatro varoens temos, que fizérão voto.
24 Toma comtigo a estes, a santifica-te com elles, e faze com elles os gastos, para que a cabeça se rapem, e todos saibão que não ha nada do que forão informados ácerca de ti, mas que tambem tu mesmo andas guardando a Lei.
25 Porém quanto aos que crêm das Gentes, ja nosoutros havemos escrito, e achado por bem, que nada disto guardassem; senão que somente se guardem do que se sacrifica aos idolos, e de sangue, e de affogado, e de fornicação.
26 Então tomando Paulo comsigo áquelles varoens, e santificado com elles o dia seguinte, entrou no Templo, denunciando serem ja cumpridos os dias da santificação, ficando ali até por cada hum delles se offerecer a offerta.
27 E indo-se ja os sete dias acabando, vendo-o os Judeos de Asia no Templo, alvoroçárão a todo o povo, e lançárão mão delle:
28 Clamando: varoens Israëlitas, acudi; este he o homem, que por todas as partes ensina a todos contra o povo, e contra a Lei, e contra este lugar; e de mais disto tambem no Templo introduzio aos Gregos, e profanou , este santo lugar.
29 Porque d’antes tinhão visto com elle na cidade a Trophimo o Ephesio, ao qual pensávão que Paulo introduzira no Templo.
30 E toda a cidade se alvoroçou, e fez-se hum concurso do povo; e pegando de Paulo, o trouxerão para fora do Templo: e logo as portas se fechárão.
31 E procurando elles matá-lo, veio a nova ao Tribuno do esquadrão, que toda Jerusalem estava em confusão.
32 O qual, tomando logo comsigo soldados e Centurioens, correo a elles. E vendo elles ao Tribuno, e aos soldados, cessarão de ferir a Paulo.
33 Então chegando o Tribuno, o prendeo, e mandou amarrar com duas cadeias: e perguntou-lhe quem era, e que tinha feito?
34 E na multidão clamavão huns desta, e outros de outra maneira: porém como por causa do alvoroço nada de certo podia saber, mandou-o levar ao arraial.
35 E chegando ás escadas succedeo, que por causa da violencia da multidão o levárão ás costas os soldados.
36 Porque a multidão do povo o seguia, clamando; fóra com elle.
37 E havendo de levar a Paulo ao arraial, disse ao Tribuno: he me licito falar-te alguma cousa? e elle disse; Grego sabes?
38 Não es tu por ventura aquelle Egypcio, que antes destes dias levantou huma sedição, e levou ao deserto os quatro mil salteadores?
39 Porém Paulo lhe disse: na verdade que hum homem Judeo sou, cidadão de Tarso, cidade não pouco celebre de Cilicia; rogo-te porém, que me permittas falar ao povo.
40 E havendo-lhe permittido, pondose Paulo em pé nas escadas, fez sinal com a mão ao povo; e feito grande silencio, falou-lhes em lingua Hebrea, dizendo:

CAPITULO 22.

1 VAROENS irmãos, e pais, ouvi agora minha defeza para comvosco.
2 (E como ouvirão que lhes falava em lingua Hebrea, tanto mais silencio lhe dérão; e disse:)
3 Quanto a mim, varão Judeo sou, em Tarso de Cilicia nascido, e nesta cidade aos pés de Gamaliel criado, conforme ao mais puro modo da Lei paterna ensinado, e zelador de Deos, como todos vósoutros hoje o sois.
4 Que até a morte tenho perseguido este caminho, assim a varoens, como a mulheres amarrando, e em prisoens entregando.
5 Como tambem o Summo Pontifice me he testemunha, e todo o Conselho dos Anciãos: dos quaes ainda tomando cartas para os irmãos, fui a Damasco a trazer amarrados aos que ali estivessem a Jerusalem, para que fossem castigados.
6 Porém aconteceo-me, que indo eu ja de caminho, e perto de Damasco chegando, quasi ao meio dia, de repente me rodeou huma grande luz do ceo.
7 E cahi em terra, e ouvi huma voz, que me dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues?
8 E respondi eu: quem es Senhor? e disse-me: Eu sou Jesus o Nazareno, a quem tu persegues.
9 E os que comigo estavão, em verdade virão a luz, e muito se atemorizárão: porém a voz do que falava comigo, não ouvirão.
10 E disse eu: que farei, Senhor? e o Senhor me disse: levanta-te, e vai a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te he ordenado fazer.
11 E como eu ja não via, por causa da gloria daquella luz, fui levado pela mão dos que estavão comigo, e assim vim a Damasco.
12 E hum certo Ananias, varão pio, conforme a Lei, que tinha bom testemunho de todos os Judeos que ali moravão;
13 Vindo a mim, e apresentando-seme, me disse: Saulo irmão, recobra a vista; e naquella mesma hora o vi.
14 E disse: o Deos de nossos Pais d’antes te ordenou, para que conheças sua vontade, e vejas aquelle Justo, e ouças a voz de sua boca.
15 Porque testemunha para com todos os homens lhe has de ser, do que visto e ouvido tens.
16 E agora, porque te detens? levanta-te, e baptiza-te, e lava teus peccados, invocando o nome do Senhor.
17 E aconteceo-me, tornando a Jerusalem, que orando eu no Templo, fui arrebatado fóra de mim.
18 E vi o que me dizia; dá-te pressa, e sahe-te apresuradamente de Jerusalem: porque não receberão teu testemunho ácerca de mim.
19 E eu disse: Senhor, bem sabem elles que eu em prisão lançava, e nas Synagogas açoutava aos que crião em ti.
20 E quando o sangue de Estevão, tua testemunha, se derramava, tambem eu presente estava, e consentia em sua morte, e guardava os vestidos dos que o matavão.
21 E disse-me: Vai, porque longe te hei de enviar ás Gentes.
22 E ouvirão-o até esta palavra, e levantárão a voz, dizendo; Fóra da terra com tal homem; porque não convem que viva.
23 E clamando elles; e lançando de si os vestidos, e deitando pó para o ar,
24 Mandou o Tribuno que o levassem ao arraial, dizendo, que com açoutes o examinassem, para saber pôr que causa contra elle assim clama vão.
25 E estando-o amarrando com Correas, disse Paulo ao Centurião, que ali estava: he vos licito açoutar a hum homem Romano, sem primeiro ser condemnado?
26 E ouvindo o Centurião isto, foi e o denunciou ao Tribuno, dizendo: olha o que has de fazar, porque este homem he Romano.
27 E vindo o Tribuno, disse-lhe: Dize-me, es tu Romano? e elle disse: sim.
28 E respondeo o Tribuno: com muita somma de dinheiro alcancei eu o direito de cidadão desta cidade. E Paulo disse: e eu o sou de nascimento.
29 Assim que logo delle se apartárão os que o havião de examinar: e até o Tribuno teve temor, entendendo que era Romano, e que o havia liado.
30 E o dia seguinte, querendo saber de certo a causa porque dos Judeos era accusado, soltou-o das prisoens, e mandou vir aos Principes dos Sacerdotes, e a todo seu Conselho; e trazendo a Paulo, apresentou-o diante delles.

CAPITULO 23.

1 E PONDO Paulo os olhos no Conselho, disse: Varoens irmãos, com toda boa consciencia tenho andado diante de Deos até o dia de hoje.
2 Porem o Summo Pontifice Ananias mandou aos que com elle estavão, que na boca o ferissem.
3 Então Paulo lhe disse: Ferir-te-ha Deos, parede caiada: estás tu tambem aqui assentado para me julgar conforme a Lei, e contra a Lei me mandas ferir?
4 E os que ali estavão dissérão: ao Summo Pontifice de Deos injurias?
5 E Paulo disse: não sabia, irmãos, que era o Summo Pontifice. Porque escrito está: ao Principe de teu povo não maldirás.
6 E sabendo Paulo, que huma parte era de Sadduceos, e outra de Phariseos, clamou no Conselho: Varoens irmãos, eu sou Phariseo, filho de Phariseo; pela esperança e resurreição dos mortos sou julgado.
7 E havendo dito isto, houve dissenção entre os Phariseos e os Sadduceos: e a multidão se dividio.
8 Porque os Sadduceos dizem, que não ha resurreição, nem Anjo, nem Espirito: mas os Phariseos confessão ambas as cousas.
9 E fez-se huma grande grita; e le vantando-se os Escribas da parte dos Phariseos, contendião dizendo; nenhum mal achamos neste homem: e se algum Espirito, ou Anjo, lhe falou, não repugnemos a Deos.
10 E havendo grande dissençao, temendo o Tribuno que Paulo por elles não fosse despedaçado, mandou descer a soldadesca, e arrebatá-lo do meio delles, e levá-lo ao arraial.
11 E a noite seguinte apresentandose-lhe o Senhor, disse: Tem bom animo Paulo; porque como de mim em Jerusalem testificaste, assim te importa testificar tambem em Roma.
12 E vindo o dia, fizérão alguns dos Judeos huma conspiração, e se conspíração, e se conjurárão, dizendo, que nem comerião, nem beberião, até que a Paulo não matassem.
13 E erão mais de quarenta os que esta conjuração fizérão.
14 Os quaes forão aos Principes dos Sacerdotes, e aos Anciãos, e dissérão: conjurando-nos conjuramos, que nada gostaremos, até que a Paulo não matemos.
15 Agora pois vósoutros, juntamente com o Conselho, fazei saber ao Tribuno que amanhã vo-lo traga, como que de seus negocios alguma cousa mais certa quereis saber; e antes que chegue, aparelhados estamos para o matar.
16 E ouvindo o filho da irmã de Paulo estas ciladas, veio, e entrou no arraial, e denunciou-o a Paulo.
17 E chamando Paulo a si a hum dos Centurioens, disse: Leva este mancebo ao Tribuno, porque tem que lhe denunciar.
18 Tomando-o elle pois, levou-o, ao Tribuno, e disse: Chamando-me a si o preso Paulo, me rogou que te trouxesse este mancebo, que tem que te dizer.
19 E o Tribuno, tomando-o pela mão, e apartando-se a huma banda, perguntou-lhe: que tens que me denunciar?
20 E elle disse: os Judeos se concertarão de rogar-te, que amanhã a Paulo leves ao Conselho, como que delle hajão de inquirir alguma cousa maiscerta.
21 Porem tu não os creas. Porque mais de quarenta homens delles lhe andão armando ciladas, os quaes sob pena de maldição se obrigárão a nem comêrem nem bebérem, até que o não tenhão morto; e já apercebidos estão, esperando de ti a promessa.
22 Então o Tribuno despedio ao mancebo, mandando-lhe, que a ninguem mais dissesse que aquillo lhe manifestára.
23 E chamando a si a certos dous dos Centurioés, disse: apercebei duzentos soldados que vão até Cesarea, e setenta de cavallo, e duzentos archeiros, para as tres horas da noite.
24 E aparelhem cavalgaduras, para que pondo nellas a Paulo o levem emsalvo a Felix o Presidente.
25 Escrevendo-lhe huma carta, que em summa isto continha:
26 Claudio Lysias, a Felix, potentissimo Presidente, saude.
27 Preso este varão pelos Judeos, e estando já em ponto de o matárem, sobrevim eu com a soldadesca, e tomei-lho informado que era Romano.
28 E querendo saber a causa porque o accusavão, levei-lho a seu conselho.
29 O qual achei que accusavão de algumas questoens de sua Lei; mas que nenhum crime digno de morte, ou de prisão, havia contra elle.
30 E sendo-me notificado, que os Judeos a este varão ciladas havião de armar, logo to enviei: mandando tambem aos accusadores, que perante ti digão o que contra elle tiverem. Bem hajas.
31 Tomando pois os soldados a Paulo, como lhes fora mandado, trouxérão-o de noite a Antipatris.
32 E o dia seguinte, deixando ir com elle aos de cavallo, tornarão ao arraial.
33 Os quaes como chegárão a Cesarea, e entregárão a carta ao Presidente, apresentárão-lhe tambem a Paulo.
34 E o Presidente, lida a carta perguntou, de que Provincia era; e entendendo que de Cilicia,
35 Ouvir-te-hei, disse, quando tambem aqui viérem teus accusadores. E mandou que o guardassem na Audiencia de Herodes.

CAPITULO 24.

1 E CINCO dias depois, desceo o Summo Pontifice Ananias, com os Anciãos, e hum certo Orador Tertullo; os quaes comparecerão perante o Presidente contra Paulo.
2 E sendo citado, começou Tertullo a accusa-lo, dizendo:
3 Como assim seja que tanta paz por ti tenhamos, e que por tua prudencia, a este povo muitos e louvaveis serviços se fação, totalmente e em todo lugar, ó potentissimo Felix, com todo agradecimento o reconhecemos.
4 Porém porque muito te não detenha, rogo-fe que brevemente, conforme a tua equidade, nos ouças.
5 Porque temos achado que este homem he huma peste, e levantador de sediçoens entre todos os Judeos, pelo universo mundo, e o principal defensor da seita dos Nazarenos.
6 O qual tambem intentou o profanar o Templo: ao qual tambem prendemos, e conforme a nossa Lei o quizemos julgar.
7 Porém sobrevindo o Tribuno Lysias, com grande violencia d’entre as mãos no-lo tirou:
8 Mandando a seus accusadores, que a ti viessem: do qual tu mesmo, examinando-o, poderás entender tudo de que o accusamos.
9 Ê tambem os Judeos nisso consentirão, dizendo serem estas cousas assim.
10 Paulo porém, fazendo-lhe o Presidente sinal que falasse, respondeo: Porquanto bem sei que ja vai por muitos annos que desta gente es Juiz, com tanto melhor animo por mim respondo.
11 Pois bem podes entender, que não ha mais de doze dias, que subi a Jerusalem a adorar:
12 E nem com alguem no Templo falando me achárão, nem nas Synagogas, nem na cidade, ao povo amotinando.
13 Nem tão pouco podem provar as cousas de que agora me accusão.
14 Isto porém te confesso, que conforme áquelle caminho, a que Seita chamão, assim ao Deos dos pais sirvo, crendo tudo quanto na Lei e nos Prophetas está escrito.
15 Tendo em Deos esperança, como estes mesmos tambem esperão, que ha de haver resurreição dos mortos, assim dos justos, como dos injustos.
16 E nisto me exercito, em que, assim para com Deos, como para com os homens, sempre tenha huma consciencia sem offensa.
17 Porém muitos annos depois, vim a fazer esmolas e offertas a minha nação.
18 Nisto ja sanctificado no Templo me achárão, não com gente, nem com alvoroço, huns certos Judeos de Asia.
19 Os quaes convinha, que perante ti aqui presentes estivessem, e me accusassem, se alguma cousa contra mim tivessem.
20 Ou digão estes mesmos, se em mim iniquidade alguma acharão, quando perante o Conselho estava.
21 Senão só desta palavra, com que, entre elles estando, clamei: pela resurreição dos mortos sou eu hoje de vósoutros julgado.
22 Então havendo Felix ouvido estas cousas, póz-lhes dilação, dizendo; havendo-me melhor deste caminho informado, quando o Tribuno Lysias descer, então de vossos negocios inteira noticia tomarei.
23 E mandou ao Centurião que a Paulo guardassem, e com alguma liberdade estivesse, e que a ninguem dos seus prohibisse servi-lo, ou vir a elle.
24 E alguns dias depois, vindo Felix com Drusilla sua mulher, que era Judea, mandou chamar a Paulo, e o ouvio acerca de fé em Christo.
25 E tratando elle da justiça, e da temperança, e do juizo vindouro, espavorecido Felix, respondeo; vai-te por agora; e em tendo oportunidade, te chamarei.
26 Esperando tambem juntamente que Paulo lhe désse algum dinheiro, para que o soltasse: Pelo que tambem muitas vezes o mandava chamar, e falava com elle.
27 Porém cumpridos dous annos. teve Felix por snecessor a Porcio Festo. E querendo Felix comprazer aos Judeos, deixou a Paulo prezo.

CAPITULO 25.

1 ENTRANDO pois Festo na Provincia, subio dali a tres dias de Cesarea a Jerusalem.
2 E comparecerão perante elle o Summo Pontifice, e os Principaes dos Judeos, contra Paulo, e rogárão-lhe,
3 Pedindo contra elle favor, para que o fizesse vir a Jerusalem; armando-lhe ciladas, para no caminho o matarem.
4 Porém Festo respondeo, que em Cesarea estava Paulo guardado, e que elle presto para lá partiria.
5 Os que pois, disse, d’entre vósoutros podem, desção juntamente comigo, e se neste varão cousa alguma indecente houver, accusem-o.
6 E não se havendo entre elles detido mais de dez dias, desceo a Cesarea; e assentando-se no Tribunal o dia seguinte, mandou que trouxessem a Paulo.
7 E vindo elle, rodeárão-o os Judeos, que de Jerusalem havião descido; trazendo contra Paulo muitas e graves accusaçoens, que não podião provar.
8 Pelo que em sua defeza disse: Eu nem contra a Lei dos Judeos, nem contra o Templo, nem contra Cesar, em cousa alguma pequei.
9 Porém querendo Festo comprazer aos Judeos, respondendo a Paulo, disse: Queres tu subir a Jerusalem, e ser lá perante mim ácerca destas cousas julgado?
10 E Paulo disse: Perante o Tribunal de Cesar estou, aonde convém que seja julgado: aos Judeos nenhum aggravo lhes fiz, como tambem tu mui bem o sabes.
11 Porque se aggravo algum fiz, ou cousa alguma digna de morte commetti, não recuso morrer: Porém se nada ha das cousas de que estes me accusão, ninguem por lhes comprazer a elles me pode entregar: a Cesar appello.
12 Então, havendo Festo falado com o Conselho, respondeo: a Cesar appellaste; a Cesar irás.
13 E passados alguns dias, viérão el-Rei Agrippa, e Bernice, a Cesarea, a saudar a Festo.
14 E como ali se detivérão muitos dias, contou Festo a el-Rei os negocios de Paulo, dizendo; hum certo varão foi deixado por Felix aqui preso:
15 Por cuja via, estando eu em Jerusalem, os Principes dos Sacerdotes, e os Anciãos dos Judeos perante mim comparecérão, pedindo contra elle sentença.
16 Aos quaes respondi, não ser costume dos Romanos, por favor entregar a algum homem á morte, antes que o accusado tenha presentes seus accusadores, e haja lugar de se defender da accusação.
17 Assim que, chegando elles juntos aqui, sem fazer dilação alguma, o dia seguinte, assentado no Tribunal, mandei trazer ao homem.
18 Do qual os accusadores, estando aqui presentes, nenhuma cousa apontárão daquellas que eu suspeitava.
19 Tinhão porém contra elle algumas questoens acerca de sua superstição, e de hum certo Jesus defunto, que Paulo affirmava viver.
20 E duvidando eu ácerca da inquirição desta causa, disse, se queria ir a Jerusalem, e la acerca destas cousas ser julgado?
21 E appellando Paulo a ser reservado ao conhecimento de Augusto, mandei que o guardassem, até que o enviasse a Cesar.
22 E disse Agrippa a Festo: Bem quizéra eu tambem ouvir a este homem. E elle disse: amanhã o ouvirás.
23 Assim que o dia seguinte, vindo Agrippa, e Bernice, com muito apparato, e entrando no Auditorio com os Tribunos, e varoens mais principaes da cidade, trouxerão a Paulo por mandado de Festo.
24 E disse Festo: Rei Agrippa, e todos os varoens que aqui comnosco presentes estais, aqui vêdes aquelle, de quem toda a multidão dos Judeos, assim em Jerusalem, como aqui me tem falado, clamando, que não convém que mais viva.
25 Porém achando eu que nenhuma cousa digna de morte fizera, e appellando elle mesmo tambem a Augusto, tenho determinado enviarlho.
26 Do qual não tenho cousa alguma certa que escreva ao Senhor, pelo que perante vósoutros o trouxe; e mormente perante ti, ó Rei Agrippa, para que, feita informação, tenha cousa alguma que escrever.
27 Porque contra razão me parece, enviar a hum preso, e juntamente as accusaçoens contra elle não notificar.

CAPITULO 26.

1 E DISSE Agrippa a Paulo: permitte-se-te falar por ti mesmo. Paulo então estendendo a mão, assim em sua defeza respondeo:
2 Por venturoso me tenho, ó Rei Agrippa, de que perante ti me haja hoje de defender de todas as cousas, de que dos Judeos sou accusado.
3 Mormente sabendo eu, que tens noticia de todos os costumes, e questoens que entre os Judeos ha: pelo que te rogo que me ouças com paciencia.
4 Minha vida pois, até desde a mocidade; qual desde o principio entre os de minha nação em Jerusalem haja sido, todos os Judeos o sabem:
5 Como aquellesque ja de muito antes me conhecêrão (se he que testificar o querem), que conforme á mais perfeita seita de nossa Religião,sempre vivi Phariseo:
6 E agora pela esperança da promessa, que de Deos aos Pais foi feita, aqui estou, e julgado sou.
7 A’ qual nossas doze Tribus, servindo continuamente de dia e de noite a Deos, espérão chegar: pela qual esperança,ó Rei Agrippa, sou eu dos Judeos accusado.
8 Que? julga-se por cousa incrivel entre vósoutros, que Deos aos mortos resuscite?
9 Bem tinha eu imaginado, que contra o nome de Jesus Nazareno devia eu usar muitas contrariedades.
10 O que tambem fiz em Jerusalem; e havendo recebido poder dos Principes dos Sacerdotes, a muitos dos Santos encerrei em prisoens: e quando os matavão, tambem eu dava meu voto.
11 E castigando-os muitas vezes por todas as Synagogas, os forcei a blasfemar. E enfurecido demasiadamente contra elles, até nas cidades estranhas os persegui.
12 Ao que indo ainda a Damasco, com poder e commissão dos Principes dos Sacerdotes:
13 Ao meio dia, vi no caminho, ó Rei, huma luz do ceo, que ao resplandor do sol excedia, e a mim, e aos que comigo ião, com sua claridade rodeou.
14 E cahindo nós todos em terra, ouvi huma voz que me falava, e em lingua Hebraica dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues? Dura cousa te he dar couces contra os aguilhoens.
15 E disse eu: Quem es, Senhor’ e elle disse: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
16 Mas levanta-te, e poem-te sobre teus pés, porque para isto te appareci, para te pôr por ministro e testemunha, assim das cousas que ja tens visto, como das em que ainda te hei de apparecer:
17 Livrando-te deste povo, e das Gentes, a quem agora te envio.
18 Para lhes abrires os olhos, e das escuridades os convertéres á luz, e do poder de Satanás a Deos: para que recebão remissão dos peccados, e sorte entre os santificados pela fé em mim.
19 Pelo que, ó Rei Agrippa, não fui esobediente á visão celestial.
20 Antes primeiramente aos que em Damasco, e em Jerusalem, e por toda a terra de Judea estão, e ás Gentes denunciei, que se emendassem, e se convertessem a Deos, fazendo obras dignas de arrependimento.
21 Por causa disto pegárão de mim os Judeos no Templo, e me procurarão matar.
22 Porém alcançando socorro de Deos, ainda até o dia de hoje permaneço, testificando, assim a pequenos, como a grandes: não dizendo nada mais do que os Prophetas e Moyses dissérão, que havia de acontecer.
23 Convem a saber, que o Christo devia padecer, e sendo o primeiro da resurreição dos mortos, havia de denunciar a luz a este povo, e ás Gentes.
24 E dizendo elle isto em sua defeza, disse Festo em alta voz: Deliras, Paulo, as muitas letras te fazem delirar.
25 Porém elle: não deliro, disse, ó potentissimo Festo; porém falo palavras de verdade, e de hum são juizo.
26 Porque el-Rei, a quem usando de ousadia falo, sabe mui bem destas cousas; pois não creio que nada disto se lhe occulte: que não se fez isto em algum canto.
27 Crés tu, ó Rei Agrippa, nos Prophetas? Bem sei que crés.
28 E disse Agrippa a Paulo: por pouco me persuadirás a que me faça Christão.
29 E disse Paulo: Prouvéra a Deos, que ou por pouco, ou por muito, não somente tu, porém tambem todos quantos hoje me estão ouvindo, taes vos tornareis qual eu sou, excepto estas cadeias.
30 E dizendo elle isto, levantou-se el-Rei, e o Presidente, e Bernice, e os que com elles estavão assentados.
31 E apartando-se a huma banda, falavão huns com os outros, dizendo: este homem nada faz digno de morte ou de prizoens.
32 E disse Agrippa a Festo: Bem se podia este homem soltar, se a Cesar não houvéra appellado.

CAPITULO 27.

1 E COMO se determinou que haviamos de navegar para Italia, entregarão a Paulo, e a alguns outros prezos, a hum Centurião, por nome Julio, do esquadrão Imperial.
2 E embarcando-nos em hum navio Adramytino, havendo de navegar por junto aos lugares da Asia, partimos, estando juntamente comnosco Aristarcho, o Macedonio de Thessalonica.
3 E o dia seguinte chegámos a Sidon; e Julio tratando humanamente a Paulo, permittio-lhe que fosse aos amigos, para delle terem cuidado.
4 E partindo dali, fomos navegando abaixo de Cypro, porquanto os ventos erão contrarios.
5 E havendo passado o mar do longo de Cilicia e Pamphylia, viémos a Myra em Lycia.
6 E achando o Centurião ali hum navio Alexandrino, que navegava para Italia, nos fez nelle embarcar.
7 E indo ja por muitos dias vagarosamente navegando, e havendo apenas em fronte de Cnido chegado, não no-lo permittindo o vento, navegamos abaixo de Creta, em frente de Salmone.
8 E apenas costeando-a, chegamos a hum certo lugar, chamado os bons portos, perto do qual estava a cidade de Lasea.
9 E passado muito tempo, e sendo a navegação ja perigosa, por quanto tambem ja passado era o jejum, Paulo os amoestava.
10 Dizendo-lhes: Varoens, bem vejo que com incommodo, e muito damno, não só da carga, e do navio, porém tambem de nossas vidas, haverá de ser a navegação.
11 Porém o Centurião cria mais ao Piloto e ao Mestre, do que ao que Paulo dizia.
12 E não sendo aquelle porto acommodado para invernar, forão os mais de parecer, de ainda dali passar, a ver se chegar podessem a Phenix, a invernarem ali, que he hum porto de Creta, que attenta para a banda do vento Africo, e do Choro.
13 E ventando ja brandamente o sul, pareceo-lhes que ja tinhão o que intentavão, e dando á vela, forão de bem perto costeando á Creta.
14 Porém não muito depois deo nella hum pé de vento, chamado Euroclydon.
15 E sendo o navio delle arrebatado, e não podendo navegar contra o vento, dando de mão a tudo, nos deixámos ir á tôa.
16 E correndo abaixo de huma pequena ilha, chamada Clauda, apenas pudemos ganhar o batel.
17 O qual tomado a riba, usarão de todos os remedios, cingindo o navio, e temendo darem á costa em Syrte, amainadas as velas, se deixarão assim ir á toa.
18 E andando ia vehementemente balanceados de numa tempestade, o dia seguinte ali viárão o navio.
19 E ao terceiro dia, nós mesmos com nossas proprias mãos lançámos do navio a armação.
30 E não apparecendo ainda sol nem estrellas ja muitos dias havia, e opprimindo-nos huma tempestade não pequena, ja toda a esperança de ser salvos se nos tirou.
21 E havendo ja muito que se não comia, então pondo-se Paulo em pé no meio delles, disse: em verdade que razão houvera sido, ó varoens, haver-me ouvido a mim, e não partir de Creta, e evitar assim este incommodo, e esta perdiçao.
22 Porém agora vos amoesto, que tenhais bom animo; porque nenhuma perda haverá da vida de algum de vósoutros, senão somente do navio.
23 Porque esta mesma noite esteve comigo o Anjo do Deos, cujo sou, e a quem sirvo,
24 Dizendo: Paulo, não temas: importa que a Cesar sejas apresentado: e vês aqui Deos te tem dado a todos quantos comtigo navegão.
25 Portanto, ó varoens, tende bom animo: porque em Deos creio que assim ha de ser, como a mim me foi dito.
26 Porém he necessario que vamos dar em huma ilha.
27 Vindo pois a decima quarta noite, sendo no mar Adriatico, lançados de huma para a outra banda á tôa, lá pela meia noite suspeitárão os marinheiros, que alguma terra se lhes chegava.
28 E lançando o prumo, achárão vinte braças; e passando hum pouco mais a diante, tornando a lançar o prumo, achárão quinze braças.
29 E temendo de ir dar em alguns lugares asperos, lançarão da popa quatro ancoras, desejando que ja o dia viesse.
30 Procurando porém os marinheiros fugir do navio, e guindando o batel ao mar, como que querião largar as ancoras da proa;
31 Disse Paulo ao Centurião, e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não vos podeis vósoutros salvar.
32 Então os soldados cortárão os cabos do batel, e o deixárão cahir.
33 E entretanto que o dia vinha, exhortava Paulo a todos que comessem alguma cousa, dizendo: Hoje he jao decimo quarto dia, que ainda esperando sem comer permaneceis, não havendo nada provado.
34 Portanto amoestovos que comais alguma cousa, pois para vossa saude importa; que nem num cabello da cabeça de nenhum de vósoutros ha de cahir.
35 E havendo dito isto, e tomando o pão, deo graças a Deos em presença de todos: e partindo-o começou a comer.
36 E tendo ja todos bom animo, pozérão-se tambem a comer.
37 E eramos por todos no navio, duzentos e setenta e seis almas.
38 E abastados ja de comer, aliviarão o navio, lançando o trigo ao mar
39 E vindo ja o dia, não conhecião a terra; enxergárão porém huma enseada que tinha praia, na qual forão de parecer, se pudessem, de irem dar com o navio.
40 E levantando as ancoras, deixarão-o ir ao mar, largando tambem ao amarras dos lemes, e alçando a vela maior ao vento, forão dar com elle na praia.
41 Dando porém em hum lugar de dous mares, encalhárão ali o navio: e fixa a proa, ficou immovel, porém a popa se abria com a força das ondas
42 Então foi o conselho dos soldados, que matassem aos prezos, para que nenhum fugisse escapando a nado.
43 Porém querendo o Centurião salvar a Paulo, estorvou-lhes este intento: e mandou que os que pudessem nadar, primeiro se lançassem ao mar, e se salvassem em terra.
44 E os de mais, huns em taboas, e outros em cousas do navio. E assim aconteceo, que todos se salvarão em terra.

CAPITULO 28.

1 E HAVENDO escapado, então entendérão que a ilha se chamava Melita.
2 E usárão os Barbaros comnosco de não pouca humanidade: porque accendendo hum grande fogo, nos recolherão a todos, por causa da chuva que sobrevinha, e por amor do frio.
3 E havendo Paulo achegado quantidade de vides, e pondo-as no fogo, sahindo da quentura huma vibora, lhe acometteo á mão.
4 E vendo-lho os Barbaros a bicha dependurada da mão, dizião huns aos outros: Certamente homicida he este homem, ao qual do mar escapando, a vingança não deixa viver.
5 Porém sacudindo elle a bicha no fogo, não padeceo nenhum mal.
6 E elles esperavão que se havia de inchar, ou cahir morto de repente. Porém havendo ja esperado muito, e vendo que nenhum incommodo lhe sobrevinha, mudados de parecer, dizião, que era Deos.
7 E ali perto daquelle mesmo lugar tinha humas herdades o principal da ilha, por nome Publio; o qual nos recebeo, e nos hospedou por tres dias benignamente.
8 E aconteceo, que estava o pai de Publio de cama, enfermo de febres, e dysenteria; ao qual Paulo entrou; e havendo orado, pôz as mãos sobre elle, e o curou.
9 Feito pois isto, viérão tambem a elle os de mais, que na ilha tinhão enfermidades, e sararão.
10 Os quaes tambem nos honrárão com muitas honras: e havendo de navevegar, nos proverão das cousas necessarias.
11 E tres mezes depois, partimos em hum navio Alexandrino, que invemára na ilha: o qual tinha por insignia, Castor e Pollux.
12 E chegando a Syracusa, ficámos ali tres dias.
13 Donde indo costeando, viémos a Rhegio; e hum dia depois ventando o sul, viémos o segundo dia a Puteolos.
14 Aonde achando alguns irmãos, rogárão-nos que por sete dias ficassemos com elles, e assim viémos a Roma.
15 E ouvindo os irmãos novas de nósoutros, desde lá ao encontro nos sahirão até a praça de Appio, e ás tres Vendas, e vendo-os Paulo, deo graças a Deos, e tomou animo.
16 E como chegamos a Roma, entregou o Centurião os prezos ao General dos exercitos: porém a Paulo se lhe permittio morar sobre si á parte, com o soldado que o guardava.
17 E aconteceo, que tres dias depois, convocou Paulo aos que erão os Principaes dos Judeos; e juntos elles, disse-lhes: Varoens irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos paternos, vim comtudo prezo desde Jerusalem, entregue em mãos dos Romanos.
18 Os quaes, havendo-me examinado, me querião soltar, por não haver em mim nenhum crime de morte.
19 Porém contradizendo-o os Judeos, me foi forçoso appellar a Cesar: não porém como que tenha de que accusar a minha nação.
20 Assim que por esta causa vos tenho chamado a mim, para vos ver e falar: porque pela esperança de Israël estou eu rodeado desta cadeia.
21 Porém elles lhe dissérão: nósoutros nem de Judea cartas algumas ácerca de ti recebemos, nem vindo aqui algum dos irmãos, nos denunciou, nem falou de ti algum mal.
22 Porém bem quizeramos ouvir de ti o que sentes: porque, quanto a esta Seita, notorio nos he que em todo lugar se lhe contradiz.
23 E havendo-lhe elles assinalado hum dia, viérão a elle muitos á pousada; aos quaes declarava, e testificava o Reino de Deos; e procurava persuadi-los á fé de Jesus, assim pela ei de Moyses, como pelos Prophetas, desde pela manhã ate a tarde.
24 E bem crião alguns no que se dizia; porém os outros não crião.
25 E como ficárão entre si discordes, despedirão-se, dizendo Paulo esta palavra: que bem falou o Espirito Santo por Isaias o Propheta a nossos pais,
26 Dizendo: Vai a este povo, e dize: de ouvido ouvireis, e em maneira nenhuma entendereis: e vendo vereis, e em maneira nenhuma enxergareis.
27 Porque engrossado está o coração deste povo, e dos ouvidos pesadamente ouvirão, e os olhos fechárão; para que nunca dos olhos vejão, nem dos ouvidos oução, nem do coração entendão, e se convertão, e eu os cure.
28 Seja-vos pois notorio, que ás Gentes he enviada esta salvação de Deos; e ellas a ouvirão.
29 E havendo elle dito isto, partirão os Judeos, tendo entre si grande contenda.
30 E Paulo ficou dous annos inteiros em seu proprio aluguer: e recebia a todos quantos a elle vinhão:
31 Prégando o Reino de Deos, e ensinando com toda ousadia as cousas pertencentes ao Senhor Jesu-Christo sem algum impedimento.

ROMANOS

CAPITULO 1.

1 PAULO servo de Jesu-Christo, chamado para Apostolo, separado para o Evangelho de Deos,
2 (Que d’antes havia promettido por seus Prophetas em as santas Escrituras.)
3 A’cerca de seu Filho (que foi feito da semente de David segundo a carne:
4 E declarado por Filho de Deos em potencia, segundo o Espirito de santificação, pela resurreição dos mortos) convem a saber Jesu-Christo nosso Senhor.
5 (Pelo qual recebemos a graça, e o Apostolado, para a obediencia da fé entre todas as gentes, por seu nome.
6 Entre as quaes sois vós tambem, os chamados de Jesu-Christo.)
7 A todos os que estais em Roma, amados de Deos, e chamados santos: Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
8 Primeiramente dou graças a meu Deos por Jesu-Christo, acerca de todos vósoutros, de que vossa fé he denunciada em todo o mundo.
9 Porque minha testemunha he Deos, a quem sirvo em meu espirito no Evangelho de seu Filho, como sem cessar me lembro de vósoutros.
10 Rogando sempre em minhas orações, se por ventura em algum tempo se me dê boa occasião, de pela vontade de Deos vir a vósoutros.
11 Porque desejo de vos ver, para vos repartir algum dom espiritual, para que sejais confortados.
12 Isto he, para que juntamente comvosco seja consolado pela fé mutua, assim vossa, como minha.
13 Porém irmãos, não quero que ignoreis, que muitas vezes propuz de vir a vósoutros (fui porém até agora estorvado), para que tambem algum fruto tivesse entre vósoutros, como tambem entre as de mais Gentes.
14 Assim a Gregos como a Barbaros, assim a sabios como a não sabios, sou devedor.
15 Assim que, quanto a mim, prestes estou, para tambem aos que estrais em Roma, vos denunciar o Evangelho.
16 Porque não me envergonho do Evangelho de Christo, pois he a potencia de Deos para salvação, de todo aquelle que crê, primeiramente do Judeo, e tambem do Grego.
17 Porque nelle se descobre a Justiça de Deos de fé em fé: como está escrito: mas o justo viverá da fé.
18 Porque a ira de Deos se manifesta do ceo sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detem a verdade em injustiça.
19 Porquanto o que de Deos se pode conhecer, nelles está manifesto: por que Deos lho manifestou.
20 Porque suas cousas invisiveis, assim sua eterna potencia, como sua divindade, se entendem, e claramente se vêem, pelas creaturas, desde a creação do mundo, para que fiquem inexcusaveis.
21 Porquanto conhecendo a Deos, o não glorificárão como a Deos, nem lhe dérão graças: antes em seus discursos se esvaecérão, e seu coração nescio se entenebreceo.
22 Publicando-se por sabios, se tornárão loucos.
23 E mudárão a gloria do Deos incorruptivel em semelhança de imagem de homem corruptivel, e de aves, e de animaes de quatro pés, e de reptis.
24 Pelo que tambem Deos os entregou ás concupiscencias de seus coraçoens em immundicia, para envilecérem seus corpos entre si.
25 Como aquelles que mudárão a verdade de Deos em mentira, e honrarão e servirão á creatura mais que ao Creador, que deve ser bemdito eternamente, Amen.
26 Pelo que Deos os entregou a affectos infames. Porque até suas mulheres mudarão o uso natural, no contrario á natureza.
27 E semelhantemente tambem os machosdeixando o uso natural da mulher, se accendêrão em sua sensualidade huns para com os outros, commettendo torpeza machos com machos, e em si mesmos recebendo a recompensa que convinha a seu erro.
28 E como a elles lhes não pareceo bem de reconhecerem a Deos, assim os entregou Deos em hum perverso sentido, para fazerem cousas que não convém.
29 Cheios de toda a iniquidade, fornicação, malicia, avareza, maldade: cheios de inveja, homicidio, contenda, engano, malignidade.
30 Malsins, detractores, aborrecedores de Deos, injuriadores, soberbos, presumptuosos, inventores de males, desobedientes a pais e a mãis:
31 Sem entendimento, quebrantadores de concertos, sem affecto natural, irreconciliaveis, sem misericordia.
32 Que sabendo o juro de Deos, (a saber que os que taes cousas fazem, são dignos de morte,) não somente as fazem, mas tambem se agradão dos que as fazem.

CAPITULO 2.

1 PORTANTO inexcusavel es, ó homem, quem quer que sejas, que aos outros julgas; porque naquilo que ao outro julgas, a ti mesmo te condemnas; pois tu que aos outros julgas, fazes as mesmas cousas.
2 E bem sabemos que o juizo de Deos he segundo verdade, sobre aquelles que taes cousas fazem.
3 E cuidas tu, ó homem que julgas aos que taes cousas fazem, que fazendo-as tu, escaparás do juizo de Deos?
4 Ou desprezas tu as riquezas de sua benignidade, e paciencia, e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deos te encaminha a arrependimento?
5 Mas segundo tua dureza, e teu coração impenitente, enthesouras ira para o dia da ira, e da manifestação do justo juizo de Deos.
6 O qual recompensará a cada hum segundo suas obras:
7 A saber aos que, com perseverança em bemfazer, procurão gloria, e honra, e incorrupção; a vida eterna:
8 Mas aos que são contenciosos, e desobedientes á verdade, e obedientes á injustiça; indignação, e ira.
9 Tribulação e angustia sobre toda alma do homem que obra o mal, primeiramente do Judeo, e tambem do Grego:
10 Porém gloria, e honra, e paz a qualquer que obra o bem: primeiramente ao Judeo, e tambem ao Grego
11 Porque não ha aceitação de pessoas acerca de Deos.
12 Porque todos os que sem Lei peccárão, sem Lei tambem perecerão: e todos os que debaixo da Lei peccárão, pela Lei serão julgados,
13 (Porque não os ouvidores da Lei são justos diante de Deos: mas os obradores da Lei hão de ser justificados.
14 Porque quando as Gentes, que não tem a Lei, fazem naturalmente as cousas que são da Lei: estas, não tendo Lei, para si mesmas são Lei.
15 Como aquelles que mostrão a obra da Lei escrita em seus coraçoens, testificando juntamente sua consciencia, e accusando-se, ou tambem accusando-se entre si seus pensamentos.)
16 No dia em que Deos ha de julgar os segredos dos homens por Jesu-Christo, segundo meu Evangelho.
17 Vês aqui tu te chamas por sobrenome Judeo, e te repousas na Lei, e te glorias em Deos:
18 E sabes sua vontade, e approvas as cousas discordantes, sendo instruido pela Lei.
19 E confias que es guia dos cegos, luz dos que estão em trevas:
20 Instruidor dos nescios, Mestre dos ignorantes, e que tens a forma da sciencia, e da verdade na Lei.
21 O que pois ensinas a outro, a ti mesmo não ensinas? o que pregas que não se ha de furtar, furtas?
22 O que dizes que não se ha de adulterar, adulteras? o que abominas os idolos, commettes sacrilegio?
23 O que te glorias na Lei, deshonras a Deos pela transgressão da Lei?
24 Porque blasfemado he o nome de Deos por causa de vósoutros entre as Gentes, como está escrito.
25 Porque bem he a circuncisão proveitosa, se tu guardares a Lei: porém se tu es transgressor da Lei, tua circuncisão se torna em incircuncisão.
26 Pois se a incircuncisão guardar os direitos da Lei, não será por ventura sua incircuncisão reputada por circuncisão?
27 E se o que de natureza he incircuncisão cumpre a Lei, não te julgará por ventura a ti, que pela letra e circuncisão es transgressor da Lei?
28 Porque não he Judeo, o que em publico o he; nem circuncisão, a que em publico o he na carne:
29 Mas Judeo he, o que em occulto o he, e circuncisão, a que o he de coração, em espirito, e não na letra: cujo louvor não vem dos homens, senão de Deos.

CAPITULO 3.

1 QUAL he logo a vantagem do Judeo? Ou qual a utilidade da circuncisão?
2 Muita em toda maneira. Porque, quanto ao primeiro, as palavras de Deos lhes forão confiadas.
3 Pois que? Se alguns forão incredulos, aniquilará sua incredulidade a fé de Deos?
4 Em maneira nenhuma: antes seja Deos verdadeiro, e todo homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando julgares.
5 E se nossa injustiça encarece a justiça de Deos, que diremos? Sera por ventura Deos injusto, trazendo ira sobre nós? (Como homem falo.)
6 Em maneira nenhuma: d’outro modo, como julgará Deos ao mundo?
7 Porque se a verdade de Deos, por minha mentira, para sua gloria foi mais abundante, porque ainda tambem sou julgado como peccador?
8 E não dizemos nós antes, (como semos blasfemados, e como alguns dizem que dizemos:) Façamos males, para que venhão bens? Cuja condemnação he justa.
9 Pois que? Somos nós mais excellentes? em maneira nenhuma; porque já d’antes accusado temos, assim a Judeos, como a Gregos, que todos estão debaixo de peccado:
10 Como está escrito: Não ha justo, nem ainda hum.
11 Não ha ninguem que entenda, não ha ninguem que busque a Deos.
12 Todos se apartárão, e juntamente forão feitos inuteis: não ha quem bem faça, não ha nem ainda até hum.
13 Sepulcro aberto he sua garganta: Com suas linguas tratão enganosamente: Peçonha de aspides está debaixo de seus beiços:
14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura.
15 Seus pés são ligeiros para derramar sangue.
16 Destruição e miseria ha em seus caminhos.
17 E o caminho de paz não conhecerão.
18 Não ha temor de Deos diante de seus olhos.
19 Ora nós sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que toda boca se tape, e todo o mundo seja condemnaveldiante de Deos.
20 Pelo que nenhuma carne será justificada diante delle pelas obras da Lei. Porque pela Lei he o conhecimento do peccado.
21 Mas agora se manifestou a justiça de Deos sema Lei, tendo testemunho da Lei, e dos Prophetas.
22 Convém a saber a justiça de Deos pela fé de Jesu-Christo, para todos, e sobre todos os que crêm: porque não ha differença.
23 Porque todos peccárão, e destituidos estão da gloria de Deos.
24 Sendo justificados gratuitamente por sua graça, pela redempção que está em Christo-Jesu:
25 Ao qual Deos propôz por reconciliação pela fé em seu sangue, para demonstração de sua justiça, pela remissão dos peccados d’antes commettidos, sob a paciencia de Deos.
26 Para demonstração de sua justiça neste presente tempo, para que elle seja justo, e o que justifica ao que he da fé de Jesus.
27 Aonde está logo a jactancia? excluida he. Por qual Lei? das obras? não: senão pela Lei da fé.
28 Assim que concluimos, que o homem he justificado pela fé, sem as obras da Lei.
29 He Deos por ventura somente Deos dos Judeos? e não o he tambem das Gentes? certamente que tambem o he das Gentes.
30 Porquanto hum só Deos ha, o qual justificará da fé á circuncisão, e pela fé á incircuncisão.
31 Desfazemos logo a Lei pela fé? em maneira nenhuma; antes estabelecemos a Lei.

CAPITULO 4.

1 QUE diremos logo, que Abraham nosso pai segundo a carne alcançou?
2 Porque se Abraham foi justificado pelas obras, gloria tem, mas não acerca de Deos.
3 Porque, que diz a Escritura? e creo Abraham a Deos, e foi-lhe imputado por justiça.
4 Ora áquelle que obra, não lhe he o galardão imputado segundo graça, mas segundo divida.
5 Porém áquelle que não obra, mas crê naquelle que justifica ao impio, sua fé lhe he imputada por justiça.
6 Como tambem David pronuncia bemaventurado ao homem, a quem Deos imputa a justiça sem as obras:
7 Dizendo, Bemaventurados aquelles, cujas maldades são perdoadas, e cujos peccados são cobertos:
8 Bemaventurado o homem, a quem o Senhor não imputa o peccado.
9 Pois está esta pronunciação de bemaventurança somente na circuncisão, ou tambem na incircuncisão? Porque dizemos, que a fé a Abraham foi imputada por justiça.
10 Como pois lhe foi imputada? estando na circuncisão, ou na incircuncisão? não na circuncisão, senão na incircuncisão.
11 E recebeo o sinal da circuncisão, por sello da justiça da fé que está na mcircuncisão, para que fosse pai de todos os que crém, estando na incircuncisão, afim que tambem a justiça lhes seja imputada:
12 E fosse pai da circuncisão, a saber daquelles que não somente são da circuncisão, mas que tambem andão em as pisadas da fé de nosso pai Abraham, que fóra na incircuncisão.
13 Porque não pela Lei foi feita a Abraham, ou á sua semente a promessa de que seria herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé.
14 Porque se os que são da Lei, herdeiros são, vã he logo a fé, e aniquilada he a promessa.
15 Porque a Lei obra ira. Porque aonde não ha Lei, tambem não ha transgressão.
16 Portanto he pela fé, para que seja segundo graça; afim que a promessa seja firme a toda a semente, não somente á que he da Lei, mas tambem á que he da fé de Abraham, o qual he Pai de nós todos:
17 (Como está escrito: Por pai de muitas gentes te puz) perante aquelle no qual creo, a saber Deos, que vivifica aos mortos, e chama as cousas que não são, como que se já fossem.
18 O qual com esperança creo contra esperança, que seria feito pai de muitas Gentes, conforme ao que lhe fôra dito: Assim será tua semente.
19 E não se enfraquecendo na fé, não attentou para seu proprio corpo ja amortecido, pois já era de quasi cem annos, nem tão pouco que a madre de Sara já estava amortecida.
20 E não duvidou da promessa de Deos por desconfiança: mas foi esforçado na fé, dando gloria a Deos:
21 E estando certissimo de que o que tinha promettido, tambem era poderoso para o fazer.
22 Pelo que tambem lhe foi imputado por justiça.
23 Ora não só por elle está escrito, que lhe fosse imputado:
24 Mas tambem por nós, aos quaes tambem será imputado, a saber aos que crêm naquelle que resuscitou os mortos a Jesus nosso Senhor.
25 O qual foi entregue por nossos peccados, e resuscitou para nossa justificação.

CAPITULO 5.

1 SENDO pois justificados pela fé, temos paz para com Deos, por nosso Senhor Jesu-Christo.
2 Pelo qual tambem temos entrada pela fé a esta graça, em a qual firmes estamos, e nos gloriamos na esperança da gloria de Deos.
3 E não somente isto, mas tambem nos gloriamos nas tribulaçoens: sabendo que a tribulação obra paciencia:
4 E a paciencia experiencia, e a experiencia esperança.
5 E a esperança não confunde, porquanto o amor de Deos está derramado em nossos coraçoes pelo Espirito Santo, que nos he dado.
6 Porque Christo, estando nós ainda fracos, morreo a seu tempo pelos impios.
7 Porque apenas morrerá alguem por hum justo: porque pelo bom poderá ser que alguem ousará tambem morrer.
8 Mas Deos encaréce sua caridade para comnosco, em que Christo por nós morreo, sendo nós ainda peccadores.
9 Logo muito mais agora, sendo ja justificados em seu sangue, seremos por elle salvos da ira.
10 Porque se sendo nós ainda inimigos, fomos reconciliados com Deos pela morte de seu Filho, muito mais, sendo já reconciliados, seremos salvos por sua vida.
11 E não somente isto, mas tambem nos gloriamos em Deos por nosso Senhor Jesu-Christo: pelo qual agora alcançamos a reconciliação.
12 Pelo que, como por hum homem o peccado entrou no mundo, e pelo peccado a morte, assim tambem a morte passou a todos os homens,naquelle em que todos peccárão.
13 Porque até a Lei estava o peccado no mundo: porém o peccado não he imputado, não havendo Lei.
14 Mas a morte reinou desde Adam até Moyses, até sobre aquelles que não peccárão á semelhança da transgressão de Adam, o qual he figura daquelle que havia de vir.
15 Mas não he o dom gratuito, como a offensa. Porque se pela offensa de hum muitos morrerão, muito mais a graça de Deos, e o dom pela graça que he de hum homem Jesu-Christo, tem abundado sobre muitos.
16 E não he o dom como a offensa por hum que peccou. Porque bem he a culpa de numa só offensa para condemnação: mas o dom gratuito he de muitas offensas para justificação.
17 Porque se pela offensa de hum, a morte reinou por aquelle hum; muito mais os que recebem a abundancia da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por este hum. a saber Jesu-Christo.
18 Assim que como por huma offensa veio a culpa sobre todos os homens para condemnação, assim tambem por huma justiça vem a graça sobre todos os homens para justificação de vida.
19 Porque como pela disobediencia daquelle hum homem, muitos forão feitos peccadores; assim pela obediencia deste hum, muitos serão feitos justos.
20 Porém de mais disto entrou a Lei, para que a offensa abundasse: mas onde o peccado abundou, ahi sobre abundou a graça.
21 Para que como o peccado reinou para morte, assim reinasse tambem a graça por justiça para vida eterna, por Jesu-Christo Senhor nosso.

CAPITULO 6.

1 QUE diremos logo? Permaneceremos em peccado, para que a graça abunde?
2 Em maneira nenhuma. Nós que ao peccado estamos mortos, como ainda nelle viveremos?
3 Ou não sabeis que todos quantos somos baptizados em Jesu-Christo, em sua morte baptizados somos?
4 Assim que estamos sepultados com elle pelo baptismo na morte: para que como Christo resuscitou dos mortos para gloria do Pai, assim andemos nós tambem em novidade de vida.
5 Porque se com elle fomos feitos huma mesma planta na conformidade de sua morte, tambem o seremos na conformidade de sua resurreição.
6 Sabendo isto, que nosso velho homem com elle foi crucificado, para que o corpo do peccado seja desfeito: para que mais ao peccado não sirvamos.
7 Porque o que já he morto, justificado está do peccado.
8 Ora se já com Christo morremos, cremos que tambem com elle viveremos.
9 Sabendo que havendo Christo resuscitado dos mortos, já mais não morre: já a morte mais se não ensenhorea delle.
10 Pois porque morreo, de huma vez morreo para o peccado: e porque vive, para Deos vive.
11 Assim tambem vósoutros, fazei conta que em verdade ja ao peccado estais mortos: mas a Deos vivendo em Jesu-Christo Senhor nosso.
12 Portanto não reine o peccado em vosso corpo mortal, para lhe obedecer em suas concupiscencias.
13 Nem tão pouco apresenteis vossos membros ao peccado por instrumentos de iniquidade: mas apresentai-vos a Deos, como sendo de mortos feitos vivos, e apresentai vossos membros por armas de justiça a Deos.
14 Porque o peccado não se ensenhoreará de vósoutros; pois não estais debaixo da Lei, senão debaixo da graça.
15 Pois que? Peccaremos. porquanto não estamos debaixo da Lei, senão debaixo da graça? em maneira nenhuma.
16 Não sabeis vós, que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquelle a quem obedeceis, ou do peccado para morte, ou da obediencia para justiça?
17 Porém graças a Deos, que bem fostes vós servos do peccado: mas que agora de coração obedecestes a forma da doutrina, a que estais entregues:
18 E sendo libertos do peccado, estais feitos servos da justiça.
19 Como homem falo, pela fraqueza de vossa carne. Que como apresentastes vossos membros para servirem á immundicia, e á maldade para maldade: assim apresentai agora vossos membros para servirem á justiça em santificação.
20 Porque quando ereis servos de peccado, livres estaveis da justiça.
21 Pois que fruto tinheis então das cousas, de que agora vos envergonhais? porque o fim dellas he a morte.
22 Mas agora, libertos do peccado, e feitos servos de Deos, tendes vosso fruto em santificação, e por fim a vida eterna.
23 Porque o salario do peccado he a morte: mas o dom gratuito de Deos he a vida eterna, por Jesu-Christo Senhor nosso.

CAPITULO 7.

1 NÃO sabeis vós, irmãos, (porque falo com os que a Lei entendem) que a Lei se ensenhorea do homem todo o tempo que vive?
2 Porque a mulher que está sob o marido, vivendo o marido, esta-lhe obrigada pela Lei: porém morto o marido, livre está da Lei do marido.
3 Assim que vivendo o marido, será chamada adultera, se fór de outro marido; mas morto o marido, livre está da Lei: de maneira que não será adultera, se for de outro marido.
4 Assim que, irmãos meus, tambem vós mortos estais á Lei pelo corpo de Christo, para que sejais d’outro, a saber daquelle que foi resuscitado dos mortos, para que para Deos fructifiquemos.
5 Porque quando na carne estavamos, os affectos dos peccados, que são pela Lei, obravão em nossos membros, para fructificarem para a morte.
6 Mas agora livres estamos da Lei, sendo mortos áquella, em que retidos estavamos: assim que sirvamos em novidade de espirito, e não em velhice de letra.
7 Que dirémos logo? He a Lei peccado? em maneira nenhuma: antes eu não conheci o peccado, senão pela Lei: porque tão pouco soubéra euque concupiscencia era peccado, se a Lei não disséra: não cobiçarás.
8 Mas o peccado, tomando occasião pelo mandamento, em mim obrou toda concupiscencia. Porque sem a Lei está o peccado morto.
9 E sem a Lei vivi a eu algum tempo: mas vindo o mandamento, reviveo o peccado, porém eu morri.
10 E o mandamento que era para vida, me foi achado para morte.
11 Porque o peccado tomando occasião pelo mandamento, me enganou, e por elle me matou.
12 Assim que a Lei santa he, e o mandamento santo, e justo, e bom.
13 Logo tornou-se-me o bom em morte? em maneira nenhuma. Mas o peccado se me tornou em morte, para que se mostrasse ser peccado, obrando-me a morte pelo bem: afim que o peccado, pelo mandamento, se fizesse excessivamente peccante.
14 Porque bem sabemos que a Lei he espiritual: mas eu sou carnal, vendido debaixo de peccado.
15 Porque o que faço, não o approvo. Pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço.
16 E se faço o que não quero, consinto com a Lei, que he boa.
17 De maneira que agora já eu mais aquillo não faço, senão o peccado que em mim habita.
18 Porque eu sei que em mim, isto he em minha carne, não habita bem algum: porque o querer está em mim: porém effeituar o bem, não o alcanço.
19 Porque o bem que quero, não o faço, mas o mal que não quero, isso faço.
20 Ora se eu faço o que não quero, já eu o não faço senão o peccado que habita em mim.
21 Assim que acho esta Lei em mim, que quando quero fazer o bem, o mal me he proprio.
22 Porque prazer tenho na Lei de Deos segundo o homem interior.
23 Mas vejo outra Lei em meus membros, que batalha contra a Lei de meu entendimento, e me prende debaixo da Lei do peccado, que está em meus membros.
24 Miseravel homem de mim ! Quem me livrará do corpo desta morte?
25 Graças dou a Deos por Jesu-Christo Senhor nosso.
26 Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo á Lei de Deos, mas com a carne á Lei do peccado.

CAPITULO 8.

1 ASSIM que agora nenhuma condemnação ha para os que estão em Christo-Jesus, que não andão segundo a carne, mas segundo o Espirito.
2 Porque a Lei do Espirito de vida. em Christo-Jesus, me livrou da Lei do peccado, e da morte.
3 Porque o que era impossivel á Lei, porquanto pela carne estava enferma; enviando Deos a seu Filho em semelhança de carne de peccado, eisso pelo peccado, condemnou ao peccado em a carne.
4 Para que a justiça da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espirito.
5 Porque os que são segundo a carne, as cousas da carne imaginão: mas os que são segundo o Espirito, as cousas do Espirito.
6 Porque a imaginação da carne he morte; mas a imaginação do Espirito he vida e paz.
7 Porquanto a imaginação da carne he inimizade contra Deos: Pois á Lei de Deos se não sujeita: porquanto tambem não pode.
8 Portanto os que estão na carne, não podem a Deos agradar.
9 Porém vósoutros não estais na carne, senão no Espirito, se he que o Espirito de Deos habita em vós. Mas se alguem não tem o Espirito de Christo, o tal não he seu.
10 E se Christo em vósoutros está, em verdade o corpo está morto por causa do peccado; mas o Espirito he vida por causa da justiça.
11 E se o Espirito daquelle que dos mortos resuscitou a Jesus, em vós habita: aquelle que a Christo resuscitou dos mortos, tambem resuscitará a vossos corpos mortaes, por seu Espirito, que em vós habita.
12 De maneira, irmãos, que devedores somos, não á carne, para viver segundo a carne.
13 Porque se viverdes segundo a carne, morrereis: mas se pelo Espirito mortificardes as operaçoens do corpo, vivereis.
14 Porque todos quantos são guiados pelo Espirito de Deos, são filhos de Deos.
15 Porque não recebestes o Espirito de servidão, para outra vez estar em temor; porém recebestes o Espirito de adopção em filhos, pelo qual clamamos, Abba, Pai.
16 O mesmo Espirito testifica com nosso espirito, que somos filhos de Deos.
17 E se somos filhos, somos logo tambem herdeiros, herdeiros de Deos, e coherdeiros de Christo; se porém com elle padecemos, para que tambem com elle sejamos glorificados.
18 Porque para mim por certo tenho, que as afflicçõens deste presente tempo não são para contrapesar com a gloria que em nós ha de ser revelada.
19 Porque esperando, como com cabeça levantada, espera a creatura a manifestação dos filhos de Deos.
20 Porque a creatura está sujeita á vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou á vaidade.
21 Com esperança que tambem a mesma creatura será liberta da servidão de corrupção, para a liberdade da gloria dos filhos de Deos.
22 Porque bem sabemos, que toda a creatura á huma suspira, e está juntamente até agora como com dores de parto.
23 E não somente ella, mas tambem nós mesmos, que temos as primicias do Espirito, nós mesmos digo em nós mesmos suspiramos, esperando a adopção em filhos, convém a saber, a redempção de nosso corpo.
24 Porque em esperança somos salvos. Ora a esperança que se vê, não he esperança: Porque o que alguem vê, porque tambem o esperará?
25 Mas se esperamos o que não vêmos, com paciencia o esperamos.
26 E da mesma maneira tambem o Espirito a nossas fraquezas ajuda juntamente: Porque não sabemos, como convém, o que devemos orat: mas o mesmo Espirito intercede por nós com suspipiros ineffaveis.
27 E o que examina os corações, sabe qual seja a intenção do Espirito: porquanto intercede pelos santos segundo Deos.
28 E bem sabemos, que todas as cousas juntamente ajudão em bem aos que amão a Deos, a saber aos que segundo seu proposito são chamados.
29 Porque aos que d’antes conheceo, tambem os predestinou, para serem conformes á imagem de seu Filho, para que seja o primogenito entre muitos irmãos.
30 E aos que predestinou, a esses tambem chamou: e aos que chamou, a esses tambem justificou: e aos que justificou, a esses tambem glorificou.
31 Pois que diremos a estas cousas? Se Deos he por nós, quem será contra nós?
32 Aquelle que nem até a seu proprio Filho poupou, antes por nós todos o entregou: como nos não dará tambem com elle todas as cousas?
33 Quem intentará accusação contra os escolhidos de Deos? Deos he o que justifica.
34 Quem he o que condemnará? Christo he o que morreo, e o que mais he, o que tambem resuscitou: o que tambem está á mão direita de Deos: o que tambem por nos intercede.
35 Quem nos apartará do amor de Christo? Tribulação, ou angustia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
36 (Como está escrito: Porque por amor de ti todo o dia somos mortos; como ovelhas da camiceria somos estimados.)
37 Antes em todas estas cousas somos mais que vencedores, por aquelle que nos amou.
38 Porque certo estou, que nem morte, nem vida, nem Anjos, nem Principados, nem Potestades, nem o presente, nem o porvir,
39 Nem altura, nem profundeza, nem alguma outra creatura nos poderá apartar do amor de Deos, que está em Christo-Jesus Senhor nosso.

CAPITULO 9.

1 VERDADE digo em Christo, não minto, (dando-me minha consciencia juntamente testemunho pelo Espirito Santo.)
2 Que tenho grande tristeza e continuo tormento em meu coração.
3 Porque bem desejára eu mesmo ser separado de Christo por meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne:
4 Que são Israëlitas, dos quaes he a adopção em filhos, e a gloria, e os concertos, e a data da Lei, e o culto divino, e as promessas:
5 Dos quaes são os pais, e dos quaes he Christo quanto á carne, o qual he Deos sobre todos bemdito eternamente: Amen.
6 O que porém não digo como se a palavra de Deos houvesse descahida: porque nem todos os que são de Israël, porisso são Israël.
7 Nem por serem semente de Abraham porisso todos são filhos: mas em Isaac te será chamada semente.
8 Isto he, não os filhos da carne, são os filhos de Deos: mas os filhos da promessa, são contados por semente.
9 Porque esta he a palavra da promessa: Perto deste tempo virei, e Sara terá hum filho.
10 E não somente esta: mas tambem Rebecca he prova disto, quando concebeo de hum, a saber de nosso pai Isaac.
11 Porque não sendo ainda os meninos nascidos, nem bem nem mal havendo feito, para que o proposito de Deos, que he segundo a eleição, ficasse firme, não pelas obras, mas por aquelle que chama:
12 Lhe foi dito: o maior servirá ao menor.
13 Como está escrito: a Jacob amei, e a Esau aborreci.
14 Pois que diremos? Que ha injustiça ácerca de Deos? em maneira nenhuma.
15 Pois a Moyses diz: Compadecerme-hei do que me compadecer, e terei misericordia do que tiver misericordia.
16 Assim que não he do que quer, nem do que corre, senão de Deos que se compadece.
17 Porque a Escritura diz a Pharão: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti minha potencia, e para que meu nome seja denunciado em toda a terra.
18 Assim que se compadece do que quer, e endurece ao que quer.
19 Dir-me-has logo: porque peis ainda se queixa? Porque quem resistiu a sua vontade?
20 Mas antes, ó homem, quem es tu, que contestes contra Deos? Por ventura dirá a cousa formada ao que a formou; porque me fizeste assim.
21 Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para de huma mesma massa fazer hum vaso para honra, e outro para deshonra?
22 E se Deos, querendo mostrar sua ira, e dar a conhecer sua potencia, supportou com muita paciencia os vasos de ira, preparados para perdição:
23 E para dar a conhecer as riquezas de sua gloria nos vasos de misericordia, que para gloria ja d’antes preparou?
24 Aos quaes tambem chamou, convem a saber a nósoutros não someinte d’entre os Judeos, mas tambem d’entre as Gentes?
25 Como tambem diz em Oseas: ao que meu povo não era, chamarei meu povo: e á que não era amada, minha amada.
26 E será, que no lugar, aonde lhes foi dito: Vósoutros não sois meu povo, ahi serão chamados filhos do Deos vivente.
27 E tambem Isaias clama ácerca de Israël: Ainda que o numero dos filhos de Israël fosse como a arêa do mar, o restante será salvo.
28 Porque o Senhor dá fim, e abrevia o negocio em justiça: pois fará hum negocio abreviado sobre a terra.
29 E como Isaias d’antes disse: Se o Senhor Zebaoth nos não deixara semente, como Sodoma fôramos feitos, e a Gomorrha seriamos semelhantes.
30 Pois que diremos? Que as Gentes que não buscavão a justiça, alcançárão a justiça? Sim: porém a justiça que he pela fé.
31 Mas Israël, que buscava a Lei da justiça, não chegou á Lei da justiça.
32 Porque? Porque a buscavão não pela fé, mas como pelas obras da Lei: porque tropeçárão na pedra de tropeço.
33 Como esta escrito: eis que em Sião ponho a pedra de tropeço, e a rocha de escandalo; e todo aquelle que crêr nella, não será confundido.

CAPITULO 10.

1 IRMÃOS, quanto á boa affeição de meu coração, e á oração que faço a Deos por Israël, he para sua salvação.
2 Porque testemunho lhes dou, de que tem zelo de Deos, mas não com entendimento.
3 Porque não conhecendo a justiça de Deos, e procurando estabelecer sua propria justiça, se não sujeitão á justiça de Deos.
4 Porque o fim da Lei he Christo, para justiça de todo aquelle que crê.
5 Porque Moyses descreve a justiça que he pela Lei dizendo: o homem que fizer estas cousas, viverá por ellas.
6 Mas a justiça que he pela fé, diz assim: Não digas em teu coração, quem subirá ao Ceo? isso he trazer de riba a Christo.
7 Ou, quem descerá ao abysmo? isso he tornar a trazer dos mortos a Christo.
8 Porém que diz? Junto a ti a palavra está em tua boca, e em teu coração. Esta he a palavra da fé, que prégamos.
9 A saber, Se com tua boca confessáres ao Senhor Jesus, e em teu coração crêres, que Deos o resuscitou dos mortos, serás salvo.
10 Porque com o coração se crê para justiça, e com a boca se faz confissão para salvação.
11 Porque a Escritura diz: Todo aquelle que nelle crer, não será confundido.
12 Porque não ha differença, nem de Judeo, nem de Grego: porque hum mesmo he o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocão.
13 Porque todo aquelle que invocar o nome do Senhor, será salvo.
14 Como invocarão logo áquelle em quem não crêrão? e como crerão naquelle de quem não ouvirão? e como ouvirão sem haver quem lhes prégue?
15 E como prégarão se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos são os pés dos que denuncião a paz, dos que denuncião as cousas boas!
16 Mas não todos obedecérão ao Evangelho: porque Isaias diz: Senhor, quem creo a nossa prégagação?
17 Assim que a fé he pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deos.
18 Mas digo: porventura não o ouvirão? antes certo por toda a terra sahio seu sonido, e suas palavras até os cabos do mundo.
19 Mas digo:porventura não o conheceo Israël? primeiramente Moyses diz: a ciumes vos provocarei com aquelles que não são povo: com gente ignorante vos provocarei a ira.
20 E Isaias se atreve, e diz: achado fui dos que me não buscavão; manifesto fui aos que por mim não perguntavão.
21 Mas contra Israël diz: Todo o dia estendi minhas mãos a hum povo rebelde e ontradizente.

CAPITULO 11.

1 DIGO pois: porventura rejeitou Deos a seu povo? em maneira nenhuma: porque tambem eu sou Israëlita, da semente de Abraham, da tribu de Benjamin.
2 Deos não rejeitou a seu povo, ao qual d’antes conheceo. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias? Como fala a Deos contra Israël, dizendo;
3 Senhor, a teus Prophetas matárão, e a teus altares derribarão: e eu só fiquei, e buscão minha alma.
4 Mas que lhe diz a divina resposta? Ainda sete mil varoés me reservei, que não dobrarão os joelhos diante de Baal.
5 Assim que tambem agora neste tempo ficou hum restante, segundo a eleição da graça.
6 E se he por graça, ja não he pelas obras: d’outra maneira a graça ja não he graça. E se he pelas obras, ja não he por graça: d’outra maneira a obra ja não he obra.
7 Pois que? o que Israël busca, não o alcançou: mas os eleitos o alcançarão, e os outros forão endurecidos.
8 (Como esta escrito: Deo-lhes Deos espirito de profundo somno: olhos para não ver, e ouvidos para não ouvir) até o dia de hoje.
9 E David diz: Sua mesa se lhes torne em laço, e em armadilha, e em tropeço, e por sua retribuição.
10 Seus olhos se escurêção para não verem, e as costas lhes corcovem continuamente.
11 Digo pois: Porventura tropeçárão para que cahissem? em maneira nenhuma: mas por sua queda veio a salvação ás Gentes, para os provocar a ciumes.
12 E se sua queda he a riqueza do mundo, e sua diminuição a riqueza das Gentes, quanto mais sua plenidão?
13 Porque comvosco falo, Gentes, porem quanto das Gentes sou Apostolo, meu ministerio illustro.
14 Por ver se de alguma maneira aos de minha carne provocar possa a ciumes, e salvar a alguns delles.
15 Porque se sua rejeição he a reconciliação do mundo, qual será o recebimento, senão vida d’entre os mortos?
16 E se as primicias são santas, tambem a massa o he: e se a raiz he santa, tambem os ramos o são.
17 E se alguns dos ramos forão quebrados, e sendo tu azambugeiro, em lugar delles foste enxertado, e feito participante da raiz, e da grossura da oliveira:
18 Não te glories contra os ramos: e se contra elles te gloriares, não es tu o que sustentas a rais, senão a raiz a ti.
19 Dirás pois: os ramos forão quebrados para que eu fosse enxertado.
20 Bem; por incredulidade forão quebrados, e tu por fé estás em pé: não presumas, mas teme.
21 Porque se Deos aos ramos naturaes não perdoou, olha que por ventura tambem a ti te não perdoe.
22 Olha pois a benignidade e severidade de Deos: sua severidade sobre os que cahirão, porem sua benignidade sobre ti, se permaneceres na benignidade: d’outra maneira tambem tu serás cortado.
23 Porem tambem elles, se não permanecêrem na incredulidade, serão enxertados: porque poderoso he Deos, para os tornar a enxertar.
24 Porque se tu foste cortado do natural azambugeiro, e contra natureza enxertado na boa oliveira; quanto mais estes, que são os naturaes, serão enxertados em sua propria oliveira.
25 Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo, (para que não sejais sabios em vós mesmos:) a saber que o endurecimento em parte veio sobre Israël, até que entre a plenidão das Gentes.
26 E assim todo Israël será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará as impiedades de Jacob.
27 E este meu concerto será para com elles, quando eu tirar seus peccados.
28 Assim que, quanto ao Evangelho, inimigos são, por causa de vósoutros: mas quanto á eleição, amados, por causa dos Pais.
29 Porque os dons gratuitos, e a vocação de Deos, são sem arrependimento.
30 Porque assim como vósoutros tambem antigamente fostes desobedientes a Deos, porem agora alcançastes misericordia pela desobediencia destes:
31 Assim tambem agora estes forão desobedientes, para tambem alcançarem misericordia por vossa misericordia.
32 Porque Deos encerrou a todos debaixo da desobediencia, para de todos haver misericordia.
33 O’ profundidade das riquezas, assim da sabedoria como da sciencia de Deos! Quão inescrutaveis são seus juizos, e investigaveis seus caminhos!
34 Porque, quem entendeo o intento do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?
35 Ou quem a elle primeiro lhe deo, e ser-lhe ha recompensado?
36 Porque delle, e por elle, e para elle são todas as cousas: a elle pois seja a gloria eternamente: Amen.

CAPITULO 12.

1 ROGO-vos pois, irmãos, pelas compaixões de Deos, que apresenteis vossos corpos em sacrifício vivo, santo, e agradavel a Deos, que he vosso culto racional.
2 E não vos conformeis com este mundo, mas reformai-vos pela renovação de vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, e agradavel, e perfeita vontade de Deos.
3 Porque pela graça, que me he dada, digo a cada hum d’entre vósoutros; que mais não saiba do que saber convém: mas que saiba com temperança, conforme Deos repartio a cada hum a medida de fé.
4 Porque como em hum corpo temos muitos membros, e todos os membros não tem a mesma operação:
5 Assim muitos somos hum corpo em Christo: mas cada qual membros huns dos outros.
6 De modo que tendo differentes dons, segundo a graça que nos he dada;
7 Empreguemos estes dons, seia pro phecia, segundo a medida da fé: seja ministerio, em administrar: seja que alguem ensine, em ensinar:
8 Seja que alguem exhorte, em exhortar: o que reparte, em simplicidade: o que preside, com cuidado: o que exercita misericord ia,com alegria.
9 O amor seja não fingido. Aborrecei o mal, o apegai-vos ao bem.
10 Huns aos outros cordealmente vos amai com caridade fraternal: Prevenindo-vos com honra huns aos outros.
11 No cuidado não sejais vagarosos. Sêde ardentes de espirito. Servi ao Senhor:
12 Gozai-vos na esperança. Sêde pacientes na tribulação. Perseverai na oração.
13 Communicai ás necessidades dos santos: Segui a hospitalidade.
14 Bemdizei aos que vos perseguem: bemdizei, e não amaldiçoeis.
15 Alegrai-vos com os que se alegrão: e chorai com os que chorão.
16 Sêde unanimes entre vósoutros. Não affecteis cousas altivas: mas acommodai-vos ás baixas. Não sejais sabios em vos mesmos.
17 Não torneis a ninguem mal por mal: procurai as cousas honestas perante todos os homens.
18 Se for possivel quanto em vós he, paz tende com todos os homens.
19 Não vos vingueis a vós mesmos, amados, antes dai lugar á ira. Porque está escrito: minha he a vingança: eu o recompensarei, diz o Senhor.
20 Portanto se teu inimigo tiver fome, da-lhe de comer: se tiver sede, da-lhe de beber. Porque fazendo isto, brazas de fogo lhe amontoarás sobre a cabeça.
21 Não te deixes vencer do mal: mas vence ao mal com o bem.

CAPITULO 13.

1 TODA alma esteja sujeita ás Potestades superiores. Porque não ha Potestade, senão de Deos; e as Potestades que ha, são ordenadas de Deos.
2 Pelo que quem resiste á Potestade, resiste á ordenação de Deos: e os que lhe resistem, sobre si mesmos trarão condemnação.
3 Porque os Magistrados não são para temor das boas obras, senão das más. Queres tu pois não temer a Potestade? faze o bem, e terás louvor della.
4 Porque he servidora de Deos, para teu bem. Mas se mal fizéres, teme: porque não traz debalde a espada. Porque he servidora de Deos, e vingado a, para castigo do que faz mal.
5 Portanto necessario he estar sujeito, não somente pelo castigo, mas tambem pela consciencia.
6 Porque porisso tambem pagais tributos: porque são ministros de Deos, nisto mesmo perseverando.
7 Portanto dai a cada hum o que deveis: a quem tributo, tributo: a quem renda, renda: a quem temor, temor: a quem honra, honra.
8 A ninguem nada devais, senão que vos ameis huns aos outros: Porque quem ama a outro, cumprio a Lei.
9 Porque isto: não adulterarás: não matarás: não furtarás não dirás falso testemunho: não cobiçarás: E se ha outro algum mandamento, nesta palavra summariamente se comprehende, a saber nesta; Amarás a teu proximo como a ti mesmo.
10 A caridade não faz mal ao proximo. Assim que o cumprimento da Lei he a caridade.
11 E isto tanto mais, sabendo o tempo, que ja he hora de nos despertarmos do somno: porque a saivação mais perto está agora de nós, do que quando primeiro crêmos.
12 A noite he passada, e o dia he chegado. Lançemos pois de nós as obras das trevas, e vistamos-nos das armas da luz.
13 Andemos honestamente, como de dia: não em glutonarias, nem em borracheiras: não em camas, nem em dissoluçoens: não em pendencias, nem em inveja:
14 Mas vesti-vos do Senhor Jesu-Christo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscencias.

CAPITULO 14.

1 ORA quanto ao que he enfermo na fé, recebei-o, porem não em contendas de disputas.
2 Porque hum crê que de tudo se pode comer, e outro, que he enfermo, come hortaliça.
3 O que come, não despreze ao que não come, e o que não come, não julgue ao que come: Porque Deos o tomou por seu.
4 Quem es tu, que julgas ao servo alheio? Para seu proprio Senhor está em pé, ou cahe: porém firmado será; porque poderoso he Deos para o firmar.
5 Bem faz hum differença entre dia e dia, mas outro todos os dias estima iguaes. Cada hum em seu proprio animo esteja seguro inteiramente.
6 Aquelle que faz caso do dia, o faz para o Senhor; e o que não faz caso do dia, o não faz para o Senhor. O que come, come para o Senhor, porque dá graças a Deos: e o que não come, não come para o Senhor, e dá graças a Deos.
7 Porque nenhum de nós vive para si: e nenhum morre para si.
8 Porque seja que vivamos, para o Senhor vivemos: seja que morramos, para o Senhor morremos. Assim que seja que vivamos, seja que morramos, do Senhor somos.
9 Porque para isto tambem Christo morreo, e resuscitou, e tornou a viver, para se ensenhorear assim dos mortos, como dos vivos.
10 Mas tu, porque julgas a teu irmão? ou tu tambem, porque desprezas a teu irmão? Porque todos havemos de ser apresentados ante o Tribunal de Christo.
11 Porque escrito está: Vivo eu, diz o Senhor, que todo joelho se dobrará diante de mim: e toda lingua confessará a Deos.
12 De maneira que cada hum de nós dará conta de si mesmo a Deos.
13 Assim que nos não julguemos mais huns aos outros: mas antes julgai isto, a saber, que nenhum tropeço, ou escandalo ponhais ao irmão.
14 Eu sei, e certo estou em o Senhor Jesus, que nenhuma cousa de si mesma he immunda, senão que para aquelle que alguma cousa estima ser immunda, para esse he immunda.
15 Mas se teu irmão se contrista por amor da comida, ja não andas conforme á caridade. Não destruas com tua comida aquelle por quem Christo morreo.
16 Não seja pois vosso bem blasfemado.
17 Porque o Reino de Deos não he comida nem bebida; senão justiça, e paz, e alegria pelo Espirito Santo.
18 Porque quem nisto serve a Christo, agradavel he a Deos, e acceito aos homens.
19 Sigamos pois as cousas que servem para a paz, e para a edificação de huns para com os outros.
20 Não destruas a obra de Deos por amor da comida. Verdade he que todas as cousas são limpas, mas mao he para o homem que come com escandalo.
21 Bom he não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outra cousa alguma em que teu irmão tropéce, ou se escandalize, ou se enfraqueça.
22 Tens tu fe? tem-a em ti mesmo diante de Deos. Bemaventurado aquelle que a si mesmo, em o que approva, se não condemna.
23 Mas o que duvida, se come, ja está condemnado, porque não come por fé: e tudo o que não he de fé, peccado he.

CAPITULO 15.

1 MAS nósoutros, que somos fortes, devemos supportar as fraquezas dos fracos, e não nos agradar a nós mesmos.
2 Portanto cada qual de nós agrade a seu proximo em bem, para edificação.
3 Porque tambem Christo se não agradou a si mesmo; mas como está escrito: Sobre mim cahirão as injurias dos que te injurião.
4 Porque todas as cousas que d’antes forão escritas, para nosso ensino forão escritas: Para que por paciencia e consolação das Escrituras tenhamos esperança.
5 Ora o Deos de paciencia e consolação vos dê, que entre vós sintais huma mesma cousa, segundo ChristoJesus.
6 Para que concordemente com huma boca glorifiqueis ao Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo.
7 Portanto recebei huns aos outros, como tambem Christo nos recebeo para glorid de Deos.
8 Digo pois, que Christo-Jesus foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deos, para ratificar as promessas feitas aos pais:
9 E para que as Gentes a Deos glorifiquem por causa da misericordia; como está escrito. Portanto eu te confessarei entre as Gentes, e psalmodiarei a teu nome.
10 E outra vez diz: Alegrai-vos Gentes com seu povo.
11 E outra vez: Louvai ao Senhor todas as Gentes, e celebrai-o todos os povos.
12 E outra vez diz Isaias; huma raiz de Jesse ha de haver, e hum que se alevantará para reger as Gentes: nelle as Gentes esperarão.
13 Ora o Deos de esperança vos encha de todo gozo, e paz, em a fé, para que em esperança abundeis pela virtude do Espirito Santo.
14 Porem irmãos meus, certo estou tambem de vósoutros, que tambem cheios estais de bondade, recheios de todo conhecimento, e poderosos sois para tambem huns aos outros vos amoestardes.
15 Mas, irmãos, em parte mais atrevidamente vos escrevi, como trazendo-vos outra vez isto á memoria, pela graça que de Deos me foi dada:
16 Para que seja ministro de Jesu-Christo entre as Gentes, administrando o Evangelho de Deos, para que a offerta das Gentes seja agradavel, santificada pelo Espirito Santo.
17 Assim que tenho gloria em Jesu-Christo, nas cousas que pertencem a Deos.
18 Porque não ousaria dizer alguma cousa, que Christo por mim não tenha feito, para obediencia das Gentes, por palavra e por obra:
19 Com potencia de sinaes e prodigios, e pela virtude do Espirito de Deos: de maneira que desde Jerusalem, e pelas terras de redor, até Illyrico, cumpri o Evangelho de Christo.
20 E assim affectuosamente me esforcei a denunciar o Evangelho, não aonde Christo se houvesse nomeado, para que não edificasse sobre fundamento alheio:
21 Antes, como está escrito: Os a quem delle não foi denunciado, o verão, e os que o não ouvirão, o entenderão.
22 Pelo que tambem muitas vezes fui impedido de vir a vósoutros.
23 Mas agora, nestas partes não tenho mais lugar, e ja por muitos annos tive grande desejo de vir a vósoutros:
24 Quando partir para Hespanha, virei a vósoutros: porque espero que de passagem vos verei, e para lá de vósoutros serei acompanhado, depois de primeiro em parte me fartar de vossa presença.
25 Mas por agora vou a Jerusalem, para lá administrar aos santos.
26 Porque aos de Macedonia e Achaia pareceo bem fazer huma contribuição para os pobres de entre os santos, que estão em Jerusalem.
27 Porque assim bem lhes pareceo, e tambem lhes são devedores. Porque se as Gentes forão participantes de seus bens espirituaes, tambem lhes devem administrar os carnaes.
28 Assim que concluido isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vósoutros, irei á Hespanha.
29 E bem sei que vindo a vósoutros, virei com plenidão da bemdição do Evangelho de Christo.
30 E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesu-Christo, e pela caridade do Espirito, que comigo por mim combatais em oraçoes a Deos.
31 Para que seja livre dos rebeldes que estão em Judea, e que esta minha administração, que a Jerusalem faço, seja aceite aos santos.
32 Para que, pela vontade de Deos, com alegria venha a vósoutros, e comvosco me possa recrear.
33 E o Deos de paz seja com todos vosoutros. Amen.

CAPITULO 16.

1 E ENCOMMENDO-vos a Phebe nossa irmã, a qual he ministra da Igreja, que está em Cenchrea.
2 Para que a recebais em o Senhor, como convem aos santos; e lhe assistais em qualquer cousa, que de vos necessitar. Porque a muitos tem hospedado, como tambem a mim mesmo.
3 Saudai a Priscilla, e a Aquila, meus cooperadores em Christo-Jesus:
4 Que pozérão seu pescoço por minha vida; aos quaes não so eu dou as graças, mas tambem todas as Igrejas das Gentes.
5 Saudai tambem á Igreja que está em sua casa. Saudai a Epeneto meu amado, que he as primicias de Achaia em Christo.
6 Saudai a Maria, que trabalhou muito por nós.
7 Saudai a Andronico, e a Junia, meus parentes, e meus companheiros na prizão, que são insignes entre os Apostolos, e tambem forão antes de mim em Christo.
8 Saudai a Amplias meu amado em o Senhor.
9 Saudai a Urbano nosso cooperador em Christo, e a Staehys meu amado.
10 Saudai a Apelles, approvado em Christo. Saudai aos que são da famlia de Aristobulo.
11 Saudai a Herodião, meu parente. Saudai aos que são da familia de Narcisso, a saber aos que estão em o Senhor.
12 Saudai a Tryphena, e a Tryphosa, as quaes trabalhão em o Senhor. Saudai a Persida, a amada irmã, a qual muito trabalhou em o Senhor.
13 Saudai a Rupho o eleito em o Senhor, e a sua mãi e minha.
14 Saudai a Asyncrito, a Phlegonte, a Hermas, a Patrobas, a Hermes, e aos irmãos que estão com elles.
15 Saudai a Philologo e a Julia, a Nereo, e a sua irmã, e a Olympa, e a todos os santos que com elles estão.
16 Saudai-vos nuns aos outros com santo beijo. As Igrejas de Christo vos saudão.
17 E rogo-vos, irmãos, que attenteis pelos que fazem dissençoés e escandalos contra a doutrina, que de nos aprendestes; e delles vos desviai.
18 Porque os taes não servem a nosso Senhor Jesu-Christo, senão a seu ventre: e com suaves palavras e lisonjas enganão os corações dos simples.
19 Porque chegada he vossa obediencia ao conhecimento de todos. Assim que me gozo de vósoutros; e quero que sejais sabios em o bem, porem simples em o mal.
20 E o Deos de paz quebrantará presto a Satanás debaixo de vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja comvosco. Amen.
21 Saudão-vos Timotheo meu cooperador, e Lucio, e Jason, e Sosipater, meus parentes.
22 Eu Tercio, que esta carta escrevi, vos saudo em o Senhor.
23 Gayo meu hospede, e de toda a Igreja, vos sauda. Erasto procurador da cidade vos sauda, e mais Quarto o irmão.
24 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja com todos vósoutros. Amen.
25 Ora áquelle que he poderoso, para vos confirmar segundo meu Evangelho, e segundo a prégação de Jesu-Christo, conforme á revelação do mysterio, que foi encuberto desde os tempos dos seculos:
26 Mas agora se manifestou, e se notificou pelas Escrituras Propheticas, segundo o mandado do Deos eterno, para obediencia da fé entre todasas gentes:
27 Ao mesmo só Deos sabio seja glo ria por Jesu-Christo para todo sempre. Amen.
Escrita de Corintho aos Romanos, e enviada por Phebe ministra da Igreja de Cenchrea.

1 CORÍNTIOS.

CAPITULO 1.

1 PAULO chamado Apostolo de Jesu-Christo pela vontade de Deos, e o irmão Sosthenes:
2 A’ Igreja de Deos que está em Corintho, aos santificados em ChristoJesus, chamado santos, com todos os que em todo lugar invocão o nome de nosso Senhor Jesu-Christo, Senhor delles, e nosso:
3 Graça hajais e paz de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
4 Sempre a meu Deos graças dou por causa de vósoutros, ácerca da graça de Deos, que vos he dada em Christo-Jesus.
5 Que em todas as cousas estais enriquecidos nelle, em toda a palavra, e em todo conhecimento:
6 Como o testemunho de Jesu-Christo foi confirmado entre vósoutros.
7 De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesu-Christo.
8 E Deos tambem vos confirmará até o fim, para serdes irreprehensiveis em o dia de nosso Senhor Jesu-Christo.
9 Fiel he Deos, por quem fostes chamados a communhão de seu Filho Jesu-Christo nosso Senhor.
10 Rogo-vos porem, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesu-Christo, que todos faleis huma mesma cousa, e não haja dissenções entre vósoutros: antes estejais conjunctos em hum mesmo sentido, e em hum mesmo parecer.
11 Porque, irmãos meus, de vós me foi notificado pelos da familia de Chloés, que ha contendas entre vósoutros.
12 E isto digo, que cada hum de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apollos, e eu de Cephas, e eu de Christo.
13 Está Christo diviso? Foi Paulo por vósoutros crucificado? Ou fostes vósoutros em nome de Paulo baptizados?
14 Graças dou a Deosque a nenhum de vós baptizei, senão a Crispo, e a Gayo.
15 Para que ninguem diga, que eu tenha baptizado em meu nome.
16 Porém tambem baptizei á familia de Estephanas: No de mais não sei se a outrem alguem tenha baptizado.
17 Porque Christo não me enviou a baptizar, senão a Evangelizar: não com sabedoria de palavras, para que a cruz de Christo se não esvaeça.
18 Porque bem he a palavra da cruz loucura para os que perecem: mas para nos os que se salvão, he potencia de Deos.
19 Porque está escrito: destruirei a sapiencia dos sabios, e aniquilarei a intelligencia dos entendidos.
20 Que he do Sabio? que he do Escriba? que he do Inquiridor deste seculo? Por ventura não enlouqueceo Deos a sabedoria deste mundo?
21 Porque pois, na sabedoria de Deos, o mundo a Deos não conheceo por sabedoria, agradou a Deos salvar aos crentes pela loucura da pregação:
22 Porquanto os Judeos pedem sinal, e os Gregos buscão sabedoria.
23 Mas nósoutros prégamos a Christo crucificado, que he escandalo para os Judeos, e loucura para os Gregos.
24 Porem aos que são chamados, assim Judeos como Gregos, lhes prégamos a Christo potencia de Deos, e sabedoria de Deos.
25 Porque a loucura de Deos he mais sabia que os homens: e a fraqueza de Deos he mais forte que os homens.
26 Porque bem vêdes vossa vocação, irmãos, que não sois muitos sabios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres.
27 Mas Deos escolheo o louco deste mundo, para confundir aos sabios: e o fraco deste mundo escolheo Deos, para confundir ao forte.
28 E o vil deste mundo, e o desprezivel escolheo Deos, e o que não he, para aniquilar o que he.
29 Para que nenhuma carne se glorie perante elle.
30 Mas delle sois vós em Jesu-Christo, o qual de Deos nos foi feito sabedoria, e justiça, e santificação, e redempção:
31 Para que, como está escrito; Aquelle que se gloria, se glorie em o Senhor.

CAPITULO 2.

1 E EU irmãos, quando vim a vósoutros, não vim com excellencia de palavras, ou de sabedoria, denunciando-vos o testemunho de Deos.
2 Porque não propúz saber alguma cousa entre vósoutros, senão a Jesu-Christo, e esse crucificado.
3 E eu estive comvosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor.
4 E minha palavra, e minha pregação, não foi em palavras persuasorias de sabedoria humana, mas em demonstração de espirito e de potencia.
5 Para que vossa fé não fosse em sabedoria de homens, mas em potencia de Deos.
6 E falamos sabedoria entre os perfeitos: Porem huma sabedoria não deste mundo, nem dos Principes deste mundo, que se aniquilão:
7 Mas falamos a sabedoria de Deos, em mysterio escondida, a qual Deos, ordenou antes dos seculos para nossa gloria.
8 A qual nenhum dos Principes deste mundo conheceo. Porque se a conhecêrão, nunca crucificárão ao Senhor da gloria.
9 Mas como está escrito: As cousas que olho não vio, e ouvido não ouvio, e em coração de homem não subirão, são as que Deos preparou para os que o amão.
10 Porem Deos no-las revelou por seu Espirito. Porque o Espirito penetra todas as cousas, até as profundezas de Deos.
11 Porque quem dos homens sabe as cousas que são do homem, senão o espirito do homem, que nelle está? assim tambem ninguem sabe as cousas de Deos, senão o Espirito de Deos.
12 Porem nós não recebemos o espirito do mundo, mas o Espirito que he de Deos: para que saibamos as cousas que de Deos nos são dadas.
13 As quaes tambem falamos, não com palavras, que a sabedoria humana ensina, senão com as que ensina o Espirito santo, acommodando as cousas espirituaes ás espirituaes.
14 Mas o homem natural não comprehende as cousas que são do Espirito de Deos: porque lhe são loucura; e não as pode entender, porquanto se discernem espiritualmente.
15 Porem o espiritual bem discerne todas as cousas, mas elle de ninguem he discernido.
16 Porque quem conheceo a mente do Senhor, para que o possa instruir? mas nós temos a mente de Christo.

CAPITULO 3.

1 E EU, irmãos, não vos pude falar como a espirituaes, mas como a carnaes, como a meninos em Christo.
2 Com leite vos criei, e não com manjar; porque ainda não podieis; nem tão pouco ainda agora podeis.
3 Porque ainda sois carnaes. Porque como entre vósoutros haja inveja, e contendas, e dissençoés, porventura não sois carnaes, e andais segundo os homens?
4 Porque dizendo hum: Eu sou de Paulo, e outro, Eu de Apollos, porventura não sois carnaes?
5 Quem pois he Paulo, e quem he Apollos, senão ministros, pelos quaes crestes, e isso conforme o Senhor a cada hum deo?
6 Eu plantei, Apollos regou: mas Deos deo o crecimento.
7 Pelo que nem o que planta he alguma cousa, nem o que rega; senão Deos que dá o crecimento.
8 E o que planta, e o que rega, são hum; mas cada hum receberá seu galardão segundo seu trabalho.
9 Porque somos cooperadores de Deos: vósoutros sois lavoura de Deos, e o edificio de Deos.
10 Segundo a graça de Deos que me foi dada, puz eu como sabio architecto o fundamento; e outro edifica sobre elle: mas olhe cada hum como edifica sobre elle.
11 Porque ninguem pode pôr outro fundamento, do que ja está posto, o qual he Jesu-Christo.
12 E se alguem sobre este fundamento edificar ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palhiço;
13 A obra de cada hum se manifestará: Porque o dia a declarará; porquanto por fogo se descobre: e qual he a obra de cada hum, o fogo fará a prova.
14 Se a obra de alguem, que edificou sobre elle, permanecer; receberá galardão.
15 Se a obra de alguem se queimar, padecerá detrimento: salvar-se-ha porem o tal, todavia, como por fogo.
16 Não sabeis vós, que sois o templo de Deos; e que o Espirito de Deos habita em vós?
17 Se alguem violar o templo de Deos, Deos ao tal violará: Porque o templo de Deos he santo, o qual sois vósoutros.
18 Ninguem se engane a si mesmo: se alguem entre vósoutros neste mundo cuida ser sabio, faça-se louco, para que seja sabio.
19 Porque a sabedoria deste mundo he loucura ácerca de Deos. Porque está escrito: aos sabios apanha em sua astucia.
20 E outra vez: Conhece o Senhor os discursos dos sabios, que são vãos.
21 Pelo que ninguem se glorie em homens: porque tudo he vosso.
22 Seja Paulo, seja Apollos, seja Cephas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o porvir; tudo he vosso:
23 Porem vósoutros sois de Christo, e Christo he de Deos.

CAPITULO 4.

1 ASSIM nos estimem os homens como a ministros de Christo, e dispenseiros dos mysterios de Deos.
2 E no demais, requerse nos dispenseiros, que cada hum se ache fiel.
3 Porem a mim, mui pouco se me dá de ser julgado de vósoutros, ou de juizo algum humano: nem eu tão pouco a mim mesmo me julgo.
4 Porque em nada me sinto culpavel: mas nem porisso estou justificado: antes o que me julga, he o Senhor.
5 Assim que nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual tambem trará á luz as cousas occultas nas trevas, e manifestará os conselhos dos corações: e então cada hum terá louvor de Deos.
6 E estas cousas, irmãos, me acommodei eu, por semelhança, a mim e a Apollos por amor de vósoutros: para que em nós aprendais a não presumir mais do que está escrito: Para que por amor de outro, hum contra o outro vos não incheis.
7 Porque quem te discerne a ti? E que tens tu que não hajas recebido? E se o recebeste, porque te glorias, como se o não houvéras recebido?
8 Ja estais fartos, ja estais ricos, sem nós reinastes; e oxalá reineis, para que tambem nós reinemos comvosco.
9 Porque tenho para mim, que Deos a nós, que somos os ultimos Apostolos, tem posto á mostra; como ja condemnados á morte: pois estamos feitos espectaculo ao mundo, e aos Anjos, e aos homens.
10 Nós somos loucos por amor de Christo, mas vós sabios em Christo: Nós somos fracos, mas vós fortes: vós illustres, mas nós vis.
11 Até esta presente hora padecemos fome e sede, e estamos nus, e recebemos punhadas, e não temos certa pousada.
12 E trabalhamos, obrando com nossas proprias mãos: somos injuriados, e bemdizemos: somos perseguidos, e sofremo-lo:
13 Somos blasfemados, e rogamos: Somos feitos como o cisco do mundo, e como a rapadura de todos, até o presente.
14 Não escrevo estas cousas para vos envergonhar: mas vos amoesto como a meus amados filhos.
15 Porque ainda que tivéreis dez mil aios em Christo, comtudo não tendes muitos pais. Porque eu vos gerei em Christo-Jesus pelo Evangelho.
16 Portanto vos amoesto, que sejais meus imitadores.
17 Por esta causa vos mandei a Timotheo, que he meu amado e fiel filho em o Senhor: o qual vos lembrará meus caminhos em Christo, como por todas as partes ensino em cada Igreja.
18 Mas alguns andão inchados, como se eu não houvesse de vir a vósoutros.
19 Porem presto virei a vósoutros, se o Senhor quizer: e então entenderei, não as palavras, senão a virtude dos que andão inchados.
20 Porque o Reino de Deos não consiste em palavras, senão em virtude.
21 Que quereis? Virei a vósoutros com vara, ou com caridade e espirito de mansidão?

CAPITULO 5.

1 TOTALMENTE se ouve que entre vósoutros ha fornicação, e tal fornicação, qual nem ainda entre as gentes se nomêa: de maneira que hum tenha a mulher de seu pai.
2 E ainda estais inchados, e não vos entristecestes antes muito mais, para se tirar do meio de vósoutros o que commetteo tal feito?
3 Porem eu como ausente de corpo, mas presente de espirito, ja determinei como se estivesse presente, que o que tal assim commetteo,
4 Estando vós e meu espirito juntos, em nome de nosso Senhor Jesu-Christo, em virtude de nosso Senhor Jesu-Christo,
5 De entregar ao tal a Satanás, para destruição da carne, para que o espirito seja salvo, em o dia do Senhor Jesus.
6 Não he boa vossa jactancia. Não sabeis que hum pouco de fermento faz levedar toda a massa?
7 Alimpai pois o velho fermento, para que sejais nova massa, como estais sem fermento. Porque Christo nossa Pascoa foi sacrificado por nós.
8 Pelo que façamos festa, não em o velho fermento, nem em o fermento de maldade, e de malicia, senão em pães asmos de sinceridade e de verdade.
9 Ja na carta vos tenho escrito, que não vos mistureis com os fornicadores.
10 Não porem de todo com os fornicadores deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idolatras: Porque d’outra maneira necessario vos seria sahir do mundo.
11 Mas agora vos escrevi, que não vos mistureis, quero dizer que se algum, chamando-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idolatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador, com o tal nem ainda comais.
12 Porque, que tenho eu tambem que julgar dos que estão de fora? Não julgais vós dos que estão de dentro?
13 Mas Deos julga aos que estão de fora. Tirai pois d’entre vósoutros a este mao.

CAPITULO 6.

1 OUSA algum de vósoutros, tendo algum negocio contra outro, ir a juizo perante os injustos, e não perante os santos?
2 Não sabeis vós que os santos hão de julgar ao mundo? E se o mundo por vós he julgado, sois porventura indignos de julgar de cousas minimas?
3 Não sabeis vós que havemos de julgar aos Anjos? Quanto mais as cousas a esta vida pertencentes?
4 Assim que se tiverdes negocios de juizo, pertencentes a esta vida, ponde na cadeira aos que de menos estima são na Igreja.
5 Para vos envergonhar o digo. Não ha pois entre vósoutros sabio, nem ainda hum, que entre seus irmãos possa julgar?
6 Mas irmão com irmão vai a juizo, e isto perante infieis.
7 Assim que totalmente ja entre vósoutros ha falta, pois entre vós tendes demandas. Porque não sofreis antes a semrazão? Porque não sofreis antes o damno?
8 Mas vós mesmos fazeis a semrazão, e fazeis o damno, e isto aos irmãos.
9 Ou não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deos?
10 Não erreis: nem os fornicadores, nem os idolatras, nem os adulteros, nem os effeminados, nem os que com machos se deitão, nem os ladroes, nem os avarentos, nem os bebados, nem os maldizentes, nem os roubadores, hão de herdar o Reino de Deos.
11 E isto ereis alguns: Mas ja estais lavados, mas ja estais santificados, mas ja estais justificados em o nome do Senhor Jesus, e pelo Espirito de nosso Deos.
12 Todas as cousas me são licitas, mas nem todas as cousas convém: todas as cousas me são licitas, porém eu não deixarei sugeitar-me ao poder de ninguem.
13 Os manjares são para o ventre, e o ventre para os manjares: mas Deos os aniquilará, assim a hum, como aos outros. Porem o corpo não he para a fornicação, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo.
14 Ora tambem Deos resuscitou ao Senhor, e tambem por sua potencia nos resuscitará a nós.
15 Não sabeis vós que vossos corpos são membros de Christo? Tomarei pois os membros de Christo, e fa-loshei membros de huma meretriz? Tal não haja.
16 Ou não sabeis, que o que se ajunta com a meretriz, he hum corpo com ella? Porque os dous, diz, serão huma mesma carne.
17 Mas o que se ajunta com o Senhor, com elle hum mesmo Espirito he.
18 Fugi da fornicação: Todo peccado que o homem fizer, fora do corpo he: mas o quo fornica, contra seu proprio corpo pecca.
19 Ou não sabeis que vosso corpo he templo do Espirito Santo, o qual está em vósoutros, o qual tendes de Deos, e que não sois vossos proprios?
20 Porque caros fostes comprados: glorificai pois a Deos em vosso corpo, e em vosso espirito, os quaes são de Deos.

CAPITULO 7.

1 ORA tocante ás cousas de que me escrevestes, bom he ao homem não tocar mulher.
2 Mas por causa das fornicaçoes, tenha cada hum sua propria mulher, e cada huma tenha seu proprio marido.
3 Pague o marido á mulher a devida benevolencia, e semelhantemente a mulher ao marido.
4 A mulher não tem poder sobre seu proprio corpo, senão o marido: e tambem da mesma maneira o marido não tem poder sobre seu proprio corpo, senão a mulher.
5 Não vos defraudeis hum ao outro, senão for por consentimento de ambos por algum tempo, para que vos desoccupeis para o jejum, e para a oração: e tornai-vos outra vez a ajuntar, para que Satanás vos não tente, por causa de vossa incontinencia.
6 Isto porem digo por permissão, não por mandado.
7 Porque quizéra que todos os homens fossem como eu mesmo: mas cada hum tem seu proprio dom de Deos, hum de huma maneira, outro de outra.
8 Digo porem aos solteiros, e ás viuras, que bom lhes he, se como eu ficarem.
9 Mas se conter-se não podem, casem-se: Porque melhor he casar-se, que abrazar-se.
10 Porem aos casados mando, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não aparte do marido.
11 E se se apartar, por casar fique, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.
12 Mas aos outros digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher infiel, e ella consente em com elle habitar, não a deixe.
13 E se alguma mulher tem marido infiel, e elle consente em com ella habitar, não o deixe.
14 Porque o marido infiel he santificado pela mulher: e a mulher infiel he santificada pelo marido. Que d’outra maneira serião vossos filhos immundos: porem agora são santos.
15 Mas se o infiel se apartar, apartese. Em tal caso o irmão, ou a irmã não estão sujeitos á servidão: mas Deos vos chamou a paz.
16 Porque, que sabes tu mulher, se salvarás ao marido? ou que sabes tu marido, se salvarás a mulher?
17 Porem cada hum assim ande, como Deos lhe repartio, cada hum como o Senhor o chamou; e assim ordeno em todas as Igrejas.
18 He algum chamado, estando ja circuncidado? não esteja incircuncidado. He algum chamado estando ainda na incircuncisão? não se circuncide.
19 A circuncisão nada he, e a incircuncisão nada he, senão a guarda dos mandamentos de Deos.
20 Cada hum fique na vocação em que he chamado.
21 Es chamado sendo servo? não se te dê disso: mas se tambem te podes forrar, procura o mais.
22 Porque o que em o Senhor he chamado, sendo servo, forro he do Senhor: da mesma maneira tambem, o que he chamado, sendo livre, servo he de Christo.
23 Caros fostes comprados, não vos façais servos dos homens.
24 Irmãos, cada hum fique ácerca de Deos naquillo, em que he chamado.
25 Ora tocante ás virgens, não tenho mandado do Senhor; dou porem meu parecer, como aquelle que tenho alcançado misericordia do Senhor para ser fiel.
26 Tenho pois isto por bom, por causa da necessidade instante, que bom he ao homem estarse assim.
27 Estás liado á mulher, não busques soltura. Estás solto de mulher, não busques mulher.
28 Mas se tambem te casares, não peccas: e se a virgem se casar, não pecca. Todavia terão os taes na carne tribulação. Porem eu vos escuso.
29 Isto porem digo, irmãos, que o tempo, que resta, he breve: para que tambem os que tem mulheres, sejão como se as não tivessem:
30 E os que chorão, como se não chorassem; e os que folgão, como se não folgassem; e os que comprão, como se não possuissem,
31 E os que deste mundo usão, como se delle não abusassem. Porque a apparencia deste mundo passa.
32 E bemquizéra eu, que estivesseis sem cuidado. O solteiro tem cuidado das cousas do Senhor, como ao Senhor ha de agradar:
33 Mas o que he casado, tem cuidado das cousas do mundo, como á mulher ha de agradar.
34 A mulher casada, e a virgem são differentes: a por casar tem cuidado das cousas do Senhor, para ser santa, assim do corpo como de Espirito: mas a casada tem cuidado das cousas do mundo, como ha de agradar ao marido.
35 Isto porem digo para vosso proprio proveito; não para vos enlaçar, senão para vos guiar ao que he decente e conveniente, para sem alguma distracção bem vos apagar ao Senhor.
36 Mas se alguem lhe parece, que indecentemente trata com sua virgem, se passar a flor da idade, e assim convem fazer-se: faça o tal o que quizer, não pecca, casem-se.
37 Porem o que está firme em seu coração, não tendo necessidade, mas tem poder sobre sua propria vontade, e isto em seu coração determinou, de guardar sua virgem, bem faz.
38 Assim que o que a dá em casamento, bem faz: mas o que a não dá em casamento, melhor faz.
39 A mulher casada pela Lei está liada todo o tempo que seu marido vive: mas se seu marido falecer, livre fica, para com quem quizer se casar; com tanto que seja em o Senhor.
40 Porem mais bemaventurada he, se assim ficar, segundo meu parecer. E tambem eu cuido, que tenho o Espirito de Deos.

CAPITULO 8.

1 ORA tocante ás cousas sacrificadas aos idolos; Bem sabemos que todos temos sciencia. A sciencia incha, mas a caridade edifica.
2 E se alguem cuida saber cousa alguma, ainda nada tem conhecido, como convem conhecer.
3 Mas se algum ama a Deos, o tal delle he conhecido.
4 Assim que quanto ao comer das cousas sacrificadas aos idolos; Bem sabemos que o idolo nada he no mundo, e que não ha outro algum Deos, senão hum.
5 Porque ainda que tambem alguns haja, que se chamem Deoses, seja no ceo, seja na terra (como ha muitos Deoses e muitos Senhores),
6 Todavia nós não temos mais que hum Deos, o Pai, do qual são todas as cousas, e nósoutros para elle: e hum Senhor Jesu-Christo, pelo qual são todas as cousas, e nós por elle.
7 Mas não em todos ha esta sciencia: porem alguns até agora comem com consciencia do idolo, como de cousas sacrificadas aos idolos: e sendo sua consciencia fraca, fica contaminada.
8 Ora o manjar não nos faz agradaveis a Deos. Porque seja que comamos, nada de mais temos; e seja que não comamos, nada nos falta.
9 Mas olhai que este vosso poder não seja em alguma maneira escandalo para os fracos.
10 Porque se algum te vir a ti, que tens esta sciencia, assentado á mesa no templo dos idolos, não será a consciencia do que he fraco, induzida a comer das cousas sacrificadas aos idolos?
11 E perecerá assim, por tua sciencia, o irmão fraco, pelo qual Christo morreo?
12 Porem assim peccando contra os irmãos, e ferindo sua fraca consciencia, peccais contra Christo.
13 Pelo que, se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca ja mais comerei carne, para que a meu irmão não escandalize.

CAPITULO 9.

1 NÃO sou eu Apostolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesu-Christo Senhor nosso? Não sois vósoutros minha obra em o Senhor?
2 Se para os outros não sou Apostolo, ao menos para vósoutros o sou. Porque vós sois o sello de meu Apostolado em o Senhor.
3 Esta he minha defeza para com os que me condemnão.
4 Não temos nós poder de comer e de beber?
5 Não temos nós poder de trazer comnosco huma mulher irmã, como tambem os de mais Apostolos, e os irmãos do Senhor, e Cephas?
6 Ou só eu, e Barnabas, não temos poder de não trabalhar?
7 Quem jamais milita a seu proprio soldo? Quem planta a vinha, e não come de seu fruto? Ou quem apascenta o gado, e não come do leite do gado?
8 Digo eu isto segundo os homens? ou não diz a Lei tambem o mesmo?
9 Porque na Lei de Moyses está escrito; ao boi que trilha não liarás a boca. Porventura tem Deos cuidado dos bois?
10 Ou totalmente pornósoutros o diz? Porque por nós está isto escrito: porquanto o que lavra, com esperança deve lavrar; e o que trilha com esperança, de sua esperança deve ser participante.
11 Se nós vos semeamos as cousas espirituaes, he muito que seguemos as vossas carnaes?
12 Se outros são participantes deste poder sobre vós, porque não tanto mais nósoutros? Mas nós deste poder não usamos: antes tudo supportamos, para que não demos algum impedimento ao Evangelho de Christo.
13 Não sabeis vós, que os que administrão as cousas sagradas, do sagrado comem? E que os que de continuo estão junto ao altar, com o altar participão?
14 Assim ordenou tambem o Senhor, aos que denuncião o Evangelho, que vivão do Evangelho.
15 Porém eu de nenhuma destas cousas usei; e nem isto escrevi, para que assim se faça comigo: Porque melhor me fóra morrer, do que alguem esvaecer esta minha gloriação.
16 Porque se denunciar o Evangelho, para mim não he gloriação, pois necessidade me he imposta. E ai de mim, se não denunciar o Evangelho.
17 Porque se de boamente o faço, premio tenho: mas se de má mente, todavia a dispensação me he confiada.
18 Que premio tenho logo? a saber este, que evangelizando, proponha o Evangelho de Christo de graça, para não abusar de meu poder no Evangelho.
19 Porque estando eu livre de todos, me fiz servo de todos, por ainda ganhar a mais.
20 E me fiz aos Judeos, como Judeo, por ganhar aos Judeos: aos que estão debaixo da Lei, como se estivesse debaixo da Lei, por ganhar aos que estão debaixo da Lei.
21 Aos que estão sem Lei, como se estivesse sem Lei (não estando porém para com Deos sem Lei; mas para com Christo debaixo da Lei) por ganhar aos que estão sem Lei.
22 Fiz-me como fraco aos fracos, por ganhar aos fracos: tudo me fiz a todos, para por todas as vias vir a salvar a alguns.
23 E isto faço eu por causa do Evangelho, para que tambem delle seja participante.
24 Não sabeis vós que os que correm em o corro, todos em verdade correm; mas que hum leva o premio? Correi de tal maneira, que o alcanceis.
25 E todo aquelle que luta por premio, de tudo se abstem: Assim que aquelles o fazem por só receber huma coroa corruptivel, porém nós por huma incorruptivel.
26 Corro pois assim, não como á cousa incerta: assim combato, não como ferindo o ar.
27 Antes sojugo meu corpo, e o reduzo a servidão, para que aos outros prégando, eu mesmo em alguma maneira não fique reprovado.

CAPITULO 10.

1 ORA, irmãos, não quero que ignoreis, que nossos pais todos debaixo da nuvem estivérão, e todos pelo mar passárão:
2 E todos em Moyses na nuvem, e no mar forão baptizados:
3 E todos de num mesmo manjar espiritual comerão:
4 E todos de hum mesmo beber espiritual bebêrão. Porque bebião da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Christo.
5 Mas da maior parte delles se não agradou Deos: porque prostrados forão em o deserto.
6 E estas cousas nos forão feitas em exemplos, para que não cobicemos cousas roins, como elles cobiçarão.
7 E não vos façais idolatras, como alguns delles, como está escrito: Assentou-se o povo a comer, e a beber, e levantárão-se a folgar.
8 E não forniquemos, como alguns delles fornicarão, e em hum dia vinte e tres mil cahirão.
9 E não tentemos a Christo, como tambem alguns delles o tentárão, e perecêrão pelas serpentes.
10 E não murmureis, como tambem alguns delles murmurarão, e perecerão pelo destruidor.
11 E todas estas cousas lhes sobreviérão em figura, e estão escritas para nosso aviso, em quem ja os fins dos seculos são chegados.
12 O que pois cuida que está em pé, olhe que não caia.
13 Não vos tomou tentação, senão humana: porém fiel he Deos, que mais de que podeis vos não deixará tentar, antes com a tentação tambem dará a sahida, para que a possais supportar.
14 Portanto, meus amados, fugi da idolatria.
15 Como a entendidos falo: Julgai vós mesmos o que digo.
16 O copo de bemdição, ao qual dando graças bemdizemos, não he porventura a communhão do sangue de Christo? O pão que partimos, não he por ventura a communhão do corpo de Christo?
17 Porque como hum pão he, assim nós muitos somos hum corpo: porquanto todos participamos de hum pão.
18 Vede a Israël segundo a carne: não são porventura os que comem os sacrifiicios, participantes do altar?
19 Que digo logo? Que o idolo he cousa alguma? ou que o sacrificio idolatrico seja cousa alguma?
20 Antes digo, que as cousas que as Gentes sacrihcão, aos demonios as sacrificão, e não a Deos. E não quero que sejais participantes dos demonios.
21 Não podeis beber o copo do Senhor, e o copo dos demonios: não podeis ser participantes da mesa do Senhor, e da mesa dos demonios.
22 Ou irritamos ao Senhor? Somos nós mais fortes que elle?
23 Todas as cousas me são licitas, mas nem todas as cousas convém: todas as cousas me são licitas, mas nem todas as cousas edificão.
24 Ninguem busque o seu proprio, antes cada hum o que he do outro.
25 De tudo quanto se vende no açougue, comei, sem vós inquirir por cau sa da consciencia.
26 Porque a terra he do Senhor, e toda sua plenidão.
27 E se alguem dos infieis vos convidar, e quizerdes ir, comei de tudo o que se pozer diante de vós, sem vós inquirir por causa da consciencia.
28 Mas se alguem vos disser: Isto he sacrifiicio idolatrico, não comais, por causa daquelle que vo-lo advertio, e por causada consciencia. Porque a terra he do Senhor, e toda sua plenidão.
29 Digo porém a consciencia, não tua, senão a do outro. Porque pois minha liberdade he julgada de outra consciencia?
30 E se eu por graça participo da comida, porque sou blasfemado naquillo de que dou graças?
31 Assim que seja que comais, seja que bebais, ou que façais qualquer outra cousa, fazei tudo para gloria de Deos.
32 Sêde toes que não deis escandalo, nem a Judeos, nem a Gregos, nem á Igreja de Deos.
33 Como tambem eu a todos em tudo agrado, não buscando minha propria commodidade, senão a de muitos, para que assim se possão salvar.

CAPITULO 11.

1 SEDE meus imitadores, como eu tambem de Christo.
2 E louvo-vos irmãos, de que em tudo vos lembrais de mim, e retendes as ordenanças,assim como vo-lasentreguei.
3 Mas quero que saibais, que a cabeça de todo varão he Christo; e a cabeça da mulher o varão; e a cabeça de Christo, Deos.
4 Todo varão que ora ou prophetiza, tendo alguma cousa sobre a cabeça, sua propria cabeça deshonra.
5 Mas toda mulher que ora, ou prophetiza, com a cabeça descuberta, sua propria cabeça deshonra: porque o mesmo he que se se repasse.
6 Porque se a mulher se não cobre, tosquie-se tambem: mas se para a mulher he cousa torpe tosquiar-se, ou rapar-se, cubra-se.
7 Porque o varão não deve cubrir a cabeça, pois he a imagem e a gloria de Deos: mas a mulher he a gloria do varão.
8 Porque não vem o varão da mulher, senão a mulher do varão.
9 Porque tambem não foi o varão criado por amor da mulher, senão a mulher por amor do varão.
10 Portanto deve a mulher ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos Anjos.
11 Todavia nem o varão he sem a mulher, nem a mulher sem o varão, em o Senhor.
12 Porque como a mulher vem do varão, assim he tambem o varão pela mulher: porem tudo de Deos.
13 Julgai-vos entre vós mesmos: He decente que a mulher ore a Deos descuberta?
14 Ou não vos ensina a mesma natureza, que criar cabelleira he deshonra para o varão?
15 Mas que criar a mulher cabelleira, lhe he honra, porquanto a cabelleira lhe he dada por cubertura?
16 Porem se algum parece ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as Igrejas de Deos.
17 Tsto porém vos declaro, que não vos louvo de que vos ajuntais, não para melhor, senão para peior.
18 Porque primeiramente, quando na Igreja vos ajuntais, ouço que ha dissenções entre vós: e em parte o creio.
19 Porque até heresias importa que haja entre vósoutros, para que os que são sinceros, se manifestem entre vós.
20 Assim que quando em hum vos ajuntais, isso não he comer a Cea do Senhor.
21 Porque cada hum, comendo de antes toma sua propria cea: e hum tem fome, e outro está bebado.
22 Por ventura não tendes casas para comer e para beber? ou desprezais a Igreja de Deos, e envergonhais aos que não tem? Que vos direi! Louvar-vos-hei? nisto não vos louvo.
23 Porque eu recebi do Senhor, o que tambem vos entreguei; que o Senhor Jesus na noite em que foi trahido, tomou o pão:
24 E havendo dado graças, o partio e disse: Tomai, comei: isto he o meu corpo que por vósoutros he partido; fazei isto em memoria de mim.
25 Semelhantemente tambem, depois de cear, tomou o copo, dizendo; Este copo he o novo Testamento em meusangue. Fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memoria de mim.
26 Porque todas as vezes que comerdes este pão, e beberdes este copo, a morte do Senhor denunciais, até que venha.
27 Assim que qualquer que comer este pão, ou beber este copo do Senhor indignamente, será culpado do corpo e sangue do Senhor.
28 Portanto prove-se o homem a si mesmo, e assim coma deste pão, e beba deste copo.
29 Porque o que come e bebe indignamente, para si mesmo come e bebe juizo, não discernindo o corpo do Senhor.
30 Por esta maneira muitos fracos e doentes entre vós ha, e muitos dormem.
31 Porque se nós a nós mesmos nos julgáramos,não seriamos julgados.
32 Mas quando somos julgados, reprehendidos somos do Sanhor; para que não sejamos condemnados com o mundo.
33 Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais a comer, huns aos outros esperai.
34 Porém se algum tiver fome, em sua casa coma; para que vos não ajunteis para juizo. Quanto as de mais cousas, as ordenarei quando vier.

CAPITULO 12.

1 E TOCANTE aos dons espirituaes, não quero, irmãos, que sejais ignorantes.
2 Bem sabeis vós que ereis Gentios, levados aos idolos mudos, segundo ereis guiados.
3 Por isso notorio vos faço, que ninguem pelo Espirito de Deos falando, a Jesus chama anathema: e ninguem pode dizer que Jesus he o Senhor, senão pelo Espirito Santo.
4 Ora variedade ha de dons: porém o mesmo Espirito he.
5 E variedade ha de administraçoens: e o mesmo Senhor he.
6 E variedade ha de operações: porem o mesmo Deos he, que tudo em todos obra.
7 Mas a cada hum he dada a manifestação do Espirito, para o que for util.
8 Porque a hum he dada, pelo Espirito, palavra de sabedoria: e a outro palavra de sciencia, pelo mesmo Espirito.
9 E a outro fé pelo mesmo Espirito: e a outro dons de curas, pelo mesmo Espirito:
10 E a outro operações de maravilhas: e a outro prophecia: e a outro o dom de discernir aos espiritos: e a outro variedade de linguas: e a outro interpretação de linguas.
11 Mas todas estas cousas obra hum e o mesmo Espirito, repartindo particularmente a cada hum como quer.
12 Porque como o corpo he hum, e tem muitos membros, e todos os membros deste hum corpo, sendo muitos, todavia hum corpo são: assim o he tambem Christo.
13 Porque tambem todos nósoutros baptizados somos em hum Espirito, para hum corpo, quer Judeos, quer Gregos, quer servos, quer livres e todos abeberados estamos para hum Espirito.
14 Porque tambem o corpo não he hum membro, senão muitos.
15 Se o pé disser: Pois que não sou mão, não sou do corpo; Porisso não he do corpo?
16 E se a orelha disser: Pois que não sou olho, não sou do corpo; Porisso não he do corpo?
17 Se todo o corpo fóra olho, aonde estaria o ouvido? Se todo fôra ouvido, aonde estaria o olfato?
18 Mas agora póz Deos aos membros no corpo, a cada qual delles como quiz.
19 Que se todos forão hum membro, aonde estaria o corpo?
20 Mas bem ha agora muitos membros, porém somente hum corpo.
21 E não pode o olho dizer á mão; não tenho necessidade de ti: ou ainda a cabeça aos pés; não tenho necessidade de vós:
22 Antes até os membros do corpo, que nos parecem ser os mais fracos, necessarios são.
23 E os que cuidamos que os menos honrados são do corpo, a esses muito mais honramos: e os nossos mais feios tem muito mais atavio.
24 Porém os nossos mais formosos disto não tem necessidade: mas assim Deos conjuntou o corpo, muito mais honra dando ao que tinha falta della.
25 Para que não haja divisão em o corpo, porém que os membros huns dos outros tenhão igual cuidado.
26 E seja que hum membro padeça, tambem os membros padecem juntamente: seja que hum membro he honrado, todos os membros se gozão juntamente.
27 E vós sois o corpo de Christo, e membros em particular.
28 E Deos póz a huns na Igreja, primeiramente Apostolos, segundamente Prophetas, terceiramente Doutores: depois Potestades, depois Dons de curas, Socorros, Governos, Variedades de linguas.
29 São porventura todos Apostolos? São todos Prophetas? São todos Doutores? São todos Potestades?
30 Tem todos dons de curas? Falão todos varias linguas? Interpretão todos?
31 Porem procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostro ainda hum caminho mais excellente.

CAPITULO 13.

1 AINDA que eu falasse as linguas dos homens, e dos Anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que tine, ou como o sino que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de prophecia, e soubesse todos os mysterios, e toda a sciencia: e ainda que tivesse toda a fé, de tal maneira que transpozesse os montes, e não tivesse caridade, nada seria.
3 E ainda que distribuisse toda minha fazenda para mantimento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo a ser queimado, e não tivesse caridade, nada me aproveitaria.
4 A caridade he longanima: he benigna: a caridade não he invejosa: a caridade não trata levianamente, não se incha.
5 Não trata indecentemente: não busca a si mesma: não se irrita: não cuida mal.
6 Não folga da injustiça: porém folga da verdade.
7 Tudo encobre, tudo cré, tudo espera, tudo supporta.
8 A caridade nunca se perde: Porém sejão prophecias, aniquiladas serão: Sejão linguas, cessarão: Seja sciencia, aniquilada será.
9 Porque em parte conhecemos, e em parte prophetizamos:
10 Mas quando vier o perfeito, então o que he em parte, será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino: mas como me fiz homem, o que era de menino, aniquilei.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos cara a cara: Agora conheço em parte, mas então conhecerei, como tambem sou conhecido.
13 E agora permanece a fé, a esperança, e a caridade, estas tres: Porém a maior destas he a caridade.

CAPITULO 14.

1 PROSEGUI a caridade, e procurai com zelo os dons espirituaes: porém maiormente que prophetizeis.
2 Porque o que fala lingua estranhe, não fala aos homens, senão a Deoe: porque ninguem o entende, porém em Espirito fala mysterios.
3 Mas o que prophetiza, fala aos homens para edificação, e exhortação,e consolação.
4 O que fala lingua estranha, a mesmo se edifica: mas o que prophetiza, edifica á Igreja.
5 É bem quero eu que todos vósoutros faleis linguas estranhas, mas muito mais que prophetizeis: porque o que prophetiza he maior que o que fala linguas estranhas, se não for que juntamente interprete, para que a Igreja receba edificação.
6 E agora, irmãos, se eu a vósoutros viesse falando linguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por revelação, ou por sciencia, ou por prophecia, ou por doutrina?
7 E até as cousas inanimadas, que dão sonido, seja frauta, seja citara, se não derem distincção de sons, como se saberá o que se tange com a frauta. ou com a citara?
8 Porque tambem se a trombeta der sonido incerto, quem se aperceberá para a guerra?
9 Assim tambem vósoutros, se com a lingua não derdes palavra bem significante, como se entenderá o que se diz? porque estareis como falando ao ar.
10 Por exemplo, tantos generos de vozes ha no mundo, e nenhuma dellas he muda.
11 Pois se eu não souber a força da voz, serei barbaro ao que fala:eoque fala, me será barbaro a mim.
12 Assim tambem vósoutros, pois tanto appeteceis os dons espirituaes, procurai de nelles abundar, para edificação da Igreja.
13 Pelo que o que fala em lingua estranha, ore que possa interpretar.
14 Porque se eu orar em lingua estranha, bem meu espirito ora, mas meu entendimento fica sem fruto.
15 Que ha pois? Orarei com o espirito, mas tambem orarei com o entendimento: Cantarei com o espirito, mas tambem cantarei com o entendimento.
16 D’outra maneira se tu bemdisseres com o espirito, como dirá o que occupa lugar de idiota, Amen sobre tua benção? Pois não sabe o que dizes.
17 Porque bem em verdade tu das graças; mas o outro não he edificado.
18 Graças dou a meu Deos, que mais linguas estranhas falo que todos vósoutros.
19 Porem mais quero eu falar na Igreja cinco palavras com meu entendimento, para que tambem aos outros possa instruir, do que dez mil palavras em lingua estranha.
20 Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sêde meninos na malicia, e adultos no entendimento.
21 Em a Lei está escrito: a este povo falarei por gente de outras linguas, e por outros beiços: e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor.
22 Assim que as linguas estranhas são por sinal, não para os fieis, senão para os infieis: e a prophecia não para os infieis, senão para os fieis.
23 Se pois toda a Igreja se ajuntar a huma, e todos falarem em linguas estranhas, e entrarem idiotas, ou infieis, não dirão porventura que desvariais?
24 Mas se todos prophetizarem, e algum infiel, ou idiota entrar, de todos he convencido, de todos he julgado.
25 E assim os segredos de seu coração ficão manifestos, e assim lançando-se sobre seu rosto, a Deos adorará, publicando que verdadeiramente Deos está entre vósoutros.
26 Que ha pois, irmãos? Quando vos ajuntais, tem cada hum de vos psalmo, tem doutrina, tem lingua estranha, tem revelação, tem interpretação, tudo se faça para edificação:
27 E se algum falar lingua estranha, faça-se isso por dous, ou ao mais por tres, e por vezes, e hum interpréte.
28 Mas se não houver interprete, cale-se na Igreja: fale porem comsigo mesmo, e com Deos.
29 E falem dous ou tres Prophetas, e os outros julguem.
30 Porem se a outro, que estiver assentado, for revelada cousa alguma, cale-se o primeiro.
31 Porque todos podeis prophetizar hum após o outro, para que todos aprendão, e todos sejão consolados.
32 E os espiritos dos Prophetas estão sujeitos aos Prophetas.
33 Porque Deos não he Deos de confusão, senão de paz, como em todas as Igrejas dos Santos.
34 Vossas mulheres calem-se nas Igrejas: Porque não lhes he permittido falarem nellas, mas que estejão sujeitas: como tambem a Lei o diz.
35 E se quizerem aprender alguma cousa, perguntem a seus proprios maridos em casa: porque cousa feia he falarem as mulheres na Igreja.
36 Porventura sahio de vósoutros a palavra de Deos? ou tão somente a vós chegou?
37 Se algum cuida que he Propheta, ou espiritual, reconheça que as cousas que vos escrevo, são mandamentos do Senhor.
38 Porem se algum ignora, ignore.
39 Portanto irmãos, procurai com zelo parar prophetizar, e não impidais o falar em linguas estranhas.
40 Faça-se tudo decentemente, e com ordem.

CAPITULO 15.

1 TAMBEM, irmãos, vos notifico o Evangelho, que já denunciado vos tenho, o qual tambem recebestes, em o qual tambem estais.
2 Pelo qual tambem sois salvos, se o retiverdes naquella maneira, em que vo-lo tenho denunciado: Se não he que crestes em vão.
3 Porque primeiramente vos entreguei o que tambem recebi, que Christo morreo por nossos peccados, segundo as Escrituras:
4 E que foi sepultado, e que resuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras:
5 E que foi visto de Cephas, depois dos doze.
6 Depois foi visto huma vez de mais de quinhentos irmãos, dos quaes ainda a maior parte vive, e tambem já alguns dormem.
7 Depois foi visto de Jacobo, depois de todos os Apostolos.
8 E por derradeiro de todos tambem foi visto de mim como de hum abortivo.
9 Porque eu sou o menor dos Apostolos, que não sou digno de ser chamado Apostolo, porquanto persegui a Igreja de Deos.
10 Mas pela graça de Deos sou o que sou: e sua graça para comigo não foi vã: antes trabalhei muito mais que todos elles: todavia não eu, senão a graça de Deos que está comigo.
11 Assim que, seja eu, sejão elles, assim pregamos, e assim crestes.
12 Ora se se préga que Christo resuscitou dos mortos, como dizem alguns dentre vósoutros, que não ha resurreição dos mortos?
13 E se não ha resurreição dos mortos, tambem Christo não resuscitou.
14 E se Christo não resuscitou, vã he logo nossa prégação, e vã he tambem vossa fé.
15 E assim somos tambem achados falsas testemunhas de Deos: pois de Deos testificamos, que a Christo resuscitou, ao qual porém não resuscitou, se na verdade os mortos não resuscitão.
16 Porque se os mortos não resuscitão, tambem Christo não resuscitou.
17 E se Christo não resuscitou, vã he vossa fé, e ainda estais em vossos peccados.
18 Como tambem são perdidos os que dormirão em Christo.
19 Se nesta vida somente esperamos em Christo; os mais miseraveis somos de todos os homens.
20 Mas agora ja Christo resuscitou dos mortos, e foi feito as primicias dos que dormirão.
21 Pois porquanto a morte veio por um homem, tambem por hum homem veio a resurreição dos mortos.
22 Porque assim como em Adam todos morrem, assim tambem em Christo todos serão vivificados.
23 Mas cada hum em sua ordem: Christo as primicias: Depois os que são de Christo, em sua vinda.
24 Depois será o fim, quando entregar o Reino a Deos e ao Pai, e quando aniquilar todo imperio, e toda potestade, e força.
25 Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.
26 O ultimo inimigo, que será aniquilado, he a morte.
27 Porque todas as cousas sujeitou debaixo de seus pés. Porém quando diz, que todas as cousas lhe estão sujeitas, claro está, que se exceptua aquelle que todas as cousas lhe sujeitou.
28 E quando todas as cousas lhe forem sujeitas, então tambem o mesmo Filho se sujeitará áquelle, que todas as cousas lhe sujeitou, para que Deos seja tudo em todos.
29 D’outra maneira, que farão os que se baptizão pelos mortos, se totalmente os mortos não resuscitão! Porque pois se baptizão pelos mortos!
30 Porque tambem nós a toda hora estamos em perigo?
31 Cada dia morrendo ando, por nossa gloriação, a qual tenho em ChristoJesus nosso Senhor.
32 Se como homem em Epheso contra as bestas combati, que me aproveita, se os mortos não resuscitão? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
33 Não erreis. As más conversaçoens corrompem os bons costumes.
34 Despertai justamente, e não pequeis: Porque ainda alguns não tem o conhecimento de Deos. Para vergonha vossa o digo.
35 Mas dirá alguem: como resuscitarão os mortos? E com que corpo virão?
36 Louco, o que tu semeas, não he vivificado, se primeiro não morrer.
37 E o que semeas, não semeas o corpo que ha de sahir, senão o grão nu, como o de trigo, ou de outro qualquer grão.
38 Mas Deos lhe dá o corpo como quer, e a cada semente seu proprio corpo.
39 Toda carne não he a mesma carne: mas huma he a carne dos homens, e outra a carne dos animaes, e outra a dos peixes, e outra a das aves.
40 E ha corpos celestiaes, e corpos terreaes: mas huma he a gloria dos celestiaes, e outra a dos terreaes.
41 Outra he a gloria do Sol, e outra a gloria da Lua, e outra a gloria das Estrellas: porque huma estrella differe em gloria de outra estrella.
42 Assim tambem ha de ser a resurreiçãodos mortos. Semea-se o corpo em corrupção, resuscitaráem incorrupção.
43 Semea-se em deshonra, resuscitará em gloria. Semea-se em fraqueza, resuscitará em força.
44 Semea-se corpo animal, resuscitará corpo espiritual. Ha corpo animal, e ha corpo espiritual.
45 Assim está tambem escrito: O primeiro homem Adam foi feito em alma vivente: o ultimo Adam em espirito vivificante.
46 Mas não he primeiro o espiritual, senão o animal, depois o espiritual.
47 O primeiro homem da terra he terreno: o segundo homem, que he o Senhor, he do Ceo.
48 Qual he o terreno, taes são tambem os terrenos; e qual o celestial, taes tambem os celestiaes.
49 E como trouxemos a imagem do terreno, assim tambem traremos a imagem do celestial.
50 Porem isto digo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deos, nem a corrupção herda a incorrupção.
51 Védes, aqui, vos digo hum mysterio: Nem todos em verdade dormiremos: porem todos seremos transformados.
52 Em hum momento, em hum abrir e cerrar de olhos, á ultima trombeta: Porque a trombeta soará, e os mortos resuscitarão incorruptiveis, e nós seremos transformados.
53 Porque convém que isto corruptivel vista a incorrupção, e isto mortal vista a immortalidade.
54 E quando isto corruptivel vestir a incorrupção, e isto mortal vestir a immortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada he a morte em victoria.
55 Aonde está, ó morte, teu agui lhão? Aonde está, ó inferno, tua victoria?
56 Ora o aguilhão da morte he o pec cado, e a força do peccado he a Lei.
57 Mas graças a Deos, que nos dá victoria por nosso Senhor Jesu-Christo.
58 Assim que, meus amados irmãos, sêde constantes, immoveis, e sempre abundantes em a obra do Senhor, sabendo que vosso trabalho não he vão em o Senhor.

CAPITULO 16.

1 ORA tocante á collecta, que se faz para os Santos, fazei-vos tambem como ordenei ás Igrejas de Galacia.
2 Cada primeiro dia da semana ponha cada hum de vós alguma cousa a parte, enthesourando para isso conforme a prosperidade que tiver alcançado, para que quando eu vier, então se não fação as collectas.
3 E quando eu vier, enviarei aos que por cartas approvardes, para que levem vossa dadiva a Jerusalem.
4 E se for necessario que eu mesmo tambem va, irão comigo.
5 Virei porem a vósoutros, havendo passado por Macedonia: (Porque por Macedonia hei de passar.)
6 E bem pode ser que ficarei comvosco, ou tambem invernarei: para que me acompanheis aonde quer que eu for.
7 Porque não vos quero ver agora de passagem: mas espero ficar comvosco algum tempo, se o Senhor o permittir.
8 Ficarei porem em Epheso até o Pentecoste.
9 Porque huma porta grande e efficaz se me abrio, e muitos adversarios ha.
10 E se vier Timotheo, olhai que esteja sem temor comvosco: porque tambem, como eu, faz a obra do Senhor.
11 Portanto ninguem o despreze: mas acompanhai-o em paz, para que venha a mim: porque com os irmãos o espero.
12 E ácerca do irmão Apollos, muito lhe roguei que com os irmãos viesse a vósoutros: mas totalmente não teve vontade de vir por agora: porém, offerecendo-se-lhe boa occasião virá.
13 Velai, estai na fé firmes, varonilmente vos havei, e vos esforçai.
14 Todas vossas cousas se fação em caridade.
15 Rogo-vos porem, irmãos, pois sabeis que a casa de Estephanas he as rimicias de Achaia, e que se tem edicado ao ministerio dos Santos;
16 Que tambem vossujeiteisaostaes, e a todo aquelle que juntamente obra e trabalha.
17 Folgo porem da vinda de Estephanas, e de Fortunato, e de Achaico; pois estes suprirão o que de vossa parte me faltava.
18 Porque recrearão meu espirito, e tambem o vosso. Reconhecei pois aos taes.
19 As Igrejas de Asia vos saudão. Saudão-vos affectuosamente em o Senhor, Aquila e Priscilla, com a Igreja que está em sua casa.
20 Todos os irmãos vos saudão. Saudai-vos huns aos outros com santo beijo.
21 Saudação de minha propria mão, de Paulo.
22 Se alguem não ama ao Senhor Jesu-Christo, seja anathema Maranatha.
23 A graça do Senhor Jesu-Christo seja comvosco.
24 Minha caridade seja com todos vósoutros em Christo-Jesus. Amen.
A primeira Epistola aos Corinthios, foi escrita de Philippos, e enviada por Estephanas, Fortunato, Achaico, e Timotheo.

2 CORÍNTIOS

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo de Jesu-Christo, pela vontade de Deos, e o irmão Timotheo, á Igreja de Deos que está em Corintho, com todos os santos que estão em toda Achaia:
2 Graça e paz de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
3 Bemdito seja o Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo, o Pai das misericordias, e o Deos de toda consolaçao:
4 Que nos consola em toda nossa tribulação, para que tambem possamos consolar aos que estiverem em tribulação alguma, com a consolação com que nós mesmos de Deos somos consolados.
5 Porque como em nós abundão as afflicçoens de Christo, assim abunda tambem por Christo nossa consolação.
6 Porem seja que sejamos atribulados, he para vossa consolação e salvação, a qual se obra na tolerancia das mesmas afflicçoens, que nós tambem padecemos: seja que sejamos consolados, tambem para vossa consolação e salvação he.
7 E nossa esperança de vósoutros he firme, como bem sabendo, que como sois participantes das afflicçoens, assim o sois tambem da consolação.
8 Porque, irmãos, não queremos que ignoreis nossa tribulação, que em Asia nos sobreveio, que sobre maneira somos aggravados, mais do qoe podiamos supportar, de tal modo que até da vida estivemos em grande duvida.
9 Em tanta maneira, que já em nós mesmos tinhamos a sentença de morte, para que em nós mesmos não confiemos, senão em Deos, que resuscita aos mortos:
10 O qual nos livrou de tamanha morte, e ainda nos livra: em o qual esperamos que tambem ainda nos livrará:
11 Trabalhando vós tambem juntamente com oração por nósoutros, para que pela mercê, que por muitas pessoas nos foi feita, por muitastambem sejão dadas graças por nós.
12 Porque esta he nossa gloriação, a saber, o testemunho de nossa consciencia, que com simplicidade e sinceridade de Deos, não com sabedoria carnal, mas com a graça de Deos, nos houvemos em o mundo, e maiormente comvosco.
13 Porque nenhumas outras cousas vos escrevemos, senão as que já sabeis, ou tambem reconheceis: e espero que tambem até o fim as reconhecereis.
14 Como tambem já em parte nos tendes reconhecido, que somos vossa gloriação, como tambem vós sois a nossa no dia do Senhor Jesus.
15 E com esta confiança quiz primeiro vir a vósoutros, para que tivesseis huma segunda graça.
16 E por vósoutros passar a Macedonia; e de Macedonia vir outra vez a vósoutros; e de vósoutros ser guiado a Judea.
17 Assim que deliberando isto, usei porventura de leviandade? Ou o que delibero, porventura o delibero segundo a carne, para que em mim haja sim, sim, e não, não?
18 Antes Deos he fiel, que nossa palavra para comvosco não foi sim e não.
19 Porque o Filho de Deos Jesu-Christo, que por nós entre vósoutros foi prégado, a saber por mim, e Silvano, e Timotheo, não foi sim e não, mas foi sim nelle.
20 Porque todas quantas promessas de Deos ha, são nelle Sim, e nelle Amen, para gloria de Deos por nósoutros.
21 Mas o que comvosco nos confirma em Christo, e o que nos ungio, he Deos.
22 O qual tambem nos sellou, e nos deo as arras do Espirito em nossos coraçoes.
23 Porém invoco a Deos por testemunha sobre minha alma, que, por vos escusar, até agora não vim a Corintho.
24 Não que nos ensenhoreémos de vossa fé; porém cooperadores somos de vosso gozo: Porque pela fé estais em pé.

CAPITULO 2.

1 POREM isto comigo mesmo deliberei, de não vir mais a vósoutros com tristeza.
2 Porque se eu vos contristar, quem será logo o que me alegrará, senão aquelle que por mim foi contristado?
3 E isto mesmo vos escrevi, para que quando vier, não tenha tristeza dos que me havia de alegrar: confiando de vós todos, que meu gozo o he de todos vósoutros.
4 Porque em muita tribulação e angustia de coração vos escrevi com muitas lagrimas, não para que vos contristasseis, mas para que entendes-seis a caridade, que tenho em abundancia para comvosco.
5 Porem se alguem me contristou, não me contristou a mim senão em parte a vós todos, para que ao tal não aggrave.
6 Basta-lhe ao tal esta reprehensão feita por muitos.
7 De maneira que antes ao contrario lhe haveis de perdoar, e consolar, para que da demasiada tristeza o tal em alguma maneira não seja devorado.
8 Pelo que vos rogo, que para com elle confirmeis a caridade.
9 Porque tambem para isso vos escrevi, para saber vossa provação, se em tudo sois obedientes.
10 E ao que cousa alguma perdoardes, tambem eu lhe perdoo: Porque se tambem eu cousa alguma perdoei, a quem perdoado a tenho, por amor de vós o fiz em presença de Christo: Para que de Satanás não sejamos vencidos.
11 Porque não ignoramos seus ardis.
12 No demais, como vim a Troas para pregar o Evangelho de Christo, e abrindo-se-me porta em o Senhor, não tive em meu espirito repouso, por não achar a Tito meu irmão.
13 Porem despedindome delles, parti para Macedonia.
14 E graças a Deos, que sempre nos faz triunfar em Christo, e por nósoutros em todo lugar manifesta o cheiro de seu conhecimento.
15 Porque para Deos somos bom cheiro de Christo, em os que se salvão, e em os que se perdem.
16 Para estes certamente cheiro de morte, para morte: mas para aquelles cheiro de vida, para vida. E para estas cousas quem he idóneo?
17 Porque nós não trazemos com muitos, a vender a palavra de Deos, antes como de sinceridade, antes como de Deos, em presença de Deos, a falamos em Christo.

CAPITULO 3.

1 COMEÇAMOS por ventura a louvamos a nós mesmos outra vez para comvosco? Ou necessitamos como alguns, de cartas de recommendação para vósoutros, ou de recommendação de vósoutros?
2 Vósoutros sois nossa carta, escrita em nossos coraçoes, conhecida e lida de todos os homens.
3 Como já manifestos estais; que sois a carta de Christo, administrada por nós, e escrita, não com tinta, senão com o Espirito do Deos vivente, não em taboas de pedra, senão em taboas de carne do coração.
4 E tal confiança temos por Christo para com Deos.
5 Não que sejamos capazes para pensar alguma cousa de nós, como de nós mesmos, mas nossa capacidade he de Deos:
6 O qual tambem nos fez capazes para ser ministros do Novo Testamento, não da Letra, senão do Espirito. Porque a Letra mata, mas o Espirito vivifica.
7 E se o ministerio de morte em letras, impresso em pedras, foi para gloria, de maneira que os filhos de Israël não podião fitar os olhos na face de Moyses, por causa da gloria de seu rosto, que havia de ser aniquilada:
8 Como não será tanto mais para gloria o ministerio do Espirito?
9 Porque se o ministerio de condemnação foi gloria, muito mais excede em gloria o ministerio de justiça.
10 Porque tambem o que foi glorificado, nesta parte não foi glorificado, por causa desta excellente gloria.
11 Porque se o que se aniquila, foi para gloria, muito mais o he em gloria o que permanece.
12 Assim que tendo tal esperança, usamos de muita ousadia no falar.
13 E não fazemos como Moyses, que punha hum veo sobre sua face, para que os filhos de Israël não fitassem os olhos no fim do que se aniquila:
14 Porem seus sentidos forão endurecidos: Porque até o dia de hoje fica o mesmo veo por descubrir na lição do Velho Testamento, o qual por Christo he aniquilado:
15 Antes até o dia de hoje, quando Moyses he lido, está o veo posto sobre seu coração delles.
16 Porem quando se converterem ao Senhor, então o veo se tirará.
17 Ora o Senhor he o Espirito: e onde está o Espirito do Senhor, ahi ha liberdade.
18 E attentando nós todos com cara descuberta, como em hum espelho, para a gloria do Senhor, transformados somos de gloria em gloria, segundo a mesma imagem, como pelo Espirito do Senhor.

CAPITULO 4.

1 PELO que tendo este ministerio, segundo a misericordia que nos foi feita, não desfalecemos.
2 Antes já as cuberturas de vergonha rejeitamos, não andando com astucia, nem falsificando a palavra de Deos, mas encommendando-nos a toda consciencia de homens, em a presença de Deos, pela manifestação da verdade.
3 Porem se tambem nosso Evange-lho está encuberto, para os que se perdem está encuberto:
4 Em os quaes o Deos deste seculo cegou os entendimentos, a saber os dos incredulos, para que lhes não resplandeça a illuminação do Evangelho da gloria de Christo, que he a imagem de Deos.
5 Porque não prégamos a nós mesmos, senão a Christo-Jesus o Senhor: e a nós mesmos, servos vossos, por amor de Jesus.
6 Porque o Deos que disse, que das trévas resplandecesse a luz, he o que em nossos coraçoes resplandeceo, para illuminação do conhecimento da gloria de Deos em a face de Jesu-Christo.
7 Porem temos este thesouro em vasos de barro, para que a excellencia da efficacia seja de Deos, e não de nós.
8 Como aquelles que em tudo somos atribulados, porem não estreitados: duvidosos, porem não desmaiados.
9 Perseguidos, porem não desemparados: abatidos, porem não perdidos:
10 Sempre por todas as partes trazendo a mortificação do Senhor Jesus no corpo, para que tambem a vida de Jesus em nossos corpos se manifeste.
11 Porque sempre nós, os que vivemos, somos por amor de Jesus entregues á morte, para que tambem a vida de Jesus em nossa carne mortal se manifeste.
12 De maneira que bem obra em nósoutros a morte, porem em vósoutros a vida.
13 Ora porquanto temos o mesmo Espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nósoutros tambem cremos, por isso tambem falamos.
14 Sabendo que o que resuscitou ao Senhor Jesus, tambem a nós por Jesus nos resuscitará; e nos porá comvosco.
15 Porque todas estas cousas são por amor de vósoutros, para que a copiosissima graça, pelo fazimento de graças de muitos, abunde para gloria de Deos.
16 Por isso não desfalecemos: antes, ainda que nosso homem exterior se corrompa, todavia o interior de dia em dia se renova.
17 Porque nossa leve, e momentanea tribulação, nos produz hum pezo eterno de gloria excellentissima.
18 Porquanto não attentamos para as cousas que se vêem, senão para as que se não vêem: porque as cousas que se vêem, são temporaes: mas as que se não vêem, são eternas.

CAPITULO 5.

1 PORQUE bem sabemos, que se nossa casa terrestre deste tabernaculo se des fizer, temos hum edifiicio de Deos, huma casa não feita de mãos, porem eterna em os ceos.
2 Porque por isso tambem gememos, desejando ser revestidos de nossa habitação, que he do ceo.
3 Se tambem achados formos vestidos, e não nus.
4 Porque tambem nós os que neste tabernaculo estamos, gememos carregados: por quanto não queremos ser despidos, senão revestidos: para que o mortal seja da vida devorado.
5 Ora o que para isto mesmo nos preparou, he Deos, o qual tambem nos deo as arras do Espirito.
6 Pelo que sempre temos bom animo, e sabemos que no corpo habitando, peregrinamos do Senhor.
7 (Porque andamos por fé e não por vista.)
8 Porém temos bom animo, e mais queremos fora do corpo peregrinar, e habitar com o Senhor.
9 Pelo que tambem muito desejamos de lhe sermos agradaveis ou presentes, ou ausentes.
10 Porque todos devemos comparecer ante o Tribunal de Christo, para que cada hum leve, segundo o que tiver feito no corpo, ou bem, ou mal.
11 Assim que sabendo o terror do Senhor, persuadimos aos homens á fé, e a Deos somos manifestos: porem tambem espero que em vossas consciencias estamos manifestos.
12 Porque não nos encommendamos outra vez a vósoutros: Mas damos-vos occasião de vos gloriar de nós: para que tenhais que responder aos que se glorião na face, e não no coração.
13 Porque seja que deliremos, para Deos deliramos: seja que estejamos em bom siso, para vósoutros o estamos.
14 Porque a caridade de Christo, nos constrange.
15 Tendo isto por resolvido, que se hum por todos morreo, logo todos morrerão. E elle morreo por todos, para que os que vivem, não vivão mais para si, senão para aquelle que por elles morreo e resuscitou.
16 Assim que daqui por diante a ninguem conhecemos segundo a carne, e ainda que tambem conhecido hajamos a Christo segundo a carne, todavia já agora segundo a carne o não conhecemos.
17 Assim que se alguem está em Christo, nova creatura he: já as cousas velhas passárão, eis que tudo está feito novo.
18 E tudo isto vem de Deos, o qual por Jesu-Christo comsigo nos reconciliou, e nos deo o ministerio da reconciliaçao.
19 Porque Deos estava em Christo reconciliando comsigo ao mundo, seus peccados não lhes imputando; e póz em nós a palavra da reconciliação.
20 Assim que somos embaixadores da parte de Christo, como se Deos por meio nosso rogasse: Rogamos-vos pois da parte de Christo, que vos reconcilieis com Deos.
21 Porque ao que não conheceo peccado, fez peccado por nós: para que nós nelle fossemos feitos justiça de Deos.

CAPITULO 6.

1 E NÓS como juntamente obreiros, vos rogamos, que a graça de Deos recebido não hajais em vão.
2 Porque diz: Em tempo agradavel te ouvi, e no dia da salvação te socorri; vêdes aqui agora o tempo agradavel, vêdes aqui agora o dia da salvação:
3 Escandalo nenhum damos em cousa alguma, para que a ministerio não seja vituperado.
4 Antes como ministros de Deos em tudo nos fazemos agradaveis, em muita tolerancia, em afflicçoés, em necessidades, em angustias.
5 Em açoutes, em prisoes, em revoltas, em trabalhos, em vigilias, em jejuns.
6 Em pureza, em sciencia, em longanimidade, em benignidade, em Espirito Santo, em caridade não fingida.
7 Em palavra de verdade, em potencia de Deos, por armas de justiça, ás direitas, e ás esquerdas.
8 Por honra e por deshonra, por infamia e por boa fama: como enganadores, e todavia verdadeiros:
9 Como ignorados, e todavia conhecidos: como morrendo, e vêdes aqui vivemos: como castigados, e anda não mortos.
10 Como contristados, porém sempre alegres, como pobres, porém a muitos enriquecendo: como nada tendo, e todavia tudo possuindo.
11 Para comvosco, ó Corinthios, está aberta nossa boca; nosso coração está dilatado.
12 Não estais estreitos em nós, mas estais estreitos em vossas entranhas.
13 Ora em recompensa disto, (como a filhos falo) vos dilatai vósoutros tambem.
14 Não vos ajunteis em outro jugo com os infieis. Porque, que participação tem a justiça com a injustiça! E que communicação tem a luz com as trevas.
15 E que conveniencia tem Christo com Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?
16 E que consentimento tem o templo de Deos com os idolos? Porque vósoutros sois o templo do Deos vivente, como Deos disse: Nelles habitarei, e entre elles andarei: e eu serei seu Deos, e elles serão meu povo.
17 Pelo que sahi do meio delles, e vos apartai, diz o Senhor: e não toqueis cousa immunda, e eu vos aceitarei.
18 E eu vos serei por Pai, e vós me sereis por filhos e filhas, diz o Senhor Todopoderoso.

CAPITULO 7.

1 ORA amados, pois taes promessas temos, alimpemo-nos de toda immundicia da carne e do espirito, aperfeiçoando a santificação em o temor de Deos.
2 Dai-nos lugar; a ninguem aggravamos, a ninguem corrompemos, de ninguem buscamos nosso proveito.
3 Não digo isto para vossa condemnação. Porque ja d’antes disse, que estais em nossos corações, para juntamente morrer e viver.
4 Muita confiança tenho para comvosco; muita gloriação de vós tenho; cheio estou de consolação; sobreabundo de gozo em todas nossas tribulações.
5 Porque até quando viemos á Macedonia, nenhum repouso teve nossa carne: antes em tudo fomos atribulados: combates por fora, temores por dentro.
6 Mas Deos, que consola aos abatidos, nos consolou com a vinda de Tito.
7 E não somente com sua vinda, mas tambem com a consolação, com que foi consolado ácerca de vós, contando-nos vossas saudades, vosso choro, e vosso zelo por mim, de maneira que tanto mais me regozijei.
8 Porque ainda que vos contristei com a carta, não me arrependo; ainda que me arrependi; porque vejo que aquella carta, posto que por pouco tempo, vos contristou.
9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque contristados fostes para arrependimento. Porque fostes contristados segundo Deos; de maneira que em nenhuma cousa damno algum padecestes por nós.
10 Porque a tristeza segundo Deos, obra arrependimento para salvação, de que ninguem se arrepende: Mas a tristeza do mundo obra morte.
11 Porque eis que, isto mesmo, que segundo Deos fostes contristados, quanta diligencia em vós obrou? ainda defensa, ainda indignação, ainda temor, ainda saudades, ainda zelo, ainda vingança; em tudo vos mostrastes estar puros neste negocio.
12 Assim que ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o aggravo, nem por causa do que padeceo o aggravo; mas para que nossa diligencia por vósoutros, diante de Deos, vos fosse manifesta.
13 Portanto fomos consolados acerca de vossa consolação: e muito mais nos alegramos ácerca da alegria de Tito, de que seu espirito foi recreado de todos vósoutros.
14 Porque se em alguma cousa para com elle de vósoutros me gloriei, não fiquei enverganhado: antes como tudo com verdade vos dissemos; assim tambem nossa gloriação, de que para com Tito usei, se achou verdadeira:
15 E suas entranhas estão mais abundantes para comvosco, lembrando-se da obediencia de todos vósoutros, de como o recebestes com temor e tremor.
16 Assim que me regozijo, de que em tudo me posso confiar de vósoutros.

CAPITULO 8.

1 TAMBEM, irmãos, fazemos-vos saber a graça de Deos, dada ás Igrejas de Macedonia.
2 Que em muita provação de tribulação redundou a abundancia de seu gozo, e sua profunda pobreza, em riquezas de sua beneficencia.
3 Porque segundo seu poder (o que eu mesmo testifico), e ainda sobre seu poder, forão voluntarios.
4 Pedindo-nos com muitos rogos, que aceitassemos a mercê e a communicação deste serviço, que para os santos se fazia.
5 E não somente fizérão como nós esperavamos, mas a si mesmos se dérão, primeiramente ao Senhor, e depois a nósoutros, pela vontade de Deos.
6 De maneira que exhortavamos a Tito, que assim como d’antes começara, assim tambem acabasse esta mercê entre vósoutros.
7 Portanto assim como em tudo abundais, em fé, e em palavra, e em sciencia, e em toda diligencia, e em vossa caridade para comnosco; olhaique tambem abundeis nesta graça.
8 Não digo isto como mandando, senão por tambem provar a sinceridade de vossa caridade pela diligencia dos outros.
9 Porque ja sabeis a graça de nosso Senhor Jesu-Christo, que sendo rico, por amor de vós se fez pobre: para que com sua pobreza enriquecesseis.
10 E nisto dou meu parecer: Porque isto vos convem, como aquelles, que não somente a fazelo, mas tambem a quere-lo, começastes ja desde o anno passado.
11 Agora porém acabai tambem o ja começado: para que assim como o animo foi prompto em o querer, assim o seja tambem em o acabar do que tendes.
12 Porque se primeiro houver promptidão de animo, será algum aceito segundo o que tem, e não segundo o que não tem.
13 Porque não digo isto para que outros tenhão alivio, e vósoutros oppressão.
14 Mas para que igualmente, neste tempo presente, vossa abundancia supra a falta dos outros, para que tambem sua abundancia supra vossa falta, para que haja igualdade.
15 Como está escrito: O que muito colheo, não teve mais: e o que pouco, não teve menos.
16 Porém graças a Deos, que por vósoutros pôz a mesma diligencia no coração de Tito:
17 Pois aceitou a exhortação, e mui diligente partio voluntariamente para vósoutros.
18 E tambem com elle enviamos ao irmão, que tem louvor no Evangelho por todas as Igrejas.
19 E não somente isto, mas tambem foi escolhido das Igrejas por companheiro de nossa viagem com esta mercê, que por nósoutros he administrada para gloria do mesmo Senhor, e promptidão de vosso animo.
20 Evitando isto, que ninguem nos vitupére nesta abundancia, que por nóshe administrada.
21 Como aquelles, que procuramos o que he honesto, não somente diante do Senhor, mas tambem diante dos homens.
22 Com elles enviamos tambem a nosso irmão, ao qual muitas vezes em muitas cousas ja provamos, quehe diligente, e agora ainda muito mais diligente pela muita confiança, que para comvosco tem.
23 Seja pois Tito, meu companheiro e cooperador he para comvosco: Sejão nossos irmãos, embaixadores são das Igrejas, e gloria de Christo.
24 Portanto, para com elles mostrai a prova de vossa caridade, e de nossa gloriação acerca de vós, perante a face das Igrejas.

CAPITULO 9.

1 PORQUE da administração que para os santos se faz, não necessito escrever-vos.
2 Porque bem sei a promptidão de vosso animo, do qual acerca de vós me glorio para com os Macedonios, que ja Achaia desde o anno passado está prestes; e o zelo que de vós começou, a muitos tem provocado.
3 Porém a estes irmãos enviei, para que nossa gloriação ácerca de vós nesta parte não seja vã: para que (como ja disse) possais estar prestes.
4 Para que se acaso vierem comigo os Macedonios, e vos acharem desapercebidos, não nos envergonhemos a nós, (por não dizer a vós) neste firme fundamento de gloriação.
5 Portanto tive por cousa necessaria exhortar a estes irmãos, que viessem primeiro a vósoutros, e aparelhassem primeiro vossa bemdição, ja d’antes denunciada, para que esteja prestes assim como bemdição, e não como escaceza.
6 Isto porem digo, que o que semea escassamente, tambem segará escassamente; e o que semea em bemdiçoens, tambem segará em bemdiçoens.
7 Cada qual faça como propôem em seu coração, não com tristeza, ou por necessidade. Porque Deos ama ao dador alegre.
8 E poderoso he Deos para fazei abundar em vós toda graça, para que tendo sempre, em tudo, toda sufficiencia, abundeis em toda boa obra.
9 Como está escrito: Derramou, deo aos pobres: sua justiça permanece para sempre.
10 Ora aquelle que dá a semente ao que semea, tambem vos dé pão, para comer, e multiplique vossa sementeira, e augmente os frutos de vossa justiça:
11 Para que em tudo enriqueçais em toda beneficencia, a qual por nós obra, que se dém graças a Deos.
12 Porque a administração deste serviço, não somente supre a falta dos santos, mas tambem abunda em que se dão muitas graças a Deos.
13 Porquanto pela prova desta administração glorificão a Deos acerca da submissão de vossa confissão ao Evangelho de Christo, e dabeneficencia da communicação para com elles e para com todos:
14 E por sua oração por vósoutros, tendo de vós saudades, por causa da excellente graça de Deos sobre vósoutros.
15 Ora graças a Deos por seu dom ineffavel.

CAPITULO 10.

1 ALEM disto eu Paulo mesmo, pela mansidão e benignidade de Christo, vos rogo, que presente em verdade sou baixo entre vós, porém ausente atrevido para comvosco:
2 Rogo pois, que quando estiver presente, não venha a ser atrevido com a confiança, de que ousadamente sou estimado usar com alguns, que nos estimão como se andassemos segundo a carne.
3 Porque andando em a carne, não militamos segundo a carne.
4 Porque as armas de nossa milicia não são carnaes, senão poderosas por Deos, para destruição de fortalezas.
5 Pois destruimos conselhos, e toda alteza que se levanta contra o conhecimento de Deos, e a todo entendimento levamos preso á obediencia de Christo.
6 E estamos prestes para vingar toda desobediencia, quando ja vossa obediencia for cumprida.
7 Attentais vós para o que está diante dos olhos? Se alguem de si mesmo confia que he de Christo, pense o tal outra vez isto comsigo mesmo, que como elle he de Christo, assim nós tambem somos de Christo.
8 Porque se eu tambem ainda mais me quizer gloriar de cousa alguma de nosso poder, o qual o Senhor nos deo para edificação, e não para vossa destruição, não me envergonharei:
9 Para que não pareça como se vos quizéra espantar por cartas.
10 Porque as cartas (dizem) são em verdade graves e fortes, mas a presença do corpo he fraca, e a palavra desprezivel.
11 Isto pense o tal, que quaes somos em a palavra por cartas ausentes, taes somos tambem por obra presentes.
12 Porque não ousamos a nos contar; ou comparar com alguns, que a si mesmos se louvão: mas não entendem estes que se medem a si mesmos comsigo mesmos, e se compárão a si mesmos comsigo mesmos.
13 Porem não nos gloriaremos fora de medida: senão que, conforme á medida da regra, a qual medida Deos nos repartio, tambem chegamos até vósoutros.
14 Porque não nos estendemos a nós mesmos mais do que convém, como se até vósoutros não houvessemos de chegar: pois tambem ja até vósoutros chegamos em o Evangelho de Christo.
15 Não nos gloriando fora de medida em trabalhos alheios: antes tendo esperança, que vindo vossa fé a crescer, abundantemente seremos engrandecidos entre vósoutros conforme á nossa regra:
16 Para denunciar o Evangelho nos lugares que estão d’alem de vósoutros: e não para nos gloriar em regra alheia acerca do que ja está aparelhado.
17 Porem o que se gloria, se glorie em o Senhor.
18 Porque não o que a si mesmo se louva, senão o a quem louva o Senhor, esse he o approvado.

CAPITULO 11.

1 OXALÁ me supportasseis hum pouco em minha louquice: porem supportai-me ainda.
2 Porque zeloso estou de vósoutros com zelo de Deos. Porque preparado vos tenho, para vos appresentar, como huma virgem pura, a hum marido, convem a saber, a Christo.
3 Mas temo que como a serpente com sua astucia enganou a Eva, tambem assim em alguma maneira vosos sentidos se não corrompão,desviando-se da simplicidade que está em Christo.
4 Porque se aquelle que vem, a outro Jesus prégasse que nós não temos pregado, ou se outro espirito recebesseis que não recebestes: ou outro Evangelho que não aceitastes, com razão o sofrerieis.
5 Porque penso que em nada fui inferior aos mais excellentes Apostolos.
6 E se tambem sou rude em a palavra, comtudo não o sou na sciencia; mas em tudo ja totalmente manifestos estamos entre vós.
7 Pequei porventura, humilhandome a mim mesmo, para que vós fosseis exaltados? Porquanto de graça vos denunciei o Evangelho de Deos?
8 Outras Igrejas despojei eu, dellas recebendo salario, para servir a vós: e estando comvosco presente, e tendo necessidade, a ninguem fui pezado.
9 Porque minha falta suprirão os irmãos, que viérão de Macedonia; e em tudo me guardei de vos ser pezado, e ainda me guardarei.
10 A verdade de Christo está em mim, que esta gloriarão nas partes de Achaia me não será impedida.
11 Porque? Porque vos não amo? Deos o sabe.
12 Mas o que faço, ainda o farei, para cortar a occasião aos que buscão occasião: para que, naquillo em que se glorião, sejão achados como nós.
13 Porque taes falsos Apostolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em Apostolos de Christo.
14 E não he maravilha: porque o mesmo Satanás se transfigura em Anjo de luz.
15 Assim que não he muito, se tamoem seus ministros se transfigurão, como se forão ministros de Justiça: o fim dos quaes será conforme a suas obras.
16 Outra vez digo, que ninguem cuide que sou nescio: Ou senão, como a nescio me recebei, para que tambem hum pouco me glorie.
17 O que digo, não o digo segundo o Senhor; senão como por louquice, neste firme fundamento de gloriação;
18 Pois muitos se glorião segundo a carne: tambem eu me gloriarei.
19 Porque de boamente tolerais aos nescios, porquanto sois sabios.
20 Pois tolerais se alguem vos poem em servidão, se alguem vos devora, se alguem cousa alguma vos toma, se alguem se exalta, se alguem vos fere no rosto.
21 Por afronta o digo; como se houvessemos sido fracos: antes no que outro he atrevido (com louquice falo), tambem eu sou atrevido.
22 São Hebreos? tambem eu: São Israëlitas? tambem eu: São semente de Abraham? tambem eu.
23 São ministros de Christo? (como imprudente falo) eu mais que elles: em trabalhos, muito mais: em pancadas, mais que elles: em prisoens, muito mais: em perigo de morte, muitas vezes.
24 Dos Judeos recebido tenho cinco quarentenas de açoutes menos hum.
25 Por tres vezes fui açoutado com vergas, huma vez fui apedrejado, tres vezes padeci naufragio, huma noite e hum dia passei no abismo.
26 Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos da minha nação, em perigos das Gentes, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos:
27 Em trabalho e fadiga, em vigilias muitas vezes, em fome e em sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nueza.
28 Sem as cousas de fora, cada dia me sobrevem o cuidado de todas as Igrejas.
29 Quem enfraquece, que eu tambem não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não queime?
30 Se convem gloriar-se, das cousas de minha fraqueza me gloriarei.
310 Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo, que eternamente he bemdito, sabe que não minto.
32 Em Damasco guardára o Governador d’el-Rei Aretas a cidade dos Damascenos, querendo me prender.
33 E em hum cesto fui descido por huma janella, do muro: e assim es capei de suas mãos.

CAPITULO 12.

1 EM verdade que me não convém gloriar. Porque virei ás visoens e revelaçoens do Senhor.
2 Conheço hum homem em Christo, que quatorze annos ha (se no corpo, não o sei, se fora do corpo, não o sei: Deos o sabe) foi arrebatado até o terceiro Ceo.
3 E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não o sei: Deos o sabe):
4 Foi arrebatado ao paraiso, e ouvio palavras ineffaveis, que ao homem não he licito falar.
5 De hum tal me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei senão em minhas fraquezas.
6 Porque se gloriar-me quizer, nescio não serei: Porque a verdade direi: Porém deixo-o, porque ninguem de mim cuide mais do que em mim vé, ou de mim ouve.
7 E porque me não exaltasse pela excellencia das revelaçoes, me foi dado hum espinho na carne, a saber hum Anjo de Satanás, para me bofetear, para que me não exaltasse.
8 Sobre o que tres vezes orei ao Senhor, para que de mim se desviasse.
9 E disse-me: Minha graça te basta: porque minha potencia em a fraqueza se cumpre. Assim que de melhormente antes me gloriarei em minhas fraquezas, para que a potencia de Christo em mim habite.
10 Portanto prazer tenho em fraquezas, em injurias, em necessidades, em perseguições, em angustias por amor de Christo. Porque quando estou fraco, então sou poderoso.
11 Nescio fui em me gloriar: vós me constrangestes: que de vósoutros havia eu de ser louvado, pois em nenhuma cousa fui inferior aos mais excellentes Apostolos, ainda que nada sou.
12 Effeituadas forão entre vósoutros em toda paciencia as marcas de Apostolo, com sinaes, prodigios, e maravilhas.
13 Porque que ha, em que inferiores fostes ás outras Igrejas, senão em que eu mesmo vos não fui pezado; pei doai-me este aggravo.
14 Vedes me aqui estou prestes para a terceira vez vir a vósoutros, evos não serei pezado. Porque não busco o vosso, senão a vós. Porque não devem os filhos enthesourar para os pais, senão os pais para os filhos.
15 Eu porem de mui boamente gastarei, e gastar me deixarei por vossas almas, ainda que amando-vos tanto mais, seja amado menos.
16 Porem seja assim, que vos não fui pezado: mas como era astuto, por engano vos tomei.
17 Porventura, de vós me aproveitei, por algum dos que vos enviei?
18 A Tito roguei, e com elle ao irmão enviei; porventura Tito de vós se aproveitou? Porventura não andamos em o mesmo espirito? em as mesmas pisadas?
19 Cuidais ainda que comvosco nos desculpamos? Perante de Deos em Christo falamos: E tudo isto, ó amados, para vossa edificação.
20 Porque temo que quando vier, vos não ache em maneira alguma taes, quaes eu quizera: e eu de vos achado seja tal, qual vósoutros não quizéreis; para que em alguma maneira não haja pendencias, invejas, iras, porfias, detracçoés, mexericos, inchaçoens, e sediçoes.
21 Para que outra vez, quando vier, me não humilhe meu Deos para com vosco, e chore por muitos dos que d’antes peccárão, e ainda se não arrependérão da immundicia, e fornicação, e deshonestidade, que commettérão.

CAPITULO 13.

1 ESTA he a terceira vez que venho a vósoutros: Em boca de duas ou tres testemunhas consistirá toda palavra.
2 Ja d’antes tenho dito, e d’antes como presente a segunda vez o digo, e agora ausente o escrevo aos que d’antes peccárão, e a todos os de mais, qua se outra vez venho, não lhes perdoarei:
3 Pois buscais prova de Christo que em mim fala, o qual em vós não he fraco, antes he poderoso entre vósoutros.
4 Porque ainda que por fraqueza foi crucificado, com tudo vive pela potencia de Deos. Porque tambem nós nelle somos fracos, porém com elle viveremos pela potencia de Deos em vósoutros.
5 Examinai-vos a vós mesmos, se estais na fé: provai-vos a vós mesmos. Ou não vos conheceis a vós mesmos, que Jesu-Christo está em vós? Senão he que ja em maneira alguma sejais reprovaveis.
6 Espero porém que entendereis que não somos reprovaveis.
7 E desejo de Deos, que nenhum mal façais: não para que sejamos achados approvados, mas para que vós façais o bem, e nós sejamos como reprovaveis.
8 Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.
9 Pois nos regozijamos quando estamos fracos, e vós estais fortes: e isto tambem desejamos, a saber, vossa consummação.
10 Por isso escrevo estas cousas ausente: para que estando presente não use de rigor, segundo o poder que o Senhor me tem dado, para edificação, e não para destruição.
11 No demais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, estai consolado, sêde de hum mesmo parecer, vivei em paz; e o Deos de caridade e de paz será comvosco.
12 Saudai-vos huns aos outros com santo beijo. Todos os santos vos saudão.
13 A graça do Senhor Jesu-Christo, e a caridade de Deos, e a communicação do Espirito Santo, seja com todos vósoutros. Amen.
A segunda Epistola aos Corinthios foi escrita de Philippos, em Macedonia, e enviada por Tito, e Lucas.

GÁLATAS

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo (não de parte dos homens, nem por homem, mas por Jesu-Christo, e por Deos o Pai, que dos mortos o resuscitou).
2 E todos os irmãos que comigo estão, ás Igrejas de Galacia:
3 Graça e paz de Deos Pai, e de nosso Senhor Jesu-Christo:
4 O qual se deo a si mesmo por nossos peccados, para nos tirar deste presente mao mundo, segundo a vontade de nosso Deos e Pai.
5 Ao qual seja gloria para todo sempre. Amen.
6 Maravilho-me de que daquelleque vos chamou á graça de Christo, tão presto fostes traspassados a outro Evangelho.
7 Sendo que não ha outro, senão que ha alguns que vos inquietão, e querem transtornar o Evangelho de Christo.
8 Porem ainda que nós, ou hum Anjo do Ceo, vos annunciar outro Evangelho alem do que já vos temos annunciado, seja maldito.
9 Como d’antes temos dito, tomo tambem agora a dizer; Se alguem vos annunciar outro Evangelho alem do que já recebestes, seja maldito.
10 Porque prégo eu agora a homens, ou a Deos? Ou procuro comprazer a homens? Porque se ainda comprazera a homens, não fóra servo de Christo.
11 Mas faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho que por mim foi annunciado, não he segundo os homens.
12 Porque o não recebi, nem apprendi de homem algum, senão por revelação de Jesu-Christo.
13 Porque já ouvistes qual antigamente foi meu trato em o Judaismo, que sobre maneira perseguia a Igreja de Deos, e a assolava.
14 E como no Judaismo levava vantagem a muitos de minha idade em minha nação: Sendo extremamente zeloso das tradiçoes de meus pais.
15 Mas quando prouve a Deos (que desde o ventre de minha mai me separou, e por sua graça me chamou).
16 De em mim revelar a seu Filho, para que entre as Gentes o evangelizasse, não tomei logo conselho com carne e sangue:
17 Nem tornei a Jerusalem aos que já antes de mim erão Apostolos: antes me fui a Arabia, e outra vez tornei a Damasco.
18 Depois passados tres annos, tornei a Jerusalem a ver a Pedro, e fiquei com elle quinze dias.
19 E vi a nenhum outro dos Apostolos, senão a Jacobo, o irmão do Senhor.
20 Ora das cousas que vos escrevo, eis que diante de Deos testifico, que não minto.
21 Depois vim ás partes de Syria e de Cilicia.
22 E não era conhecido de vista das Igrejas de Judea, que em Christo estão.
23 Mas somente tinhão ouvido dizer: Que aquelle que d’antes nos perseguia, agora annuncia a fé, a qual dantes assolava.
24 E a Deos em mim glorificavão.

CAPITULO 2.

1 DEPOIS, passados quatorze annos, outra vez subi a Jerusalem com Barnabé, tomando tambem comigo a Tito.
2 E subi por revelação e propuz-lhes o Evangelho que entre as Gentes prégo, e particularmente aos que estavão em estima; para que em maneira alguma não corresse, ou houvesse corrido em vão.
3 Porem tambem nem ainda Tito, que comigo estava, sendo Grego, foi constrangido a circuncidar-se.
4 E isto por causa dos falsos irmãos, que se tinhão entremettido, e secretamente entrarão a espiar nossa liberdade, que temos em Christo-Jesus, para nos pôrem em servidão.
5 Aos quaes nem ainda por huma hora cedemos com sujeição alguma, para que a verdade do Evangelho permanecesse em vósoutros.
6 E daquelles que erão estimados de ser cousa alguma, quaes antes hajão sido, não se me dá: Deos não aceita a apparencia da pessoa do homem: porque os que estavão em estima, nada me contribuirão.
7 Antes ao contrario, como virão que o Evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão:
8 (Porque aquelle que em Pedro com efficacia obrou no Apostolado da circuncisão, esse obrou tambem com efficacia por mim entre as Gentes).
9 E como Jacobo, e Cephas, e João, que erão estimados serem as columnas, conhecérão a graça que me era dada, a mim e a Barnabé dêrão a mãodireita de parçaria para que nós fossemos ás Gentes, e elles á circuncisão.
10 Somente nos pedirão que nos lembrassemos dos pobres: o que tambem com diligencia procurei fazer.
11 E vindo Pedro a Antiochia, lhe resisti em a cara, por quanto era de reprehender.
12 Porque antes que alguns viessem de parte de Jacobo, tambem comia com as Gentes: mas como vierão, se retirou, e delles se apartou, temendo aos que erão da circuncisão.
13 E tambem os outros Judeos simulavão com elle, de maneira que até Barnabé se deixava levar de sua simulação.
14 Mas quando vi que não andavão bem e direitamente conforme á verdade do Evangelho, disse em presença de todos a Pedro: Se tu, sendo Judeo, vives como Gentio, e não como Judeo, porque constranges as Gentes a viverem como Judeos?
15 Nósoutros de natureza Judeos somos, e não peccadores d’entre as Gentes:
16 Sabendo porem que o homem não he justificado pelas obras da Lei, senão pela fé de Jesu-Christo; tambem em Christo Jesus havemos crido, para que fossemos justificados pela fé de Christo, e não pelas obras da Lei: porquanto nenhuma carne será justificada pelas obras da Lei.
17 Mas se nós, os que em Christo procuramos ser justificados, tambem nós mesmos somos achados peccadores, he porisso Christo ministro de peccado? Em maneira nenhuma.
18 Porque se as cousas que já destrui, as mesmas torno a edificar, a mim mesmo me constituo por transgressor.
19 Porque pela Lei morto estou á Lei, para que viva para Deos.
20 Com Christo já estou crucificado. E vivo, não mais eu, mas Christo vivo em mim: e o que agora na carne vivo, pela fé do Filho de Deos o vivo, o qual me amou, e a si mesmo se entregou por mim.
21 Não aniquilo a graça de Deos: porque, se a justiça he pela Lei, logo de balde morreo Christo.

CAPITULO 3.

1 Ó GÁLATAS sem sizo, quem vos enfeitiçou para não obedecerdes á verdade! aos quaes Jesu-Christo ia foi retratado perante os olhos, sendo entre vós crucificado.
2 Isto só de vós quizéra aprender; Recebestes-vós o Espirito pelas obras da Lei, ou pela pregação da Fé?
3 Tão sem sizo estais, que havendo começado com o Espirito, acabais agora com a carne?
4 Tanto em vão padecestes? Se he que tambem he em vão.
5 Logo aquelle que vos dá o Espirito, e obra maravilhas entre vós, falo pelas obras da Lei, ou pela pregáção da fé?
6 Como Abraham creo a Deos, e foilhe imputado por justiça.
7 Assim que bem entendeis, que os que são da fé, são filhos de Abraham.
8 E vendo a Escritura d’antes, que Deos pela fé havia de justificar as Gentes, d’antes annunciou o Evange-lho a Abraham, dizendo: todas as gentes em ti serão bemditas.
9 Assim que os que são da fé, são bemditos com o crente Abraham.
10 Porque todos quantos são das obras da Lei, estão debaixo de maldição. Porque escrito está: Maldito todo aquelle que não permanecer em tudo quanto está escrito no livro da Lei, para o fazer.
11 E que pela Lei ninguem seja justificado diante de Deos, he manifesto: porque o justo viverá pela fé.
12 Porém a Lei não he da fé: mas o homem que fizer estas cousas, por ellas viverá.
13 Christo nos resgatou da maldição da Lei, feito por nós maldição. Porque escrito está: Maldito todo aquelle que for pendurado em madeiro.
14 Para que a bemdição de Abraham viesse ás Gentes em Christo Jesus, e para que nós pela fé recebessemos a promessa do Espirito.
15 Irmãos, como homem falo; até o concerto de hum homem ja confirmado, ninguem o aniquila, ou lhe acrecenta.
16 A Abraham pois, e á sua semente, forão ditas as promessas. Não diz: e ás sementes, como de muitos, senão como de hum: e á tua semente, a qual he Christo.
17 Isto porém digo, que o concerto d’antes confirmado por Deos em Christo, pela Lei que veio quatrocentos e trinta annosdepois, não he invalidado, para aniquilar a promessa.
18 Porque se a herança he pela Lei, ja não he mais pela promessa: porem Deos pela promessa graciosamente a deo a Abraham.
19 Para que pois he a Lei? Ordenada foi por causa das transgressões até que viesse a semente, a quem se fez a promessa; e pelos Anjos foi posta em a mão do Medianeiro.
20 E o Medianeiro não he de hum, porem Deos he hum.
21 He logo a Lei contra as promessas de Deos? em maneira nenhuma; porque se a Lei fôra dada para poder vivificar, verdadeiramente a justiça fôra pela Lei.
22 Mas a Escritura encerrou tudo debaixo de peccado, para que a promessa fosse dada aos crentes pela fé de Jesu-Christo.
23 Porem antes que viesse a fé, estavamos guardados debaixo da Lei, e encerrados até aquella fé que se havia de manifestar.
24 De maneira que a Lei foi nosso aio para nos levar a Christo, para que pela fé fossemos justificados:
25 Mas vinda a fé, ja não estamos debaixo de aio.
26 Porque todos sois filhos de Deos pela fé em Christo-Jesus.
27 Porque todos quantos fostes baptizados em Christo, ja vos vestistes de Christo.
28 Não ha nisto Judeo nem Grego; não ha servo nem livre; não ha macho nem femea. Porque todos vósoutros sois hum em Christo Jesus.
29 E se sois de Christo, logo sois semente de Abraham, e conforme á promessa herdeiros.

CAPITULO 4.

1 DIGO porém, que todo o tempo que o herdeiro he menino, em nada differe do servo, ainda que de tudo seja Senhor.
2 Mas está debaixo de tutores e procuradores, até o tempo d’antes pelo pai determinado.
3 Assim tambem nósoutros: quando éramos meninos, reduzidos estavamos á servidão debaixo dos primeiros ensinos do mundo.
4 Mas vindo a plenidão do tempo, enviou Deos a seu Filho, feito de mulher, feito sujeito á Lei:
5 Para que redimisse aos que estavão debaixo da Lei: e nós alcançasse-mos a adopção de filhos.
6 E porquanto sois filhos, enviou Deos o Espirito de seu Filho em vossos coraçoes, o qual clama: Abba, Pai.
7 Assim que ja não es mais servo, senão filho: E se filho, tambem herdeiro de Deos por Christo.
8 Porém quando d’antes não conhecieis a Deos, servieis aos que de natureza não são Deoses.
9 E agora, a Deos conhecendo, antes muito mais de Deos sendo conhecidos; como outra vez vos tornais aos primeiros fracos e pobres ensinos, aos quaes outra vez de novo quereis servir?
10 Guardais dias, e mezes, e tempos, e annos.
11 Temo de vósoutros, que em maneira alguma para comvosco não haja trabalhado em vão.
12 Irmãos, rogo-vos: séde como eu: porque tambem eu sou como vósoutros; nenhum aggravo me fizestes.
13 E vósoutros sabeis, que com fraqueza de carne primeiro vos annunciei o Evangelho:
14 E não rejeitastes nem desprezastes a tentação, que em minha carne tinha, antes me recebestes como a hum Anjo de Deos, e como ao mesmo Christo-Jesus.
15 Qual era logo a estima de vossa bemaventurança? Porque testemunho vos dou, de que, se possivel fora, vossos olhos arrancarieis, e m’os darieis.
16 Fiz-me logo vosso inimigo, dizendo a verdade?
17 Não tem zelo de vós como convem; mas a nós querem excluir, para que vos tenhais zelo delles.
18 Bom he ser zelosos, porem sempre em bem: e não só quando comvosco estou presente:
19 Meus filhinhos, dos quaes torno a estar de parto, até que Christo seja formado em vós.
20 Bem quizera eu agora estar presente comvosco, e mudar minha voz: porque de vós estou em duvida.
21 Dizei-me, os que quereis estar debaixo da Lei; não ouvis vósoutros a Lei?
22 Porque escrito está, que Abra ham tinha dous filhos, hum da criada, e hum da livre.
23 Mas o que era da criada, nasceo segundo a carne, porem o que era da livre, pela promessa.
24 O que se entende por allegoria: porque estes são os dous concertos: hum do monte de Sina, gerando para servidão, que he Agar.
25 Porque esta Agar he Sina, hum monte em Arabia, e quadra com a que agora he Jerusalem, e serve com seus filhos.
26 Mas a Jerusalem que está a riba, he livre: a qual he a mãi de todos nósoutros.
27 Porque escrito está: Alegra-te esteril, a que não páres; Esforça-te e clama tu, que não estás de parto: porque muitos mais são os filhos da solitaria, que os da que tem marido.
28 Nós porem irmãos, como Isaac, somos filhos da promessa.
29 Porem como então, aquelle que fora gerado segundo a carne, perseguia ao que era gerado segundo o espirito, assim he tambem agora.
30 Mas que diz a Escritura? Lança fora a criada, e a seu filho, porque em maneira nenhuma o filho da criada herdará com o filho da livre.
31 De maneira, irmãos, que não somos filhos da criada, senão da livre.

CAPITULO 5.

1 ESTAI pois firmes na liberdade com que Christo nos libertou, e não torneis a embaraçar-vos com o jugo de servidão.
2 Vêdes aqui, eu Paulo, vos digo, que se vos deixardes circuncidar, nada Christo vos aproveitará.
3 E a protestar tomo a todo homem, que se deixar circuncidar, que está obrigado a guardar toda a Lei.
4 Vazios estais de Christo, os que quereis justificar-vos pela Lei; da graça tendes cahido.
5 Porque aguardamos pelo espirito da fé a esperança da justiça.
6 Porque em Christo-Jesus nem a circuncisão tem alguma virtude, nem a incircuncisão: senão a fé, que obra por caridade.
7 Corrieis bem; quem vos impedio de não obedecerdes a verdade?
8 Esta persuasão não vem daquelle que vos chama.
9 Pouco fermento levéda toda a massa.
10 Confio de vós em o Senhor, que nenhuma outra cousa sentireis: Mas aquelle que vos inquieta, levará o juizo, seja elle quem quer que for.
11 Eu porem, irmãos, se ainda prego a circuncisão, porque logo sou perseguido? Aniquilado está logo o escandalo da cruz.
12 Oxalá tambem cortados fossem os que inquietando-vos andão.
13 Porque vósoutros irmãos, á liberdade fostes chamados. Somente não useis da liberdade para dar occasião á carne, porem por caridade vos servi huns aos outros.
14 Porque toda a Lei em huma palavra se cumpre; a saber nesta; Amarás a teu proximo como a ti mesmo.
15 Porem se huns aos outros vos mordeis, e vos devorais, olhai que tambem huns aos outros vos não consumais.
16 Digo porem, andai em Espirito. E não cumprais a concupiscencia da carne.
17 Porque a carne cobiça contra o Espirito, e o Espirito contra a carne: e estes hum ao outro se oppoem; de maneira que não façais o que que rieis.
18 Porem se pelo Espirito sois guiados, não estais debaixo da Lei.
19 Ora manifestas são as obras da carne, que são adulterio, fornicação, immundicia, dissolução,
20 Idolatria, empeçonhamento, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissençoés, heresias,
21 Invejas, homicidios, bebedices, glotonarias, e cousas semelhantes a estas: das quaes d’antes vos digo, como ja tambem d’antes vos disse, que os que taes cousas fazem, não herdarão o Reino de Deos.
22 Mas o fruto do Espirito he caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão temperança.
23 Contra os taes não ha Lei.
24 Porem os que são de Christo, crucificárão a carne com seus affectos, e concupiscencias.
25 Se em Espirito vivemos, tambem em espirito andemos.
26 Não sejamos cobiçosos de vãgloria, irritando huns aos outros, invejando huns aos outros.

CAPITULO 6.

1 IRMÃOS, se tambem algum homem for sobre salteado em offensa alguma, vós que sois espirituaes, encaminhai ao tal com espirito de mansidão; attentando para ti mesmo, porque tambem não sejas tentado.
2 Levai huns as cargas dos outros: e assim cumpri a Lei de Christo.
3 Porque se alguem cuida ser cousa alguma, sendo nada, a si mesmo se engana em seu animo.
4 Mas cada hum prove sua propria obra, e então terá gloriação em si mesmo só, e não em outro.
5 Porque cada qual levará sua propria carga.
6 E o que na palavra he instruido, de todos seus bens communique com aquelle que o instrue.
7 Não erreis: Deos não se deixa escarnecer: porque tudo o que o homem semear, isso tambem segará.
8 Porque o que em sua carne semear, da carne segará corrupção: Porem o que em o Espirito semear, do Espirito segará a vida eterna.
9 Porem não desfaleçamos no bemfazer, porque a seu tempo segarémos, se desmaiado não houvermos.
10 Assim que entretanto que tempo temos, bem façamos a todos: porem maiormente aos domesticos da fé.
11 Olhai quão larga carta de minha mão vos escrevi.
12 Todos os que em a carne querem mostrar boa apparencia, esses a vos circuncidar vos constrangem, por somente não serem perseguidos á causa da cruz de Christo.
13 Porque nem ainda os mesmos que se circuncidão, guardão a Lei: mas querem que vos circuncideis, por se gloriarem em vossa carne.
14 Mas longe esteja de mimgloriarme, senão em a cruz de nosso Senhor Jesu-Christo, pelo qual o mundo me he crucificado a mim, e eu ao mundo.
15 Porque em Christo Jesus, nem a circuncisão tem alguma virtude, nem a incircuncisão, senão a nova creatura.
16 E todos quantos conforme a esta regra andarem, paz e misericordia haverá sobre elles, e sobre o Israël de Deos.
17 No de mais ninguem me dé molestia: porque em meu corpo trago as marcas do Senhor Jesus.
18 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja, irmãos, com vosso espirito. Amen.
Escrita de Roma aos Galatas.

EFÉSIOS

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo de Jesu-Christo, pela vontade de Deos, aos santos que estão em Epheso, e fieis em Christo-Jesus.
2 Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
3 Bemdito seja o Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo, o qual nos bemdisse com toda bemdição espiritual em o Ceo em Christo.
4 Como nelle nos elegeo antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irreprehensiveis diante delle em caridade.
5 E nos predestinou em adopção de filhos por Jesu-Christo em si mesmo, segundo o beneplacito de sua vontade.
6 Para louvor da gloria de sua graça, pela qual nos fez agradaveis a si em o Amado.
7 Em o qual temos redempção por seu sangue, a saber, a remissão das offensas, segundo as riquezas de sua graça:
8 Com a qual em nós abundou em toda sabedoria e prudencia.
9 Notificando-nos o mysterio de sua vontade segundo seu beneplacito, o qual propozéra em si mesmo.
10 Para em a dispensação do cumprimento dos tempos em Christo todas as cousas tornar a congregar, assim as que nos Ceos, como as que na terra estão:
11 Naquelle em quem tambem somos feitos herança, havendo sido predestinados conforme ao proposito daquelle, que todas as cousas obra segundo o conselho de sua vontade.
12 Para que fossemos para louvor de sua gloria, nós os que primeiro esperamos em Christo.
13 Em quem vós tambem estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, a saber o Evangelho de vossa salvação: em quem tambem, havendo crido, fostes sellados com o Espirito Santo da promessa.
14 O qual he as arras de nossa herança, até alcançar a redempção, para louvor de sua gloria.
15 Pelo que ouvindo eu tambem a fé, que no Senhor Jesus entre vós ha, e a caridade para com todos os santos:
16 Não cesso de dar graças a Dens por vósoutros, lembrando-me de vós em minhas oraçoes:
17 Para que o Deos de nosso Senhor Jesu-Christo, o Pai da gloria, vos dé o Espirito de sabedoria, e de revelação em seu conhecimento:
18 A saber illuminados os olhos de vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança de sua vocação, e quaes as riquezas da gloria de sua herança em os santos:
19 E qual seja a sobre-excellente grandeza de sua potencia em nós os que cremos, segundo a operação da força de sua potencia:
20 A qual em Christo obrou, resuscitando-o dos mortos; e o collocou á sua mão direita em os Ceos,
21 Mui mais alto que todo Principado, e Potestade, e Potencia, e Senhorio, e que todo nome que se noméa, não somente neste mundo senão tambem no vindouro.
22 E todas as cousas sujeitou a seus pés, e á Igreja o deo por cabeça sobre todas as cousas.
23 A qual he seu corpo, e o cumprimento daquelle, que em todos cumpre tudo.

CAPITULO 2.

1 E TAMBEM vos vivificou estando vós mortos em offensas e peccados,
2 Em que d’antes andastes segundo o seculo deste mundo, segundo o Principe da potestade do ar, do espirito que agora obra em os filhos de desobediencia.
3 Entre os quaes tambem todos nósoutros d antes andavamos em os desejos de nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e de natureza eramos filhos de ira, como tambem os de mais.
4 Porem Deos, que he rico em misericordia, por sua muita caridade, com que nos amou,
5 Estando nós ainda mortos em nossas offensas, juntamente com Christo nos vivificou, (de graça estais salvos).
6 E juntamente nos resuscitou, e nos fez assentar em os Ceos em Christo-Jesus.
7 Para que nos seculos vindouros mostrasse as abundantes riquezas de sua graça, por sua benignidade para comnosco em Christo Jesus.
8 Porque de graça estais salvos pela fé, e isto não de vós; que dom de Deos he.
9 Não por obras, para que ninguem se glorie.
10 Porque feitura sua somos, criados em Christo Jesus para boas obras, as quaes Deos preparou, para que nellas andassemos.
11 Portanto lembrai-vos de que vós, que d’antes ereis Gentios em a carne, e chamados incircuncisão dos que em a carne se chamão circuncisão, que com a mão se faz:
12 Que naquelle tempo estaveis sem Christo, alienados da republica de Israël, e estrangeiros dos concertos das promessas, não tendo esperança, e sem Deos em o mundo:
13 Mas agora em Christo Jesus, vós que d’antes estaveis longe, ja pelo sangue de Christo chegastes perto.
14 Porque elle he nossa paz, que destes ambos fez hum; e derribando a separação da parede d’entre meio,
15 Em sua carne desfez as inimizades, a saber a Lei dos mandamentos, que em tradiçoes consistia: para criar em si mesmo os dous em hum novo homem, fazendo a paz:
16 E pela cruz reconciliar com Deos a ambos em hum corpo, nella as inimizades matando.
17 E vindo elle, a paz vos evangelizou, a vós os que longe, e aos que perto estavão.
18 Porque por elle ambos temos entrada por hum mesmo Espirito ao Pai.
19 Assim que ja não sois estrangeiros nem forasteiros, senão concidadãos dos santos, e domesticos de Deos.
20 Edificados sobre o fundamento dos Apostolos, e dos Prophetas, de que Jesu-Christo he a summa pedra da esquina.
21 Em quem todo o edifiicio bem ajustado, cresce para templo santo em o Senhor.
22 Em quem tambem vós juntamente estais edificados para morada de Deos em Espirito.

CAPITULO 3.

1 POR esta causa sou eu Paulo o prisioneiro de Jesu-Christo, por vósoutros os Gentios.
2 Se porem tendes ouvido a dispensação da graça de Deos, que para comvosco me foi dada:
3 O qual por revelação me notificou estemysterio, (como d’antes em breve vos escrevi:
4 Do que lendo podeis entender minha sciencia neste mysterio de Christo),
5 O qual em outros seculos notificado não foi aos filhos dos homens; como agora pelo Espirito he revelado a seus santos Apostolos e Prophetas.
6 A saber, que as Gentes são coherdeiras, e de hum mesmo corpo, e consortes de sua promessa em Christo pelo Evangelho:
7 De que sou feito ministro pelo dom da graça de Deos, que me foi dado segundo a operação de sua potencia.
8 A mim, o minimo de todos os santos, he dada esta graça, para entre as Gentes denunciar pelo Evangelho a incomprehensivel riqueza de Christo:
9 E illuminar a todos para que possão entender qual seja a communhão do mysterio, que desde todos os seculos esteve escondido em Deos, o qual por Jesu-Christo criou todas as cousas.
10 Para que agora pela Igreja seja notificada aos Principados e Potestades em os Ceos a multiforme sabedoria de Deos:
11 Segundo o eterno proposito, que fez em Christo Jesus Senhor nosso.
12 Em o qual temos ousadia e entrada com confiança pela fé nelle.
13 Portanto vos peço, que não desfaleçais em minhas tribulações por vósoutros, que he vossa gloria.
14 Por esta causa me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesu-Christo;
15 Do qual todo o parentesco se noméa em os Ceos e em a terra:
16 Para que segundo ás riquezas de sua gloria vos dé, que com esforço sejais corroborados por seu Espirito em o homem interior:
17 Para que por fé Christo habite em vossos coraçoens: e vós arraigados e fundados estejais em caridade:
18 Para que perfeitamente com todos os santos possais comprehender, qual seja a largura, e a longura, e a profundeza, e a altura:
19 E conhecer a caridade de Christo, que excede a todo entendimento: Para que sejais cheios de toda plenidão de Deos.
20 Ora áquelle, que he poderoso para tudo fazer mui mais abundantemente do que pedimos ou pensamos, segundo a potencia que em nós obra,
21 A elle seja a gloria em a Igreja, por Christo-Jesus, em todas as geraçoes para todo sempre. Amen.

CAPITULO 4.

1 ROGO-vos pois, eu o preso em o Senhor, que andeis como he digno da vocação, com que sois chamados:
2 Com toda humildade e mansidão: com longanimidade, supportando-vos huns aos outros em caridade:
3 Procurando guardar a união do Espirito pelo vinculo da paz.
4 Hum corpo e hum Espirito ha, como tambem sois chamados á huma mesma esperança de vossa vocação:
5 Hum Senhor, huma fé, hum baptismo.
6 Hum Deos e Pai de todos, o qual está sobre todos, e por todos, e em todos vósoutros.
7 Porem a cada hum de nós he dada a graça segundo á medida do dom de Christo.
8 Pelo que diz: subindo ao alto levou captiva a captividade, e aos homens deo dons.
9 Ora isto que subio, que he, senão que tambem primeiro desceo ás mais baixas partes da terra.
10 Aquelle que desceo, he tambem o mesmo, que subio mui mais alto que todos os ceos, para cumprir todas as cousas.
11 E o mesmo deo huns para Apostolos, e outros para Prophetas, e outros para Evangelistas, e outros para Pastores e Doutores.
12 Para aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministerio, para edificação do corpo de Christo.
13 Até que todos venhamos á unidade da fé, e do conhecimento do Filho de Deos, em varão perfeito, á medida da estatura da plenidão de Christo.
14 Para que mais não sejamos meninos fluctuantes, e ao redor levados com todo vento de doutrina pelo engano dos homens com astucia, para fraudulosamente enganar.
15 Antes seguindo a verdade em caridade, cresçamos em tudo naquelle que he a cabeça, convem a saber Christo.
16 Do qual todo o corpo bem ajustado, e firmado juntamente por todas as conjuncturas da sub-ministração, segundo a operação de cada parte em sua medida, alcança augmento de corpo, para sua mesma edificação em caridade.
17 Assim que isto digo, e testifico em o Senhor, que não andeis mais como as outras Gentes andão, em a vaidade de seu sentido:
18 Entenebrecidos no entendimento, alheios da vida de Deos pela ignorancia que nelles ha, pela dureza de seu coração.
19 Os quaes havendo perdido o sentido, se entregarão á dissolução, para aváramente commetter toda immundicia.
20 Mas vós não aprendestes assim a Christo.
21 Se porem o tendes ouvido, e por elle fostes ensinados, como a verdade em Jesus está:
22 A saber, que quanto ao trato passado vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscencias do engano:
23 E vos renoveis em o espirito de vosso sentido:
24 E vos vistais do novo homem, que segundo Deos he criado em verdadeira justiça em e santidade.
25 Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada hum com seu proximo: porque membros somos huns dos outros.
26 Irai-vos, e não pequeis: não se ponha o sol sobre vossa ira.
27 Nem deis lugar ao diabo.
28 O que furtava, não furte mais: antes trabalhe, obrando com suas mãos o que he bom, para que tenha que repartir com o que tiver necessidade.
29 De vossa boca nenhuma palavra torpe saia: senão a que for boa para utilidade de edificação; para que dé graça aos que a ouvem.
30 E não contristeis ao Espirito Santo de Deos, pelo qual estais sellados para o dia da redempção.
31 Toda amargura, e ira, e cólera, e grita, e blasfemia se tire de vósoutros, com toda malicia.
32 Antes sêde huns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos huns aos outros, como tambem Deos vos perdoou em Christo.

CAPITULO 5.

1 SEDE pois imitadores de Deos como amados filhos:
2 E andai em caridade, como tambem Christo nos amou, e a si mesmo por nós se entregou em offerta e sacrificio a Deos, em suave cheiro.
3 Mas fornicação e toda immundicia, ou avareza, nem ainda entre vós se nomée, como a santos convém:
4 Nem torpezas, nem parvoices, nem chocarrices, que não convém: mas antes fazimento de graças.
5 Porque bem sabeis isto, que nenhum fornicario, ou immundo, ou avarento, que he idolatra, tem herança no Reino de Christo e de Deos.
6 Ninguem vos engane com palavras vãs; porque por estas cousas vem a ira de Deos sobre os filhos de desobediencia.
7 Portanto não sejais seus companheiros.
8 Porque d’antes ereis trevas, mas agora sois luz em o Senhor: andai como filhos de luz:
9 (Porque o fruto do Espirito consiste em toda bondade, e justiça, e verdade.)
10 Provando o que he agradavel ao Senhor.
11 E não communiqueis com as obras infructuosas das trevas, mas antes tambem as redargui.
12 Porque o que estes em occulto fazem, torpe cousa he tambem dize-lo.
13 Mas todas estas cousas se manifestão, sendo da luz redarguidas: porque tudo o que cousa alguma manifesta, he luz.
14 Pelo que diz: Desperta tu o que dormes, e levanta-te dos mortos, e Christo te esclarecerá.
15 Portanto olhai como andeis prudentemente, não como nescios, senão como sabios.
16 Redimindo o tempo: porquanto os dias são maos.
17 Pelo que não sejais imprudentes, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.
18 E não vos embebedeis com vinho; em que ha dissolução, mas enchei-vos do Espirito:
19 Falando entre vós com psalmos, e hymnos, e canticos espirituaes:cantando e psalmodiando ao Senhor em vosso coração.
20 Dando sempre graças por todas as cousas a nosso Deos e Pai, em o nome de nosso Senhor Jesu-Christo:
21 Sujeitando-vos huns aos outros em o temor de Deos.
22 Vós mulheres sujeitai-vos a vossos proprios maridos, como ao Senhor:
23 Porque o marido he a cabeça da mulher, como tambem Christo a cabeça da Igreja: e elle mesmo he o Salvador do corpo.
24 Assim que como a Igreja está sujeita a Christo, assim o esejão tambem as mulheres a seus proprios maridos em tudo.
25 Vós maridos amai a vossas proprias mulheres, como tambem Christo amou a sua Igreja, e a si mesmo se entregou por ella:
26 Para que a santificasse, purificando-a com o lavatorio da agua pela palavra.
27 Para a si mesmo apresentar por Igreja gloriosa, que não tivesse macula, nem ruga, nem cousa semelhante: mas que fosse santa e irreprehensivel.
28 Assim devem os maridos amar a suas proprias mulheres, como a seus proprios corpos. Quem ama a sua propria mulher, ama a si mesmo:
29 Porque ninguem aborreceo jamais sua propria carne, antes a alimenta e sustenta, como tambem o Senhor a Igreja.
30 Porque somos membros de seu corpo, de sua carne, e de seus ossos.
31 Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mai, e ajuntar-se-ha com sua mulher: e serão os dous em huma carne.
32 Grande he este mysterio: o que porém digo em respeito de Christo, e da Igreja.
33 Assim tambem vósoutros cada hum em particular, cada qual ame a sua propria mulher como a si mesmo, e que a mulher tema ao marido.

CAPITULO 6.

1 VOSOUTROS filhos, sêde obedientes a vossos pais em o Senhor: porque isto he justo.
2 Honra a teu pai, e a tua mãi (que he o primeiro mandamento com promessa.)
3 Para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra.
4 E vós pais, não provoqueis á ira a vossos filhos, mas criai-os em a doutrina, e amoestação do Senhor.
5 Vós servos, obedecei a vossos Senhores segundo a carne, com temor e tremor, em simplicidade de vosso coração, como a Christo.
6 Não servindo ao olho, como comprazendo aos homens, senão como servos de Christo, fazendo de coração a vontade de Deos.
7 Servindo de boa vontade ao Senhor, e não aos homens.
8 Sabendo que cada hum receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre.
9 E vós Senhores, fazei o mesmo para com elles, deixando as ameaças; sabendo tambem que vosso Senhor e o seu está nos Ceos, e que para com elle não ha aceitação de pessoas.
10 No de mais, irmãos meus, esforçai-vos em o Senhor, e em a força de sua potencia.
11 Vesti-vos de toda a armadura de Deos, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
12 Porque não temos a luta contra carne e sangue, senão contra os principados, contra as potestades, contra os poderosos do mundo, das trévas deste seculo, contra as malicias espirituaes em os ares.
13 Portanto tomai toda a armadura de Deos, para que possais resistir em o dia mao, e havendo tudo effeituado, ficar firmes.
14 Estai pois firmes, cingidos vossos lombos com a verdade, e vestidos com as couraças de justiça:
15 E calçados os pés com a promptidão do Evangelho de paz.
16 Tomando sobre tudo o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflammados do maligno.
17 Tomai tambem o capacéte da salvação, e a espada do Espirito, que he a palavra de Deos:
18 Orando em todo tempo com toda sorte de oração, e supplicação em Espirito, e velando nisto com toda perseverança, e supplicação por todos os santos:
19 E por mim, para que me seja dada palavra em abertura de minha boca com confiança, para fazer notorio o mysterio do Evangelho.
20 Pelo que sou embaixador em huma cadeia: para que delle possa falar confiadamente,como me convém falar
21 E para que tambem vósoutros possais saber meus negocios; e o que faço, tudo vos notificará Tychico o irmão amado, e fiel ministro em o Senhor:
22 O qual para o mesmo fim vos enviei, para que saibais nossos negocios, e elle console vossos coraçoens.
23 Paz seja com os irmãos, e caridade com fé, de Deos Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
24 A graça seja com todos os que amão a nosso Senhor Jesu-Christo em incorrupção. Amen.
Escrita de Roma aos Ephesios, e enviada por Tychico.

FILIPENSES

CAPITULO 1.

1 PAULO e Timotheo, servos de Jesu-Christo, a todos os santos em Christo Jesus, que estão em Philippos, com os Bispos e Diaconos:
2 Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
3 Graças dou a meu Deos todas as vezes que de vós me lembro.
4 (Sempre em todas minhas oraçoens com gozo fazendo oração por todos vósoutros).
5 Por vossa communicação com o Evangelho desde o primeiro dia atégora:
6 Isto mesmo confiando, que aquelle que em vós começou a boa obra, aperfeiçoará até o dia de Jesu-Christo:
7 Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porquanto retenho em meu coração, que todos vósoutros fostes participantes de minha graça, assim em minhas prisões, como em minha defesa e confirmação do Evangelho.
8 Porque Deos me he testemunha das muitas saudades que de todos vós tenho, com entranhavel affeição de Jesu-Christo.
9 E isto peço a Deos, que vossa caridade ainda de mais em mais abunde em reconhecimento, e em todo sentido.
10 Para provardes as cousas discrepantes, para que sejais sinceros, e sem dardes algum escandalo até o dia de Christo.
11 Cheios de frutos de justiça, que por Jesu-Christo são para gloria e louvor de Deos.
12 E quero irmãos, que saibais, que as cousas que me acontecerão, forão para tanto maior promoção do Evangelho:
13 De maneira que minhas prisoés em Christo forão manifestas em toda a Audiencia, e a todos os de mais:
14 E que a maior parte dos irmãos em o Senhor, tomando confiança com minhas prisoens, ousão falar a palavra mais abundantemente, sem temor.
15 Verdade he que tambem alguns a Christo prégão por inveja e porfia, mas outros tambem de boamente.
16 Huns em verdade denuncião a Christo por porfia, não puramente, cuidando acrecentar afflicção a minhas prisoens.
17 Mas outros por caridade, sabendo que posto estou para a defesa do Evangelho.
18 Pois que? Todavia em toda maneira, ou com fingimento, ou em verdade, Christo he annunciado: e nisto me regozijo, e tambem me regozijarei.
19 Porque sei que isto me resultará em salvação por vossa oração, e pela socorro do Espirito de Jesu-Christo;
20 Segundo minha intensa expectação e esperança, que em nada serei confuso: antes com toda confiança, como sempre, assim tambem agora Christo será engrandecido em meu corpo, seja por vida, seja por morte.
21 Porque o viver me he Christo, e o morrer me he ganancia.
22 Mas se o viver em a carne me seja util, e que he o que deva escolher, não o sei.
23 Porque de ambas as bandas estou apertado, tendo desejo de ser desliado, e estar com Christo. Porque isto he ainda muito melhor.
24 Mas ficar em a carne, he mais necessario por amor de vósoutros.
25 E isto confio e sei, que ainda ficarei, e perseverarei com todos vósoutros, para vossa promoção, e gozo da fé.
26 Para que vossa gloriação em Christo Jesus abunde em mim, por minha tornada a vósoutros.
27 Tão somente vos havei dignamente como convém ao Evangelho de Christo, para que seja que venha, e vos veja, ou que esteja ausente, ouça de vossos negocios, que estais em hum mesmo Espirito, com hum mesmo animo juntamente combatendo pela fé do Evangelho.
28 E que em cousa nenhuma vos espantais dos que resistem; o que para elles em verdade he indicio de perdição, mas para vósoutros de salvação; e isto de Deos.
29 Porque a vósoutros vos foi gratuitamente dado em o negocio de Christo, não somente de nelle crer, mas tambem de por elle padecer:
30 Tendo o mesmo combate, qual já em mim tendes visto, e agora em mim ouvis.

CAPITULO 2.

1 ASSIM que, se ha alguma consolação em Christo, se ha algum alivio de caridade, se ha alguma communicação de Espirito, se ha alguns entranhavaies affectos e compaixoes:
2 Cumpri meu gozo, em que sintais o mesmo, tendo a mesma caridade, sendo de hum mesmo animo, sentindo huma mesma cousa.
3 Nada façais por contenda, ou por vã-gloria: mas por humildade hum ao outro estime por mais excellente que a si mesmo.
4 Não attenteis cada hum para o que he seu, mas cada qual attente tambem para o que he dos outros.
5 Porque este sentido seja em vós, o qual tambem esteve em Christo Jesus,
6 Que sendo em forma de Deos, não teve por rapina ser igual a Deos:
7 Mas se aniquilou a si mesmo, tomando forma de servo, e foi feito semelhante aos homens:
8 E achado em forma como homem, se humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e essa morte de cruz.
9 Pelo que tambem Deos o exaltou supremamente, e lhe deo hum nome, que he sobre todo nome.
10 Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, daquelles que estão nos Ceos, e na terra, e debaixo da terra:
11 E toda lingua confesse que Jesu-Christo he o Senhor, para gloria de Deos Pai.
12 Assim que, meus amados, como sempre obedecestes, não somente em minha presença, mas muito mais agora em minha ausencia, assim tambem obrai vossa salvação com temor e tremor.
13 Porque Deos he o que em vós obra assim o querer, como o effeituar, segundo sua boa vontade.
14 Fazei todas as cousas sem murmuraçoes e contendas.
15 Para que sejais irreprehensiveis e sinceros, filhos de Deos, inculpaveis em meio de huma geração avessa e perversa: entre os quaes resplandeceis como luminarios no mundo.
16 Retendo a palavra da vida, por minha gloriação em o dia de Christo, de que não tenho corrido nem trabalhado em vão.
17 E se he que tambem for offerecido por aspersão de sacrificio e serviço de vossa fé, folgo, e me regozijo com todos vósoutros.
18 E vós tambem pelo mesmo vos regozijai, e tambem vos alegrai comigo.
19 E espero em o Senhor Jesus, de presto vos mandar a Timotheo, para que tambem eu tenha bom animo, entendendo vossos negocios.
20 Porque a ninguem tenho de tão igual animo, que de vossos negocios sinceramente cuide.
21 Porque todos buscão o que he seu, não o que he de Christo Jesus.
22 Mas bem sabeis sua prova, que comigo no Evangelho servio, como o filho ao pai.
23 Assim que bem espero logo enriar-vos a este, havendo provido a meus negocios.
24 Porem em o Senhor confio, que tambem eu mesmo em breve a vós virei.
25 Mas por necessario tive mandarvos a Epaphrodito, meu irmão, e cooperador, e conguerreiro, e vosso enviado, e administrador de minha necessidade:
26 Porquanto muitas saudades tinha de vós todos, e estava mui angustiado, de que tivesseis ouvido que estivera doente.
27 E de facto doente esteve até á morte: Porém Deos delle se apiedou, e não delle somente, mas tambem de mim: para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.
28 Assim que tanto mais depressa o enviei, para que vendo-o outra vez, vos regozijeis, e eu tenha tanto menos tristeza.
29 Recebei-o pois em o Senhor com todo gozo: e tende em estima aos taes.
30 Porque pela obra de Christo chegou até bem perto da morte, não fazendo caso da vida, por suprir para comigo a falta de vosso serviço.

CAPITULO 3.

1 RESTA, meus irmãos, que vos regozijeis em o Senhor. Escrever-vos as mesmas cousas me não he molesto, e a vósoutros he seguro.
2 Guardai-vos dos caens, guardai-vos dos maos o-breiros, guardai-vos da cortadura.
3 Porque nós somos a circuncisão, os que a Deos em Espirito servimos, e em Christo Jesus nos gloriamos, e não confiamos na carne:
4 Ainda que tambem tenho de que confiar em a carne: Se outro alguem cuida que em a carne tenha de que se confiar, eu ainda mais:
5 Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israël, da tribu de Benjamin, Hebreo de Hebreos, segundo a Lei Phariseo:
6 Segundo o zelo, perseguidor da Igreja: Segundo a justiça que na Lei ha, irreprehensivel.
7 Mas o que para mim era ganho, o tive por perda, por amor de Christo.
8 E na verdade tambem todas as cousas tenho por perda, pela excellencia do conhecimento de Christo Jesus meu Senhor, por amor do qual contei por perda todas estas cousas, e as tenho por esterco, para que possa ganhar a Christo:
9 E nelle seja achado, não tendo minha justiça que he da Lei, mas a que he pela fé de Christo, a saber a justica que de Deos he pela fé:
10 Para o conhecer a elle, e a virtude de sua resurreição, e a communicação de suas afflicções, sendo feito conforme a sua morte.
11 Vendo se em maneira alguma possa chegar á resurreiçao dos mortos:
12 Não que ja o tenha alcançado, ou que ja seja perfeito: mas prosigo para o prender, para o que tambem de Christo Jesus fui prendido.
13 Irmãos, para mim não tenho que o haja prendido.
14 Porem huma cousa faço, esquecendo-me das cousas que atras ficão, e adiantando-me ás que estão adiante, prosigo para o alvo, ao premio da vocação soberana de Deos em Christo Jesus.
15 Pelo que todos quantos já perfeitos somos, isto mesmo sintamos: e se alguma cousa sentirdes d’outra maneira, tambem Deos vo-lo revelará.
16 Porém naquillo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo.
17 Sêde tambem meus imitadores, irmãos, e tende sentido em os que assim andão, como nos tendes por exemplo.
18 Porque muitos andão d’outra maneira, dos quaes muitas vezes vos disse, e agora tambem digo chorando, que são inimigos da cruz de Christo.
19 Cujo fim he a perdição, cujo Deos he o ventre, e cuja gloria consiste em sua confusão: os quaes imaginão cousas terrenas.
20 Mas nosso trato he em os Ceos, donde tambem esperamos ao Salvador, a saber ao Senhor Jesu-Christo:
21 O qual transformará nosso corpo abatido, para que seja conforme a seu corpo glorioso, segundo a efficacia, pela qual tambem a si pode sujeitar todas as cousas.

CAPITULO 4.

1 ASSIM que, meus amados e mui queridos irmãos, minha alegria e coroa, assim firmes estai em o Senhor, amados.
2 Amoesto a Euodias, e amoesto a Syntycho, que sintão o mesmo em o Senhor.
3 E peço-te tambem a ti meu verdadeiro companheiro, que ajudes a essas mulheres, que comigo combatérão no Evangelho, como tambem com Clemente, e com os de mais meus cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida.
4 Regozijai-vos sempre em o Senhor: Outra vez digo, regozijai-vos.
6 Seja vossa equidade notoria a todos os homens. Perto está o Senhor.
6 De nada estejais solicitos: antes em tudo sejão vossas petiçoes a Deos notorias, por oração, e supplicação, com fazimento de graças.
7 E a paz de Deos, que excede todo entendimento, guardará vossos corações e vossos sentidos em Christo Jesus.
8 Resta, irmãos, que tudo o que he verdadeiro, tudo o honesto, tudo o justo, tudo o puro, tudo o amavel, tudo o que he de boa fama: se ha alguma virtude, e se ha algum louvor, isso pensai.
9 O que tambem aprendestes, e recebestes, e ouvistes,e em mim vistes, isso fazei; e o Deos de paz será comvosco.
10 Ora grandemente me regozijei em o Senhor, de que finalmente vos reverdecestes em vos lembrardes de mim: do que tambem vos lembrastes, mas não tivestes a opportunidade.
11 Não que isto diga em respeito de alguma necessidade: porque já aprendi a contentar-me com o que sou.
12 E bem sei estar abatido, e tambem sei ter abundancia: em toda maneira, e em todas as cousas estou instruido, assim a estar farto, como a ter fome: assim a ter abundancia, como a padecer necessidade.
13 Todas as cousas posso em Christo, que me fortalece.
14 Todavia bem fizestes de communicar com minha afflicção.
15 E bem sabeis tambem vós Philippenses, que ao principio do Evangelho, quando parti de Macedonia, nenhuma Igreja, em razão de dar e receber, me communicou cousa alguma, senão vósoutros sós.
16 Porque tambem, a Thessalonica, me mandastes o necessario, huma e outra vez.
17 Não que procure dadivas, mas procuro o fruto, que he abundante a vossa conta.
18 Mas tudo tenho recebido, e tenho abundancia: cheio estou, havendo recebido de Epaphrodito o que de vossa parte me foi enviado, em cheiro de suavidade, e sacrificio a Deos agradavel e aprazivel.
19 Porém meu Deos, segundo suas riquezas suprirá toda vossa necessidade, em gloria por Christo-Jesus.
20 Ora a nosso Deos e Pai seja a gloria para todo sempre. Amen.
21 Saudai a todos os santos em Christo-Jesus. Os irmãos, que estão comigo, vos saudão.
22 Todos os santos vos saudão, e maiormente os que são da casa de Cesar.
23 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja com todos vósoutros. Amen.
Escrita de Roma aos Philippenses, e enviada por Epaphrodito.

COLOSSENSES

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo de Jesu-Christo, pela vontade de Deos, e o irmão Timotheo:
2 Aos santos e fieis irmãos em Christo, que estão em Colossas: Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e o Senhor Jesu-Christo.
3 Graças damos ao Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo, sempre orando por vósoutros:
4 Porquanto ouvimos de vossa fé em Christo Jesus, e da caridade que tendes para com todos os santos:
5 Pela esperança que vos está reservada em os ceos. da qual d’antes já ouvistes pela palavra da verdade do Evangelho.
6 O qual já chegou a vósoutros, como tambem em todo o mundo: e já vai fructificando, como tambem em vósoutros, desde o dia que ouvistes e conhecestes a graça de Deos em verdade:
7 Como tambem aprendestes de Epaphra nosso amado conservo, que para vósoutros he hum fiel ministro de Christo:
8 O qual tambem nos declarou vossa caridade em o Espirito.
9 Portanto tambem desde o dia que o ouvimos, não cessamos de por vósoutros orar, e pedir que sejais cheios do conhecimento de sua vontade, em toda sabedoria e intelligencia espiritual:
10 Para que possais andar dignamente em o Senhor, agradando-lhe em tudo, fructificando em toda boa obra, e crescendo em o conhecimento de Deos.
11 Corroborados em toda fortaleza, segundo a força de sua gloria, em toda paciencia e longanimidade com gozo:
12 Dando graças ao Pai, que nos fez idoneos para ter parte na herança dos santos em a luz.
13 O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou ao Reino do Filho de seu amor.
14 Em o qual temos a redempção por seu sangue, a saber a remissão dos peccados.
15 O qual he a imagem do Deos invisivel, o primogenito de toda creatura.
16 Porque por elle forão creadas todas as cousas que ha nos Ceos e na terra, visiveis e invisiveis, sejão thronos, sejão dominaçoes, sejão principados, sejão potestades: todas as cousas forão creadas por elle e para elle:
17 E elle he antes de todas as cousas, e todas as cousas consistem por elle.
18 E elle he a cabeça do corpo da Igreja, sendo o principio e o primogenito dos mortos, para que entre todos tenha o primado.
19 Porque o bom prazer do Pai foi, que toda plenidão nelle habitasse:
20 E que havendo por elle feito a paz pelo sangue de sua cruz, por elle comsigo mesmo reconciliasse todas as cousas, seja as que na terra, seja as que nos ceos estão.
21 E a vós que d’antes estaveis alienados, e ereis inimigos no entendimento, em obras más, todavia agora vos reconciliou:
22 Em o corpo de sua carne, pela morte, para perante si vos apresentar por santos, e irreprehensiveis, e inculpaveis:
23 Se porém permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do Evangelho, que ouvido tendes, o qualhe prégado entre toda creatura, que ha debaixo do Ceo: do qual eu Paulo estou feito ministro:
24 E agora me regozijo em o que padeço por vósoutros, e cumpro em minha carne o resto das afflicçoes de Christo, por seu corpo, que he a Igreja.
25 Da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deos, que para vós me foi dada, para cumprir a palavra de Deos:
26 Convem a saber o mysterio que foi occulto desde todos os seculos, e desde todas as gerações: mas agora he manifestado a seus santos.
27 Aos quaes Deos quiz fazer notorio, quaes sejão as riquezas da gloria deste mysterio entre os Gentios, que entre vósoutros he Christo, a esperança da gloria:
28 Ao qual annunciamos, amoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda sabedoria: para que a todo homem apresentemos perfeito, em Christo Jesus
29 Em o que tambem trabalho, combatendo segundo sua efficacia, que em mim obra com potencia.

CAPITULO 2.

1 PORQUE quero que saibais, quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodicea, e por quantos meu rosto em carne não virão:
2 Para que seus coraçoes sejão consolados, e estejão juntos em caridade, e isso em todas as riquezas da inteira certeza de intelligencia, para conhecimento do mysterio de Deos, e do Pai, e de Christo:
3 Em quem estão todos os thesouros de sabedoria, e de sciencia escondidos.
4 E isto digo, para que ninguem vos engane com palavras persuasorias em apparencia.
5 Porque ainda que com corpo esteja ausente, todavia com o espirito estou comvosco, regozijando-me, e vendo vossa ordem, e a firmeza de vossa fé em Christo.
6 Como pois ao Senhor Christo Jesus recebestes, assim tambem nelle andai:
7 Nelle arraigados, e sobre edificados, e confirmados na fé, como já fostes ensinados, nella abundando com fazimento de graças.
8 Olhai que ninguem vos sobresalteie por Philosophia, e vão engano, segundo a tradição dos homens, segundo os primeiros ensinos do mundo, e não segundo Christo.
9 Porque nelle habita corporalmente toda a plenidão da divindade.
10 E estais perfeitos nelle; o qual he e cabeça de todo principado e potestade:
11 Em o qual tambem estais circuncidados com huma circuncisão feita sem mão, em o despojamento do corpo dos peccados da carne, pela circuncisão de Christo:
12 Sepultados com elle em o baptismo, em quem tambem com elle resuscitastes pela fé da operação de Deos, que dos mortos o resuscitou.
13 E estando vós mortos em offensas, e na incircuncisão de vossa carne, vos vivificou juntamente com elle, perdoando-vos gratuitamente todasvossas offensas.
14 Havendo riscado a cedula que contra nós havia em ordenanças, a qual em alguma maneira nos era contraria, e a tirou do meio, encravandoa na cruz.
15 E despojando aos principados e potestades, publicamente os póz a vergonha, e nella delles triunfou.
16 Portanto ninguem vos julgue em comer, ou em beber, ou em respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de Sabbados.
17 Que são a sombra das cousas futuras, mas o corpo he de Christo.
18 Ninguem pois a seu prazer vos senhoreie em humildade e serviço de Anjos, mettendo-se em cousas que nunca vio, de balde inchado do sentido de sua carne.
19 E não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, provido e conjunto pelas conjunturas e liaduras, vai crescendo em augmento divino.
20 Se pois aos primeiros ensinos do mundo estais mortos com Christo, porque ainda de tradiçoes vos carrégão, como se no mundo vivesseis?
21 Como, não pegues, nem gostes, nem toques.
22 As quaes cousas todas pelo uso perecem, introduzidas segundo os mandamentos e doutrinas dos homens.
23 As quaes em verdade tem alguma apparencia de sabedoria, em devoção voluntaria, e humildade, e em que não poupão o corpo; não são porem dê alguma estima senão para fartura da carne.

CAPITULO 3.

1 PORTANTO se ja resuscitastes com Christo, buscai as cousas que estão a riba, aonde Christo está assentado a mão direita de Deos.
2 Pensai nas cousas que estão a riba, não nas que estão na terra.
3 Porque mortos ja estais, e vossa vida com Christo está escondida em Deos.
4 Quando pois Christo, que he nossa vida, se manifestar, então tambem vós com elle vos manifestareis em gloria.
5 Mortificai pois vossos membros, que estão sobre a terra, a saber fornicação, immundicia, appetite desordenado, roim concupiscencia, e avareza, que he idolatria.
6 Pelas quaes cousas vem a ira de Deos sobre os filhos de desobediencia:
7 Nas quaes tambem de antes andastes, quando nellas vivieis.
8 Mas agora despojai-vos tambem de todas estas cousas, a saber, cólera, ira, malicia, maledicencia, torpes palavras de vossa boca.
9 Não mintais huns aos outros, pois ja vos despistes do velho homem com seus feitos:
10 Evos vestistes do novo homem, que se renova para conhecimento, segundo a imagem daquelle que o creou:
11 Em que não ha Grego, nem Judeo, nem circuncisão, nem incircuncisão, nem Barbaro, nem Scytha, nem servo, nem livre: mas Christo he tudo, e em todos.
12 Porisso vesti-vos (como eleitos de Deos, santos, e amados) de entranhas de misericordia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade.
13 Supportando-vos huns aos outros, e perdoando-vos huns aos outros, se algum tiver queixa contra outro: assim como Christo vos perdoou, assim o fazei vós tambem.
14 E sobre tudo isto, vesti-vos de caridade, que he o vinculo de perfeição.
15 E a paz de Deos senhoreie em vossos coraçoes, para a qual tambem em hum corpo sois chamados: e sede agradecidos.
16 A palavra de Christo habite em vós abundantemente em toda sabedoria; ensinando-vos, e amoestando-vos huns aos outros com Psalmos, Hymnos, e Canticos espirituaes, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.
17 E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deos, e ao Pai por elle.
18 Vós mulheres sêde sujeitas a vossos proprios maridos, como convém em o Senhor.
19 Vós maridos amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra ellas.
20 Vós filhos obedecei em tudo a vossos pais: porque isto he aprazivel ao Senhor.
21 Vós pais não irriteis a vossos filhos, para que não percão o animo.
22 Vós servos obedecei em tudo a vossos Senhores segundo a carne, não servindo ao olho, como para comprazer aos homens, mas com simplicidade de coração, temendo a Deos.
23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens.
24 Sabendo que do Senhor haveis de receber o galardão da herança: porque a Christo o Senhor servis.
25 Porem quem fizer aggravo, levará o aggravo que fizer: e não ha respeito de pessoas.

CAPITULO 4.

1 VOS Senhores, fazei direito e equidade a vossos servos, sabendo que tambem tendes hum Senhor em os ceos.
2 Perseverai em oração, velando nella com fazimento de graças:
3 Orando tambem juntamente por nós, para que Deos nos abra a porta da palavra, para falar do mysteno de Christo, pelo qual tambem estou preso:
4 Para que o manifeste, como me convem falar.
5 Andai com sabedoria para com os que de fora estão, redimindo o tempo.
6 Vossa palavra seja sempre aprazivel, adubada com sal, para que saibais como vos convenha responder a cada hum.
7 Todos meus negocios vos fará saber Tychico o amado irmão, e fiel ministro, e conservo em o Senhor:
8 Ao qual para o mesmo fim vos enviei, para que de vossos negocios saiba, e vossos coraçoes console:
9 Juntamente com Onesimo, o fiel e amado e irmão, que dos vossos he; elles vos farão saber tudo o que por cá passa.
10 Sauda-vos Aristarcho que comigo está preso, e Marcos o sobrinho de Barnabé, acerca do qual ja recebestes mandamentos; se a vósoutros vier, recebei-o:
11 E Jesus chamado Justo, os quaes são da circuncisão, estes sós são meus cooperadores em o Reino de Deos, e para mim forão consolação.
12 Sauda-vos Epaphras, que dos vossos he, servo de Christo, combatendo sempre por vósoutros em orações, para que fiqueis firmes, perfeitos, e consummados em toda a vontade de Deos.
13 Porque eu lhe dou testemunho, de que por vós tem grande zelo, e pelos que estão em Laodicea, e pelos que estão em Hierapolis.
14 Sauda-vos Lucas o medico amado, e Demas.
15 Saudai aos irmãos que estão em Laodicea, e a Nympha, e á Igreja que em sua casa está.
16 E quando esta Epistola for lida entre vósoutros, fazei que tambem seja lida na Igreja dos Laodicenses, e que a que veio de Laodicea, a leais tambem vósoutros.
17 E dizei a Archippo: attentapara o ministerio que em o Senhor recebeste; para que o cumpras.
18 Saudação de minha mão, de Paulo: Lembrai-vos de minhas prisoes. A graça seja comvosco. Amen. Escrita de Roma aos Colossenses, e enviada por Tychico, e Onesimo.

1 TESSALONICENSES

CAPITULO 1.

1 PAULO, e Silvano, e Timotheo, á Igreja dos Thessalonicenses, qual he em Deos o Pai, e em o Senhor Jesu-Christo: Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
2 Sempre damos graças a Deos ácerca de todos vósoutros, fazendo menção de vós em nossas oraçoes.
3 Lembrando-nos sem cessar da obra de vossa fé, e do trabalho da caridade, e da tolerancia da esperança em nosso Senhor Jesu-Christo, diante de nosso Deos e Pai:
4 Sabendo, amados irmãos, vossa eleição de Deos:
5 Porque nosso Evangelho não foi entre vósoutros somente em palavras, mas tambem em potencia, e em Espirito Santo, em muita certeza: como bem sabeis quaes entre vós fomos, por amor de vósoutros,
6 E vós fostes feitos imitadores nossos, e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espirito Santo.
7 De maneira que para todos os fieis em Macedonia e Achaia fostes exemplos.
8 Porque por vósoutros soou a palavra do Senhor, não somente em Macedonia e Achaia, mas tambem ja em todo lugar vossa fé para com Deos de tal maneira tem sahido, que ja della nos não he necessario falar cousa alguma.
9 Porque elles mesmos declarão de nós qual entrada para comvosco temos, e como dos idolos a Deos vos convertestes, para servir ao Deos vivo e verdadeiro:
10 E para dos ceos esperar a seu Filho, a quem dos mortos resuscitou. a saber a Jesus, que nos livra da ira futura.

CAPITULO 2.

1 PORQUE bem sabeis vós mesmos, irmãos, que nossa entrada para comvosco não foi vã.
2 Antes, ainda que em Philippos ja d’antes padecemos, e tambem aggravados fomos, como vósoutros bem sabeis, usamos comtudo de ousadia em nosso Deos, para com grande combate vos falar o Evangelho de Deos.
3 Porque nossa exhortação não foi com engano, nem com immundicia, nem com fraudulencia:
4 Mas como fomos provados de Deos, para que o Evangelho nos fosse confiado, assim falamos; não como aos homens comprazendo, senão a Deos, que prova nossos coraçoens.
5 Porque nunca usamos de palavras lisongeiras, como bem sabeis, nem de pretexto de avareza: Deos he testemunha.
6 Nem buscando gloria de homens, nem de vós, nem de outros, ainda que vos podiamos ser pezados como Apostolos de Christo:
7 Antes brandos fomos entre vósoutros, como a ama que cria a seus filhos.
8 Assim que, nós estando-vos tão affeiçoados, de boa vontade vos quiseramos communicar, não somente o Evangelho de Deos, mas tambem até nossas proprias almas, porquanto tão queridos nos ereis.
9 Porque bem vos lembrais, irmãos, de nosso trabalho e fadiga: pois de noite e de dia trabalhando, por a nenhum d’entre vós ser pesados, o Evangelho de Deos vos pregámos.
10 Vós e Deos sois testemunhas, de quão santa, e justa, e irreprehensivelmente nos houvemos, para comvosco, os que crestes.
11 Como bem sabeis como a cada hum de vós, como o pai a seus filhos, vos exhortávamos, e consolávamos,
12 E protestávamos que andasseis dignamente para com Deos, que vos chama para seu Reino e gloria.
13 Pelo que tambem sem cessar damos graças a Deos, de que, havendo de nós recebido a palavra da prégação de Deos a recebestes, não como a palavra de homem, mas (como em verdade o he) como a palavra de Deos, a qual tambem obra em vósoutros, os que credes.
14 Porque vós, irmãos sois feitos imitadores das Igrejas de Deos, que estão em Judea, em Christo Jesus: porquanto tambem de vossos proprios cidadãos as mesmas cousas padecestes, como tambem elles dos Judeos.
15 Os quaes tambem matárão ao Senhor Jesus, e a seus proprios Prophetas, e a nós nos perseguirão, e a Deos não agradão, e a todos os homens são contrarios.
16 E nos impedem que falemos ás Gentes, para que se possão salvar: para sempre encherem a medida de seus peccados. E ja he vinda sobre elles a ira até o fim.
17 Mas, irmãos, sendo nós por hum momento de tempo, de vista, não do coração, de vósoutros privados, tanto mais com grande desejo procuramos de ver vosso rosto.
18 Pelo que bem quizémos vir a vósoutros (pelo menos eu Paulo) huma e outra vez, mas impedio-no-lo Satanás.
19 Porque qual he nossa esperança, ou gozo, ou coroa de gloriação? Porventura não o sois tambem vósoutros diante de nosso Senhor Jesu-Christo em sua vinda?
20 Porque vós sois nossa gloria e gozo.

CAPITULO 3.

1 PELO que não o podendo mais sofrer, de boamente nos quizemos deixar ficar sós em Athenas:
2 E enviamos a Timotheo nosso irmão, e ministro de Deos, e nosso cooperador em o Evangelho de Christo, para vos confortar, e vos exhortar ácerca de vossa fé:
3 Para que ninguem nestas tribulações se mova: Porque vós mesmos sabeis, que para isto estamos ordenados.
4 Porque tambem quando comvosco estávamos, vosprediziamos que haviamos de ser affligidos, como tambem assim succedeo, e vós o sabeis.
5 Portanto tambem eu, não podendo mais sofrer, o mandei a saber de vossa fé, se porventura o Tentador vos não tentasse, e nosso trabalho não viesse a ser em vão.
6 Porem tornando Timotheo agora de vósoutros a nósoutros, e trazendonos boas novas acerca de vossa fé e caridade, e de como sempre tendes boa lembrança de nós, desejando muito ver-nos, como tambem nós a vósoutros:
7 Pelo que, irmãos, ficamos consolados ácerca de vós em toda nossa afflicção e necessidade, por vossa fé.
8 Porque agora vivemos, se no Senhor estais firmes.
9 Porque, que fazimento de graças podemos nós dar a Deos por vósoutros, ácerca de todo o gozo, com que diante de nosso Deos, por vossa causa, gozamos:
10 Orando abundantemente de noite e de dia, para que possamos ver vosso rosto, e supramos o que falta a vossa fé?
11 Ora nosso mesmo Deos e Pai, e nosso Senhor Jesu-Christo, encaminhe nossa viagem a vósoutros.
12 E o Senhor vos augmente, e faça abundar em caridade huns para com os outros, e para com todos, como tambem abundamos para comvosco:
13 Para confortar vossos coraçoés, para que sejais irreprehensiveis em santificação, diante de nosso Deos e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesu-Christo com todos seus santos.

CAPITULO 4.

1 ASSIM que, irmãos, no de mais vos rogamos, e amoestamos em o Senhor Jesus, que assim como de nós recebestes, como vos convenha andar, e a Deos agradar, assim nisto mais abundeis.
2 Porque bem sabeis vós, que mandamentos vos demos pelo Senhor Jesus.
3 Porque esta he a vontade de Deos, a saber vossa santificação, que vos abstenhais de fornicação:
4 Que cada hum de vós saiba possuir seu vaso em santificação e honra:
5 Não em sensualidade de concupiscencia, como as Gentes, que não conhecem a Deos.
6 Ninguem opprima nem engane em negocio algum a seu irmão: Porque o Senhor he vingador de todas estas cousas, como já tambem d’antes volo temos dito e testificado.
7 Porque não nos chamou Deos á immundicia, senão á santificação.
8 Pelo que quem isto despreza, não despreza a homem, senão a Deos, o qual tambem nos deo seu Espirito Santo.
9 E quanto á caridade fraternal, não necessitais de que della vos escreva: porque já vós mesmos estais instruidos de Deos, que vos ameis huns aos outros.
10 Porque tambem já assim o fazeis para com todos os irmãos, que estão em toda Macedonia. Exhortamosvos porém, irmãos, que ainda nisto mais abundeis:
11 E procureis de andar quietos, e fazer vossos proprios negocios, e trabalhar com vossas proprias mãos, como já vo-lo temos mandado:
12 Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e de cousa nenhuma necessiteis.
13 Não quero porém, irmãos, que sejais ignorantes ácerca dos que já dormem: para que vos não entristeçais, como tambem os de mais, que não tem esperança.
14 Porque se cremos que Jesus morreo, e resuscitou, assim tambem aos que em Jesus dormem, Deos com elle os tornará a trazer.
15 Porque isto vos dizemos pela palavra do Senhor, que nósoutros que restarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederémos aos que dormem.
16 Porque o mesmo Senhor do ceo descerá com algazares, e com voz de Archanjo, e com a trombeta de Deos: e os que em Christo morrérão, primeiro resuscitarão:
17 Depois nósoutros, que ficarmos vivos, seremos juntamente com elles em as nuveis arrebatados, sahindo ao encontro ao Senhor em o ar: e assim estarémos sempre com o Senhor.
18 Assim que huns aos outros consolai-vos com estas palavras.

CAPITULO 5.

1 POREM, irmãos, ácerca dos tempos e das sazoes, não necessitais de que se vos escreva.
2 Porque vós mesmos sabeis mui bem, que o dia do Senhor virá, como o ladrão de noite.
3 Porque quando disserem, paz e segurança ha; então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto áquella que está prenhe, e em maneira nenhuma escaparão.
4 Mas vós, irmãos, já não estais em trévas, para que aquelle dia vos apanhe como ladrão.
5 Todos vósoutros sois filhos da luz, e filhos do dia: nem nós somos da noite, nem das trevas.
6 Assim que não dormamos, como os demais; mas velêmos, e sejamos sóbrios.
7 Porque os que dormem, de noite dormem, e os que se embebédão, de noite se embebédão.
8 Mas nós que somos do dia, sejamos sobrios, vestindo-nos da couraça da fé, e da caridade, e por capacete, a esperança da salvação.
9 Porque Deos não nos tem ordenado para ira, senão para acquisição da salvação, por nosso Senhor Jesu-Christo:
10 O qual por nósoutros morreo, para que, quer velêmos, quer dormamos, juntamente com elle vivamos.
11 Pelo que vos exhortai huns aos outros, e huns aos outros vos edificai; como tambem o fazeis.
12 E rogamos-vos, irmãos, que reconheçais aos que entre vósoutros trabalhão, e sobre vós em o Senhor presidem, e vos amoestão:
13 E estimai-os em muito com caridade, por causa de sua obra. Sêde pacificos entré vósoutros.
14 Rogamos-vos tambem, irmãos, que amoesteis aos desordenados, consoleis aos de pouco animo, sustenteis aos fracos, e sejais longanimes para com todos.
15 Olhai que ninguem a outrem torne mal por mal, mas sempre segui o bem, assim huns para com os outros, como para com todos.
16 Sempre vos regozijai.
17 Orai sem cessar.
18 Em tudo graças dai a Deos. Porque esta he a vontade de Deos em Christo Jesus para comvosco.
19 Não apagueis o Espirito.
20 Não desprezai as prophecias.
21 Provai todas as cousas: retende o bom.
22 De toda apparencia de mal vos abstende.
23 E o mesmo Deos de paz vos santifique em tudo e totalmente: e todo vosso sincero espirito, e alma, e corpo, seja conservado irreprehensivel em a vinda de nosso Senhor Jesu-Christo.
24 Fiel he o que vos chama, o qual tambem o fará.
25 Irmãos, orai por nósoutros.
26 Saudai a todos os irmãos com santo beijo.
27 Pelo Senhor vos esconjuro, que a todos os santos irmãos se lêa esta Epistola.
28 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja comvosco. Amen.
A primeira Epistola aos Thessalonicenses foi escrita de Athenas.

2 TESSALONICENSES

CAPITULO 1.

1 PAULO, e Silvano, e Timotheo, á Igreja dos Thessalonicenses, que está em Deos nosso Pai, e em o Senhor Jesu-Christo.
2 Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo:
3 Sempre a Deos devemos dar graças por vósoutros, irmãos, como tambem he razão, porquanto vossa fé grandemente cresce, e a caridade de cada hum de vós todos, de huns para com os outros abunda:
4 De maneira que nós mesmos de vós nos gloriamos em as Igrejas de Deos, por causa de vossa paciencia e fé, em todas vossas perseguições, e afflicçoens que supportais.
5 Prova clara do justo juizo de Deos, para que sejais havidos por dignos do Reino de Deos, pelo qual tambem padeceis:
6 Pois justo he diante de Deos, pagar com tribulação aos que vos atribulão:
7 E a vós, os que sois atribulados, refrigerio juntamente comnosco, em a revelação do Senhor Jesus, desde o ceo com os Anjos de sua potencia,
8 Com lavareda de fogo, tomando vingança dos que a Deos não conhecem, e dos que não obedecem ao Evangelho de nosso Senhor Jesu-Christo:
9 Os quaes por castigo padecerão a eterna perdição, desde a face do Senhor, e da gloria de sua força:
10 Quando vier a ser glorificado em seus santos, e a fazer-se admiravel naquelle dia em todos os que crém, (porquanto nosso testemunho entre vósoutros foi crido).
11 Pelo que tambem sempre por vósoutros rogamos, que nosso Deos vos faça digno da sua vocação, e compra todo o bom prazer de sua bonade, e a obra da fé com potencia.
12 Para que o nome de nosso Senhor Jesu-Christo seja em vós glorificado, e vós nelle, segundo a graça de nosso Deos, e do Senhor Jesu-Christo.

CAPITULO 2.

1 ORA, irmãos, rogamos-vos pela vinda de nosso Senhor Jesu-Christo, e por nosso recolhimento a elle.
2 Que vos não movais facilmente do entendimento, nem vos perturbeis, nem por espirito, nem por palavra, nem por Epistola como de nós escrita, como se o dia de Christo ja estivéra perto.
3 Ninguem vos engane em maneira nenhuma: porque não virá até que primeiro não venha a apostasia, e se manifeste o homem de peccado, o filho de perdição.
4 O qual se oppoem, e se levanta sobre tudo o que se chama Deos, ou como Deos se adora; assim que como Deos no templo de Deos se assentará, fazendo-se parecer Deos.
5 Não vos lembrais, que estando eu ainda com vosco, estas cousas vos dizia?
6 E agora bem sabeis vós que he o que o retenha, para que a seu proprio tempo seja manifestado.
7 Porque ja o mysterio de injustiça se obra: somente o que agora o retem, o reterá até que do meio seja tirado.
8 E então será manifestado aquelle injusto, ao qual o Senhor desfará, pelo Espirito de sua boca, e o aniquilará pelo apparecimento de sua vinda;
9 Aquelle digo, cuja vinda he segundo a efficacia de Satanás, com toda potencia, e sinaes, e prodigios de mentira.
10 E com todo engano de iniquidade em os que perecem: porquanto não recebérão o amor da verdade, para se salvarem.
11 E portanto Deos lhes enviará afficacia de error, para que creão á mentira.
12 Para que sejão condemnados todos os que não crérão á verdade, antes tivérão prazer na iniquidade.
13 Mas sempre devemos dar graças a Deos por vósoutros irmãos, que do Senhor sois amados, de que Deos vos elegeo desde o principio para salvação, em santificação do Espirito, efé da verdade:
14 Para o que por nosso Evangelho vos chamou, para acquirição da gloria de nosso Senhor Jesu-Christo.
15 Pelo que, irmãos, estai firmes, e retende as tradiçoes, que vos forão ensinadas, seja por palavra, ou por Epistola nossa.
16 E nosso Senhor Jesu-Christo mesmo, e nosso Deos e Pai, que nos amou. e em graça nosdeo huma eterna consolação, e boa esperança.
17 Console vossos coraçoes, e vos conforte em toda boa palavra e obra.

CAPITULO 3.

1 NO de mais, irmãos, rogai por nós, para que a palavra do Senhor tenha seu curso, e seja glorificada, como tambem entre vósoutros:
2 E para que livres sejamos de homens dissolutos e mãos, porque não he de todos a fé.
3 Mas fiel he o Senhor, que vos confortará, e guardará do maligno.
4 E de vós confiamos em o Senhor, que tambem fazeis, e fareis o que vos mandamos.
5 Ora o Senhor encaminha vossos coraçoes á caridade de Deos, e á paciencia de Christo.
6 Mandamos-vos porem, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesu-Christo, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós outros recebeo.
7 Porque vós mesmos sabeis como convem imitar-nos: pois desordenadamente entre vós nos não houvemos:
8 Nem de graça o pão de alguem comemos, mas com trabalho e canceira, noite e dia trabalhando, por a nenhum de vósoutros ser pesados.
9 Não porque a authoridade não tenhamos, senão porque nós mesmos por exemplo a vósoutros nos déssemos, para assim nos imitardes.
10 Porque tambem quando comvosco estavamos, isto vos mandavamos, que se alguem não quizer trabalhar, tambem não coma.
11 Porque ouvimos que alguns entre vósoutros andão desordenadamente, não trabalhando, senão cousas vãs fazendo.
12 Aos taes porém, mandamos e amoestamos, por nosso Senhor Jesu-Christo, que com quietação trabalhando, seu proprio pão comão.
13 E vós, irmãos, não desfaleçais em bem fazer.
14 Porém se alguem não obedecera nossa palavra, nesta Epistola escrita, notai ao tal, e com elle vos não mistureis, para que tenha vergonha:
15 Todavia como a inimigo o não tenhais, mas como a irmão o amoestai.
16 Ora o mesmo Senhor de paz vos dé sempre em toda maneira paz. O Senhor seja com todos vósoutros.
17 A saudação de minha propria mão, de Paulo, que he meu sinal em cada Epistola: assim escrevo.
18 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja com todos vósoutros. Amen.
A segunda Epistola aos Thessalonicenses foi escrita de Athénas.

1 TIMÓTEO

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo de Jesu-Christo, segundo o mandado de Deos nosso Salvador, e do Senhor Jesu-Christo, esperança nossa.
2 A Timotheo, meu verdadeiro filho em a fé; graça, misericordia, e paz de Deos nosso Pai, e de Christo Jesus nosso Senhor.
3 Como te amoestei quando hia para Macedonia, que te ficasses em Epheso, assim o faço ainda, para que mandes a alguns, que não ensinem outra doutrina:
4 Nem se dém a fabulas, nem a genealogias infinitas, que mais produzem questões, do que edificação de Deos, que consiste na fé.
5 Mas o fim do mandamento he a caridade, de hum coração puro, e de huma boa consciencia, e de huma fé não fingida.
6 Do que desviando-se alguns, se tornarão a vaidade de palavras:
7 Querendo ser doutores da Lei, e não entendendo, nem o que dizem, nem o que affirmão.
8 Porem bem sabemos que a Lei he boa, se alguem della legitimamente usa:
9 Sabendo isto; que a Lei não he posta para o justo, senão para os injustos e obstinados, para os impios e peccadores, para os profanos e irreligiosos, para os patricidas e matricidas, para os homicidas:
10 Para os fornicadores, para os sodomitas, para os ladroes de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e se outra cousa alguma ha contraria á sã doutrina.
11 Segundo o Evangelho da gloria de Deos bemaventurado, que me he confiado.
12 E graças dou ao que me tem confortado, a saber a Christo Jesus Senhor nosso, de que me teve por fiel, pondo-me no ministerio:
13 A mim que d’antes fui hum blasfemo, e perseguidor, e oppressor: porem foi-me feita misericordia porquanto ignorantemente o fiz em minha infidelidade:
14 Mas a graça de nosso Senhor foi ainda mais abundante, com a fé e amor, que em Christo Jesus ha.
15 Esta he huma palavra fiel, e digna de toda aceitação, que Christo Jesus veio ao mundo, para salvar aos peccadores, dos quaes eu sou o principal.
16 Mas porisso me foi feita misericordia, para que Jesu-Christo em mim, que sou o principal, mostrasse toda sua longanimidade, para exemplo dos que nelle houverem de crér para vida eterna.
17 Ora ao Rei dos seculos, immortal, invisivel, ao só Deos sabio, seja honra, e gloria, para todo sempre. Amen.
18 Este mandamento te encommendo, filho meu Timotheo, que segundo as prophecias, que d’antes acerca de ti houve, milites nellas boa milicia:
19 Retendo a fé, e a boa consciencia, a qual alguns rejeitando, fizérão naufragio da fé.
20 D’entre os quaes he Hymeneo, e Alexandre, que entreguei a Satanás para que aprendão a não blasfemar.

CAPITULO 2.

1 AMOESTO pois ante tudo, que se fação deprecações, orações, intercessões, e fazimentos de graças por todos os homens:
2 Pelos Reis, e por todos os que estão em eminencia, para que tenhamos huma vida quieta e socegada, em toda piedade e honestidade.
3 Porque isto he bom e agradavel diante de Deos nosso Salvador:
4 O qual quer que todos os homens se salvem, e venhão ao conhecimento da verdade.
5 Porque hum só Deos ha, e hum só Medianeiro entre Deos, e os homens, o homem Christo Jesus.
6 O qual se deo a si mesmo em preço de redempção por todos, para ser testemunho a seu tempo:
7 Para o que estou posto por Prégador e Apostolo, (verdade digo em Christo, e não minto) Doutor das Gentes em fé, e em verdade.
8 Quero pois que os varoés orem em todo lugar, levantando as mãos santas sem ira nem contenda.
9 Semelhantemente tambem, que as mulheres se ataviem de trajo honesto, com vergonha e modestia, não com encrespamento de cabellos, ou ouro, ou perolas, ou vestidos preciosos:
10 Mas (como he decente a mulheres que fazem profissão de servir a Deos) com boas obras.
11 A mulher aprenda em silencio, com toda sujeição.
12 Porem não permitto que a mulher ensine, nem use de authoridade sobre o marido, mas que esteja em silencio.
13 Porque primeiro foi formado Adam, e depois Eva.
14 E não foi Adam enganado: mas a mulher, sendo enganada, cahio em transgressão.
15 Porém salvar-se-ha parindo filhos: se permanecer em a fé, e caridade, e santificação, com modestia.

CAPITULO 3.

1 ESTA he huma palavra fiel: se alguem deseja Bispado, excellente obra deseja.
2 Convem pois que o Bispo seja irreprehensivel, marido de huma mulher, vigilante, temperado, honesto, hospedador, apto para ensinar:
3 Não dado ao vinho, não feridor, não cobiçoso de torpe ganancia: mas moderado, não contencioso, não avarento:
4 Que governe bem sua propria casa, tendo a seus filhos em sujeição com toda modestia.
5 (Porque se alguem não sabe governar sua propria casa, como terá cuidado da Igreja de Deos?)
6 Não noviço: porque inchando-se, não caya na condemnação do diabo.
7 Convem tambem que tenha bom testemunho dos que estão de fora para que não caya em affronta, e em laço do diabo.
8 Semelhantemente os Diaconos, sejão honestos; não de duas linguas, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganancia:
9 Tendo o mysterio da fé em huma pura consciencia.
10 E Tambem estes sejão primeiro provados, e depois sirvão, se forem irreprehensiveis.
11 Semelhantemente as mulheres, sejão honestas, não maldizentes, sobrias, e fieis em todas as cousas.
12 Os Diaconos sejão maridos de huma mulher, que governem bem seus filhos, e suas proprias casas.
13 Porque os que bem servirem, para si acquirem hum bom degrao, e muita confiança em a fé, que ha em Christo Jesus.
14 Estas cousas te escrevo, esperando de bem presto vir a ti:
15 Mas se tardar, para que saibas como convem andar em a casa de Deos, que he a Igreja de Deos vivo, a columna e firmeza da verdade.
16 E sem duvida nenhuma, grande he o Mysterio da piedade: Deos foi manifestado em a carne, foi justificado em Espirito, visto dos Anjos, prégado aos Gentios, crido no mundo, e recebido a riba em gloria.

CAPITULO 4.

1 POREM o Espirito diz expressamente, que nos ultimos tempos descahirão alguns da fé, dando-se a espiritos enganadores, e a doutrina de demonios.
2 Pela hypocrisia de faladores de mentiras, tendo cauterizado sua propria consciencia:
3 Prohibindo casar-se, e mandando abster-se dos manjares que Deos creou para os fieis, e para os que conhecerão a verdade, para delles usarem com fazimento de graças.
4 Porque toda creatura de Deos he boa, e não ha nada que enjeitar, tomando-se com fazimento de graças.
5 Porque pela palavra de Deos, e pela oração he sanctificada.
6 Estas cousas propondo aos irmãos serás bom ministro de Jesu-Christo, criado nas palavras da fé, e da boa doutrina, que seguiste.
7 Mas rejeita as fabulas profanas e das velhas: e exercita-te a ti mesmo em piedade.
8 Porque o exercicio corporal para pouco aproveita: porem a piedade para tudo he proveitosa, tendo as promessas desta presente, e da outra vida.
9 Esta he palavra fiel, e digna de toda aceitação.
10 Porque para isto tambem trabalhamos, e somos injuriados, porquanto esperamos em o Deos vivente, que he o conservador de todos os homens, maiormente dos fieis.
11 Estas cousas encommenda e ensina.
12 Ninguem despreze tua mocidade: mas sejas exemplo dos fieis, em palavra, em trato, em caridade, em espirito, em fé, e em pureza.
13 Persiste no ler, exhortar, e ensinar, até que eu venha.
14 Não desprezes o dom que em ti está, o qual te foi dado pela prophecia, com a imposição das mãos da Anciania.
15 Medita estas cousas, nellas teoccupa: para que teu aproveitamento a todos seja manifesto.
16 Tem cuidado de ti mesmo, e da doutrina: nestas cousas persevéra. Porque fazendo isto, te salvarás assim a ti mesmo, como aos que te ouvem.

CAPITULO 5.

1 ASPERAMENTE não reprehendas aos velhos, mas amoesta-os como a pais: aos mancebos, como a irmãos:
2 A’s velhas, como a mãis: ás moças, como a irmãs, em toda pureza.
3 Honra ás viuvas, que verdadeiramente são viuvas.
4 Mas se alguma viuva tiver filhos, ou netos, aprendão primeiro a exercitar piedade para com sua propria casa, e a recompensar a seus pais. Porque isto he bom e agradavel diante de Deos.
5 Ora a que verdadeiramente he viuva, e deixada só, espera em Deos, e persevéra de noite e de dia em rogos e oraçoes.
6 Mas a que segue sua sensualidade, vivendo está morta.
7 Encommenda pois estas cousas, para que sejão irreprehensiveis.
8 Porém se alguem não tem cuidados dos seus, e principalmente de seus domesticos, negou a fé, e peior he que infiel.
9 A viuva se eleja não menos que de sessenta annos, e que haja sido mulher de hum marido:
10 Tendo testemunho de boas obras, se criou filhos, se de boamente hospedou, se lavou os pés aos santos, se socorreo aos affligidos, se seguio toda boa obra.
11 Mas as viuvas moças não admittas: porque havendo sido lascivas contra Christo, casar-se querem:
12 Tendo já sua condemnação, por haverem aniquilado sua primeira fé.
13 E juntamente tambem aprendem andar ociosamente de casa em casa: e não somente ociosas, mas tambem paroleiras, e curiosas, falando o que não convem.
14 Quero pois que as viuvas moças se casem, gerem filhos, governem a casa, e nenhuma occasião dém ao adversario de maldizer.
15 Porque já algumas se desviárão após Satanás.
16 Se algum fiel, ou alguma fiel, tem viuvas, socorra-as, e não se carregue a Igreja, para que possa sustentar ás que de veras são viuvas.
17 Os Anciãos que bem governão, sejão estimados por dignos de dobrada honra, principalmente os que em a palavra e doutrina trabalhão.
18 Porque a Escritura diz: Ao boi que trilha, não amarrarás a boca; e digno he o obreiro de seu salario.
19 Contra o Ancião não aceites accusação, senão com duas ou tres testemunhas.
20 Aos que peccarem, os redargue em presença de todos, para que tambem os outros tenhão temor.
21 Conjuro-fe diante de Deos, e do Senhor Jesu-Christo, e dos Anjos eleitos, que sem prejuizo algum estas cousas guardes, nada fazendo por affeição.
22 A ninguem apresuradamente imponhas as mãos, nem communiques em peccados alheios: puro te conserva a ti mesmo.
23 Não bebas mais somente agua, mas usa tambem de hum pouco de vinho, por causa de teu estomago, e de tuas frequentes enfermidades.
24 Manifestos são d’antes de alguns homens os peccados, e se adiantão para sua condemnação; e em alguns seguem tambem depois.
25 Semelhantemente tambem as boas obras d’antes se manifestão: e as que d’outra maneira são, se não podem esconder.

CAPITULO 6.

1 OS servos quantos estão debaixo de jugo, estimem a seus Senhores por dignos de toda honra; para que o nome de Deos, e a doutrina não sejão blasfemados.
2 E os que tem Senhores fieis, não os desprezem, por serem irmãos: antes tanto mais os sirvão, porquanto são fieis e amados, como tambemparticipantes deste beneficio. Isto ensina e exhorta.
3 Se alguem ensina outra alguma doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesu-Christo, e com a doutrina que he conforme á piedade:
4 Inchado he, e nada sabe, porém delira acerca de questões e contendas de palavras: das quaes nascem invejas, porfias, blasfemias, roins suspeitas,
5 Perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja ganancia: Aparta-te dos taes.
6 Grande ganancia he porém a piedade com contentamento.
7 Porque nada ao mundo trouxemos, e manifesto he que nada delle podemos levar.
8 Tendo porém sustento, e com que nos cubramos, estejamos com isso contentes.
9 Mas os que se querem enriquecer cahem em tentação, e em laço, e em muitas loucas e nocivas concupiscencias, que aos homens afogão em perdição e ruina.
10 Porque o amor do dinheiro he a raiz de todos os males: o que apetecendo alguns se desviárão da fé, e se traspassarão a si mesmos com muitas dores.
11 Mas tu, ó homem de Deos, foge destas cousas: e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciencia, e a mansidão.
12 Milita a boa milicia da fé; lança mão da vida eterna, para a qual tambem es chamado, e já confessaste a boa confissão diante de muitas testemunhas.
13 Mando-te diante de Deos, que todas as cousas vivifica, e de Christo Jesus, que diante de Poncio Pilatos testificou a boa confissão:
14 Que guardes este mandamento sem macula e reprehensão, até o apparecimento de nosso Senhor Jesu-Christo:
15 Ao qual a seu tempo mostrará o bemaventurado e só poderoso Senhor, Rei dos reis, e Senhor dos Senhores:
16 O qual só tem immortalidade, e habita em huma luz inaccessivel: a quem nenhum dos homens vio, nem pode ver, ao qual seja honra, e potencia sempiterna. Amen.
17 Aos ricos neste mundo manda, que não sejão altivos, nem ponhão sua esperança na incerteza das riquezas, senão em o Deos vivo, que todas as cousas nos dá abundantemente, para dellas gozar:
18 Que bem fação, em boas obras enriqueção, de boamente repartão, e sejão communicaveis:
19 Enthesourando para si mesmos hum bom fundamento para em o porvir, para que possão alcançar a vida eterna.
20 O’ Timotheo, guarda o deposito a ti confiado, tendo horror dos profanos e vãos clamores, e das opposiçoés da falsamente chamada sciencia:
21 A qual alguns professando, se desviárão da fé. A graça seja comtigo. Amen.
A primeira Epistola a Timotheo foi escrita de Laodicea, que he a Metropoli da Phrygia Pacaciana.

2 TIMÓTEO

CAPITULO 1.

1 PAULO Apostolo de Jesu-Christo, pela vontade de Deos, segundo a promessa da vida, que está em Christo Jesus:
2 A Timotheo meu amado filho; graça, misericordia, e paz de Deos Pai, e de Christo Jesus Senhor nosso.
3 Graças dou a Deos, ao qual desde meus antepassados com huma pura consciencia sirvo, como sem cessar tenho lembrança de ti em minhas oraçoes noite e dia.
4 Desejando muito ver-te, lembrando-me de tuas lagrimas, para me encher de gozo.
5 Trazendo á memoria a fé não fingida que está em ti, a qual primeiro habitou em tua avo Loyda, e em tua mãi Eunice: e certo estou, que tambem habita em ti.
6 Pela qual causa te lembro, que despertes o dom de Deos, que em ti está pela imposição de minhas mãos.
7 Porque não nos deo Deos espirito de temor, senão o de fortaleza, e de amor, e de moderação.
8 Portanto não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou seu prisioneiro: antes participa em padecer afflicçoés com o Evangelho segundo a potencia de Deos:
9 O qual nos salvou, e chamou com huma santa vocação: não segundo nossas obras, mas segundo seu prõprio proposito, e graça, que em Christo Jesus nos foi dada antes dos tempos dos seculos.
10 Mas agora he manifesta pelo apparecimento de nosso Salvador Jesu-Christo; o qual aniquilou a morte; e á luz trouxe a vida e a incorrupção, pelo Evangelho.
11 Para o que estou posto por Prégador, e Apostolo, e Doutor das Gentes.
12 Por qual causa tambem padeço estas cousas: porém não me envergonho. Porque eu sei a quem cri, e estou certo que poderoso he para, guardar meu deposito até aquelle dia.
13 Retém o exemplar das sãs palavras, que de mim tens ouvido, em a fé, e caridade que está em Christo Jesus.
14 Guarda o bom deposito pelo Espirito Santo, que em nósoutros habita.
15 Bem sabes isto, que os que estão em Asia, de mim todos se apartárão: entre os quaes he Phygello e Hermogenes.
16 Dé o Senhor misericordia á casa de Onesiphoro; porque muitas vezes me recreou, e de minha cadeia se não envergonhou.
17 Antes vindo elle a Roma, com muito cuidado me buscou, e me achou.
18 O Senhor lhe dé que naquelle dia para com o Senhor ache misericordia; e quanto em Epheso me ajudou, tu melhor o sabes.

CAPITULO 2.

1 TU pois, meu filho, fortifica-te em a graça que está em Christo Jesus:
2 E o que de mim entre muitas testemunhas ouviste, o encommenda a homens fieis, que forem idoneos para tambem a outros ensinarem.
3 Tu pois, sofre as afflicçoês, como bom soldado de Jesu-Christo:
4 Ninguem que milita, se embaraça em negocios desta vida, por agradar áquelle que o registou para a guerra.
5 E se tambem alguem milita, não he coroado, se não militar legitimamente.
6 Trabalhando o lavrador deve primeiro então gozar dos frutos.
7 Advirte o que digo: dé-te porem o Senhor entendimento em tudo.
8 Lembra-te que Jesu-Christo resuscitou dos mortos, o qual he da semente de David, segundo meu Evangelho:
9 Pelo que até as prisoens, como malfeitor, padeço oppressoês: mas a palavra de Deos não está preza.
10 Portanto tudo sofro por amor dos escolhidos, para que tambem elles alcancem a salvação, que está em Chri sto Jesus com gloria eterna.
11 Palavra fiel, que se com elle morrermos, tambem com elle viverémos:
12 Se sofrermos, tambem com elle reinaremos: se o negarmos, tambem elle nos negará:
13 Se formos infieis, elle fica fiel: a si mesmo se não pode negar.
14 Estas cousas á memoria traze, protestando diante do Senhor, que não tenhão contendas de palavras, que para nada aproveitão, senão para perversão dos ouvintes.
15 Procura de te apresentares approvado a Deos, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que bem corta a palavra da verdade.
16 Mas aos profanos e vãos clamores te oppoem: porque ainda em muita mais impiedade proseguirão.
17 E sua palavra roerá como cancro; entre os quaes são Hymeneoe Phileto:
18 Os quaes da verdade se desviarão: dizendo, que ja a resnrreição he feita; e a fé de alguns pervertem.
19 Todavia o firme fundamento de Deos fica, tendo este sello: O Senhor conhece os que são seus; e qualquer que noméa o nome de Christo, se aparta da iniquidade.
20 Ora em huma grande casa não somente ha vasos de ouro e de prata, mas tambem de pao e de barro; e huns para honra, porem outros para deshonra.
21 Assim que se alguem destas cousas se purifica, será vaso para honra, santificado e idoneo para uso do Senhor, e preparado para toda boa obra.
22 Mas foge dos desejos da mocidade; e prosigue a justiça, a fé, a caridade, e a paz com os que de puro coração invocão ao Senhor.
23 E rejeita as questoés loucas e sem instrucção, sabendo que produzem contendas.
24 E não convém ao servo do Senhor contender: senão ser manso para com todos, apto para ensinar, e supportar aos maos:
25 Com mansidão instruindo aos que resistem se por ventura Deos lhes dé arrependimento para conhecerem a verdade:
26 E se tornem a despertar do laço do diabo, em que á sua vontade estão presos.

CAPITULO 3.

1 ISTO porem saibas, que em os ultimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
2 Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presumptuosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e a mãis, ingratos, profanos:
3 Sem affecto natural, irreconciliaveis, calumniadores, incontinentes, crueis sem amor para com os bons:
4 Traidores, temerarios, inchados, mais, amantes dos deleites, do que amantes de Deos.
5 Tendo a apparencia da piedade, mas negando a efficacia della. Tambem aborrece a estes.
6 Porque destes são os que entrão pelas casas, e levão captivas as mulherinhas carregadas de peccados, levadas de varias concupiscencias:
7 Que sempre aprendem, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.
8 E como Jannes e Jambres resistirão a Moyses, assim tambem estes resistem á verdade: homens corruptos de entendimento, e reprovaveis quanto a fé.
9 Porem não irão mais avante: porque a todos seu desvario será manifesto, como tambem o foi o daquelles.
10 Porem tu tens seguido minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, caridade, paciencia;
11 Minhas perseguiçoens, e minhas afflicçoés, taes quaes me acontecérão em Antiochia, em Iconia, e em Lystra: quaes perseguiçoés padeci; e o Senhor de todas me livrou.
12 E tambem todos os que piamente querem viver em Christo Jesus, padecerão perseguição.
13 Mas os homens maos, e enganadores, irão por diante em peior, enganando, e sendo enganados.
14 Porem tu fica nas cousas que aprendeste, e das quaes foste inteirado, sabendo de quem as tens aprendido:
15 E que desde tua meninice soubeste as sagradas letras: as quaes te podem fazer sabio para salvação pela fé que ha em Christo Jesus.
16 Toda a Escritura he divinamente inspirada, e proveitosa para doutrina, para redarguição, para correição, e para instrucção em justiça:
17 Para que o homem de Deos seja perfeito, e para toda boa obra perfei tamente instruido.

CAPITULO 4.

1 CONJURO-te pois diante de Deos, e do Senhor Jesu-Christo, que aos vivos e aos mortos ha de julgar em seu apparecimento, e em seu Reino:
2 Préga a palavra, insiste em tempo e fora de tempo: redargue, reprehende, e exhorta com toda longanimidade e doutrina.
3 Porque haverá tempo quando não sofrerão a sã doutrina, antes tendo nas orelhas comichão, se amontoarão doutores segundo suas proprias concupiscencias:
4 E seus ouvidos desviarão da verdade, e tornarão ás fabulas.
5 Porem tu véla em todas as cousas, sofre as afflicçoés, cumpre a obra de Evangelista, e faze que de teu ministerio haja inteira certeza.
6 Porque ja agora a mim me offerecem por aspersão de sacrifiicio, e ja o tempo da minha soltura está perto.
7 Bom combate combati, a carreira acabei, e a fé guardei.
8 No de mais, a coroa de justiça me está guardada, a qual o Senhor, aquelle justo juiz, naquelle dia me dará: e não somente a mim, porem tambem a todos os que amarem seu apparecimento.
9 Procura de vir presto a mim.
10 Porque Démas me desemparou, amando o presente seculo, e se foi a Thessalonica; Crescente a Galacia, e Tito a Dalmacia.
11 Lucas só está comigo: Toma juntamente a Marcos, e o traze comtigo: Porque mui util me he para o ministerio.
12 Mas a Tychico enviei a Epheso.
13 Quando viéres, traze comtigo a maléta, que deixei em Troas em casa de Carpo, e os livros, particularmente os pergaminhos.
14 Alexandre o Latoeiromeoccasionou muitos males: o Senhor paguelhe segundo suas obras.
15 Do qual tu tambem te guarda,porque muito resistio a nossas palavras.
16 Em minha primeira defesa ninguem me assistio, antes todos me desemparárão. Oxalá lhes não seja imputado.
17 Mas o Senhor me assistio, e me fortaleceo; para que por mim tivesse inteira certeza da prégação, e todas as gentes a ouvissem: e da boca do leão fiquei livre.
18 E o Senhor me livrará de toda má obra, e me guardará para seu Reino celestial: ao qual seja gloria para todo sempre. Amen.
19 Sauda a Prisca e a Aquilla, e a casa de Onesiphoro.
20 Erasto ficou em Corintho, e a Trophimo deixei doente em Mileto.
21 Procura vir antes do inverno. Eubulo, e Pudens, e Lino, e Claudia, e todos os irmãos te saudão.
22 O Senhor Jesu-Christo seja com teu Espirito. A graça seja comvosco. Amen.
A segunda Epistola a Timotheo (o primeiro Bispo eleito em Epheso) foi escrita de Roma, quando Paulo a segunda vez foi apresentado a Cesar Nero.

TITO

CAPITULO 1.

1 PAULO servo de Deos, e Apostolo de Jesu-Christo, segundo a fé dos eleitos de Deos, e o conhecimento da verdade, que he segundo piedade:
2 Em esperança da vida eterna, a qual Deos, que não pode mentir, prometteo antes dos tempos dos seculos, mas a seu tempo a manifestou.
3 A saber sua palavra, pela pregação que me he confiada segundo o mandamento de Deos nosso Salvador: A Tito meu verdadeiro filho, segundo a commum fé:
4 Graça, misericordia, e paz de Deos Pai, e do Senhor Jesu-Christo, nosso Salvador.
5 Por esta causa te deixei em Creta, para que proseguisses por em boa ordem as cousas que ainda restão, e de cidade em cidade estabelecesses Anciãos como ja te encommendei:
6 Se algum for irreprehensivel, marido de huma mulher, que tenha filhos fieis, que não possão ser accusados de dissolução, ou desobedientes.
7 Porque convém que o Bispo seja irreprehensivel, como dispenseiro da casa de Deos, não cabeçudo, não iracundo, não vinolento, não espanqueador, nem cobiçoso de torpe ganancia:
8 Mas hospedador, amante dos bons, moderado, justo, santo, continente:
9 Retendo firme a fiel palavra que he conforme a doutrina, para que seja poderoso, assim para amoestar com a sã doutrina, como para convencer aos contradizentes.
10 Porque tambem ha muitos desordenados, faladores de vaidades; e enganadores dos sentidos, particularmente os da circuncisão:
11 Aos quaes convem tapar a boca; que as casas inteiras transtornão, ensinando o que não convém, por torpe ganancia.
12 Disse hum delles, seu proprio Propheta: Os Cretenses sempre são mentirosos, bestas roins, ventres preguiçosos.
13 Este testemunho he verdadeiro. Portanto os redargue asperamente, para que sejão sãos na fé:
14 Não se dando a fábulas Judaicas, e a mandamentos de homens, que da verdade se desvião.
15 Bem são todas as cousas puras aos puros: mas aos contaminados e infieis nada he puro; antes seu entendimento e consciencia ambos estão contaminados.
16 Professão que a Deos conhecem, mas com as obras o negão, pois são abominaveis, e desobedientes, e para toda boa obra reprovados.

CAPITULO 2.

1 TU porem, fala o que convém á sã doutrina:
2 Aos velhos que sejão sobrios, graves, prudentes, sãos na fé, na caridade, e na paciencia.
3 As velhas da mesma maneira, que andem em habito como convém a santas, não sejão calumniadoras,não dadas a muito vinho, porem mestras do bem:
4 Para que ensinem ás moças a serem prudentes, a amarem a seus maridos, a amarem a seus filhos:
5 A serem temperadas, castas, boas caseiras, sujeitas a seus maridos: para que a palavra de Deos não seja blasphemada.
6 Exhorta semelhantemente aos mancebos, que sejão moderados.
7 Em tudo te dá por exemplo de boas obras, em a doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade:
8 Palavra sã e irreprehensivel: para que o adversario se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de vósoutros:
9 Aos servos amoesta, que a seus Senhores se sujeitem, em tudo agradem, não contradizendo:
10 Não defraudando, antes mostrando toda boa lealdade: para que em tudo adornem a doutrina de Deos nosso Salvador.
11 Porque a graça salutifera de Deos se manifestou a todos os homens:
12 Ensinando-nos, que renunciando á impiedade, e ás concupiscencias mundanas, vivamos neste presente mundo sobria, justa, e piamente.
13 Aguardando a bemaventurada esperança, e o apparecimento da gloria do grande Deos e Salvador nosso Jesu-Christo:
14 O qual a si mesmo se deo por nósoutros, para nos redimir de toda iniquidade, e para si mesmo purificar hum povo particular, zelador de boas obras.
15 Isto fala, e exhorta, e redargue com toda authoridade. Ninguem te despreze.

CAPITULO 3.

1 AMOESTA-os que se sujeitem aos Pricipados e Potestades, lhes obedeção, e estejão aparelhados para toda boa obra:
2 De ninguem infamem, não sejão pendenciosos, mas modestos, mostrando toda mansidão para com todos os homens.
3 Porque tambem nós d’antes eramos nescios, desobedientes, errados, servindo a varias concupiscensias e delicias, vivendo em malicia e inveja, aborreciveis, e huns aos outros aborrecendo.
4 Mas quando a benignidade e caridade de Deos nosso Salvador para com os homens appareceo;
5 Não pelas obras de justiça, que houvessemos feito, mas segundo sua misericordia nos salvou pelo lavatorio da regeneração, e da renovação do Espirito Santo:
6 Ao qual abundantemente derramou em nós outros por Jesu-Christo nosso Salvador:
7 Para que sendo justificados por sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna.
8 Palavra fiel, e isto quero que devéras affirmes, para que os que em Deos crém, procurem de se applicarem a boas obras; estas cousas são boas e proveitosas aos homens.
9 Mas resiste ás questoes loucas, e ás genealogias e contendas, e aos debates da Lei: porque são inuteis e vãos.
10 Ao homem herege, depois de huma e outra amoestação, rejeita-o:
11 Sabendo que o tal está pervertido, e pecca, ja em si mesmo condemnado.
12 Quando te enviar a Artemas, ou a Tychico, procura vir a mim a Nicopolis, porque lá deliberei invernar.
13 A Zenas Doutor da Lei, e a Apollo accompanha com muito cuidado, para que nada lhes falte.
14 E tambem aprendão os nossos a se applicarem a boas obras, para os usos necessarios, para que não sejão infructuosos.
15 Todos os que comigo estão, te saudão. Sauda tu aos que nos amão em a fé. A graça seja com todos vósoutros. Amen.
A Epistola a Tito, o primeiro Bispo eleito da Igreja dos Cretenses, foi escrita de Nicopolis em Macedonia.

FILEMON

CAPITULO 1.

1 PAULO prisioneiro de Christo Jesus, e o irmão Timotheo. a Philemon o amado, e nosso cooperador:
2 E á amada Appia, e a Archippo nosso companheiro d’armas, e á Igreja que em tua casa está:
3 Graça e paz hajais de Deos nosso Pai, e do Senhor Jesu-Christo.
4 Graças dou a meu Deos, sempre me lembrando de ti em minhas oraçoens:
5 Ouvindo tua caridade, e a fé que tens para com o Senhor Jesus, e para com todos os santos:
6 Para que a communicação de tua fé seja efficaz na notificação de todo o bem, que em vósoutros ha por Christo-Jesus.
7 Porque temos grande gozo e consolação de tua caridade, de que por ti, ó irmão, as entranhas dos santos forão recreadas.
8 Pelo que ainda que em Christo tenha grande confiança para o que te convém te mandar:
9 Todavia te peço antes por caridade, ainda que tal eu seja, a saber, Paulo o velho, e tambem agora o preso de Jesu-Christo.
10 Peço-te pois por meu filho Onesimo, que tenho gerado em minhas prisoes.
11 O qual d’antes te era inutil, mas agora a ti e a mim mui util: o qual te tornei a enviar:
12 Tu porem, como a minhas entranhas, o torna a receber:
13 Bem eu o quizéra reter comigo, para que por ti me servisse nas prisoes do Evangelho:
14 Porem nada quiz fazer sem teu parecer, para que tua beneficencia não fosse como por força, mas como de livre vontade.
15 Porque bem pode ser que porisso elle de ti se apartou por algum tempo, para que o retivesses para sempre:
16 Não ja como a servo, porém mais que a servo, a saber como a amado irmão, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim em a carne, como em o Senhor?
17 Assim que se me tens por companheiro, como a mim mesmo o recébe.
18 E se algum damno te fez, ou cousa alguma te deve, á minha conta o pôem.
19 Eu Paulo de minha propria mão o escrevi, eu o pagarei: por te não dizer, que tambem ainda tu a ti mesmo a mim me te deves.
20 Assim que, irmão, regozija eu de ti nisto em o Senhor: recréa minhas entranhas em o Senhor.
21 Confiado de tua obediencia te escrevi, sabendo que ainda mais farás do que digo.
22 E juntamente me aparelha tambem pousada: porque espero que por vossas oraçoens vos hei de ser dado.
23 Saudão-te Epaphras, meu companheiro na prisão em Christo Jesus,
24 Marcos, Aristarcho, Demas, e Lucas, meus cooperadores.
25 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja com vosso espirito. Amen.
Escrita de Roma a Philemon, e enviada pelo servo Onesimo.

HEBREUS

CAPITULO 1.

1 HAVENDO Deos antigamente muitas vezes, e em muitas maneiras, falado aos pais pelos Prophetas, nos falou a nós em estes ultimos dias pelo Filho:
2 Ao qual constituio por herdeiro de todas as cousas, pelo qual tambem fez o mundo.
3 O qual sendo o resplandor de sua gloria, e a expressa imagem de sua pessoa, e sustentando todas as cousas pela palavra de sua potencia, havendo feito por si mesmo a purgação de nossos peccados, se assentou á dextra da Magestade em as alturas:
4 Feito tanto mais excellente que os Anjos, quanto mais excellente nome herdou do que elles.
5 Porque á qual dos Anjos disse jamais: Tu es meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e elle me será por Filho?
6 E introduzindo outra vez no mundo ao primogenito, diz: E adorem-o todos os Anjos de Deos.
7 E quanto aos Anjos, bem diz elle: Que a seus Anjos faz espiritos, e a seus Ministros lavareda de fogo:
8 Porem quanto ao Filho diz: O’ Deos, teu throno por seculos de seculos dura, sceptro de direiteza he o sceptro de teu Reino.
9 Amaste a justiça, e aborreceste a iniquidade: Porisso, ô Deos, teu Deos te ungio com oleo de alegria mais do que a teus companheiros.
10 E Tu Senhor no principio fundaste a terra, e os ceos são obras de tuas mãos:
11 Elles perecerão, porem tu sempre permanéces: e todos elles como roupa se envelhecerão:
12 E como a manta os envolverás, e mudar-sehão: porem tu es o mesmo, e teus annos não cessarão.
13 E á qual dos Anjos disse jamais: Assenta-te á minha dextra, até que ponha a teus inimigos por escabello de teus pés?
14 Porventura não são todos espiritos administradores, enviados a servir, por amor daquelles que hão de herdar a salvação?

CAPITULO 2.

1 PORTANTO nos convém attentar com tanta mais diligencia para as cousas que ja temos ouvido, para que em tempo algum nos não venhamos a esquecer.
2 Porque se a palavra pelos Anjos pronunciada foi firme, e toda transgressão e desobediencia recebeo justa retribuição:
3 Como escaparemos nósoutros, se para huma tão grande salvação não attentarmos? A qual começando a ser denunciada pelo Senhor, nos foi confirmada pelos que a elle ouvirão:
4 Testificando Deos ainda mais disto juntamente com sinaes, e milagres, e varias maravilhas, e distribuiçoes do Espirito Santo, segundo sua vontade.
5 Porque aos Anjos não sujeitou o mundo futuro, do qual agora falamos.
6 Porem em certa parte testificou alguem dizendo: Que he o homem, que delle te lembres? ou o Filho do homem, que o visites?
7 Hum pouco menor que os Anjos o fizeste, de gloria e de honra o coroaste, e sobre as obras de tuas mãos o estabeleceste.
8 Todas as cousas debaixo dos pés lhe sujeitaste. Porque por em quanto todas as cousas lhe sujeitou, nada deixou que lhe não seja sujeito: porem agora ainda não vemos que todas as cousas lhe estejão sujeitas:
9 Vemos porem coroado de gloria e de honra áquelle Jesus, que hum pouco menor que os Anjos fóra feito, por causa da paixão da morte: para que pela graça de Deos por todos gostasse a morte.
10 Porque convinha aquelle por cuja causa são todas as cousas, e por quem todas as cousas são, a muitos filhos trazendo a gloria, que consagrasse por afflicções ao Principe de sua salvação.
11 Porque assim o que santifica, como os que são santificados, todos são de hum: Por cuja causa se não envergonha de os chamar irmãos:
12 Dizendo: A meus irmãos denunciarei teu nome, no meio da congregação te cantarei louvores.
13 E outra vez: Nelle porei minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deos me deo.
14 Assim que porquanto os filhos participão da carne e do sangue, tambem elle participou dos mesmos, para que pela morte aniquilasse ao que tinha o imperio da morte, isto he, ao Diabo:
15 E livrasse a todos os que com medo da morte por toda a vida estavão sujeitos á servidão.
16 Porque na verdade não toma aos Anjos, mas toma á semente de Abraham.
17 Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel Summo Pontifice nas cousas que para com Deos sedevido fazer, para expiar os peccados do povo.
18 Porque naquillo que elle mesmo, sendo tentado, padeceo, pode socorrer aos que tentados forem.

CAPITULO 3.

1 PELO QUE, santos irmãos, participantes da vocação celestial, considerai ao Apostolo e Summo Pontifice de nossa profissão, Christo Jesus:
2 Sendo fiel ao que o constituio, como tambem Moyses em toda sua casa.
3 Porque estimado he este por digno de tanto maior gloria que Moyses, quanto mais honra tem, que a casa, aquelle que a edificou.
4 Porque toda casa por alguem he edificada: porem o que todas estas cousas edificou, he Deos.
5 E bem foi Moyses, como servo, fiel em toda sua casa, em testemunho das cousas que depois se havião de dizer:
6 Mas Christo, como Filho sobre sua propria casa; cuja casa nos somos, se tão somente até o fim retivermos firme a confiança, e a gloriação da esperança.
7 Portanto, como diz o Espirito Santo: Hoje, se ouvirdes sua voz:
8 Não endureçais vossos coraçoens, como em a irritação, no dia da tentação, em o deserto:
9 Aonde vossos pais me tentárão, me provarão, e minhas obras virão por quarenta annos.
10 Por onde contra esta geração me indignei, e disse: Sempre em seu coração errão, e não conhecérão meus caminhos.
11 Assim que em minha ira jurei, que em meu repouso não entrarão.
12 Olhai, irmãos, que nunca em nenhum de vósoutros haja hum mao e infiel coração, para se apartar do Deos vivente.
13 Antes cada dia huns aos outros vos exhortai, entretanto que se noméa Hoje: para que nenhum de vós se endureça por engano do peccado.
14 Porque estamos feitos participantes de Christo, se porem até o fim firmemente retivermos o principio deste firme fundamento:
15 Entretanto que se diz: Hoje se ouvirdes sua voz, não endureçais vossos coraçoes, como em a irritação.
16 Porque havendo a alguns ouvido, o irritarão; porem não todos os que por Moyses de Egypto sahirão.
17 Mas com quaes por quarenta annos se indignou? Não foi por ventura com os que peccárão, cujos corpos no deserto cahirão?
18 E ás quaes jurou que em seu repouso não entrarião, senão aos que forão desobedientes?
19 E vemos que não pudérão entrar por causa de sua incredulidade.

CAPITULO 4.

1 TEMAMOS pois, que deixada em algum tempo a promessa de entrar em seu repouso, não pareça que algum de vósoutros fique atrás.
2 Porque tambem a nós evangelizado nos foi como tambem a elles: mas a palavra da prégação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fe naquelles que a ouvirão.
3 Porque nós, os que já crêmos, entramos no repouso, como disse: Portanto jurei em minha ira, que em meu repouso não entrarão: posto que jásuas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo.
4 Porque assim, em certo lugar, disse do setimo dia: E repousou Deos de todas suas obras ao setimo dia.
5 E ainda outra vez neste lugar: Em meu repouso não entrarão.
6 Assim que pois resta, que alguns nelle entrão, e que aquelles, aos quaes primeiro foi evangelizado, não entrárão por causa da desobediencia:
7 Outra vez determina hum certo dia, a saber Hoje, dizendo por David, tanto tempo depois: (como dito he) Hoje, se ouvirdes sua voz não endureçais vossos coraçoes.
8 Porque se Jesus os houvéra introduzido ao repouso, depois disso de outro dia não falára.
9 Assim que ainda resta hum repouso para o povo de Deos.
10 Porque aquelle que em seu repouso entrou, o mesmo tambem de suas obras repousou, como tambem Deos das suas.
11 Procuremos pois de entrar naquelle repouso; para que ninguem caya no mesmo exemplo de desobediencia.
12 Porque a palavra de Deos he viva e efficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dous cortes, e penétra até a divisão da alma e do espirito, e das conjunturas e dos tutanos, e he juiz dos pensamentos e imaginaçoes do coração.
13 E não ha creatura alguma encuberta diante delle: antes todas as cousas estão nuas e patentes aos olhos daquelle com quem o negocio havemos.
14 Assim que pois já temos hum Summo Pontifice, a saber a Jesus, o Filho de Deos, que penetrou pelos ceos, retenhamos firmemente esta profissão.
15 Porque não temos hum Summo Pontifice, que de nossas fraquezas se não possa compadecer: antes hum tal, que como nós, em tudo foi tentado, excepto o peccado.
16 Cheguemos pois com confiança ao throno da graça, para que possamos alcançar misericordia, e achemos graça, para sermos ajudados em tempo opportuno.

CAPITULO 5.

1 PORQUE todo Summo Pontifice tomado d’entre os homens, em lugar dos homens se constitue nas cousas que para com Deos se hão de fazer, para que offereça dons e sacrificios pelos peccados.
2 E que convenientemente se possa compadecer dos ignorantes e errados: pois tambem elle mesmo rodeado está de fraqueza.
3 E por causa desta/rn-queza deve elle, assim pelo povo, como tambem por si mesmo, offerecer pelos peccados.
4 E ninguem toma esta honra, senão o que de Deos he chamado, como Aaron.
5 Assim tambem Christo se não glorificou a si mesmo, para se fazer Summo Pontifice; mas aquelle que lhe disse: Tu es meu Filho, hoje te gerei.
6 Como tambem em outro lugar diz: Tu es Sacerdote eternamente segundo a ordem de Melchisedec.
7 O qual em os dias de sua carne offerecendo, com grande clamor e lagrimas, orações e supplicaçoés ao que o podia livrar da morte, e sendo ouvido do medo;
8 Ainda que era o Filho, todavia aprendeo obediencia pelas cousas que padeceo:
9 E sendo elle consagrado, foi feito causa da eterna salvação a todos os que lhe obedecem:
10 E nomeado de Deos por Summo Pontifice segundo a ordem de Melchisedec.
11 Do qual temos muito que dizer, e difficil de declarar: porquanto vos fizestes negligentes para ouvir.
12 Porque havendo já de ser mestres, visto o tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quaes sejão os primeiros principios das palavras de Deos: e vos tendes feito taes, que ainda necessitais de leite, e não de solido mantimento.
13 Porque qualquer que ainda participa do leite, não está experimentado na palavra da justiça: porque ainda menino he.
14 Mas o mantimento solido he dos perfeitos, os quaes pelo costume já tem os sentidos exercitados, para distincção assim do bem, como do mal.

CAPITULO 6.

1 PELO QUE deixando o principio da doutrina de Christo, prossigamos adiante até a perfeição, não tornando a pôr o fundamento da conversão das obras mortas, e da fé em Deos:
2 Da doutrina dos baptismos, e da imposiçao das mãos, e da resurreição dos mortos, e do juizo eterno.
3 E isto tambem faremos, se he que Deos o permittir.
4 Porque impossivel he, que os que ja huma vez forão illuminados,e gostárão o dom celestial, e forão feitos do Espirito Santo participantes:
5 E gostárão a boa palavra de Deos, e as potencias do seculo futuro:
6 E vierem a recahir, sejão outra vez renovados para conversão; pois assim, quanto a elles, outra vez ao Filho de Deos crucificão, e o expoem a vituperio.
7 Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes vem sobre ella, e produz herva acommodada para aquelles por quem tambem he lavrada, recebe a benção de Deos.
8 Mas a que produz espinhos e abrolhos, he reprovavel, e está perto da maldição, cujo fim he para a queima.
9 Porem de vós, ó amados, melhores cousas confiamos, e chegados á salvação, ainda que assim falamos.
10 Porque não he Deos injusto, para se esquecer de vossa obra, e do trabalho da caridade, que para com seu nome mostrastes, em quanto aos santos ministrastes, e ainda ministrais.
11 Mas desejamos que cada qual de vósoutros mostre o mesmo cuidado, para inteira certeza da esperança, até o fim:
12 Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que por fé e paciencia herdão as promessas.
13 Porque quando Deos a Abraham fez a promessa, porquanto não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo:
14 Dizendo: Certamente abençoando te abençoarei, e multiplicando te multiplicarei.
15 E assim, esperando com paciencia, alcançou a promessa.
16 Porque bem jurão os homens por algum maior que elles, e o juramento para confirmação lhes he o fim de toda contradicção.
17 Em o que, querendo Deos mais abundantemente mostrar a immutabilidade de seu conselho aos herdeiros da promessa, se entrepóz com juramento:
18 Paraque por duas cousas immudaveis, em que he impossivel que Deos minta, tenhamos firme consolação, a saber nós os que tomamos nosso refugio em retér a proposta esperança:
19 A qual temos como por numa segura e firme ancora da alma, e que entra até dentro do véo:
20 Aonde por nós entrou nosso precursor Jesus, feito eternamente Summo Pontifice segundo a ordem de Melchisedec.

CAPITULO 7.

1 PORQUE este Melchisedec era Rei de Salem, Sácerdote do Deos Altissimo, o qual sahio ao encontro a Abraham, tornando elle do estrago dos Reis, e o abençoou:
2 Ao qual tambem Abraham repartio os dizimos de tudo; e primeiramente se interpreta Rei de justiça; e depois tambem Rei de Salem, que he, Rei de paz:
3 Sem pai, sem mãi, sem genealogia, nem tendo principio de dias, nem fim de vida: mas sendo feito semelhante ao Filho de Deos, para sempre fica Sacerdote.
4 Considerai agora quão grande foi este, ao qual até Abraham o Patriarcha tambem deo os dizimos do dospojo.
5 E os que d’entre os filhos de Levi recebem o Sacerdocio, bem tem elles preceito de dizimarem ao povo segundo a Lei, isto he, a seus irmãos, ainda que sahissem dos lombos de Abraham.
6 Mas aquelle que não tinha sua genealogia delles, dizimou a Abraham, e abençoou ao que tinha as promessas.
7 Ora, sem contradicção alguma, o menor bemdito he do maior.
8 E bem tomão aqui os dizimos os homens que morrem: mas lá aquelle, do qual se testifica que vive.
9 E, por assim falar, tambem Levi, que toma os dizimos, foi dizimado em Abraham:
10 Porque ainda elle estava nos lombos do pai, quando Melchisedec lhe sahio ao encontro.
11 Assim que se em verdade a perfeição fôra pelo Sacerdocio Levitico, (porque debaixo delle o povo recebeo a Lei) que mais necessidade havia de que outro Sacerdote se levantasse segundo a ordem de Melchisedec, e que chamado não fosse segundo a ordem de Aaron?
12 Porque mudando-se o Sacerdocio, necessariamente tambem se faz mudança da Lei.
13 Porque aquelle de quem se dizem estas cousas, pertence a outra tribu, da qual ninguem se achegou ao altar.
14 Visto ser notorio, que nosso Senhor procedeo de Juda, sobre a qual tribu, Moyses nada falou do sacerdocio.
15 E ainda isto muito mais notorio he, se outro sacerdote se levantar á semelhança de Melchisedec.
16 O qual não foi feito segundo a Lei do mandamento carnal, senão segundo a virtude da vida incorruptivel.
17 Porque assim testifica elle: Tu es Sacerdote eternamente segundo a ordem de Melchisedec.
18 Porque o mandamento precedente se abroga, por causa de sua fraqueza e inutilidade.
19 Porque a Lei nenhuma cousa aperfeiçoou: se não a introducção de huma melhor esperança, pela qual chegamos a Deos.
20 E tambem por em quanto sem juramento não foi feito: (porque bem aquelles sem juramento forão feitos Sacerdotes:
21 Mas este com juramento, por aquelle que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá; Tu es Sacerdote eternamente segundo a ordem de Melchisedec.)
22 De tanto melhor concerto Jesus foi feito fiador.
23 E aquelles em verdade forão muitos Sacerdotes, por quanto pela morte forão impedidos de permanecer.
24 Mas este, porquanto eternamente permanece, tem hum Sacerdocio perpetuo.
25 Portanto tambem perfeitamente pode salvar aos que por elle a Deos se achegão, vivendo sempre para por elles interceder.
26 Porque tal Summo Pontifice nos convinha, santo, innocente, immaculado, apartado dos peccadores, e feito mais sublime que os ceos:
27 Que, como os Summos Pontifices, não necessitasse de offerecer cada dia sacrificios, primeiramente por seus proprios peccados, e depois pelos do povo: porque isto fez elle huma vez offerecendo-se a si mesmo.
28 Porque a Lei constitue por Summos Pontifices a homens fracos: mas a palavra do juramento, que depois da Lei foi feita, ao Filho constitue, que para sempre foi consagrado.

CAPITULO 8.

1 ORA a summa do que falamos he, que temos hum tal Summo Pontifice, que está assentado á dextra do throno da Magestade em os ceos,
2 Ministro do Santuario, e verdadeiro Tabernaculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem.
3 Porque todo Summo Pontifice he constituido para offerecer presentes, e sacrificios: pelo que necessario era, que tambem este tivesse algum a cousa que offerecer.
4 Porque se ainda na terra estivesse, nem tão pouco seria Sacerdote, havendo ainda Sacerdotes que segundo a Lei offereção presentes:
5 Os quaes servem ao exemplar e á sombra das cousas celestiaes, como Moyses divinamente foi avisado, estando ja para acabar o Tabernaculo. Porque olha, diz, que tudo faças conforme á forma que no monte se te mostrou.
6 Mas agora alcançou tanto mais excellente ministerio, quanto he Medianeiro de hum melhor concerto, que em melhores promessas está confirmado.
7 Porque se aquelle primeiro fora irreprehensivel, nunca se buscara lugar para o segundo.
8 Porque reprehendendo-os lhes diz: Eis que dias vem, diz o Senhor, e sobre a casa de Israël, e sobre a casa de Juda, estabelecerei hum novo concerto:
9 Não segundo o concerto que com seus pais fiz no dia que os tomei pela mão, para os tirar da terra de Egypto: porque não permanecérão naquelle meu concerto, e eu para elles não attentei, diz o Senhor.
10 Porque este he o concerto, que depois daquelles dias com a casa de Israël farei, diz o Senhor: Minhas Leis em seu entendimento porei, e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deos, e elles me serão por povo.
11 E cada hum a seu proximo não ensinará, nem cada hum a seu irmão, dizendo; Conhece ao Senhor: porque todos mo conhecerão desde o menor delles até o maior.
12 Porque serei misericordioso para com suas injustiças, e de seus peccados, e de suas prevaricaçoens mais me não lembrarei.
13 Dizendo Novo, ao primeiro envelheceo: ora o que foi envelhecido, e se envelhece, perto está de se esvaecer.

CAPITULO 9.

1 ASSIM que tambem o primeiro bem tinha ordenanças de Culto divino, e o santuario mundano.
2 Porque o Tabernaculo foi preparado, a saber o primeiro, em que estava o candieiro, e a mesa, e os paés da proposição, que se chama o Santuario.
3 Mas após o segundo veo estava o Tabernaculo, que se chama o Santo dos Santos:
4 Que tinha o incensario de ouro, e a Arca do concerto, toda ao redor cuberta de ouro: em que estava a talha de ouro, onde estava o manná, e a vara de Aaron, que florecéra, e as taboas do concerto.
5 E de sobre a Arca os Cherubins de gloria, que fazião sombra ao propiciatorio; das quaes cousas agora não falarémos pontualmente.
6 Ora estando estas cousas assim preparadas, bem a todo tempo entravão os Sacerdotes no primeiro Tabernaculo, para cumprir os serviçosdivinos:
7 Mas no segundo só o Summo Pontifice, huma vez no anno, não sem sangue, o qual offerecia por si mesmo, e pelas culpas do povo:
8 Dando o Espirito Santo isto a entender, que ainda o caminho do Santuario não era descuberto, em quanto o primeiro Tabernaculo ainda estava em pé:
9 O qual era figura para o tempo presente d’então, em que se offerecião presentes, e sacrificios, que em quanto a consciencia, não podião santificar ao que fazia o serviço.
10 Pois somente consistido em manjares, e beberes, e varios lavamentos; e justificações da carne, impostas ate o tempo da correição.
11 Mas vindo Christo, o Summo Pontifice dos bens futuros, por hum maior e mais perfeito Tabernaculo, não feito de mãos, isto he, não desta feitura:
12 Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu proprio sangue huma vez entrou em o Santuario, havendo effeituado huma eterna redempção.
13 Porque se o sangue dos touros e bodes, e a cinza da bezerra espargida sobre os immundos, os santifica para limpeza da carne:
14 Quanto mais o sangue de Christo, que pelo Espirito eterno a si mesmo se offereceo immaculado a Deos, purificará vossas consciencias das obras mortas, para servirdes ao Deos vivo?
15 E porisso he Medianeiro do Novo Testamento, para que intervindo a morte, para reconciliação das transgressões que havia debaixo do primeiro Testamento, os chamados recebão a promessa da herança eterna.
16 Porque aonde ha testamento, necessario he que a morte do testador intervenha.
17 Porque o Testamento se confirma nos mortos: porquanto valido não he, em quanto o testador vive.
18 Pelo que tambem o primeiro não foi consagrado sem sangue.
19 Porque havendo Moyses pronunciado a todo o povo todos os mandamentos segundo a Lei, tomou o sangue dos bezerros, e dos bodes, com agua, e lã purpurea, e hysopo, e assim aspergio ao mesmo livro, como a todo o povo,
20 Dizendo; Este he o sangue do Testamento, que Deos vos tem mandado.
21 E semelhantemente tambem ao Tabernaculo, e a todos os vasos do serviço aspergio com o sangue.
22 E quasi todas as cousas, segundo a Lei, se purificão com sangue; e sem derramamento de sangue não se faz remissão.
23 Assim que bem era necessario que as figuras das cousas que estão nos ceos, se purificassem com estas cousas; porem as mesmas celestiaes com melhores sacrificios que estes.
24 Porque Christo não entrou no Santuario feito de mão, figura do verdadeiro; porem no mesmo Ceo, para agora por nós comparecer perante a face de Deos.
25 Nem tambem para si mesmo se offerecer muitas vezes, como o Summo Pontifice com sangue alheio cada anno entra no Santuario:
26 (D’outra maneira necessario lhe fôra padecer muitas vezes desde a fundação do mundo) mas agora na consummação dos seculos huma vez se manifestou, para aniquilar o peccado pelo sacrificio de si mesmo.
27 E como aos homens está ordenado morrerem huma vez, e depois disso o juizo:
28 Assim tambem Christo, offerecendo-se huma vez para tirar os peccados de muitos, a segunda vez sem peccado será visto daquelles que o esperão para salvação.

CAPITULO 10.

1 PORQUE tendo a Lei a sombra dos bens futuros, não a mesma imagem das cousas, nunca pelos mesmos sacrifiicios, que cada anno continuamente se offerecem, pode santificar aos que a elles se achegão.
2 D’outra maneira cessarião de se offerecer, porquanto, purificados huma vez os ministrantes, não terião mais nenhuma consciencia de peccado.
3 Porem agora nestes cada anno se faz recommemoração dos peccados,
4 Porque impossivel he, que o sangue dos touros e dos bodes tire os peccados.
5 Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrificio e offerta não quizeste, mas o corpo me preparaste:
6 Holocaustos e oblaçoes pelo peccado te não agradarão:
7 Então disse: Eis aqui venho, (no principio do livro está escrito de mim:) ó Deos, para fazer tua vontade.
8 Dizendo d’antes: Sacrifiicio, e offerta, e holocaustos, e oblaçoes pelo peccado não quizeste, nem te agradárão: (os quaes se offerecem segundo a Lei).
9 Então disse: Eis aqui venho, ó Deos; para fazer tua vontade. Assim que tira o primeiro, para estabelecer o segundo.
10 Em a qual vontade somos santificados pela oblação do corpo de Jesu-Christo huma vez feita.
11 E bem assistia todo Sacerdote cada dia administrando e offerecendo muitas vezes os mesmos sacrificios, que nunca podem tirar os peccados:
12 Mas este havendo offerecido hum sacrificio pelos peccados, está assentado para sempre á dextra de Deos:
13 Esperando o restante, até que seus inimigos sejão postos por escabello de seus pés.
14 Porque com huma oblação consummou para sempre aos que são santificados.
15 E tambem o Espirito Santo no-lo testifica.
16 Porque depois de haver d’antes dito: Este he o concerto que com elles farei depois daquelles dias, diz o Senhor; minhas leis porei em seus corações, e as escreverei em seus entendimentos:
17 E de seus peccados, e de suas iniquidades, mais me não lembrarei.
18 Ora aonde disto ha remissão, não ha mais oblação pelo peccado.
19 Assim que irmãos, pois ja temos ousadia, para pelo sangue de Jesus entrar no Santuario,
20 Pelo recente e vivo caminho, que elle nos consagrou pelo veo, convem a saber, por sua carne:
21 E pois que temos hum grande Sacerdote sobre a casa de Deos;
22 Acheguemos-nos com verdadeiro coração em inteira certeza de fé; e ja os coraçoés purificados da má consciencia, e o corpo lavado com agua limpa:
23 Retenhamos firmes a invariavel confissão da esperança: (porque fiel he o que o prometteo).
24 E attentemos huns para os outros, para nos provocarmos á caridade e a boas obras:
25 Não deixando nossa mutua congregação, como alguns ja tem de costume: antes amoestando-nos huns aos outros: e isto tanto mais, quanto vêdes que aquelle dia se vai chegando.
26 Porque, se depois de ja havermos recebido o conhecimento da verdade, voluntariamente peccarmos, ja pelos peccados mais não resta sacrificio:
27 Senão huma horrenda expectação de juizo, e hum ardor de fogo, que aos adversarios ha de devorar.
28 Quebrantando alguem a Lei de Moyses, sem misericordia nenhuma, por só o testemunho de duas ou tres testemunhas, morre:
29 De quanto maior castigo cuidais vós, será julgado por digno aquelle que aos pés pisar ao Filho de Deos, e tiver por profano o sangue do Testamento, com que foi santificado; e fizer aggravo algum ao Espirito da graça?
30 Porque bem conhecemos ao que disse: Minha he a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: o Senhor julgará a seu povo.
31 Horrenda cousa he cahir em as mãos do Deos vivente.
32 Lembrai-vos porem dos dias passados, em que depois de serdes illuminados, supportastes grande combate de afflicçoés.
33 Quando em parte, com vituperios e tribulaçoes fostes tirados a publicos theatros: e em parte communicando com os que assim forão tratados.
34 Porque tambem vos compadecestes de minhas prisoens, e com gozo recebestes o roubo de vossos bens, bem sabendo que em vós mesmos tendes hum melhor e permanecente bem em os Ceos.
35 Não rejeiteis pois vossa confiança, que tem grande remuneração de galardão.
36 Porque de paciencia necessitais, para que havendo feito a vontade de Deos, possais alcançar a promessa.
37 Porque ainda hum poucochinho, e o que ha de vir, virá, e não tardará.
38 Mas o justo viverá da fé: e se alguem se retirar, minha alma não tem nelle prazer.
39 Mas nós não somos daquelles, que se retirão para perdição, senão daquelles que crém para a conservação da alma.

CAPITULO 11.

1 ORA a fé he o firme fundamento das cousas que se esperão, e a prova das cousas que se não vêem.
2 Porque por ella os antigos alcançárão testemunho.
3 Por fé entendemos que o mundo pela palavra de Deos foi composto; de maneira que as cousas que se vêem, não forão feitas das que se vêem.
4 Por fé offereceo Abel maior sacrificio a Deos, do que Cain: pelo qual alcançou testemunho de que era justo, porquanto Deos deo testemunho de seus presentes: e defunto, ainda fala por ella.
5 Por fé foi Enoch transportado, para não ver a morte: e não foi achado, porquanto Deos o transportára: porque antes de sua transportação alcançou testemunho de que a Deos agradava.
6 Ora sem fé impossivel he agradar a Deos. Porque necessario he, que aquelle que a Deos se achega, crea que o ha, e que he galardoador dos que o buscão.
7 Por fé Noé, divinamente advertido das cousas que ainda se não vião, temeo, e para salvamento de sua familia fabricou a Arca: pela qual condemnou ao mundo, e foi feito herdeiro da justiça que he segundo a fé.
8 Por fé Abraham, sendo chamado, obedeceo, para sahir ao lugar que havia de receber por herança; e não sabendo aonde viria, sahio.
9 Por fé habitou na terra de promissão, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaac e com Jacob, herdeiros com elle da mesma promessa.
10 Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deos he o artifice e o fabricador.
11 Por fé recebeo Sara mesma tambem virtude de dar semente, e ja fora do tempo de sua idade pario, porquanto teve por fiel áquelle, que lhotinha promettido.
12 Pelo que tambem de hum, e esse ja amortecido, tantos em multidão nascérão, como as estrellas do Ceo, e como a innumeravel areia que está na praia do mar.
13 Todos estes morrérão na fé, não recebendo as promessas, senão, vendo-as de longe, e crendo-as, e abraçando-as, confessárão que erão estrangeiros e peregrinos na terra.
14 Porque os que isto dizem, claramente mostrão que buscão outra patria.
15 E se daquella se lembrárão, de que havião sahido, que terião tempo assaz para tornarem a ella.
16 Mas agora desejão huma melhor, isto he, a celestial. Pelo que tambem Deos se não envergonha delles para se chamar seu Deos: porque ja lhes tinha aparelhado huma cidade.
17 Por fé offereceo Abraham a Isaac, quando foi tentado; e aquelle que recebéra as promessas, offereceo a seu unigenito;
18 (Sendo-lhe dito: Em Isaac se te chamará semente) considerando que Deos era poderoso para até dos mortos o resuscitar:
19 Por onde tambem em semelhança o tornou a cobrar.
20 Por fé abençoou Isaac a Jacob e a Esau, tocante ás cousas futuras.
21 Por fé, morrendo Jacob, a cada hum dos filhos de José abençoou: e adorou encostado á ponta de seu bordão.
22 Por fé, morrendo José, fez menção da sahida dos filhos de Israël, e deo ordem ácerca de seus ossos.
23 Por fé Moyses, ja nascido, foi escondido por seus pais tres mezes, porquanto virão que era hum formoso menino, e não temérão o mandamento dei Rei.
24 Por fé Moyses, sendo ja grande, recusou ser chamado filho da filha de Pharaó:
25 Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deos, do que por hum pouco de tempo ter o gozo do peccado.
26 Tendo por maiores riquezas o vituperio de Christo, do que os thesouros de Egypto: porque attentava para a recompensa do galardão.
27 Por fé deixou o Egypto, não temendo a ira d’el Rei: Porque firme esteve, como vendo ao invisivel.
28 Por fé celebrou a Pascoa, e o derramamento de sangue, para que o destruidor dos primogenitos os não tocasse.
29 Por fé passarão o mar vermelho, como por terra seca, o que os Egypcios intentando, se affogárão.
30 Por fé os muros de Jericho cahirão, sendo por sete dias rodeados.
31 Por fé Rachab a meretriz não pareceo com os desobedientes, recolhendo em paz os espias.
32 E que mais direi? Que o tempo me faltará, contando de Gideon, e de Barac, e de Sampson, e de Jephte, e de David, e de Samuel, e dos Prophetas:
33 Os quaes por fé vencérão Reinos, exercitarão justiça, alcançarão as promessas, as bocas taparão aos leões:
34 Apagarão a força do fogo, escaparão do fio da espada, da fraqueza tirarão forças, em batalha se esforçarão, pozérão em fugida aos exercitos dos estranhos:
35 As mulheres tornárão a receber por resurreição seus mortos: e outros forão estirados, não aceitando a oferecida soltura, por alcançarem huma melhor resurreição.
36 E outros experimentárão escame os e açoutes, e até cadeias e prisoés:
37 Forão apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andárão vestidos de pelles de ovelhas e de cabras; desemparados, affligidos , e maltratados:
38 (Dos quaes o mundo não era digno) perdidos pelos desertos, e montes, e covas, e cavernas da terra.
39 E todos estes tendo testemunho pela fé, não alcançarão a promessa:
40 Provendo Deos alguma cousa melhor para nósoutros, para que sem nós não fossem aperfeiçoados.

CAPITULO 12.

1 PORTANTO nós tambem, pois de huma tão grande nuvem de testemunhas estamos rodeados, deixemos toda carga, e o peccado, que facil mente nos rodéa, e corramos com paciencia a carreira que nos está proposta:
2 Olhando para Jesus, Principe e consummador da fé: o qual pelo gozo que lhe estava proposto, supportou a cruz, desprezando a afronta, e se assentou á dextra do throno de Deos.
3 Porque considerai aquelle que contra si mesmo huma tal contradicção dos peccadores supportou: para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos animos.
4 Ainda não resististes até o sangue, combatendo contra o peccado:
5 E ja vos esquecestes da exhortação que comvosco, como a filhos vos fala: Filho meu, não estimes em pouco a disciplina do Senhor, nem desmaies quando d’elle fóres reprehendido.
6 Porque o Senhor castiga ao que ama, e açouta a qualquer, que recebe por filho.
7 Se supportais a disciplina, Deos se vos apresenta como a filhos, (porque que filho ha a quem o pai não castigue?)
8 Mas se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, bastardos sois logo, e não filhos.
9 Tambem em verdade por castigadores tivemos aos pais de nossa carne, e os reverenciávamos: não nos sujeitaremos pois muito mais ao Pai dos espiritos, e viverémos?
10 Porque aquelles em verdade, por hum pouco tempo, nos castigarão como a elles bem lhes parecia; porem este para nosso proveito, para que de sua santidade sejamos participantes.
11 E toda disciplina em verdade, ao presente, não parece ser cousa de gozo, senão de tristeza; mas depois de si dá hum fruto pacifico de justiça aos exercitados por ella.
12 Portanto tornai a levantar as mãos cançadas, e os joelhos desconjuntados
13 E fazei rectas veredas para vossos pés: para que o que manqueija, se não torça, mas que antes muito mais sare.
14 Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguem verá ao Senhor:
15 Attentando que ninguem desfaleça da graça de Deos: que alguma raiz de amargura brotando vos não perturbe, e por ella muitos se contaminem.
16 Que ninguem seja fornicador, ou profano, como Esau, que por hum manjar deo seu direito de primogenitura.
17 Porque bem sabeis que ainda depois querendo herdar a benção, foi rejeitado: porque não achou lugar de arrependimento, ainda que com lagrimas o buscou.
18 Porque não chegastes ao monte que se podia tocar, e ao fogo incendido, e á escuridão, e ás trévas, e á tempestade:
19 E ao sonido da trombeta, e á voz das palavras: a qual os que a ouvião, pedirão que mais se lhes não falasse.
20 (Porque não podião supportar o que se lhes mandava. Que se até huma besta tocasse ao monte, seria apedrejada, ou passada com huma frecha.
21 E tão terrivel era a visão, que disse Moyses: Todo assombrado e tremendo estou).
22 Antes chegastes ao monte de Sião, e á cidade do Deos vivente, á Jerusalem celestial, e aos muitos milhares de Anjos:
23 A’ universal congregação e Igreja dos primogenitos, que estão escritos nos Ceos, e a Deos o Juiz de todos, e ao espiritos dos ja perfeitos justos:
24 E a Jesus o Medianeiro do Novo Testamento, e ao sangue do espargimento, que fala melhores cousas que o de Abel.
25 Olhai que não rejeiteis ao que fala: porque se aquelles, que rejeitárão ao que na terra dava divinas respostas, não escapárão, muito menosescaparemos nósoutros, se nos desviarmos daquelle que he dos Ceos:
26 A voz do qual então moveo a terra: porem agora denunciou, dizendo; Ainda huma vez commoverei, não só a terra, senão tambem ao Ceo.
27 E o que diz: Ainda huma vez, mostra a mudança das cousas moveis, como aquellas que forão feitas, para que as immoveis permaneção.
28 Pelo que recebendo o Reino immovel, retenhamos a graça, com que sirvamos a Deos agrada-velmente com reverencia e piedade.
29 Porque nosso Deos he hum fogo consumidor.

CAPITULO 13.

1 A CARIDADE fraternal permaneça.
2 Não vos esqueçais da hospedagem: porque por ella alguns hospedarão aos Anjos, não o sabendo.
3 Lembrai-vos dos presos, como se juntamente estivéreis presos: e dos maltratados, como sendo vós mesmos tambem no corpo maltratados.
4 Veneravel he entre todos o matrimonio, e a cama sem macula: porem aos fornicadores, e aos adulteros, Deos os ha de julgar.
5 Vosso costume seja sem avareza, contentando-vos como presente. Pois disse: Não te deixarei, nem te desempararei.
6 De maneira que com confiança ousemos dizer: O Senhor he meu ajudador, e não temerei o que o homem me possa fazer.
7 Lembrai-vos de vossos pastores, que a palavra de Deos vos falárão: a fé dos quaes imitai, attentando para a sahida de sua conversação.
8 Jesu-Christo he o mesmo hontem, e hoje, e eternamente.
9 Não vos deixeis levar ao redor com varias e estranhas doutrinas. Porque bom he que o coração se fortifique com graça, não com manjares, os quaes de nada aproveitárão aos que se dérão a elles.
10 Hum altar temos, do qual não tem poder para comerem os que servem ao Tabernaculo.
11 Porque os corpos dos animaes, cujo sangue pelo peccado se trazia pelo Summo Pontifice ao Santuario, erão queimados fora do arraial.
12 Portanto tambem Jesus, para que ao povo por seu proprio sangue santificasse, padeceo fora da porta.
13 Sayamos pois a elle fora do arraial, levando seu vituperio.
14 Porque não temos aqui cidade permanecente, mas buscamos a futura.
15 Portanto offereçamos sempre por elle a Deos sacrificio de louvor, isto he, o fruto dos beiços, que confessem seu nome.
16 E não vos esqueçais da beneficencia e communicação: porque em taes sacrificios toma Deos contentamento.
17 Obedecei a vossos Pastores, e vos sujeitai a elles. Porque velão por vossas almas, como aquelles que dellas hão de dar conta: para que o fação com alegria, e não gemendo: porque isso não vos seria util.
18 Rogai por nós: porque confiamos, que temos boa consciencia, como aquelles que em tudo queremos tratar honestamente.
19 E tanto mais vos rogo que assim o façais, para que eu tanto mais presto vos seja restituido.
20 Ora o Deos da paz, que pelo sangue do Testamento eterno, tornou a trazer dos mortos ao grande Pastor das ovelhas, nosso Senhor Jesu-Christo:
21 Esse vos aperfeiçoe em toda boa obra, para fazerdes sua vontade, obrando em vós o que perante elle he agradavel por Christo Jesus: ao qual seja a gloria para todo sempre. Amen.
22 Rogo-vos porem irmãos, que supporteis a palavra desta amoestação: porque em breve vos escrevi.
23 Sabei que ja o irmão Timotheo está solto, com o qual (se presto vier) vos verei.
24 Saudai a todos vossos Pastores, e a todos os santos. Os de Italia vos saudão.
25 A graça seja com todos vósoutros. Amen.
Escrita de Italia aos Hebreos, e enviada por Timotheo.

TIAGO

CAPITULO 1.

1 JACOBO servo de Deos e do Senhor Jesu-Christo, ás doze tribus que andão espargidas, saude.
2 Meus irmãos, tende por grande gozo, quando cahirdes em varias tentações:
3 Sabendo que a prova de vossa fé obra paciencia.
4 Tenha porem a paciencia a obra perfeita, para que sejais perfeitos e totalmente sinceros, em nada faltando.
5 E se algum de vósoutros tem falta de sabedoria, a peça a Deos, que a todos liberalmente a dá, e em rosto o não deita: e lhe será dada.
6 Porem a peça em fé, não duvidando: porque o que duvida, semelhante he á onda do mar, que do vento he levada, e de huma á outra parte lançada.
7 Porque não pense o tal homem que receberá cousa alguma do Senhor.
8 O homem de dobrado coração em todos seus caminhos he inconstante.
9 Porem o irmão abatido se glorie em sua alteza.
10 E o rico, em seu abatimento: porque se passará como a flor da nerva.
11 Porque com ardor o sol sahio, e a herva secou, e sua flor cahio, e a formosa apparencia de seu aspecto pereceo: assim tambem o rico se murchará em seus caminhos.
12 Bemaventurado o varão que sofre a tentação: porque quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem promettido aos que o amão.
13 Ninguem, sendo tentado, diga; De Deos sou tentado: porque Deos não pode ser tentado dos males, e tão pouco a ninguem tenta.
14 Porem cada hum he tentado, quando de sua propria concupiscencia he atrahido e engodado.
15 Depois havendo a concupiscencia concebido, pare o peccado; e sendo o peccado consummado, gera a morte.
16 Não erreis, meus amados irmãos.
17 Toda boa dadiva, e todo dom perfeito he do alto, que desce do Pai das luzes: em quem não ha mudança, nem sombra de variação.
18 Segundo sua propria vontade elle nos gerou pela palavra da verdade: para que fossemos como primicias de suas creaturas.
19 Assim que, meus amados irmãos, todo homem seja prompto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.
20 Porque a ira do varão não obra a justiça de Deos.
21 Pelo que rejeitando toda immundicia e superfluidade de malicia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar vossas almas.
22 E sêde obradores da palavra, e não somente ouvidores, enganando-vos com falsos discursos.
23 Porque se alguem he ouvidor da palavra, e não obrador, semelhante he ao varão que ao espelho considéra seu rosto natural.
24 Porque se considerou a si mesmo, e se foi, e logo se esqueceo que tal era.
25 Porem aquelle que bem attenta para a perfeita Lei de liberdade, e nisso persevéra, não sendo ouvidor esquecediço, senão fazedor da obra: este tal digo, será bemaventurado em seu feito.
26 Se alguem entre vósoutros cuida ser religioso, e não refrea sua lingua, antes engana seu coração, vã he a religião do tal.
27 A religião pura e immaculada para com nosso Deos e Pai, he esta: visitar aos orfãos e ás viuvas em suas tribulações, e se guardar immaculado do mundo.

CAPITULO 2.

1 MEUS irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesu-Christo, o Senhor da gloria, em aceitação de pessoas.
2 Porque se em vosso ajuntamento entra algum homem com anel de ouro no dedo, e com vestidos preciosos; e entra tambem algum pobre singelamente vestido:
3 E attentardes para o que traz o vestido precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui honradamente: e ao pobre disserdes: Está-te tu ali em pé; ou, assenta-te abaixo de meu estrado:
4 Porventura não fizestes differença em vós mesmos, e vos fizestes juizes de maos pensamentos:
5 Ouvi, meus amados irmãos, por ventura não escolheo Deos aos pobres deste mundo para ser ricos em fé, e herdeiros do Reino, que promette aos que o amão?
6 Porem vósoutros deshonrastes ao pobre. Porventura não vos opprimem os ricos com tyrannia, e por vós puxão aos tribunaes?
7 Porventura não blasphemão elles o bom nome que sobre vósoutros foi invocado?
8 Todavia, se conforme á Escritura, cumprirdes a Lei real: Amarás a teu proximo como a ti mesmo, bem fazeis:
9 Porem se aceitais a apparencia da pessoa, cometteis peccado; e da Lei como transgressores sois redarguidos.
10 Porque qualquer que guardar toda a Lei, e onenderem hum só ponto, culpado he de todos.
11 Porque aquelle que disse: Não cometterás adulterio, tambem disse: Não matarás. Pois se tu não cometteres adulterio, mas matares, transgressor da Lei estás feito.
12 Assim falai, e assim obrai, como aquelles que haveis de ser julgados pela Lei da liberdade.
13 Porque juizo sem misericordia virá sobre aquelle; que não fez misericordia: e a misericordia se gloria contra o juizo.
14 Meus irmãos, que aproveita, se alguem disser que tem a fé, e não tiver as obras? porventura o pode salvar a tal fé?
15 E se o irmão, ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta do mantimento quotidiano:
16 E algum de vos lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos: e lhes não derdes as cousas necessarias para o corpo, que proveito lhes virá dahi?
17 Assim tambem a fé, se não tiver as obras, em si mesma está morta.
18 Porem dirá alguem: Tu tens a fé, e eu tenho as obras: mostra-me tua fé por tuas obras, e eu te mostrarei minha fé por minhas obras.
19 Tu cres que ha hum só Deos: bem fazes; tambem os demonios o crem, e estremecem.
20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras está morta?
21 Porventura não foi Abraham nosso pai justificado pelas obras, quando offereceo a seu filho Isaac sobre o altar?
22 Vês tu logo que a fé cooperou com suas obras, e que a fé foi aperfeiçoada pelas obras:
23 E a Escritura se cumprio, a qual diz; e creo Abraham a Deos, e foi lhe contado por justiça, e foi chamado amigo de Deos.
24 Vêdes logo agora que o homem he justificado pelas obras, e não somente pela fé?
25 E semelhantemente Rachab a meretriz, por ventura não foi tambem justificada pelas obras, quando recolheo aos mensageiros, e os despedio por outro caminho?
26 Porque assim como o corpo sem o espirito está morto, assim tambem a fé sem as obras está morta.

CAPITULO 3.

1 MEUS irmãos, não sejais muitos mestres, sabendo que receberemos tanto maior condemnação.
2 Porque todos tropeçamos em muitas cousas. Se alguem não tropeça em palavra, o tal varão perfeito he, poderoso para tambem refrear todo o corpo.
3 Vêdes aqui nósoutros aos cavallos pomos freios nas bocas, para que nos obedeção, assim viramos todo seu corpo.
4 Vêdes aqui tambem as nãos, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, comtudo se virão com hum bem pequeno leme para onde quer que quizer a vontade daquelle que as governa.
5 Assim tambem a lingua he hum bem pequeno membro, e se gloria de grandes cousas. Vêdes aqui num pequeno fogo quão grande bosque encende.
6 A lingua tambem he hum fogo, hum mundo de iniquidade: assim a lingua está posta entre nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflamma a roda de nossa nascença, e se inflamma até do inferno.
7 Porque toda a natureza, assim de bestas feras como de aves, assim de reptis como de animaes do mar, se amansa, e foi amansada pela natureza humana:
8 Mas nenhum homem pode amansar a lingua. Hum mal que se não pode refrear: cheia de peçonha mortal.
9 Com ella bemdizemos a nosso Deos e Pai, e com ella maldizemos aos homens, feitos a semelhança de Deos.
10 De huma mesma boca procede benção, e maldição. Meus irmãos, não convem que isto se faça assim.
11 Por ventura deita alguma fonte por hum mesmo manancial o doce, e o amargoso?
12 Meus irmãos, pode tambem a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tambem nenhuma fonte pode produzir agua salgada, e doce.
13 Quem he sábio e entendido entre vósoutros? mostre por seu bom trato suas obras em mansidão de sabedoria.
14 Porem se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração, não vos glorieis nem mintais contra a verdade.
15 Não he esta a sabedoria que do alto desce; senão terrena, animal, e diabolica.
16 Porque onde ha inveja e contenda, ahi ha perturbação, e toda obra perversa.
17 Mas a sabedoria que he do alto, primeiramente he pura, depois pacifica, moderada, tratavel, cheia de misericordia, e de bons frutos, parcialmente não julgando, e não fingida.
18 Ora o fruto de justiça se seméa em paz, para os que paz exercitão.

CAPITULO 4.

1 D’ONDE vem guerras e pelejas entre vósoutros? Porventura não vem daqui, a saber de vossos deleites, que em vossos membros guerreão?
2 Cobiçais, e nada tendes: sois invejosos e cobiçosos, e não podeis alcançar: combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis.
3 Pedis, e não recebeis: porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.
4 Adúlteros, e adulteras, não sabeis vós que a amizade do mundo, he inimizade contra Deos? Portanto qualquer que quizer ser amigo do mundo, se constitue por inimigo de Deos.
5 Ou cuidais vós que a Escritura diz em vão: Porventura o Espirito que em nos habita, tem desejo de inveja?
6 Antes ainda dá maior graça. Portanto diz a Escritura: Deos resiste aos soberbos, porem dá graça aos humildes.
7 Sujeitai-vos pois a Deos: resisti ao diabo, e fugirá de vósoutros.
8 Chegai-vos a Deos, e elle chegará a vósoutros. Alimpai as mãos peccadores: e vós dobrados de coração, purificai os corações.
9 Senti vossas misérias, e lamentai, e chorai: vosso riso se converta em pranto, e vosso gozo em tristeza.
10 Humilhai-vos perante o Senhor, e elle vos exaltará.
11 Irmãos, não faleis mal huns dos outros. Quem de seu irmão fala mal, e julga a seu irmão, da Lei fala mal, e julga a Lei. E se tu julgas a Lei, ja não es fazedor da Lei, senão juiz.
12 Hum só Legislador ha, que pode salvar e destruir. Porem quem es tu que julgas a outro?
13 Eia pois agora vós. os que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a huma tal cidade, e lá passaremos hum anno, e contrataremos, e ganharémos:
14 Vós, digo, que não sabeis o que amanhã acontecerá: Porque, que he vossa vida? Pois hum vapor he, que por hum pouco apparece, e depois se esvaéce.
15 Em lugar que devieis dizer: Se o Senhor quizer, e vivermos, isto ou aquillo faremos.
16 Mas agora vos gloriais em vossas presumpçoés: toda a tal gloriação he maligna.
17 Assim que aquelle, que sabe fazer o bem, e não o faz, commette peccado.

CAPITULO 5.

1 EIA pois agora vós ricos, chorai e pranteai por vossas misérias, que sobre vós hão de vir.
2 Vossas riquezas estão apodrecidas, e vossos vestidos estao comidos da traça:
3 Vosso ouro e prata está ferrugento: e sua ferrugem vos será em testemunho, e comerá vossa carne como fogo: enthesourastes para os ultimos dias.
4 Vêdes aqui o jornal dos trabalhadores, que segarão vossas terras, e o qual por vós foi diminuido, clama: e os clamores dos que as segárão entrárão em os ouvidos do Senhor dos exercitos.
5 Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes: cevastes vossos coraçoens como em dia de matança.
6 Ao justo condemnastes e matastes: e elle vos não resistio.
7 Sêde pois, irmãos, pacientes até á vinda do Senhor. Eis aqui o lavrador espéra o fruto precioso da terra, aguardando-o com paciencia, até que receba a chuva temporã e serôdia.
8 Vós tambem sêde pacientes, e fortalecei vossos coraçoes: porque ja a vinda do Senhor vem chegando.
9 Irmãos, não suspireis huns contra os outros, para que não sejais condemnados. Eis que o Juiz está á porta.
10 Meus irmãos, tomai por exemplo de afflicção e de paciencia aos Prophetas, que falárão em nome do Senhor.
11 Vêdes aqui temos por bemaventurados aos que sofrem. Bem ouvistes a tolerancia de Job, e vistes o fim do Senhor; que o Senhor he mui misericordioso e piedoso.
12 Porem sobre tudo, irmãos meus, não jureis pelo Ceo, nem pela terra, nem qualquer outro juramento: mas vosso sim, seja sim, e vosso não, não: para que não cayaisem condemnação.
13 Está alguem entre vósoutros affligido? Ore: está alguem contente? Psalmodie.
14 Está entre vósoutros alguem doente? chame a si aos Anciãos da Igreja, e orem sobre elle, ungindo-o com azeite em o nome do Senhor.
15 E a oração de fé salvará ao doente, e o Senhor o levantará: e se houver comettido peccados, lhe serão perdoados.
16 Confessai vossas culpas huns aos outros, e orai huns pelos outros, para que sareis: a oração efficaz do justo pode muito.
17 Elias era homem sujeito ás mesmas paixões que nós, e orando, pedio que não chovesse: e não choveo sobre a terra por tres annos e seis mezes.
18 E outra vez orou, e o Ceo deo chuva, e a terra produzio seu fruto.
19 Irmãos, se alguem entre vósoutros tem errado da verdade, e alguem o converter:
20 Saiba o tal que aquelle que converter a hum peccador do erro de seu caminho, de morte salvará huma alma, e cubrirá multidão de peccados.

1 PEDRO

CAPITULO 1.

1 PEDRO Apostolo de Jesu-Christo, aos estrangeiros espargidos em Ponto, Galacia, Cappadocia, Asia, e Bythinia:
2 Eleitos segundo a presciencia de Deos Pai, em santificação de Espirito, para a obediencia e aspersão do sangue de Jesu-Christo: Graça e paz vos seja multiplicada.
3 Bemdito seja o Deos e Pai de nosso Senhor Jesu-Christo, o qual segundo sua grande misericordia, nos regenerou para huma viva esperança, pela resurreição de Jesu-Christo d’entre os mortos:
4 Para a herança incorruptivel, e incontaminavel, e que se não pode murchar, guardada em os Ceos para vósoutros.
5 Que pela fé estais guardados em a virtude de Deos, para a salvação, ja prestes para se revelar em o ultimo tempo.
6 Em que vósoutros vos alegrais, estando por agora (se he que assim importa) por hum pouco contristados com varias tentaçoes:
7 Para que a prova de vossa fé, muito mais preciosa que o ouro que perece, e pelo fogo he provado, se ache em louvor, e honra, e gloria, na revelação de Jesu-Christo.
8 Ao qual não o havendo visto, o amais; em o qual, não o vendo agora, porem crendo, vos alegrais com gozo ineffavel e glorioso.
9 Alcançando o fim de vossa fé, a saber a salvação das almas.
10 A’cerca da qual salvação inquirirão e examinárão os Prophetas, que prophetizarão da graça que vos foi dada.
11 Indagando quando, ou em qual tempo, o Espirito de Christo, que nelles estava, significasse, e d’antes testificasse as paixoes que a Christo havião de vir, e a gloria que se lhe havia de seguir.
12 Aos quaes foi revelado, que não para si mesmos, senão para nósoutros administravão estas cousas, que agora vos forão denunciadas pelos que pelo Espirito santo do Ceo enviado, vos pregárão o Evangelho: nas quaes cousas os Anjos, até o mais interior, desejão olhar.
13 Portanto cingindo os lombos de vosso entendimento, e sobrios, esperai inteiramente na graça, que se vos offereceo na revelação de Jesu-Christo.
14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscencias, que d’antes havia em vossa ignorancia.
15 Mas como aquelle que vos chamou, he santo, sêde vósoutros tambem santos em todo vosso costume.
16 Porquanto escrito está. Sêde santos, porque eu sou santo.
17 E se por Pai invocais aquelle, que sem aceitação de pessoas, julga segundo a obra de cada hum; andai em temor o tempo de vossa habitação:
18 Sabendo que de vosso vão costume, que por tradição dos pais recebestes, fostes resgatados, não com cousas corruptiveis, como com prata oucom ouro:
19 Senão com o precioso sangue de Christo, como de num immaculado e incontaminado cordeiro:
20 O qual bem ja d’antes foi conhecido desde antes da fundação do mundo, porem manifesto nestes ultimos tempos por amor de vósoutros:
21 Que por elle credes em Deos, o qual dos mortos o resuscitou, e lhe deo gloria, para que vossa fé e esperança estivesse em Deos.
22 Portanto purificando vossas almas pelo Espirito em a obediencia da verdade, para caridade fraternal não fingida; amai-vos ardentemente huns aos outros de hum puro coração:
23 Sendo ja regenerados, não de semente corruptivel, senão incorruptivel, pela viva palavra de Deos, e que para sempre permanece.
24 Porque toda carne he como a herva, e toda a gloria do homem como a flor da herva. Secouse a herva, e cahio sua flor:
25 Mas a palavra do Senhor permanece para sempre: e esta he a palavra que entre vós foi evangelizada.

CAPITULO 2.

1 DEIXANDO pois toda malicia, e todo engano, e fingimentos, e invejas, e todas murmuraçoes,
2 Desejai affectuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por elle vades crescendo:
3 Se porém ja gostastes que o Senhor he benigno.
4 Ao qual chegando-vos, como a huma pedra viva, dos homens em verdade reprovada, porém para com Deos eleita e preciosa:
5 Tambem como pedras vivas, vos edificai por casa espiritual e santo sacerdocio, para offerecer sacrificios espirituaes, a Deos agradaveis por Jesu-Christo.
6 Pelo que tambem na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a principal pedra da esquina, eleita, e preciosa: e quem nella crer não será confundido.
7 Assim que para vós os que credes, preciosa vos he: mas para os rebeldes se diz: a pedra que os edificadores reprovarão, essa foi feita por cabeça da esquina, e por pedra de tropeço, e por penha de escandalo:
8 A saber para aquelles que tropeção em a palavra, sendo rebeldes, para o que tambem forão ordenados.
9 Mas vósoutros sois a geração eleita, o sacerdocio real, a gente santa, e o povo acquirido: para que denuncieis as virtudes daquelle que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz:
10 Vós que d’antes não ereis povo, mas agora sois o povo de Deos: que d’antes não alcançáreis misericordia, mas agora alcançastes misericordia.
11 Amados, como a peregrinos e forasteiros vos amoesto, que vos abstenhais das concupiscencias carnaes, que contra a alma militão.
12 Tendo vossa conversação honesta entre as Gentes: para que em o que de vós, como de malfeitores, falão mal, no dia da visitação glorifiquem a Deos, pelas boas obras que em vós virem.
13 Portanto sujeitai-vos a toda ordenação humana por amor do Senhor: seja ao Rei como a Superior:
14 Seja aos Governadores, como aos que delle são enviados, para castigo em verdade dos malfeitores, mas para louvor dos que bem fazem.
15 Porque assim he a vontade de Deos, que bem fazendo, tapeis a boca á ignorancia de homens loucos:
16 Como libertos, e não como tendo a liberdade por cobertura de malicia, senão como servos de Deos.
17 Honrai a todos: amai a fraternidade: temei a Deos: honrai ao Rei.
18 Vósoutros servos, sujeitai-vos com todo temor a vossos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas tambem aos rigorosos.
19 Porque cousa agradavel he, se alguem, por causa da consciencia para com Deos, sofre molestias, padecendo injustamente.
20 Porque, que louvor he, se peccando, sois abofeteados e o sofreis? Mas se fazendo bem, sois affligidos, e o sofreis; isso he agradavel a Deos.
21 Porque para isto sois chamados, pois tambem Christo por nós padeceo, deixando-nos exemplo, para que sigais suas pisadas.
22 O qual não commetteo peccado, nem engano em sua boca foi achado.
23 O qual quando o injuriavão, não tornava a injuriar: e quando padecia, não ameaçava: mas se remettia áquelle que justamente julga:
24 O qual mesmo levou nossos peccados em seu corpo sobre o madeiro: para que mortos para os peccados, vi vamos para a justiça: por cuja ferida sarastes.
25 Porque ereis como ovelhas desgarradas: mas agora ja estais convertidos ao Pastor e Bispo de vossas almas.

CAPITULO 3.

1 SEMELHANTEMENTE vós mulheres, sede sujeitas a vossos proprios maridos: para que tambem, se alguns á palavra não obedecem, pelo trato das mulheres, sejão ganhados sem palavra.
2 Considerando vosso casto trato em temor.
3 O enfeite das quaes seja, não o exterior, em encrespamento de cabellos, ou atavio de ouro, ou compostura de vestidos:
4 Senão o homem encuberto do coração, em o incorruptivel enfeite de hum espirito manso e quieto: que he precioso diante de Deos.
5 Porque assim se enfeitavão tambem antigamente as santas mulheres, que esperavão em Deos, e erão sujeitas a seus proprios maridos:
6 Como Sara obedecia a Abraham, chamando-lhe Senhor; da qual vósoutras sois feitas filhas, bem fazendo, e não temendo nenhum espanto.
7 Semelhantemente vós maridos, habitai com ellas com entendimento, dando honra á mulher, como a vaso mais fraco, como aquelles que juntamente com ellas sois herdeiros da graça da vida: para que vossas orações não sejão impedidas.
8 E finalmente, sêde todos de hum mesmo sentido, compassivos, amando aos irmãos, entranhavelmente misericordiosos, e affaveis:
9 Não tornando mal por mal, ou injuria por injuria: antes ao contrario, bemdizendo: sabendo que a isto sois chamados, para que em herança alcanceis a benção:
10 Porque quem quer amar a vida, e ver os dias bons, refreye sua lingua de mal, e seus beiços, que não falem engano.
11 Aparte-se do mal, e faça o bem: busque a paz, e a siga.
12 Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, e seus ouvidos attentos a suas oraçoes: mas o rosto do Senhor he contra os que fazem males.
13 E qual he aquelle que vos fará mal; se fordes imitadores do bem?
14 Mas se tambem padecerdes por amor da justiça, sois bemaventurados: e não temais por temor delles, nem vos turbeis:
15 Antes santificai ao Senhor Deos em vossos corações: e sempre estai aparelhados, para responder com mansidão e temor a cada qual que vos pedir razão da esperança que em vós
16 Tendo huma boa consciencia, para que em o que de vós, como de malfeitores, falão mal, fiquem confundidos os que blasfemão de vosso bom trato em Christo.
17 Porque melhor he que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deos assim o quer) do que fazendo mal.
18 Porque tambem Christo padeceo huma vez pelos peccados, o justo pelos injustos: para que nos levasse a Deos, mortificado em verdade na carne, porem vivificado pelo Espirito:
19 No qual tambem indo, prégou aos espiritos em prisão postos.
20 Os quaes antigamente forão rebeldes, quando a longanimidade de Deos aguardava huma vez em os dias de Noe, aparelhando-se a Arca: em a qual poucas (isto he oito) almas, pela agua se salvárão.
21 A cujo correspondente exemplar o baptismo tambem agora nos salva, não o do despojamento da immundicia do corpo, mas o da interrogação de huã boa consciencia para com Deos, pela resurreição de Jesu-Christo:
22 O qual está á dextra de Deos, sendo subido ao ceo: havendo-se-lhe sujeitado os Anjos, e as potestades, e as potencias.

CAPITULO 4.

1 ORA pois ja que Christo padeceo por nós em a carne, vós tambem vos armai com este mesmo pensamento, a saber que aquelle que padeceo em a carne, ja cessou do peccado:
2 Para ja o tempo que ainda resta em a carne, não mais viver segundo as concupiscencias dos homens, senão segundo a vontade de Deos.
3 Porque bem nos basta que o tempo passado da vida cumprimos a vontade dos Gentios, e andamos em dissoluçoes, concupiscencias, borrachices, glotonarias, bebedices, e abominaveis idolatrias.
4 O que em vósoutros estranhão, por não correrdes com elles no mesmo desenfreamento de dissolução, de vós blasfemando:
5 Os quaes hão de dar conta ao que está aparelhado para julgar aos vivos, e aos mortos.
6 Porque para isto tambem foi evangelizado aos mortos, para que em verdade fossem julgados segundo os homens em a carne, porem vivessem segundo Deos em Espirito.
7 E ja o fim de todas as cousas está perto: Por tanto sêde sobrios, e vigiai em oraçoés.
8 Mas sobre tudo tende ardente caridade huns para com os outros: porque a caridade cubrirá multidão de peccados.
9 Hospedai-vos huns aos outros, sem murmuraçoes.
10 Cada hum como recebeo o dom, assim o administre aos outros, como bons dispenseiros da varia graça de Deos.
11 Se alguem falar, fale como as palavras de Deos: se alguem administrar, administre como da potencia que Deos dá; para que em tudo Deos seja glorificado por Jesu-Christo: a quem pertence a gloria, e a potencia para todo sempre, Amen.
12 Amados, não estranheis o ardor da afflicção, que vos sobrevêm para vos tentar, como se alguma cousa estranha vos acontecesse:
13 Antes assim como communicais as afflições de Christo, assim tambem nellas vos alegrai: para que tambem em a revelação de sua gloria vos regozijeis e alegreis.
14 Se pelo nome de Christo sois vituperados, bemaventurados sois: porque o Espirito da gloria, e o de Deos repousa sobre vósoutros: o qual, quanto a elles, he blasfemado, masquanto a vós glorificado.
15 Porém nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremette em negocios alheios:
16 Mas se padece como Christão, não se envergonhe, antes glorifique a Deos nesta parte.
17 Porque ja he tempo que o juizo começe desde a Casa de Deos: e se primeiro de nós começa, qual será o fim daquelles, que são desobedientes ao Evangelho de Deos?
18 E se o justo apenas se salva, aonde apparecerá o impio e peccador?
19 Portanto tambem os que segundo a vontade de Deos padecem, lhe encommendem suas almas, como ao fiel creador, bem fazendo.

CAPITULO 5.

1 AOS Anciãos, que entre vósoutros estão, amoesto eu, que juntamente com elles sou Ancião, e testemunha das afflicções de Christo, e participante da gloria que se ha de revelar:
2 Apascentai o rebanho de Deos que entre vósoutros está, tendo cuidado delle, não por força, mas voluntariamente: nem por torpe ganancia, mas de hum animo prompto:
3 Nem como tendo senhorio sobre as herdades do Senhor, senão servindo de exemplos ao rebanho.
4 E quando o Summo Pastor apparecer, alcançareis a coroa incorruptivel da gloria.
5 Semelhantemente vós mancebos, sêde sujeitos aos Anciãos: e todos sêde sujeitos huns aos outros: vesti-vos de humildade: porque Deos resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.
6 Humilhai-vos pois debaixo da potente mão de Deos, para que vos exalte a seu tempo:
7 Lançando sobre elle toda vossa solicitude: por que elle tem cuidado de vós.
8 Sêde sobrios, e velai: porque vosso adversario, o Diabo, anda como Leão bramindo ao redor de vósoutros, buscando a quem possa tragar.
9 Ao qual resisti firmes na fé: sabendo que as mesmas afflicçoés se cumprem em vossa irmandade no mundo.
10 Ora o Deos de toda graça, que em Christo Jesus nos chamou a sua eterna gloria, depois de havermos padecido hum pouco, o mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique, e estabeleça.
11 A elle seja a gloria, e a potencia para todo sempre. Amen.
12 Por Silvano, vosso fiel irmão, como cuido, vos escrevi brevemente, exhortando-vos e testificando, que esta he a verdadeira graça de Deos em que estais.
13 Sauda-vos a Igreja que está coeleita em Babylonia, e tambem Marcos meu filho.
14 Saudai-vos huns aos outros com beijo de caridade. Paz seja com todos vósoutros, os que estais em Christo Jesus. Amen.

2 PEDRO

CAPITULO 1.

1 SIMÃO Pedro, servo e Apostolo de Jesu-Christo, aos que alcançárão comnosco igual preciosa fé pela justiça de nosso Deos e Salvador Jesu-Christo:
2 Graça e paz vos seja multiplicada, pelo conhecimento de Deos, e de Jesus nosso Senhor:
3 Como sua divina potencia nos deo tudo o que pertence á vida e piedade, pelo conhecimento daquelle que nos chamou a gloria e virtude:
4 Pelas quaes nos são dadas grandissimas e preciosas promessas, para que por ellas fiqueis participantes da natureza Divina, havendo escapado da corrupção, que ha no mundo pela concupiscencia.
5 E vósoutros tambem pondo nisto mesmo toda diligencia, accrescentai á vossa fé virtude, e á virtude sciencia,
6 E á sciencia temperança, e á temperança paciencia, e á paciencia piedade,
7 E á piedade amor fraternal, e ao amor fraternal caridade para com todos.
8 Porque se estas cousas em vós houver, e abundarem, não vos deixarão ociosos, nem estereis, no conhecimento de nosso Senhor Jesu-Christo.
9 Porque aquelle em quem estas cousas não ha, he cego, nada vendo de longe, havendo-se esquecido da purificação de seus antigos peccados.
10 Portanto, irmãos, tanto mais procurai de fazer firme vossa vocação e eleição: Porque fazendo isto nunca jamais tropeçareis.
11 Porque assim vos será abundantemente fornecida a entrada em o Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesu-Christo.
12 Pelo que não deixarei de sempre vos exhortar a estas cousas, ainda que bem as saibais, e na verdade presente estejais confirmados.
13 E por justo tenho, em quanto neste tabernaculo estiver, de vos despertar com amoestações:
14 Sabendo que brevemente hei de deixar este meu tabernaculo, como tambem nosso Senhor Jesu-Christo já m’o tem revelado.
15 Mas tambem eu em toda occasião procurei, que depois de meu transito tenhais lembrança destas cousas.
16 Porque a virtude e vinda de nosso Senhor Jesu-Christo vos não fizemos saber seguindo fabulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos sua Magestade.
17 Porque de Deos Pai recebeo honra e gloria, quando huma tal voz da magnifica gloria lhe foi enviada, Este he meu amado Filho, em quem tenho meu bom contentamento.
18 E esta voz enviada do Ceo ouvimos, estando nós com elle no monte santo.
19 E temos a palavra dos Prophetas, mui firme: á qual bem fazeis de estardes attentos, como a huma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrella d’alva saya em vossos corações.
20 Sabendo primeiramente isto, que nenhuma prophecia da Escritura he de particular interpretação.
21 Porque a prophecia não foi antigamente produzida por vontade de algum homem, mas os santos homens de Deos a falárão, inspirados do Espirito Santo.

CAPITULO 2.

1 E TAMBEM houve falsos Prophetas entre o povo, como tambem entre vós haverá falsos Doutores, que encubertamente introduzirão heresias de perdição, e negarão ao Senhor que os comprou, trazendo sobre si mesmo repentina perdição.
2 E muitos seguirão suas perdiçoés, pelos quaes o caminho da verdade será blasphemado.
3 E por avareza, de vósoutros farão mercadoria com palavras contrafeitas: sobre os quaes já de largo tempo não está ociosa a condemnação, e sua perdição não tosqueneja.
4 Porque se Deos não perdoou aos Anjos que peccarão, antes havendo-os lançado no inferno, os entregou ás cadeias de escuridão, ficando reservados para o juizo:
5 E tambem não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noë oitavo pregoeiro de justiça, trazendo o diluvio sobre o mundo dos impios:
6 E condemnou as cidades de Sodoma e Gomorra á subversão, reduzindo-as a cinza, e pondo-as por exemplo aos que vivessem impiamente:
7 E livrou ao justo Lot, já enfadado da dissoluta vivenda dos abominaveis homens:
8 (Porque, habitando este justo entre elles, cada dia affligia sua alma justa, vendo e ouvindo suas injustas obras.)
9 Assim sabe o Senhor livrar aos pios das tentaçoes, e reservar aos injustos para o dia do juizo, para serem castigados.
10 Porem maiormente aos que segundo a carne andão em concupiscencia de immundicia, e desprezão as dominaçoes, atrevidos, agradando-se a si mesmos, não receando de blasfemar das dignidades:
11 Como quer que os Anjos, sendo maiores em força e potencia, contra ellas perante o Senhor não produzão juizo blasfemo.
12 Mas estes, como animaes irracionaes, que seguem a natureza; feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão em sua corrupção:
13 Recebendo o galardão de injustiça, tendo por prazer as quotidianas delicias, sendo tachas e maculas, deleitando-se em seus enganos, banqueteando comvosco:
14 Tendo os olhos cheios de adulterio, e nunca cessando de peccar: engodando as almas inconstantes, tendo exercitado o coração em avareza, filhos de maldição:
15 Que deixando o caminho direito, errárão, seguindo o caminho de Balaam, filho de Bosor, que amou o galardão de injustiça:
16 Porem teve a reprehensão de sua mesma transgressão: Porque o mudo animal de jugo, falando em voz de homem, impedio a louquice do Propheta.
17 Estes são fontes sem agua, nuvens levadas do redomoinho de vento: para os quaes a escuridão das trevas eternamente se reserva.
18 Porque falando cousas mui arrogantes de vaidade, engodão com as concupiscencias da carne, e com dissoluçoes, aos que ja devéras tinhao escapado daquelles que em error andão:
19 Promettendo-lhes liberdade, sendo elles mesmos servos de corrupção. Porque de quem alguem he vencido, do tal tambem se faz servo.
20 Porque se depois de ja, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesu-Christo, escaparem das sugidades do mundo, e tornando-se a envolver nellas, forem vencidos, peiores lhes são as ultimas, do que as primeiras cousas.
21 Porque melhor lhes fóra não conhecerem o caminho da justiça, do que conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fôra entregado.
22 Porem sobreveio-lhes o que por hum verdadeiro proverbio se diz: Tornou-se o cão a seu próprio vomito, e a porca lavada ao espojadouro da lama.

CAPITULO 3.

1 AMADOS, agora esta segunda carta vos escrevo, em ambas as quaes desperto com esta exhortação vosso sincero animo:
2 Para que vos lembreis das palavras que d’antes pelos santos Prophetas forão ditas, e de nosso mandamento, que somos Apostolos do Senhor e Salvador.
3 Isto primeiro sabendo, que em os ultimos dias virão escarnecedores, andando segundo suas proprias concupiscencias:
4 E dizendo: Aonde está a promessa de sua vinda? Porque desde que os Pais dormirão, todas as cousas perseverão como desde o principio da creação.
5 Porque voluntariamente isto ignorão, que pela palavra de Deos já desde a antiguidade forão os Ceos, e a terra, que da agua e na agua consiste.
6 Pelos quaes o mundo d’então pereceo, cuberto com as aguas do diluvio.
7 Mas os Ceos e a terra que agora são, pela mesma palavra se reserva o como thesouro, e se guardão para o fogo até o dia de juizo, e da perdição dos homens impios.
8 Porem, amados, huma cousa não ignoreis, que hum dia para com o Senhor, he como mil annos, e mil annos como hum dia.
9 O Senhor não retarda sua promessa, (como alguns a tem por tardança): mas he longanimo para comnosco, não querendo que alguns se percão, senão que todos venhão a se arrepender.
10 Mas o dia do Senhor virá como o ladrão em a noite, no qual os ceos passarão com grande estrondo, e os elementos ardendo se desfarão, e a terra, e as obras que nella ha, se queimarão.
11 Havendo pois todas estas cousas de perecer, quaes vos convem a vósoutros ser em santo trato e piedade,
12 Aguardando e apresurando-vos para a vinda do dia de Deos, em que os ceos incendidos se desfarão; e os elementos ardendo se fundirão?
13 Porem, segundo sua promessa, aguardamos novos ceos, e nova terra, em que a justiça habita.
14 Pelo que, amados, aguardando estas cousas, procurai que delle sejais achados immaculados e irreprehensiveis em paz:
15 E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor: como tambem nosso amado irmão Paulo vos escreveo, segundo a sabedoria que lhe foi dada:
16 Como tambem em todas suas Epistolas destas cousas nellas fala: entre as quaes ha algumas difficeis de entender, que os indoctos e inconstantes torcem, como tambem as de mais Escrituras, para sua propria perdição.
17 Portanto vósoutros, amados, sabendo isto de antes, guardai-vos de que pelo engano dos abominaveis homens, juntamente não sejais arrebatados, e descayais de vossa firmeza:
18 Antes crescei em a graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesu-Christo. A elle seja a gloria, assim agora, como em o dia da eternidade. Amen.

1 JOÃO

CAPITULO 1.

1 O QUE era desde o principio, o que ouvimos, o que com nossos olhos vimos, o que temos contemplado, e nossas mãos tocárão, da Palavra da vida:
2 (Porque manifesta he ja a vida, e nos a vimos, e testificamos, e vos denunciamos a vida eterna, que com o Pai estava, e manifestada nos foi.)
3 Assim que o que vimos e ouvimos, isso vos denunciamos, para que tambem comnosco tenhais communhão, e esta nossa communhão tambem seja com o Pai, e com seu Filho Jesu-Christo.
4 E estas cousas vos escrevemos, para que vosso gozo se cumpra.
5 E esta he a denunciação que delle ouvimos, e vos denunciamos, que Deos he luz, e não ha nelle trevas nenhumas.
6 Se dissermos que com elle temos communhão, e em trevas andarmos, mentimos, e a verdade não tratamos.
7 Porem se em a luz andarmos, como elle em a luz está, communhão huns com os outros temos, e o sangue de Jesu-Christo seu Filho nos purga de todo peccado.
8 Se dissermos que peccado não temos, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade em nós não está.
9 Se nossos peccados confessarmos, fiel e justo he elle, para que nos perdoe os peccados, e nos purgue de toda iniquidade.
10 Se dissermos que não peccamos, mentiroso o fazemos, e sua palavra em nós não está.

CAPITULO 2.

1 MEUS filhinhos, estas cousas vos escrevo, para que não pequeis: e se alguem peccar; hum Advogado temos para com o Pai, a Jesu-Christo o justo.
2 E elle he a propiciação por nossos peccados: e não somente pelos nossos, mas tambem pelos de todo o mundo.
3 E nisto sabemos que o temos conhecido, se seus mandamentos guardarmos.
4 Aquelle que diz: Eu o conheço, e seus mandamentos não guarda, mentiroso he, e a verdade nelle não está.
5 Mas qualquer que sua palavra guarda, nelle verdadeiramente o amor de Deos está aperfeiçoado: nisto conhecemos que nelle estamos.
6 Aquelle que diz que nelle está, tambem deve andar como elle andou.
7 Irmãos, mandamento novo vos não escrevo, se não o mandamento antigo, que já desde o principio tivestes. Este mandamento antigo he a palavra que desde o principio ouvistes.
8 Outra vez hum mandamento novo vos escrevo: que o que nelle he verdadeiro, tambem em vósoutros o seja: porque as trevas passão, e já a verdadeira luz alumia.
9 Aquelle que diz que está em a luz, e aborrece a seu irmão, até agora está em trevas.
10 Aquelle que ama a seu irmão, está em a luz, e não ha nelle escandalo.
11 Mas aquelle que aborrece a seu irmão, está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde va: porque as trevas lhe cegárão os olhos.
12 Filhinhos, escrevo-vos, porque por seu nome os peccados vos são perdoados.
13 Pais, escrevo-vos, porque já conhecestes áquelle que he desde o principio. Mancebos, escrevo-vos, porque já vencestes ao maligno. Filhos, escrevo-vos, porque ja conhecestes ao Pai.
14 Pais, escrevi-vos, porque já conhecestes áquelle que he desde o principio. Mancebos, escrevi-vos, porque sois fortes, e a palavra de Deos está em vós, e já vencestes ao maligno.
15 Não ameis ao mundo, nem as cousas que no mundo ha: se alguem ama ao mundo, o amor do Pai não está nelle.
16 Porque tudo o que no mundo ha, como a concupiscencia da carne, e a concupiscencia dos olhos, e a soberba da vida, não he do Pai, mas he do mundo.
17 E o mundo passa, e sua concupiscencia: mas aquelle que faz a vontade de Deos, permanece para sempre.
18 Filhinhos, ja he a ultima hora: e como ja ouvistes que o Antichristo vem, assim tambem ja agora muitos se tem feito Antichristos: por onde conhecemosque ja he a ultima hora.
19 De nós sahirão, porem não erão de nós: porque se de nós fórão, comnosco ficárão; mas isto he para que se manifestassem, que não são todos de nós.
20 Mas vósoutros tendes a unção do Santo, e sabeis todas as cousas.
21 Não vos escrevi porque não soubesseis a verdade; mas porquanto a sabeis, e porque nenhuma mentira he da verdade.
22 Quem he o mentiroso, senão aquelle que nega que Jesus he o Christo? Aquelle he o Antichristo, que nega ao Pai, e ao Filho.
23 Qualquer que nega ao Filho, tambem não tem ao Pai.
24 Portanto o que desde o principio ouvistes, permanéça em vósoutros. Se o que desde o principio ouvistes, permanecer em vósoutros, tambem permanecereis em o Filho e em o Pai.
25 E esta he a promessa, que elle nos prometteo, a saber a vida eterna.
26 Estas cousas vos escrevi acerca dos que vos enganão.
27 E a unção que vós delle recebestes, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguem vos ensine: antes como a mesma unção vos ensina de todas as cousas, assim tambem he verdadeira, e não he mentira; e como ella vos ensinou, assim nelle ficareis.
28 E agora, filhinhos, nelle permanecei: para que, quando se manifestar, tenhamos confiança, e confundidos não sejamos delle em sua vinda.
29 Se sabeis que elle he justo, tambem sabeis, que qualquer que obra justiça, delle he nascido.

CAPITULO 3.

1 OLHAI quão grande caridade o Pai nos tem dado, que fossemos chamados filhos de Deos. Porisso nos não conhece o mundo, porquanto a elle o não conhece.
2 Amados, agora somos filhos de Deos, e o que havemos de ser, ainda não he manifesto. Porém sabemos que quando elle se manifestar, a elle seremos semelhantes: porque assim como he o verémos.
3 E qualquer que nelle esta esperança tem, a si mesmo se purifica, como tambem elle he puro.
4 Qualquer que faz peccado, tambem faz a injustiça: Porque o peccado he injustiça.
5 E bem sabeis que elle se manifestou, para tirar nossos peecados: e nelle não ha peccado.
6 Qualquer que permanece nelle, não pecca: qualquer que pecca, não o vio, nem o conheceo.
7 Filhinhos, ninguem vos engane. Quem obra justiça, he justo, assim como elle he justo.
8 Quem faz peccado, he do diabo: porque o diabo pecca desde o principio. Para isto o Filho de Deos se manifestou, para desfazer as obras do diabo.
9 Qualquer que he nascido de Deos, não faz peccado: porque sua semente permanece nelle; e não pode peccar, porque he nascido de Deos.
10 Nisto são manifestos os filhos de Deos, e os filhos do diabo. Qualquer que não obra justiça, e não ama a seu irmão, não he de Deos.
11 Porque esta he a denunciação que desde o principio ouvistes, que nuns aos outros nos amemos.
12 Não como Caim, que era do maligno, e matou a seu irmão. E porque causa o matou? Porque suas obras erão más, e as de seu irmão, justas.
13 Meus irmãos, não vos maravilheis se o mundo vos aborrece.
14 Bem sabemos que ja da morte passámos a vida, porquanto amamos aos irmãos. Quem não ama a seu irmão, fica na morte.
15 Qualquer que aborrece a seu irmão, he homicida. E bem sabeis vós que nenhum homicida tem em si permanecente a vida eterna.
16 Nisto conhecemos a caridade, em que sua vida por nós pôz: e nós tambem devemos pôr as vidas pelos irmãos.
17 Quem pois tiver o bem do mundo, e vir passar a seu irmão necessidade, e lhe cerrar suas entranhas, como a caridade de Deos está nelle?
18 Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de lingua, senão de obra e de verdade.
19 E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante delle nossos coraçoes assegurarémos.
20 Que se nosso coração nos condemna, maior he Deos que nosso coração, e conhece todas as cousas.
21 Amados, se nosso coração nos não condemna, confiança temos para com Deos.
22 E qualquer cousa que pedimos delle, a recebemos: porquanto seus mandamentos guardamos, e as cousas perante elle agradaveis fazemos.
23 E este he seu mandamento, que creamos em o nome de seu Filho Jesu-Christo, e huns aos outros nos amemos, como nos deo o mandamento.
24 E aquelle que seus mandamentos guarda, nelle está, e elle nelle. E nisto conhecemos que elle em nos está, a saber pelo Espirito que nos tem dado.

CAPITULO 4.

1 AMADOS, não creais a todo espirito, mas provai aos espiritos se são de Deos: porque ja muitos falsos prophetas tem sahido no mundo.
2 Nisto conhecereis ao Espirito de Deos. Todo espirito que confessa que Jesu-Christo veio em a carne, he de Deos:
3 E todo espirito que não confessa que Jesu-Christo veio em a carne, não he de Deos: e tal he o espirito do Antichristo, do qual ja ouvistes que ha de vir, e ja agora no mundo está.
4 Filhinhos, de Deos sois, e ja vencido os tendes: porque maior he o que está em vós do que o que está no mundo.
5 Do mundo são, por isso do mundo falão, e o mundo os ouve.
6 Nósoutros somos de Deos. Aquelle que a Deos conhece, nos ouve: aquelle que não he de Deos, nos não ouve. Nisto conhecemos nós ao Espirito da verdade, e ao espirito do error.
7 Amados, amemos-nos huns aos outros: porque a caridade he de Deos: e qualquer que ama, he nascido de Deos, e conhece a Deos.
8 Aquelle que não ama, conhecido não tem a Deos: porque Deos he caridade.
9 Nisto se manifestou a caridade de Deos para comnosco, que Deos enviou a seu Filho unigenito ao mundo, para que por elle vivamos.
10 Nisto está a caridade, não que nós a Deos hajamos amado, mas que elle a nós nos amou, e enviou a seu Filho por propiciação por nossos peccados.
11 Amados, se Deos assim nos amou, tambem huns aos outros nos devemos amar.
12 Ninguem vio a Deos jamais: se huns aos outros nos amamos, em nós Deos está, e em nós sua caridade he perfeita.
13 Nisto conhecemos que nelle estamos, e elle em nós, porquanto de seu Espirito nos deo.
14 E vimo-lo, e testificamos que o Pai enviou a seu Filho por Salvador do mundo.
15 Qualquer que confessar que Jesus he o Filho de Deos, Deos está nelle, e elle em Deos.
16 E ja conhecemos e cremos o amor que Deos nos tem. Deos he caridade: e quem está em caridade, em Deos está, e Deos nelle.
17 Nisto he perfeita a caridade para comnosco, para que em o dia do juizo tenhamos confiança, a saber que qual elle he, taes somos nós tambem neste mundo.
18 Na caridade não ha temor, antes a perfeita caridade lança fora ao temor: porque o temor tem pena, e o que teme, não está perfeito em caridade.
19 Nós o amamos a elle, porquanto elle primeiro nos amou.
20 Se alguem diz: Eu amo a Deos, e aborrece a seu irmão, mentiroso he. Porque quem não ama a seu irmão, ao qual vio, como pode amar a Deos, ao qual não vio?
21 E delle temos este mandamento, que quem a Deos ama, tambem ame a seu irmão.

CAPITULO 5.

1 TODO aquelle que cré que Jesus he o Christo, he nascido de Deos: e to do aquelle que ama ao que gerou, tam bem ama ao que delle he nascido.
2 Nisto conhecemos que aos filhos de Deos amamos, quando amamos a Deos, e seus mandamentos guardamos:
3 Porque esta ha a caridade de Deos, que seus mandamentos guardemos: e seus mandamentos não são pezados.
4 Porque tudo o que he nascido de Deos, vence ao mundo: e esta he a victoria que ao mundo vence, convem a saber nossa fé.
5 Quem he aquelle que ao mundo vence, senão aquelle que cré que Jesus he o Filho de Deos?
6 Este he aquelle que veio por agua e sangue, a saber Jesus o Christo: não so por agua, senão por agua e por sangue. E o Espirito he o que testifica, que o Espirito he a verdade.
7 Porque tres são os que testificão no ceo, o Pai, a Palavra, e o Espirito Santo: e estes tres são hum.
8 E tres são os que testificão na terra, o Espirito, e a Agua, e o Sangue: e estes tres convem em hum.
9 Se o testemunho recebemos dos homens, o testemunho de Deos he maior: porque este he o testemunho de Deos, que de seu Filho testificou.
10 Quem cre no Filho de Deos, testemunho tem em si mesmo: quem a Deos não cré, mentiroso o fez: porquanto não creo o testemunho, que Deos de seu Filho testificou.
11 E este he o testemunho, a saber, que Deos nos deo a vida eterna: e esta vida está em seu Filho.
12 Quem tem ao Filho, tem a vida: quem não tem ao Filho de Deos, não tem a vida.
13 Estas cousas vos escrevi a vós, os que credes em o nome do Filho de Deos: para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creais em o nome do Filho de Deos:
14 E esta he a confiança que temos para com elle, que se alguma cousa segundo sua vontade pedirmos, elle nos ouve.
15 E se sabemos que tudo o que lhe pedimos nos outorga, tambem sabemos que as petiçoes, que lhe pedimos, as alcançamos.
16 Se alguem vir peccar a seu irmão, peccado que não he para morte, orará a Deos, e lhe dará a vida: áquelles digo que para morte não peccarem. Peccado ha para morte, pelo qual não digo que ore.
17 Toda iniquidade he peccado: porem peccado ha que não he para morte.
18 Bem sabemos que todo aquelle que de Deos he nascido, não pecca: mas o que de Deos he gerado, a si mesmo se conserva, e o maligno lhe não pega.
19 Bem sabemos que de Deos somos, e que todo o mundo jaz em a maldade.
20 Porém sabemos que ja o Filho de Deos he vindo, e nos deo entendimento, para conhecer ao Verdadeiro; e no Verdadeiro estamos, a saber em seu Filho Jesu-Christo. Este he o verdadeiro Deos, e a vida eterna.
21 Filhinhos, guardaivos dos idolos. Amen.

2 JOÃO

CAPITULO 1.

1 O ANCIÃO á Senhora eleita, e a seus filhos, aos quaes em verdade amo: e não somente eu, mas tambem todos os que a verdade tem conhecido:
2 Por amor da verdade que em nós está, e comnosco para sempre estará:
3 Graça, misericordia, e paz de Deos Pai, e do Senhor Jesu-Christo, o Filho do Pai, seja comvosco em verdade e caridade.
4 Muito me alegrei por achar que alguns de teus filhos andão em a verdade, como recebêmos o mandamento do Pai.
5 E agora, Senhora, te rogo, não como escrevendo-te hum novo mandamento, mas o que desde o principio tivemos, a saber que nuns aos outros nos amemos.
6 E esta he a caridade, que andemos segundo seus mandamentos. Este he o mandamento, como ja desde o principio ouvistes, a saber que nelle andeis.
7 Porque ja muitos enganadores entrarão no mundo, os quaes não confessão que Jesu-Christo veio em a carne. Este tal he o Enganador e o Antichristo.
8 Olhai por vós mesmos, para que o que ja trabalhamos, não percamos; antes o inteiro galardão recebamos. .
9 Todo aquelle que prevarica, e não persevéra na doutrina de Christo, não tem a Deos: quem na doutrinado Christo persevera, o tal tem assim ao Pai, com ao Filho.
10 Se alguem vem a vósoutros, e não traz esta doutrina, em vossa casa o não recebais, nem tão pouco o saudeis.
11 Porque quem o sauda, com suas mãs obras communica.
12 Muitas cousas tenho que vos escrever, porem não quiz com papel e tinta: mas espero vir a vósoutros, e vos falar de boca a boca, para que nosso gozo seja cumprido.
13 Os filhos de tua irmã, a eleita, to saudão. Amen.

3 JOÃO

CAPITULO 1.

1 O ANCIÃO ao amado Gayo, a quem em verdade amo:
2 Amado, antes tudo desejo que bem te vá. e tenhas saúde, como tambem á tua alma bem lhe vai.
3 Porque muito me alegrei quando os irmãos viérão, e testificarão de tua verdade, como tu em a verdade andas.
4 Maior gozo não tenho do que nisto que ouço, que meus filhos em a verdade andão.
5 Amado, fielmente fazes em tudo o que fazes para com os irmãos, e para com os estranhos.
6 Os quaes em presença da Igreja testificarão de tua caridade: aos quaes, se como para com Deos digno he, os acompanhares, bem farás.
7 Porque por seu nome sahirão, nada tomando das Gentes.
8 Portanto aos taes devemos receber, para que sejamos cooperadores da verdade.
9 Escrito tenho á Igreja: porém Diotrephes, que entre elles procura ter o primado, não nos recebe.
10 Pelo que se eu vier, trarei á memoria as obras que faz, pairando contra nós com maliciosas palavras: e não contente com isto, aos irmãos não recebe, e impede aos que os querem receber, e os lança fora da Igreja.
11 Amado, não sigas o mal, senão o bem. Quem faz bem, de Deos he: mas quem faz mal, não tem visto a Deos.
12 Todos dão testemunho a Demetrio, ate a mesma verdade: e tambem nós testemunhamos, e bem sabeis vós que nosso testemunho he verdadeiro.
13 Tinha muito que escrever,porém te não quero escrever com tinta e penna:
14 Mas espero brevemente ver-te, e falaremos de boca a boca.
15 Paz seja comtigo. Os amigos te saudão. Sauda aos amigos nome por nome.

JUDAS

CAPITULO 1.

1 JUDAS servo de Jesu-Christo, e irmão de Jacobo, aos ja chamados, santificados por Deos Pai, e por Jesu-Christo conservados.
2 Misericordia, e paz, e caridade vos seja multiplicada.
3 Amados, procurando eu escrevervos com toda diligencia ácerca da commum salvação, por necessario tive escrever-vos, e exhortar-fos a batalhar pela fé, que hum a vez aos santos foi entregada.
4 Porque alguns se introduzirão, que ja d’antes escritos estavão para esta mesma condemnação, homens impios, que convertem a graça de Deos em dissolução, e negão ao só Dominador e Senhor nosso Jesu-Christo.
5 Porem lembrar-vos quero, como aos que ja hum a vez isto sabeis, que havendo o Senhor a seu povo livrado da terra de Egypto, depois destruio aos que não crião.
6 E aos Anjos que sua origem não guardarão, antes sua propria habitação deixarão, debaixo da escuridão, e em prisoens eternas reservou até o juizo daquelle grande dia.
7 Como Sodomo e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que ao modo daquellas havendo fornicado, e após outra carne ido, forão propostas por exemplo, levando a pena do fogo eterno.
8 E comtudo tambem estes seme lhantemente adormecidos, contaminão a carne, e rejeitão a Dominação, e vituperão as Dignidades.
9 Porém Michaêl o Archanjo, quando contendia com o diabo, e tratava do corpo de Moyses, não ousou a pro nunciar contra elle juizo de maldição: porem disse: o Senhor te redargua.
10 Porem estes dizem mal do que não sabem; e o que, como irracionaes naturalmente conhecem, nisso se corrompem.
11 Ai delles; porque pelo caminho de Caim entrárão, e pelo engano do galardão de Balaam se derramarão, e pela contradicção de Coré perecérão.
12 Estes são manchas em vossos convites de caridade, e comvosco banqueteando, a si mesmo se apascentão sem temor: são nuvens sem agua, levadas dos ventos de huma a outra parte: são como arvores murchas, infructiferas, duas vezes mortas, e desarraigadas:
13 Ondas feras do mar, que escumão suas mesmas abominaçoens: estrellas errantes, para os quaes a escuridão das trevas está reservada eternamente.
14 E destes prophetizou tambem Enoch, o setimo depois de Adam, dizendo: Eis que vindo he o Senhor com seus santos dez milhares.
15 Para fazer juizo contra todos, e castigar a todos os impios d’entre elles, por todas suas obras de impiedade, que impiamente commettérão, e por todas as duras palavras que contra elle falarão os impios peccadores.
16 Estes são murmuradores, queixosos de seu estado, segundo suas concupiscencias andando: e sua boca fala cousas mui arrogantes: admirando as pessoas por causa de proveito.
17 Mas vosoutros, amados, lembrai-vos das palavras que forão preditas pelos Apostolos de nosso Senhor Jesu-Christo:
18 Como vos dizião, que no ultimo tempo haveria escarnecedores, que andarião segundo suas impias concupiscencias.
19 Estes são os que a si mesmos se separão, homens sensuaes, que não tem o Espirito.
20 Mas vósoutros, amados, vos edificai a vós mesmos sobre vossa santissima fé, orando em o Espirito Santo,
21 Conservai-vos a vós mesmos em a caridade de Deos, esperando a misericordia de nosso Senhor Jesu-Christo para a vida eterna.
22 E vos apiedai de huns, usando de discrição:
23 Mas aos outros salvai por temor, e os arrebatai do fogo, e aborrecéi até a roupa da carne manchada.
24 Ora áquelle que poderoso he, para vos guardar de tropeçar, e vos apresentar irreprehensiveis com alegria perante sua gloria:
25 Ao só sabio Deos nosso Salvador, seja gloria e magestade, força e potencia, assim agora como para todo sempre. Amen.

APOCALIPSE

CAPITULO 1.

1 REVELAÇÃO de Jesu-Christo, a qual Deos lhe deo, para a seus servos mostrar as cousas que brevemente devem acontecer: e por seu Anjo as enviou, e as notificou a João seu servo.
2 O qual testificou da Palavra de Deos, e do testemunho de Jesu-Christo, e de tudo que tem visto.
3 Bemaventurado aquelle que lê, e os que ouvem as palavras desta Prophecia, e guardão as cousas que nelIa estão escritas: Porque o tempo está perto.
4 João, ás sete Igrejas que estão em Asia: Graça e paz seja comvosco da parte daquelle Que he, e Que era, e Que ha de vir: e dos sete Espiritos que diante de seu throno estão:
5 E de Jesu-Christo, que he a fiel testemunha, o primogenito dos mortos, e o Principe dos Reis da terra. A’quelle que nos amou, e de nossos peccados em seu sangue nos lavou,
6 E nos fez Reis e Sacerdotes para Deos e seu Pai: A elle seja a gloria e a potencia para todo sempre. Amen.
7 Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos que o traspassarão: e todas as tribus da terra lamentarão sobre elle: Sim, Amen.
8 Eu sou o Alpha e Omega, o principio, e o fim, diz o Senhor, Que he, e Que era, e Que ha de vir, o Todopoderoso.
9 Eu João, que tambem sou vosso irmão, e companheiro na afflicção, e no Reino, e na paciencia de Jesu-Christo, estava na ilha chamada Patmos, pela palavra de Deos, e pelo testemunho de Jesu-Christo.
10 E hum dia do Senhor fui arrebatado em espirito, e de tras de mim ouvi huma grande voz, como de trombeta.
11 Que dizia: Eu sou o Alpha e Omega, o primeiro e o derradeiro: e o que vés o escreve em hum livro, e o envia ás sete Igrejas, que estão em Asia, a saber a Epheso e a Smyrna, e a Pergamo, e a Thyatira, e a Sardo, e a Philadelphia, e a Laodicea.
12 E virei-me para ver a voz que comigo falára: e virando-me, vi sete castiçaes de ouro:
13 E no meio dos sete castiçaes hum semelhante ao Filho do homem, vestido até os pés de hum vestido comprido, e pelos peitos cingido com hum cinto de ouro:
14 E sua cabeça e seus cabellos erão brancos como lã branca, como a neve: e seus olhos como flamma de fogo:
15 E seus pes semelhantes a latão reluzente, e ardentes como em fornalha: e sua voz, como voz de muitas aguas.
16 E em sua mão direita tinha sete estrellas: e de sua boca sahia huma espada aguda de dous fios: e seu rosto era como o sol quando em sua força resplandece.
17 E quando eu o vi, cahi a seus pes como morto: e elle põz sobre mim sua mão direita, dizendo-me; não temas: Eu sou o primeiro e o derradeiro:
18 E o que vivo, e fui morto: e eis aqui vivo para todo sempre. Amen. E tenho as chaves do inferno e da morte.
19 Escreve as cousas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer:
20 O mysterio das sete estrellas, que viste em minha mão direita, e os sete castiçaes de ouro. As sete estrellas são os Anjos das sete Igrejas: e os sete castiçaes que viste, são as sete Igrejas.

CAPITULO 2.

1 ESCREVE ao Anjo da Igreja de Epheso: Isto diz aquelle que tem as sete estrellas em sua mão direita, que anda no meio dos sete castiçaes de ouro:
2 Eu sei tuas obras, e teu trabalho, e tua paciência, e que não podes sofrer aos mãos: e provaste aos que se dizem ser Apostolos, e o não são: e os achaste mentirosos:
3 E sofreste, e tens paciência: e trabalhaste por meu nome, e não te cançaste.
4 Porem tenho contra ti, que deixaste tua primeira caridade.
5 Lembra-te pois donde descahiste, e te arrepende, e faze as primeiras obras: e senão, presto a ti virei, e de seu lugar tirarei teu castiçal, se te não arrependeres.
6 Isto porem tens, que aborreces as obras dos Nicolaitas, as quaes eu tambem aborreço.
7 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz as Igrejas: ao que vencer, dar-lhe hei a comer da arvore da vida, que no meio do paraíso de Deos está.
8 E ao Anjo da Igreja dos de Smyrna escreve: Isto diz o primeiro e o derradeiro, que foi morto, e reviveo:
9 Eu sei tuas obras, e tribulação, e pobreza, (porem tu es rico) e a blasphemia dos que se dizem serem Judeos, e o não são, senão a Synagoga de Satanás.
10 Nada temas das cousas que has de padecer. Eis que o Diabo lançará alguns de vósoutros em prisão, para que sejais tentados: e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e te darei a coroa da vida.
11 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás Igrejas: o que vencer, damno não receberá da morte segunda.
12 E ao Anjo da Igreja que está em Pergamo, escreve: Isto diz aquelle que tem a espada aguda de dous fios:
13 Eu sei tuas obras, e aonde habitas, a saber aonde está o throno de Satanás: e retens meu nome, e não negaste minha fé, até nos dias em que Antipas minha fiel testemunha vivia, o qual entre vósoutros foi morto, aonde Satanás habita.
14 Porem algumas poucas cousas tenho contra ti, que tens lá aos que retem a doutrina de Balaam, o qual ensinava a Balac a lançar tropeço diante dos filhos de Israël, para que comessem dos sacrificios idolatricos, e fornicassem.
15 Assim tens tambem aos que retem a doutrina dos Nicolaitas: o que eu aborreço.
16 Arrepende-te: e se não, presto virei a ti, e contra elles batalharei com a espada de minha boca.
17 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás Igrejas: ao que vencer, dar-lhe hei a comer do Manná escondido, e lhe darei hum seixo branco, e no seixo hum nome novo escrito, o qual ninguem conhece, senão aquelle que o recebe.
18 E ao Anjo da Igreja que em Thyatira está, escreve: Isto diz o Filho de Deos, que tem seus olhos como flamma de fogo, e seus pés semelhantes ao latão reluzente:
19 Eu sei tuas obras, e caridade, e serviço, e fé, e tua paciencia, e tuas obras, e que as derradeiras são mais que as primeiras.
20 Porem algumas poucas cousas tenho contra ti: que deixas ensinar a mulher Jezabel, que se diz Prophetissa, e enganar a meus servos, para que forniquem, e comão dos sacrifiicios idolatricos.
21 E dei-lhe tempo para que de sua fornicação se arrependesse; e não se arrependeo.
22 Eis que na cama a deito, e aos que com ella adultérão, em grande tribulação, se de suas obras se não arrependerem.
23 E a seus filhos matarei de morte: e todas as Igrejas saberão, que eu sou aquelle, que penetro os rins e os coraçoes. E a cada hum de vósoutros darei segundo vossas obras.
24 Mas eu vos digo a vósoutros, e aos de mais que estão em Thyatira, a todos quantos não tem esta doutrina, e não conhecêrão as profundezas de Satanás, como dizem; outra carga vos não porei.
25 Porem o que tendes, o retende até que eu venha.
26 E ao que vencer, e minhas obras até o fim guardar, lhe darei poder sobre as Gentes:
27 E com vara de ferro as apascentará: e como vasos de oleiro serão quebrantadas: como tambem de meu Pai recebi:
28 E lhe darei a estrella de manhã.
29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás Igrejas.

CAPITULO 3.

1 E AO Anjo da Igreja, que está em Sardo, escreve: Isto diz o que tem os sete Espiritos de Deos, e as sete estrellas: Eu sei tuas obras; que tens nome de que vives, e estás morto.
2 Sé vigilante, e confirma o resto que está para morrer: porque não achei tuas obras inteiras diante de Deos.
3 Lembra-te pois do que recebido e ouvido tens, e guarda-o, e te arrepende. E se não veláres, sobre ti virei como ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.
4 Porem tambem em Sardo tens algumas poucas pessoas, que não contaminárão seus vestidos, e comigo em vestidos brancos andarão: porquanto disso são dignos.
5 O que vencer, de vestidos brancos será vestido: e seu nome em maneira nenhuma riscarei do livro da vida, e seu nome confessarei diante de meu Pai, e diante de seus Anjos.
6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás Igrejas:
7 E ao Anjo da Igreja, que está em Philadelphia escreve: Isto diz o Santo, o Verdadeiro, que tem a chave de David: que abre, e ninguem cerra: e cerra, e ninguem abre:
8 Eu sei tuas obras: eisque a porta aberta diante de ti te dei, e ninguem a pode cerrar: porque pouca força tens, e minha palavra guardaste, e meu nome não negaste.
9 Eis aqui te dou alguns da Synagoga de Satanás, dos que se dizem ser Judeos, e não o são, mas mentem: eis que eu farei que venhão, e adorem diante de teus pés, e saibão que eu te amo.
10 Porquanto a palavra de minha paciencia guardaste, tambem eu te guardarei da hora da tentação, que sobre todo o mundo ha de vir, para tentar aos que na terra habitão.
11 Eisque venho presto, guarda o que tens, para que ninguem tome tua coroa.
12 A quem vencer, eu o farei columna em o templo de meu Deos, e delle nunca mais sahirá: e sobre elle escreverei o nome de meu Deos, e o nome da cidade de meu Deos, a saber o da nova Jerusalem, que desce do ceo de meu Deos, e tambem meu novo nome.
13 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás Igrejas.
14 E ao Anjo da Igreja dos Laodicenses escreve: Isto diz o Amen, a testemunha fiel e verdadeira, o principio da creação de Deos:
15 Eu sei tuas obras, que nem es frio, nem quente: oxalá frio fôras, ou quente!
16 Assim que, porquanto es morno, e nem frio, nem quente es, de minha boca te vomitarei.
17 Porque dizes: Rico sou, e enriquecido estou, e de nada tenho falta: e não sabes que estás miseravel, e coitado, e pobre, e cego, e nn.
18 Aconselho-te, que de mim compres ouro, provado do fogo, para que te enriqueças: e vestidos brancos, para que te vistas, e a vergonha de tua nudez não appareça: e unge teus olhos com colyrio, para que vejas.
19 Eu reprehendo e castigo a todos quantos eu amo, sé pois zeloso, e te arrepende.
20 Eisque á porta estou, e bato: se alguem ouvir minha voz, e abrir a porta, a elle entrarei, e com elle cearei, e elle comigo.
21 Ao que vencer, lhe darei que comigo se assente em meu throno, assim como eu venci, e com meu Pai em seu throno me assentei.
22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz às Igrejas.

CAPITULO 4.

1 DEPOIS destas cousas olhei, e eis que huma porta aberta em o ceo: e a primeira voz, que como de huma trombeta, ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e eu te mostrarei as cousas, que depois destas devem acontecer.
2 E logo fui em espirito arrebatado: e eisque hum throno estava posto no ceo, e sobre o throno hum assentado.
3 E o que sobre elle estava assentado, era, ao parecer, semelhante á pedra jaspe e sardonia: e o arco celeste estava ao redor do throno, ao parecer semelhante á esmeralda.
4 E ao redór do throno havia vinte e quatro thronos: e vi sobre os thronos vinte e quatro Anciãos assentados, vestidos de vestidos brancos: e sobre suas cabeças tinhão coroas de ouro.
5 E do throno sahião relampagos, e trovões, e vozes: e sete lampadas de fogo ardião diante do throno, as quaes são os sete Espiritos de Deos.
6 E diante do throno havia hum mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do throno, e ao redor do throno, quatro animaes cheios de olhos, por diante, e por de tras.
7 E era o primeiro animal semelhante a hum leão, e o segundo animal semelhante a hum bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e era o quarto animal semelhante a huma aguia volante.
8 E os quatro Animaes tinhão cada hum de por si seis azas ao redór, e por dentro estavão cheios de olhos: e não tem repouso dia nem noite, dizendo; Santo, Santo, Santo he o Senhor Deos, o Todo-poderoso, Que era, e Que he, e Que ha de vir.
9 E quando os Animaes davão gloria, e honra, e fazimento de graças ao que assentado estava sobre o throno, ao que vive para todo sempre:
10 Então os vinte e quatro Anciãos se prostravão diante do que assentado estava sobre o throno, e ao que vive para todo sempre, adoravão, e lançavão suas coroas diante do throno, dizendo:
11 Digno es, Senhor, de receberes gloria, e honra, e potencia: porque tu creaste todas as cousas, e por tua vontade são, e forão creadas.

CAPITULO 5.

1 E VI na mão direita do que assentado estava sobre o throno, hum livro escrito por de dentro e por de fora, e sellado com sete sellos.
2 E ví hum forte Anjo, apregoando com grande voz: Quem he digno de abrir o livro, e desliar seus sellos?
3 E ninguem no ceo, nem na terra, nem debaixo da terra podia abrir o livro, nem olhar para elle.
4 E eu chorava muito, porque ninguem fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para elle.
5 E hum dos Anciãos me disse: Não chores; vês aqui o Leão da Tribu de Juda, a raiz de David venceo, para abrir o livro, e desliar seus sete sellos.
6 E olhei, e eis que no meio do throno, e dos quatro animaes, e no meio dos Anciãos, hum Cordeiro que estava como matado, e tinha sete cornos, e sete olhos: que são os sete Espiritos de Deos em toda a terra enviados.
7 E veio, e tomou o livro da mão direita do que sobre o throno assentado estava.
8 E havendo tomado o livro, os quatro animaes, e os vinte e quatro Anciãos se prostrárão diante do Cordeiro, tendo cada hum harpas, e salvas de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos santos.
9 E hum contico novo cantavão, dizendo: Digno es de tomar o livro, e abrir seus sellos: por que foste morto, e com teu sangue para Deos nos compraste, de toda tribu, e lingua, epovo, e nação:
10 E para nosso Deos nos fizeste Reis e Sacerdotes: e sobre a terra reinaremos.
11 E olhei, e ouvi huma voz de muitos Anjos ao redor do throno, e dos Animaes, e dos Anciãos: e era o numero delles milhoens de milhoens, e milhar de milhares.
12 Que com grande voz dizião: Digno he o Cordeiro, que foi morto, de receber potencia, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e gloria, e fazimento de graças.
13 E ouvi a toda a creatura que está no ceo, e na terra, e debaixo da terra, e que estão no mar, e a todas as cousas que nellas ha, dizendo: Ao que sobre o throno está assentado, e ao Cordeiro, seja fazimento de graças, e honra, e gloria, e potencia, para todo sempre jamais.
14 E os quatro Animaes dizião, Amen. E os vinte e quatro Anciãos se prostrárão, e adorárão ao que vive para todo sempre.

CAPITULO 6.

1 E HAVENDO o Cordeiro aberto hum dos sellos, olhei, e ouvi a hum dos quatro Animaes, que dizia como com voz de trovão: Vem, e vé.
2 E olhei, e eis hum cavallo branco: e o que sobre elle assentado estava, tinha hum arco: e huma coroa lhe foi dada, e sahio victorioso, e para que vencesse.
3 E havendo aberto o segundo sello, ouvi o segundo Animal; dizendo: Vem, e vé.
4 E sahio outro cavallo vermelho: e ao que sobre elle assentado estava, foi dado que tirasse a paz da terra, e que huns aos outros se matassem: e huma grande espada lhe foi dada.
5 E havendo aberto o terceiro sello, ao terceiro animal ouvi dizer: Vem, e vé. E olhei, e eis hum cavallo preto, e o que sobre elle assentado estava, tinha huma balança em sua mão.
6 E ouvi huma voz no meio dos quatro Animaes, que dizia: huma medida de trigo por hum dinheiro, e tres medidas de cevada por hum dinheiro: e ao azeite e ao vinho não damnifiques.
7 E havendo aberto o quarto sello, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vé.
8 E olhei, e eis hum cavallo amarello, e o que sobre elle assentado estava, tinha por nome, Morte; e o Inferno o seguia. E foi-lhes dada potestade para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com morte, e com as féras da terra.
9 E havendo aberto o quinto sello, vi debaixo do altar as almas dos que por amor da palavra de Deos forão mortos, e por amor do testemunho que tinhão.
10 E clamarão com grande voz, dizendo: Até quando, ó santo e verdadeiro Dominador, não julgas e vingas nosso sangue dos que sobre a terra habitão?
11 E dérão-se-lhes a cada hum vestidos brancos compridos: e foi-lhes dito, que ainda hum pouco de tempo repousassem, até que tambem seus couservos e seus irmãos se cumprissem, que ainda como elles havião de ser mortos.
12 E havendo aberto o sexto sello, olhei, e eis que foi feito hum grande tremor de terra: e o Sol se tornou preto como hum saco de cilicio, e a Lua se tomou como sangue.
13 E as estrellas do ceo cahirão sobre a terra, como quando a figueira de si lança seus figos verdes, abalada de hum grande vento.
14 E o ceo se retirou como hum livro que se envolve: e todos os montes, e ilhas se moverão de seus lugares.
15 E os Reis da terra, e os Grandes, e os Ricos, e os Tribunos, e os Poderosos, e todo servo, e todo livre se esconderão nas cavernas, e nas rochas das montanhas.
16 E dizião aos montes: e ás rochas: cahi sobre nósoutros, e nos esconde do rosto daquelle que sobre o throno está assentado, e da ira do Cordeiro:
17 Porque vindo he o grande dia de sua ira; e quem poderá subsistir.

CAPITULO 7.

1 E DEPOIS destas cousas vi quatro Anjos estar sobre os quatro cantos da terra, que retinhão os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra em sobre o mar, nem contra arvore alguma.
2 E vi outro Anjo subir da banda do Sol nascente, que tinha o sêllo do Deos vivente, e clamou com grande voz aos quatro Anjos, aos quaes fóra dado poder para damnificar á terra e ao mar.
3 Dizendo: não damnifiques á terra, nem ao mar, nem ás arvores, até que aos servos de nosso Deos, em suas testas não hajamos assinalado.
4 E ouvi o numero dos assinalados: e forão cento e quarenta e quatro mil assinalados de todas as tribus dos filhos de Israël.
5 Da tribu de Juda, doze mil assinalados: da tribu de Ruben, doze mil assinalados: da tribu de Gad, doze mil assinalados:
6 Da tribu de Aser, doze mil assinalados: da tribu de Nephthali, doze mil assinalados: da tribu de Manasse, doze mil assinalados:
7 Da tribu de Simeon, doze mil assinalados: da tribu de Levi, doze mil assinalados: da tribu de Issachar, doze mil assinalados:
8 Da tribu de Zabulon, doze mil assinalados: da tribu de José, doze mil assinalados: da tribu de Benjamin, doze mil assinalados.
9 Depois destas cousas olhei, e eis aqui huma grande multidão, a qual ninguem podia contar, de todas as naçoes, e tribus, e povos, e linguas, que estavão diante do throno, e perante o Cordeiro, vestidos de vestidos brancos compridos, e com ramos de palmas em suas mãos.
10 E clamavão com grande voz, dizendo: a Salvação seja para nosso Deos, que sobre o throno está assentado, e tambem para o Cordeiro.
11 E todos os Anjos esta vão ao redor do throno, e dos Anciãos, e dos quatro Animaes: e se prostrárão sobre seus rostos diante do throno, e a Deos adorarão,
12 Dizendo: Amen. Louvor, e gloria, e sabedoria, e fazimento de graças, e honra, e potencia, e força seja a nosso Deos, para todo sempre. Amen.
13 E hum dos Anciãos respondeo, dizendo-me: Estes que vestidos estão de vestidos brancos compridos, quem são, e donde vierão?
14 E eu lhe disse: Senhor, tu o sabes. E elle me disse: Estes são os que viérão de grande tribulação: e no sangue do Cordeiro seus compridos vestidos lavárão, e branquearão seus compridos vestidos.
15 Porisso diante do throno de Deos, estão, e lhe servem dia e noite em seu templo: e aquelle que assentado está sobre o throno, os cubrirá com sua sombra.
16 Não mais terão fome, nem mais terão sede; nem Sol, nem calma alguma mais cahirá sobre elles.
17 Porque o Cordeiro, que está no meio do throno, os apascentará, e de Guia lhes servirá ás fontes vivas das aguas: e Deos de seus olhos alimpará toda lagrima.

CAPITULO 8.

1 E HAVENDO aberto o setimo sello, se fez silencio em o ceo, quasi por meia hora.
2 E vi os sete Anjos que estavão diante de Deos: e sete trombetas se lhes dérão.
3 E veio outro Anjo, e se poz junto ao altar, tendo na mão hum incensario de ouro: e muitos perfumes se lhe dérão, para os pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do throno.
4 E o fumo dos perfumes com as orações dos santos, subio desde a mão do Anjo até diante de Deos.
5 E o Anjo tomou o incensario, e o encheo do fogo do altar, e o lançou sobre a terra: e se fizérão vozes, e trovões, e relampagos, e terremotos.
6 E os sete Anjos, que tinhão as sete trombetas, se prepararão para as tocarem.
7 E o primeiro Anjo tocou sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e lançados forão na terra: e a terceira parte das arvores se queimou, e toda a herva verde foi queimada.
8 E o segundo Anjo tocou sua trombeta: e huma cousa como hum grande monte ardendo em fogo, foi lançada no mar: e a terceira parte do mar se tornou em sangue.
9 E a terceira parte das creaturas, que tinhão vida no mar, morreo: e a terceira parte das nãos se perdeo.
10 E o terceiro Anjo tocou sua trombeta, e cahio do ceo huma grande estrella, ardendo como huma tocha, e cahio na terceira parte dos rios, e nas fontes das aguas.
11 E o nome da estrella se chama Absynthio, e a terceira parte das aguas se tornou em absynthio: e muitos homens morrêrão pelas aguas, porque se tornárão amargas.
12 E o quarto Anjo tocou sua trombeta: e a terceira parte do Sol, e a terceira parte da Lua, e a terceira parte das Estrellas foi ferida: paraque a terceira parte delles se escurecesse, e a terceira parte do dia não se alumiasse, e semelhantemente a da noite.
13 E olhei, o ouvi hum Anjo voar pelo meio do ceo, dizendo com grande voz: Ai, ai, ai, dos que habitão sobre a terra, pelas de mais vozes das trombetas dos tres Anjos, que ainda hão de tocar.

CAPITULO 9.

1 E O quinto Anjo tocou sua trombeta: e vi huma Estrella qus cahira do ceo na terra e lhe foi dada a chave do poço do abysmo.
2 E abrio o poço do abysmo: e subio fumo do poço, como o fumo de huma grande fornalha: e o Sol, e o Ar se escurecerão do fumo do poço.
3 E do fumo sahirão gafanhotos sobre a terra: e lhes foi dado poder como o poder que tem os escorpioes da terra.
4 E foi-lhes dito, que não fizessem damno á herva da terra, nem a nenhuma verdura, nem a nenhuma arvore: senão somente aos homens que em suas testas não tem o sinal de Deos.
5 E foi-lhes dado, não que os matassem, senão que por cinco mezes os atormentassem: e seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere ao homem.
6 E naquelles dias os homens buscarão a morte, e não acharão: e desejarão morrer, e a morte fugirá delles.
7 E o parecer dos gafanhotos era semelhante ao de cavallos aparelhados para a guerra: e sobre suas cabeças havia como coroas, semelhantes ao ouro, e seus rostos erão como rostos de homens.
8 E tinhão cabellos como cabellos de mulheres: e seus dentes erão como dentes de leoés.
9 E tinhão couraças como couraças de ferro: e o ruido de suas azas era como o ruido de carros quando muitos cavallos correm ao combate.
10 E tinhão rabos semelhantes aos dos escorpioés, e aguilhoés em seus rabos: e seu poder era de por cinco mezes damnificarem aos homens.
11 E tinhão sobre si por Rei ao Anjo do abysmo: e eia seu nome em Hebréo Ábaddon, e em Grego por nome tinha Apollyon.
12 Passado he ja hum ai; eis que ainda depois disto vem dous ais.
13 E o sexto Anjo tocou sua trombeta, e ouvi huma voz dos quatro cornos do altar de ouro, o qual estava diante de Deos,
14 Que dizia ao sexto Anjo, que tinha a trombeta; solta aos quatro Anjos, que estão prezos junto ao grande rio de Euphrates.
15 E forão soltos os quatro Anjos, que estavão prestes para a hora, e dia, e mez, e anno, para matarem a terceira parte dos homens.
16 E o numero dos exercitos dos de cavallo era duzentos milhoés; e ouvi o numero delles.
17 E assim vi aos cavallos nesta visao: e os que sobre elles cavalgavão tinhão couraças de fogo, e de hyacinto, e de enxofre: e as cabeças dos cavallos erão como cabeças de leoés: e de suas bocas sahia fogo, e fumo, e enxofre.
18 Por estes tres a terceira parte dos homens foi morta, a saber pelo fogo, pelo fumo, e pelo enxofre, que sahia e suas bocas.
19 Porque seu poder está em sua boca, e em seus rabos. Porque seus rabos são semelhantes a serpentes, e tem cabeças, e com ellas damnão.
20 E os demais homens, que por estas plagas não forão mortos, não se arrependêrão das obras de suas mãos, para não adorarem aos Demonios, e aos idolos de ouro, e de prata, e de latão, e de pedra, e de madeira, que nem ver, nem ouvir, nem andar podem.
21 E não se arrependerão de seus homicidios, nem de suas feitiçarias, nem de sua fornicação, nem de suas ladroices.

CAPITULO 10.

1 E VI outro forte Anjo, que descia do ceo, vestido de huma nuvem: e por cima de sua cabeça estava o arco celeste: e seu rosto era como o Sol, e seus pés como columnas de fogo.
2 E em sua mão tinha hum livrinho aberto: e pôz seu pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra.
3 E clamou com grande voz, como quando brama o leão: e havendo clamado, os sete trovoés dérão suas vozes.
4 E havendo os sete trovoés dado suas vozes, eu as houvéra de escrever: e ouvi huma voz do ceo, que me dizia: Sella as cousas que os sete trovoés falárão, e não as escrevas.
5 E o Anjo que vi estar sobre o mar e sobre a terra, levantou sua mão ao ceu,
6 E jurou por Aquelle, que vive para todo sempre jamais, o qual creou o ceo, e as cousas que nelle ha, e a terra e as cousas que nella ha, e o mar e as cousas que nelle ha, que mais tempo não haverá:
7 Porem que nos dias da voz do setimo Anjo, quando sua trombeta tocar, o secreto de Deos se cumprirá, como a seus servos os Prophetas o denunciou.
8 E a voz que eu do ceo tinha ouvido, tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do Anjo, que está sobre o mar e sobre a terra.
9 E fui ao Anjo, dizendo-lhe: Dame o livrinho. E elle me disse: Toma-o, e come-o: e fará amargo teu ventre, porem em tua boca será doce como mel.
10 E tomei o livrinho da mão do Anjo, e o comi: e era em minha boca doce como mel: e havendo-o comido, meu ventre ficou amargo.
11 E elle me disse: Ainda te importa prophetizar outra vez a muitos povos, e nações, e linguas, e Reis.

CAPITULO 11.

1 E ME foi dada huma cana semelhante a huma vara de medir; e o Anjo chegou, e disse: Levanta-te, e mede o templo de Deos, e o altar, e os que nelle adorão.
2 Porem deixa de fora ao pateo, que está fora do templo, e não o meças: porque dado he ás Gentes: e pizarão a santa cidade por quarenta e dous mezes.
3 E darei poder a minhas duas testemunhas, e prophetizarão por mil e duzentos e sessenta dias, vestidos de sacos.
4 Estas são as duas oliveiras, e os dous castiçaes, que estão diante do Deos da terra.
5 E se alguem lhes quizer empecer, fogo sahirá de sua boca, e devorará a seus inimigos: e se alguem lhes quizer empecer, assim importa que seja morto.
6 Estes tem poder para cerrar o ceo, para que em os dias de sua prophecia não chova: e tem poder sobre as aguas para as converter em sangue, e para ferir a terra com toda sorte de plaga, todas quantas vezes quizerem.
7 E como acabarem seu testemunho, a Besta, que sobe do abysmo, lhes fará guerra, e os vencerá, e os matará.
8 E seus corpos mortos jazerão na praça da grande cidade, que espiritualmente se chama Sodoma e Egypto, onde nosso Senhor tambem foi crucificado.
9 E os homens dos povos, e tribus, e linguas, e nações, verão seus corpos mortos por tres dias e meio, e não permittirão que seus corpos mortos sejão postos em sepulcros.
10 E os que na terra habitão, se regozijarão sobre elles, e se alegrarão, e mandarão presentes huns aos outros: porquanto estes dous Prophetas atormentarão aos que habitão sobre a terra.
11 E depois daquelles tres dias e meio, entrou nelles o espirito de vida de Deos, e se pozerão sobre seus pés, e cahio grande temor sobre os que os virão.
12 E ouvirão huma grande voz do ceo, que lhes dizia: Subi cá. E subirão ao ceo em huma nuvem: e seus inimigos os virão.
13 E naquella mesma hora se fez hum grande terremoto, e a decima parte da cidade cahio, e no terremoto forão matados sete mil nomes de homens: e os de mais ficárão mui atemorizados, e dérão gloria ao Deos do ceo.
14 Passado he o segundo ai, eis que o terceiro ai vem presto.
15 E o setimo Anjo tocou sua trombeta, e houve grandes vozes no ceo, que dizião: os Reinos do mundo são reduzidos a nosso Senhor, e a seu Christo, e reinará para todo sempre jamais.
16 E os vinte e quatro Anciãos, que diante de Deos em seus thronos estão assentados, se prostrárão sobre seus rostos, e adorárão a Deos.
17 Dizendo: Graças te damos, Senhor Deos Todopoderoso, Que he, e Que era, e Que ha de vir, de que tomaste tua grande potencia, e reinaste:
18 E as naçoés se irárão, e ja he vinda tua ira, e o tempo dos mortos para que sejão julgados, e para dares o galardão a teus servos os Prophetas, e aos Santos, e aos que temem teu nome, a pequenos e a grandes: e para destruir aos que destruem a terra.
19 E o templo de Deos se abrio no ceo, e a Arca de seu concerte foi vista em seu templo: e houve relampagos, e vozes, e trovoes, e terremotos, e grande saraiva.

CAPITULO 12.

1 E SE vio hum grande sinal no ceo: a saber huma Mulher vestida do Sol, e a Lua debaixo de seus pés, e sobre sua cabeça huma coroa de doze estrellas:
2 E estava prenhe; e com dores de parto, e gritava ancias de parir.
3 E se vio outro sinal no ceo; e eis que era hum grande Dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez cornos, e sobre suas cabeças sete Diademas.
4 E seu rabo após si levava a terceira parte das estrellas do ceo, e as lançou sobre a terra: e o Dragão parou diante da Mulher, que havia de parir: para que em parindo, tragasse a seu filho.
5 E pario hum Filho macho, que com vara de ferro todas as Gentes havia de apascentar; e seu Filho foi arrebatado para Deos, e para seu throno.
6 E a Mulher fugio para o deserto, aonde ja tinha lugar preparado de Deos, para que lá a mantivessem mil a duzentos e sessenta dias.
7 E houve batalha no ceo: Michaêl e seus Anjos batalhavão contra o Dragão: e batalhava tambem contra elles o Dragão e seus Anjos.
8 Mas não prevalecêrão, nem seu lugar mais se achou em os Ceos.
9 E foi lançado o grande Dragão, a Serpente antiga, chamada o Diabo e Satanás, que engana a todo o mundo, lançado foi digo em a terra, e tambem seus Anjos lançados forão com elle.
10 E ouvi huma grande voz no ceo, que dizia; agora feita está a salvação, e a força, e o Reino de nosso Deos, e a potencia de seu Christo: porque ja o accusador de nossos irmãos derribado he, o qual diante de nosso Deos dia e noite os accusava.
11 E elles o vencerão pelo sangue do Cordeiro, e pela palavra de seu testemunho, e até a morte não amarão suas vidas.
12 Pelo que alegrai-vos ceos, e os que nelles habitais. Ai dos que habitão na terra, e no mar; porque o Diabo desceo a vósoutros, e tem grande ira, sabendo que ja tem pouco tempo.
13 E quando o Dragão vio que fôra lançado em terra, perseguio a Mulher que parira ao Filho macho.
14 E forão dadas á Mulher duas azas de grande aguia, para que voasse ao deserto a seu lugar, aonde he sustentada por tempo, e tempos, e a metade de tempo, fora da vista da Serpente.
15 E a Serpente lançou de sua boca após a Mulher agua como de hum rio, para que pelo rio a fizesse arrebatar.
16 E a terra ajudou a Mulher, e a terra abrio sua boca, e tragou ao rio, que o Dragão lançara de sua boca.
17 E o Dragão se irou contra a Mulher, e se foi a fazer guerra contra os demais de sua semente, que guardão os mandamentos de Deos, e tem o testemunho de Jesu-Christo.
18 E eu me puz sobre a areia do mar.

CAPITULO 13.

1 E VI subir do mar huma Besta, que tinha sete cabeças e dez cornos, e sobre seus cornos dez Diadémas: e sobre suas cabeças hum nome de blasfemia.
2 E a Besta que vi, era semelhante ao leopardo, e seus pés como de urso, e sua boca de leão: e o Dragão lhe deo sua potencia, e seu throno, e grande poder.
3 E vi huma de suas cabeças como ferida de morte, e sua chaga mortal foi curada: e toda a terra se maravilhou após a Besta.
4 E adorarão ao Dragão, que á Besta dera seu poder; e tambem adorárão á Besta dizendo: Quem he semelhante á Besta? quem poderá batalhar contra ella?
5 E boca se lhe deo, para falar grandezas e blasfemias; e poder se lhe deo, para assim o fazer quarenta e dous mezes.
6 E abrio sua boca em blasfemias contra Deos, para blasfemar de seu Nome, e de seu Tabernaculo, e dos que no ceo habitão.
7 E poder se lhe deo, para fazer guerra aos santos, e os vencer: e poder se lhe deo sobre toda tribu, e lingua, e gente.
8 E todos os que sobre a terra habitão a adorarão, cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro, que desde a fundação do mundo foi morto.
9 Se alguem tem ouvidos, ouça.
10 Se alguem leva em cativeiro, em cativeiro irá: se alguem matar á espada, necessario he que á espada seja morto. Aqui está a paciencia e a fé dos santos.
11 E vi outra Besta subir da terra, e tinha dous cornos semelhantes aos do Cordeiro: e falava como Dragão.
12 E exercita todo o poder da primeira Besta em sua presença: e faz que a terra, e os que nella habitão, adorem á primeira Besta, cuja chaga mortal fóra curada.
13 E faz grandes sinaes, de maneira que até fogo faz descer do ceo á terra , diante dos homens.
14 E aos que na terra habitão, engana com os sinaes, que em presença da Besta se lhe dérão que fizesse; dizendo aos que na terra habitão, que á Besta, que recebéra a ferida da espada, e tornára a viver, fizessem huma imagem.
15 E foi-lhe dado que dêsse espirito á imagem da Besta, para que tambem a imagem da Besta falasse, e fizesse que todos os que não adorassem a imagem da besta, fossem mortos.
16 E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, ponha hum sinal em sua mão direita, ou em suas testas:
17 E que ninguem possa comprar ou vender, senão aquelle que tiver o sinal, ou o nome da Besta, ou o numero de seu nome:
18 Aqui está a sabedoria: aquelle que tem entendimento, conte o numero da Besta: porque numero de homem he; e seu numero he seis centos e sessenta e seis.

CAPITULO 14.

1 E OLHEI, e eis que o Cordeiro estava sobre o monte de Sião, e com elle cento e quarenta e quatro mil, que o nome de seu Pai em suas testas tinhão escrito:
2 E ouví huma voz do ceo como a voz de muitas aguas, e como a voz de hum grande trovão: e ouvi huma voz de harpistas, que com suas harpas tangião.
3 E cantavão como hum cantico novo diante do throno, e diante dos quatro animaes, e dos Anciaos: e ninguem podia aprender aquelie cantico, senão os cento e quarenta e quatro mil, que da terra forão comprados.
4 Estes são os que com mulheres não estão contaminados: porque virgens são. Estes são os que seguem ao Cordeiro para onde quer que vai. Estes são os que d’entre os homens forão comprados por primicias para Deos, e para o Cordeiro.
5 E engano se não achou em sua boca: porque irreprehensiveis são diante do throno de Deos.
6 E vi outro Anjo voar pelo meio do ceo, e tinha o Evangelho eterno, para que o evangelizasse aos que sobre a terra habitão, e a toda nação, e tribu, e lingua, e povo.
7 Dizendo com grande voz: temei a Deos, e lhe dai gloria: porque vinda he a hora de seu juizo. E adorai áquelle, que fez o ceo, e a terra, e o mar, e as fontes das aguas.
8 E seguio outro Anjo, dizendo: Cahida he: Cahida he Babylonia, aquella grande cidade, porquanto a todas as naçoés deo a beber do vinho da ira de sua fornicação.
9 E o terceiro Anjo os seguio, dizendo com grande voz: Se alguem adorar a Besta e a sua imagem, e receber o sinal em sua testa, ou em sua mão,
10 Tambem o tal beberá do vinho da ira de Deos, que se deitou puro na taça de sua ira, e com fogo e enxofre será atormentado diante dos santos Anjos, e diante do Cordeiro.
11 E o fumo de seu tormento sobe para todo sempre jamais: e dia e noite não tem repouso os que adorão a Besta e a sua imagem, e se alguem recebe o sinal de seu nome.
12 Aqui está a paciencia dos santos: aqui estão os que guardão os manda mentos de Deos e a fé de Jesus.
13 E ouvi huma voz do ceo, que me dizia: Escreve; Bemaventurados os mortos, que em o Senhor morrem desde agora: Sim, diz o Espirito: para que descancem de seus trabalhos; e suas obras os seguem.
14 E olhei, e eis huma nuvem branca, e hum semelhante ao Filho do homem assentado sobre a nuvem; que sobre sua cabeça tinha huma coroa de ouro, e em sua mão huma fouce aguda.
15 E outro Anjo sahio do templo, clamando com grande voz ao que sobre a nuvem estava assentado: envia tua fouce, e sega: porque ja a hora de segar vos he vinda, porquanto ja a sega da terra está madura.
16 E aquelle que sobre a nuvem estava assentado, enviou sua fouce á terra, e a terra foi segada.
17 E sahio do templo, que está no ceo, outro Anjo, o qual tambem tinha huma fouce aguda.
18 E sahio do altar outro Anjo, que tinha poder sobre o fogo, e clamou com grande voz ao que tinha a fouce aguda, dizendo: envia tua fouce aguda, e vendima os cachos da vinha da terra: porque ja suas uvas maduras estão.
19 E o Anjo enviou sua fouce á ter ra, e vendimou as uvas da vinha da terra, e as lançou no grande lagar da ira de Deos.
20 E o lagar foi pizado fora da cidade, e sahio sangue do lagar até os freios dos cavallos, por mil e seis centos estadios.

CAPITULO 15.

1 E VI outro grande e admiravei sinal no ceo, a saber sete Anjos, que tinhão as sete ultimas plagas: porque nellas a ira de Deos esta consummada.
2 E vi como hum mar de vidro misturado com fogo: e aos que tivérão victoria da Besta, e de sua imagem, e de seu sinal, e do numero de seu nome, que junto ao mar de vidro estavão, e tinhão as harpas de Deos:
3 E cantavão o cântico de Moyses, o servo de Deos, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são tuas obras, Senhor Deos Todopoderoso: teus caminhos são justos e verdadeiros, ó Rei dos santos.
4 Quem te não temeria, ô Senhor, e não magnificaria teu Nome? Porque tu só es santo: porque todas as gentes virão, e adorarão diante de ti, porque teus juizos manifestos são.
5 E depois disto olhei, e eisque o templo do Tabernáculo do testemunho se abrio em o ceo.
6 E os sete Anjos, que tinhão as sete plasas, sahirão do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro ao redor de seus peitos.
7 E hum dos quatro Animaes deo aos sete Anjos sete salvas de ouro, cheias da ira de Deos, que vive para todo sempre jamais.
8 E o templo se encheo com o fumo da gloria de Deos, e de sua potencia: e ninguem podia entrar no templo, até que as sete plagas dos sete Anjos se não consummassem.

CAPITULO 16.

1 E OUVI huma grande voz do templo, que dizia aps sete Anjos: Ide, e derramai as sete salvas da ira de Deos sobre a terra.
2 E foi o primeiro, e derramou sua salva sobre a terra: e se fez huma chaga ma e maligna em os homens, que tinhão o sinal da besta, e que adoravão sua imagem.
3 E o segundo Anjo derramou sua salva em o mar, e se tornou em sangue como de morto, e toda alma vivente em o mar morreo.
4 E o terceiro Anjo derramou sua salva em os rios, e nas fontes das aguas, e se tornarão em sangue.
5 E ao Anjo das aguas ouvi, que dizia: Justo es tu, ó Senhor, Que he, e Que era, e Que ha de ser, que julgaste estas cousas.
6 Porquanto derramarão o sangue dos Santos e dos Prophetas, tambem tu lhes déste sangue a beber. Porque disto são dignos.
7 E ouvi a outro do altar, que dizia: Na verdade, ó Senhor Deos Todopoderoso, verdadeiros e justos são teus juizos.
8 E o quarto Anjo derramou sua sal va sobre o sol: e foi lhe dado, que aos homens com fogo abrazasse.
9 E os homens forão abrazados com grandes calmas, e blasfemárão do nome de Deos, que tem poder sobre estas plagas: e não se arrependérão, para lhe darem gloria.
10 E o quinto Anjo derramou sua salva sobre o throno da Besta, e seu reino se fez tenebroso, e de dór mordião suas linguas.
11 E por causa de suas dores, e por causa de suas chagas, blasfemarão do Deos do ceo: e de suas obras se não arrependérão.
12 E o sexto Anjo derramou sua salva sobre o grande rio de Euphrates; e sua agua se secou, para que se preparasse o caminho dos Reis do Sol nascente.
13 E da boca do Dragão, e da boca da Besta, e da boca do falso Propheta, vi sahir tres espiritos immundos, semelhantes a rãs.
14 Porque são espiritos de Demonios, e fazem sinaes, os quaes se vão aos Reis da terra, e de todo o mundo, para os congregar á batalha daquelle grande dia do Deos Todopoderoso.
15 Eisque venho como ladrão. Bemaventurado aquelle que véla, e guarda seus vestidos, para que não ande nu, e não se vejão suas vergonhas.
16 E os congregarão no lugar, que em Hebreo se chama Armageddon.
17 E o setimo Anjo derramou sua salva no ar: e sahio huma grande voz do templo do ceo, do throno, dizendo: Feito he.
18 E houve vozes, e trovões, e relampagos: e se fez hum grande terremoto, qual nunca foi feito desde que homens sobre a terra houve: tal e tão grande este terremoto foi.
19 E a grande cidade se fendeo em tres partes, e as cidades das Gentes cahirão: e a grande Babylonia veio em memoria diante de Deos, para lhe dar a taça do vinho da indignação de sua ira.
20 E toda ilha fugio, e os montes se não achárão.
21 E sobre os homens cahio do ceo huma grande saraiva, como de pezo de hum talento: e por causa da plaga da saraiva os homens blasfemárão de Deos: porque sua plaga mui grande era.

CAPITULO 17.

1 E VEIO hum dos sete Anjos, que tinhão as sete salvas, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-hei a condemnação da grande Fornicadora, que está assentada sobre muitas aguas:
2 Com a qual fornicarão os Reis da terra, e os que habitão na terra se embebedárão com o vinho de sua fornicação.
3 E me levou em espirito a hum deserto, e vi huma mulher assentada sobre huma Besta de cór de grã, que estava cheia de nomes de blasphemia, e tinha sete cabeças e dez cornos.
4 E a Mulher estava vestida de purpura e de grã, e adornada com ouro, e pedras preciosas, e perolas, e em sua mão tinha huma taça de ouro cheia das abominaçoes, e da sugidade de sua fornicação:
5 E em sua testa escrito o nome, Mysterio, a grande Babylonia, a mãi das fornicações e abominaçoes da terra.
6 E vi que a Mulher estava bebada do sangue dos Santos, e do sangue das testemunhas de Jesus. E vendo-a eu, me admirei com grande admiração.
7 E o Anjo me disse: Porque te admiras? Eu te direi o mysteno da Mulher, e da Besta que a traz, a qual tem as sete cabeças e os dez cornos.
8 A Besta que viste, foi, e ja não he: e ha de subir do abysmo, e ir-se á perdição: e os que habitão na terra, (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a Besta, que era, e ja não he, ainda que he.
9 Aqui ha sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quaes a Mulher está assentada.
10 E tambem são sete Reis, os cinco são cahidos: e hum ja he, o outro ainda não he vindo; e quando vier, convem que hum pouco de tempo dure.
11 E a Besta que era, e ja não he, esta he tambem o oitavo Rei, e he dos sete, e se vai a perdição.
12 E os dez cornos que viste, são dez Reis, que ainda não recebérão o Reino: porem receberão poder como Reis em huma hora juntamente com a Besta.
13 Estes tem hum mesmo intento, e entregarão sua potencia e authoridade á Besta.
14 Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá: (porque elle he o Senhor dos senhores, e o Rei dos reis) e os que com elle estão, são os chamados, e eleitos, e fieis.
15 E disse-me; As aguas que viste, aonde a Fornicadora se assenta, são povos, e multidoens, e nações, e linguas.
16 E os dez cornos que na Besta viste, são os que aborrecerão a Fornicadora, e a farão assolada, e nua: e comerão sua carne, e a queimarão com fogo.
17 Porque Deos lhes deo em seus corações, que cumprão seu intento, e que tenhão hum mesmo intento,e que seu Reino dêm á Besta, até que as palavras de Deos se cumprão.
18 E a Mulher que viste, he a grande cidade, que tem o Reino sobre os Reis da terra.

CAPITULO 18.

1 E DEPOIS destas cousas vi outro Anjo descer do ceo, que tinha grande poder, e a terra foi alumiada de sua gloria.
2 E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Cahida he, Cabida he a grande Babylonia, e feita he morada de demonios, e couto de todo espirito immundo, e couto de toda ave immunda e aborrecivel.
3 Porquanto todas as gentes bebérão do vinho da ira de sua fornicação, e os Reis da terra fornicarão com ella, e os mercadores da terra se enriquecêrão da abundancia de suas delicias.
4 E ouvi outra voz do ceo, que dizia: Sahi della povo meu, para que não sejais participantes de seus peccados, e para que não recebais de suas plagas.
5 Porque ja seus peccados se accumulárão ate o ceo, e Deos se lembrou de suas iniquidades.
6 Rendei-lhe como ella vos tem rendido, e em dobro lhe duplicai conforme a suas obras: na taça em que de beber iios deo, em dobro lhe dai a ella.
7 Quanto ella se glorificou, e em delicias esteve, tanto lhe dai de tormento e pranto. Porque em seu coração dizl Por Rainha estou assentada, e não sou viuva, e nenhum pranto verei.
8 Portanto em hum dia virão suas plagas, a saber morte, e pranto, e fome, e será queimada com fogo: porque forte he o Senhor Deos, que a julga.
9 E os Heis da terra que fornicárão com ella, e vivêrão em delicias, a chorarão, e sobre ella prantearão, quando virem o fumo de seu incendio:
10 Estando de longe pelo temor de seu tormento, dizendo: Ai, ai. daquella grande cidade de Babylonia, aquella forte cidadel pois em huma hora veio teu juizo.
11 E sobre ella chorarão e lamentarão os mercadores da terra, porquanto ninguem mais compra suas mercancias:
12 Mercancia de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de perolas, e de linho fino, e de purpura, e de seda, e de grã: e de tono pão cheiroso, e de todo vaso de marfim, e de todo vaso de pão preciosissimo, e de latão, e de ferro, e de marmore:
13 E canela, e perfumes, e unguento odorifero, e incenso, e vinho, e azeite, e flor de farinha, e trigo, e cavalgaduras, e ovelhas; e de cavallos, e de carros, e de corpos, e almas de homens.
14 E o fruto do desejo de tua alma se foi de ti: e todas as cousas gostosas e excellentes se forão de ti: e mais as não acharas.
15 Os mercadores destas cousas, que áelle se enriquecerão, estarão de longe pelo temor de seu tormento, chorando e lamentando:
16 E dizendo: Ai, ai daquella grande cidade, que vestida estava de linho fino, e purpura, e grã; e adornada com ouro, e com pedras preciosas, e com perolas: Porque em numa hora tantas riquezas forão assoladas.
17 E todo piloto, e todo navegante em nãos, e todo marinheiro, e todos os que contratão por mar, se pozérão de longe:
18 E vendo o fumo de seu incendio, clamarão, dizendo: Que cidade era semelhante a esta grande cidade?
19 E lançárão pó sobre suas cabeças, e clamarão, chorando, e lamentando: dizendo: Ai, ai daquella grande cidade, em que todos os que tinhão nãos no mar, de sua opulencia se enriquecêrão: porque em huma hora foi assolada.
20 Alegra-te sobre ella, ó ceo, e vós tambem santos Apostolos e Prophetas: porque ia Deos vossa causa julgado tem della.
21 E hum forte Anjo levantou huma Íiedra, como huma grande mó, e a ançou no mar, dizendo: Com tanto impeto será lançada Babylonia, aquella grande cidade, e não será mais achada.
22 E voz de harpistas, e de musicos, e de gaiteiros, e de trombeteiros, em ti mais se não ouvirá: e nenhum artifice de arte alguma em ti mais se achará: e ruido de mó em ti mais se não ouvirá.
23 E luz de candeia mais não alumiará em ti: e voz de esposo e de esposa mais em ti se não ouvirá: porque teus mercadores erão os Grandes da terra, porque por tuas feitiçarias todas as gentes forão enganadas.
24 E nella se achou o sangue dos Prophetas, e dos Santos, e de todos os que na terra forão matados.

CAPITULO 19.

1 E DEPOIS destas cousas, ouvi como huma grande voz de huã grande multidão em o ceo, que dizia: Hallelu-jah: Salvação, e gloria, e honra, e potencia seja ao Senhor nosso Deos,
2 Porque verdadeiros e justos são seus juizos: pois julgou a grande Fornicadóra, que com sua fornicação tem corrompido a terra, e de sua mão vingou o sangue de seus servos.
3 E outra vez dissérão: Hallelu-jah. E seu fumo sobe para sempre jamais.
4 E os vinte e quatro Anciãos, e os quatro Animaes se prostrarão, e adorarão a Deos, assentado no throno, dizendo: Amen, Hallelu-jah.
5 E sahio huma voz do throno, que dizia: Louvai a nosso Deos vósoutros todos seus servos, e vós que o temeis, assim pequenos como grandes.
6 E ouvi como a voz de huma grande multidão, e como a voz de muitas aguas, e como a voz de grandes trovões, que dizião: Hallelu-jah: pois ja o Senhor Deos Todopoderoso reinou.
7 Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e lhe demos gloria: porque vindas são as vodas do Cordeiro, e ja sua mulher se aparelhou.
8 E lhe foi dado, que se vestisse de linho fino puro e resplandecente: porque o linho fino são as justificaçoés dos Santos.
9 E me disse: Escreve: Bemaventurados aquelles que chamados são á cea das vodas do Cordeiro. E me disse: Estas são as verdadeiras palavras de Deos.
10 E eu me lancei a seus pés para o adorar: e elle me disse: Olha que o não faças, teu conservo sou, e de teus irmãos, que tem o testemunho de Jesus: adora a Deos. Porque o testemunho de Jesus he o espirito de prophecia.
11 E vi o ceo aberto; e eis hum cavallo branco: e o que sobre elle assentado estava, se chama Fiel e Verdadeiro, e julga e guerréa em justiça.
12 E seus olhos erão como flamma de fogo: e sobre sua cabeça havia muitas Diadémas: e tinha hum nome escrito, que ninguem sabia senão elle mesmo.
13 E vestido estava de hum vestido tingido em sangue, e seu nome se chama a Palavra de Deos.
14 E os exercitos no ceo o seguião em cavallos brancos, vestidos de linho fino branco e puro.
15 E de sua boca sahio huma espada aguda, para ferir com ella as Gentes: e as apascentará com vara de ferro: e elle piza o lagar do vinho do furor da ira do Todopoderoso Deos.
16 E em seu vestido, e em sua coxa tem escrito este nome; Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores.
17 E vi hum Anjo que estava no Sol: e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves, que pelo meio do ceo voavão: Vinde, e vos ajuntai á cea do grande Deos:
18 Para que comais a carne dos Reis, e a carne dos Tribunos, e a carne dos fortes, e a carne dos cavallos e dos que sobre elles se asentão; e a carne de todos livres e servos, e pequenos e grandes.
19 E vi a Besta, e aos Reis da terra, e a seus exercitos juntos, para fazerem guerra contra o que assentado estava sobre o cavallo, e contra seu exercito.
20 E a Besta foi presa, e com ella o falso Propheta, que diante della fizéra os sinaes, com que enganara aos que recebêrão o sinal da Besta, e adorárão sua imagem. Estes dons forão lançados vivos em o lago do fogo ardente de enxofre.
21 E os de mais forão mortos com a espada, que sahia da boca do que assentado estava sobre o cavallo, e de suas carnes se fartarão todas as aves.

CAPITULO 20.

1 E VI a hum Anjo descer do ceo, que tinha a chave do Abysmo, e huma grande cadeia em sua mão:
2 E prendeo ao Dragão, a Serpente antiga, que he o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil annos.
3 E o lançou em o abysmo, e ali o encerrou, e o sellou sobre elle: para que mais não engane as Gentes, alé que os mil annos se acabassem. E depois importa que solto seja por hum pouco de tempo.
4 E vi thronos, e se assentarão sobre elles, e lhes foi dado o juizo: e vi as almas daquelles que pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deos forão degolados; e que nem á Besta, nem a sua imagem adorarão, e que não recebêrão seu sinal em suas testas, o em suas mãos: e com Christo mil annos vivêrão e reinarão.
5 Mas os de mais dos mortos não revivêrão, até que os mil annos se não acabarão. Esta he a resurreição primeira.
6 Bemaventurado e santo aquelle, que tem parte na primeira resurreição: sobre estes não tem poder a segunda morte: porem serão Sacerdotes de Deos e de Christo, e com elle mil aiuios reinarão.
7 E acabando-se oa mil annos, Satanás será solto de sua prisão.
8 E sahirá a enganar as gentes, que estão sobre os quatro cantos da terra, a Gog, e a Magog, para os ajuntar em batalha: dos quaes o numero he como a areia do mar.
9 E subirão sobre a largura da terra, e cercarão o arraial dos santos e a cidade amada: e desceo fogo de Deos do ceo, e os devorou.
10 E o Diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, aonde estão a Besta e o falso Propheta: e dia e noite serão atormentados para sempre jamais.
11 E vi hum grande throno branco, e ao que sobre elle estava assentado, de cujo rosto fugio a terra e o ceo, e para elles lugar se não achou.
12 E vi aos mortos, grandes, e pequenos, que estavão diante de Deos: e os livros se abrirão: e outro livro seabrio, que he o da vida: e os mortos forão julgados pelas cousas que nos livros estavão escritas, segundo suas obras.
13 E o mar deo os mortos que nelle havia; e a morte e o inferno derão os mortos que nelles havia: e forão julgados cada hum segundo suas obras.
14 E a morte e o inferno forão lançados no lago de fogo: esta he a morte segunda.
15 E aquelle que não foi achado escrito no livro da vida, foi lançado em o lago de fogo.

CAPITULO 21.

1 E VI hum novo ceo, e huma nova terra. Porque ja o primeiro ceo e a primeira terra passára, e ja não havia mar.
2 E eu João vi a santa cidade, a nova Jerusalem, que de Deos descia do ceo, adereçada como a esposa para seu marido ataviada.
3 E ouvi huma grande voz do ceo, que dizia: Eis aqui o Tabernaculo de Deos está com os homens, e com elles habitará, e elles serão seu povo, e Deos mesmo estará com elles, e seu Deos será.
4 E Deos alimpará toda lagrima de seus olhos; e não haverá mais morte; nem pranto nem clamor, nem trabalho mais haverá: porque ja as primeiras cousas passarão.
5 E o que estava assentado sobre o throno, disse: Eis que todas as cousas faço novas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fieis.
6 E disse-me: Feito he: Eu sou o Alpha e o Omega, o principio e o fim. A quem tiver sede, de graça lhe darei da fonte da agua da vida.
7 Quem vencer, herdará todas as cousas: e eu serei seu Deos, e elle será meu filho.
8 Mas quanto aos timidos, e aos incredulos, e aos abominaveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idolatras, e a todos os mentirosos, sua parte será no lago, que arde com fogo e enxofre: que he a morte segunda.
9 E veio a mim hum dos sete Anjos, que tinhão as sete salvas cheias das sete ultimas plagas, e falou comigo, dizendo: Vem, e te mostrarei a esposa, a mulher do Cordeiro.
10 E me levou em espirito a hum grande e alto monte: e me mostrou a grande cidade, a santa Jerusalem, que de Deos descia do ceo:
11 E tinha a gloria de Deos: e sua luz era semelhante a huma pedra preciosissima, como a pedra de Jaspe, como cristal resplandecente.
12 E tinha hum grande e alto muro com doze portas, e nas portas doze Anjos, e nomes nellas escritos, que são os nomes das doze tribus dos filhos de Israël.
13 Da banda do Levanta tinha tres portas, da banda do Norte tres portas, da banda do Meio dia tres portas, e da banda do Poente tres portas.
14 E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e nelles os nomes dos doze Apostolos do Cordeiro.
15 E aquelle que falava comigo, tinha huma cana de ouro, para medir a cidade, e suas portas, e seu muro.
16 E a cidade estava situada em quadro, e sua longura era tanta quanta sua largura. E medio a cidade coma cana até doze mil estadios: e sua longura, largura, e altura, erão iguaes.
17 E medio seu muro de cento e quarenta e quatro covados, segundo medida de homem, que era a do Anjo.
18 E a fabrica de seu muro era de Jaspe; e a cidade de ouro puro, semelhante a vidro puro.
19 E os fundamentos do muro da cidade estavão adornados com toda pedra preciosa. O primeiro fundamento era Jaspe: o segundo, Saphira: o terceiro, Chalcedonia: o quarto, Esmeralda:
20 O quinto, Sardonix: o sexto; Sardio: o setimo, Chrysolito: o oitavo, Beryl; o nono, Topazio; o decimo, Chrisopraso: o undecimo, Hyacinto: o duodecimo, Amethysto.
21 E as doze portas erão doze perolas: cada huma das portas era de huma perola: e a praça da cidade de ouro puro, como vidro transparente.
22 E nella não vi templo, porque della o templo he o Senhor Deos Todopoderoso, e o Cordeiro.
23 E a cidade não necessita de sol, nem de luã para que nella resplandeção: porque a gloria de Deos a tem alumiado, e o Cordeiro he sua candeia.
24 E as gentes que se salvarem, andarão em sua luz: e a ella os Reis da terra trarão sua gloria e honra.
25 E suas portas de dia se não fecharão: porque ali não haverá noite.
26 E a ella trarão a gloria e honra das Gentes.
27 E nella não entrará cousa alguma que contamine, e faça abominação, e diga mentiras: senão os que no livro da vida do Cordeiro estão escritos.

CAPITULO 22.

1 E ME mostrou o rio puro da agua da vida, claro como cristal, que procedia do throno de Deos, e do Cordeiro.
2 No meio de sua praça, e de huma e outra banda do rio, estava a arvore da vida, que produz doze frutos, seu fruto dando de mez em mez: e as folhas da arvore são para a saude das Gentes.
3 E ali nenhuma maldição mais haverá contra alguem: e nella estará o throno de Deos e do Cordeiro, e seus servos o servirão:
4 E verão seu rosto, e seu Nome estará em suas testas.
5 E ali mais não haverá noite, e não necessitarão de candeia, nem de luz de Sol: porque o Senhor Deos os alumia; e para todo sempre reinarão.
6 E me disse: Estas palavras são fieis e verdadeiras: e o Senhor o Deos dos santos Prophetas enviou a seu Anjo, para mostrar a seus servos as cousas que presto hão de acontecer.
7 Eis aqui que venho presto: bemaventurado aquelle que guarda as palavras de Prophecia deste livro.
8 E eu João sou aquelle, que vi e ouvi estas cousas. E havendo-as ouvido e visto, prostrei-me para adorar ante os pés do Anjo, que me mostrava estas cousas.
9 E me disse: Olha que o não faças: porque eu sou teu conservo, e de teus irmãos os Prophetas, e dos que guardão as palavras deste livro. Adora a Deos.
10 E me disse: não selles as palavras deste livro, porque perto está o tempo.
11 Quem he injusto ainda seja injusto: e quem he sujo, sujo seja ainda, e quem he justo, ainda seja justificado: e quem he santo, ainda seja santificado.
12 E eis que venho presto, e meu galardão está comigo, para render a cada hum, como for sua obra.
13 Eu sou o Alpha e o Omega, o principio e o fim, o primeiro e o derradeiro.
14 Bemaventurados aquelles que guardão seus mandamentos, para que tenhão poder na arvore da vida, e na cidade possão entrar pelas portas.
15 Porém de fora estarão os caens, e os feiticeiros, e os fornicadores, e os homicidas, e os idolatras, e qualquer que ama e commette mentira.
16 Eu Jesus enviei a meu Anjo, para vos testificar estas cousas nas Igrejas: Eu sou a raiz e geração de David, a resplandecente estrella da alva.
17 E o Espirito e a Espoza dizem: Vem. E quem o ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha: e quem quizer, de graça tome da agua da vida.
18 Porque eu protesto a cada qual que ouvir as palavras da Prophecia deste livro, que se alguem acrecentar a estas cousas, Deos lhe acrecentará as plagas que neste livro estão escritas:
19 E se alguem das palavras do livro desta Prophecia diminuir, Deos lhe tirará sua parte do livro da vida, e da santa cidade, e das cousas que neste livro estão escritas.
20 Aquelle que testifica estas cousas, diz: certamente, presto venho. Amen. Ora vem Senhor Jesus.
21 A graça de nosso Senhor Jesu-Christo seja com todos vósoutros. Amen.
FIM.